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LIÇÃO Nº 1 – O HOMEM: CORPO, ALMA E ESPÍRITO

ESBOÇO Nº 1

A) INTRODUÇÃO AO TRIMESTRE

Pela graça de Deus, estamos a terminar mais um ano letivo da Escola Bíblica Dominical e o fazemos diante de mais um trimestre temático, em que iremos estudar a chamada Antropologia Teológica, ou seja, a doutrina bíblica do homem, o que a Bíblia Sagrada nos revela a respeito do ser humano, a coroa da criação terrena (Sl.8:4,5).

O ensino bíblico a respeito do homem é de capital importância para que bem compreendamos quem é o ser humano e, deste modo, saibamos perfeitamente qual é o seu lugar na ordem cósmica estatuída por Deus.

Desde o Éden, o diabo tem buscado distorcer esta verdade bíblica, iludindo o homem a respeito de seu lugar no universo, querendo convencer o homem de que é ele o centro de todas as coisas, que pode viver independentemente do seu Criador (Gn.3:5).

Foi esta a mentira que contou ao primeiro casal, casal que, por nela acreditar, acabou pecando e perdendo a comunhão com Deus.

Mas como o Senhor ama o homem, fez-Se homem para nos mostrar quem verdadeiramente é o homem e qual o propósito divino para ele. Não foi à toa que Pilatos, ao apresentar Jesus instantes antes de Sua condenação à morte, proclamou: “Eis aqui o homem” (Jo.19:5).

Vivemos dias em que a mentalidade de ser o homem o centro de todas as coisas, o chamado “antropocentrismo”, encontra larga aceitação, inclusive entre os que cristãos se dizem ser.

O estudo de quem é verdadeiramente o homem, como foi criado, com que propósito e como, em virtude do pecado, decaiu, mas pode ser restaurado por Cristo Jesus, apresenta-se, pois, como absolutamente oportuno para que possamos prosseguir nossa jornada rumo às mansões celestiais.

O título do trimestre já nos aponta para a chamada “tricotomia” do ser humano, ou seja, que o homem foi criado como corpo, alma e espírito.

O homem é o único ser do universo que possui tanto uma dimensão material (o corpo), quanto uma dimensão espiritual (alma e espírito).

Esta “tricotomia” demonstra claramente que o homem foi criado para ser o elo entre o Universo e o seu Criador, tendo, por isso, uma dimensão material, que o permita estar em contato com as criaturas terrenas, como também uma dimensão espiritual, que não só lhe proporcione uma individualidade (a alma), como o contato com Deus (o espírito).

O subtítulo do trimestre mostra-nos que o estudo da doutrina do homem tem um objetivo, qual seja, o de nos fazer reais seres humanos, que nada mais é que nos conformarmos à imagem do Filho de Deus (Rm.8:29), que Se fez homem (Jo.1:14) e foi o único homem perfeito, consoante o propósito divino, o último Adão (I Co.15:45).

Nossa peregrinação terrena tem por finalidade fazer-nos crescer de tal modo que atinjamos a estatura completa de Cristo, a qualidade de varão perfeito (Ef.4:13), o que, sabemos todos, somente será alcançado no dia da glorificação, quando, então, seremos semelhantes a Ele e O veremos como Ele é (I Jo.3:2).

A capa da revista mostra-nos a figura de um homem que, de costas para quem vê a revista, parece estar com sua atenção e vista voltados para um céu estrelado.

Isto nos faz alusão ao que acabamos de mencionar, ou seja, de que o homem deve, enquanto estiver nesta Terra, voltar-se para as chamadas “coisas de cima” (Cf. Cl.3:1,2), no intuito de alcançar a estatura completa de Cristo, cumprindo, deste modo, o propósito divino de ser o elo entre este mundo e Deus.

Após uma lição introdutória, onde será apresentada a estrutura tricotômica do homem, o trimestre pode ser dividido em três blocos.

O primeiro apresentará um estudo do corpo humano à luz da Palavra de Deus
(lições 2 a 4).

O segundo bloco levar-nos-á ao estudo da alma humana (lições 5 a 9).

Por fim, o terceiro bloco estudará o espírito humano (lições 10 a 12), sobrevindo, então, uma lição conclusiva, em que veremos como a estrutura tricotômica deve ser preparada para a eternidade.

O comentarista do trimestre é o pastor Silas Queiroz, que serve ao Senhor nas Assembleias de Deus em Ji-Paraná/RO.

B) LIÇÃO Nº 1 – O HOMEM: CORPO, ALMA E ESPÍRITO

INTRODUÇÃO

– No início do estudo da doutrina bíblica do homem, analisaremos a tricotomia do ser humano.

– O homem é tricotômico, ou seja, composto de corpo, alma e espírito.

I – DESCRIÇÃO BÍBLICA DA CRIAÇÃO DO HOMEM

– Dando início ao estudo da doutrina bíblica do homem, veremos a sua estrutura tricotômica.

– De pronto, devemos considerar que, entre os estudiosos da Bíblia, existem duas correntes de pensamento a respeito do modo de ser do homem.

– Alguns entendem que o homem é composto de duas partes, u’a material, a que chamam de corpo e outra, imaterial, a que chamam de “alma”. Esta forma de pensar é a doutrina adotada oficialmente pela Igreja

Romana e que encontra ressonância entre alguns segmentos ditos evangélicos ou protestantes. A esta linha de pensamento denomina-se “dicotomia”.

OBS: “…O mistério da vida é desconcertante, e mais do que nunca quando uma análise da parte imaterial do homem é empreendida. (…). Quando se refere ao “homem interior”, a Bíblia emprega vários termos – alma, espírito, coração, carne, mente – e a questão que surge é se esses elementos são separados e devem existir um separado do outro, ou se eles são funções ou modos de expressão e um ego (…).

A questão que se levanta a essa altura, que tem ocupado e dividido os teólogos de todas as gerações, é a seguinte: é o homem um ser dicotômico – duas partes, material e imaterial, com a suposição de que a alma e espírito são a mesma coisa – ou se ele é um ser tricotômico – corpo, alma e espírito?…” (CHAFER, Larry Sperry. Teologia sistemática, t.1, v.2, p.585-6).

– Segundo a dicotomia, o homem seria formado apenas de corpo e alma, sendo que alma e espírito seriam a mesma coisa. Esta postura, entretanto, embora tenha encontrado muitos adeptos, não é a que melhor se apresenta na Bíblia Sagrada.

Embora haja trechos das Escrituras em que há uma consideração da alma e do espírito como sendo uma só parte do homem, tais passagens devem ser compreendidas tão somente como trechos que dizem respeito à parte imaterial do homem, parte esta que, muito adequadamente, é denominada por Paulo de “homem interior” (Ef.3:16).

Alma e espírito têm algumas semelhanças, mas isto não quer dizer que sejam a mesma coisa, mas, ao revés, é um indicativo de que são partes distintas do homem.

– Pelo que se percebe da história da Igreja, o pensamento dicotômico ingressou na teologia como resultado da grande influência que a filosofia grega exerceu nos primeiros estudiosos que desenvolveram a doutrina dicotômica.

– A maior parte dos primeiros teólogos que defenderam esta linha de pensamento eram oriundos da filosofia neoplatônica, ou seja, de uma corrente filosófica que se desenvolveu a partir do século III d.C., exatamente no período em que o Cristianismo alcançava um grande crescimento, inclusive entre as elites sociais e intelectuais do Império Romano.

– Os filósofos neoplatônicos baseavam seus pensamentos na filosofia de Platão, filósofo grego que viveu no século III a.C., que entendia que o homem era composto de corpo e de alma.

– Há, inclusive, quem ache que Platão tenha sido, de alguma forma, influenciado em seu pensamento por crenças hinduístas, em especial as referentes à reencarnação e à pré-existência da alma.

– Para Platão, o homem seria constituído de duas partes: o corpo e a alma. O corpo seria a parte física do homem e, como tal, desprezada por Platão, que via na matéria um mal em si, a fonte de toda a imperfeição humana; já a alma, imortal, seria a parte imaterial do homem, ou seja, a parte sem matéria, que seria a reprodução de um mundo verdadeiro, o chamado “mundo das ideias”.

– Os filósofos neoplatônicos, dos quais o mais conhecido foi Plotino (205-270), desenvolveram este pensamento de Platão e passaram a considerar que a alma seria a imagem, o reflexo de uma ideia primeira, o chamado Uno ou Um, que não teve dificuldade de ser identificado, pelos filósofos que se converteram ao Cristianismo, a Deus.

OBS: “…O Um de Platão, ou seja, o princípio da unidade, nas formas ou ideias mais elevadas (…) acabou equivalente a um Deus transcendental. Esse Deus transcendental relacionar-se-ia com o mundo mediante uma série de intermediários, os quais se derivariam do Um através do princípio da emanação. Isso posto, a realidade seria uma espécie de série gradativa de seres que, partindo o Um imaterial terminaria na matéria. O homem participaria, até certo grau, do divino, embora esteja preso à matéria (…).

A matéria, considerada por si mesma, é irreal. Ela é apenas uma espécie de epifenômeno do real. A matéria é o limite e a barreira contra a qual a Alma que emana se estilhaça em grande multiplicidade e diferenciações. A alma seria anfíbia, podendo viver para baixo, nos mundos inferiores da matéria, antes de, finalmente, tornar-se material; ou, então, viver para cima, retornando à sua Fonte originária (…).

O processo da salvação ou restauração começaria pela rejeição do que é mundano e material (…). Muitas reencarnações supririam o teatro de ações onde os homens se debatem.

Pode-se dizer, pois, que Plotino foi o pai do misticismo ocidental, calcado em muito sobre ideias orientais. Mas, visto que Plotino tanto se estribava em Platão, talvez seja correto dizer que Platão é que foi o verdadeiro pai do misticismo ocidental…” (CHAMPLIN, Russell Norman. Neoplatonismo. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.4, p.484-5).

– Percebemos, portanto, que a concepção de que o homem seja formado de corpo e de alma é resultado da incorporação de pensamentos que são alheios às Escrituras, advindos da filosofia grega e, já pela origem, são pensamentos que não podem ser considerados como sendo genuinamente bíblicos.

– Agostinho, Guilherme de Ockham e Tomás de Aquino foram pensadores cristãos grandemente influenciados por esta filosofia e seus escritos e ensinamentos acabaram por adotar a dicotomia, entendendo que o homem fosse apenas corpo e alma.

– Entretanto, quando verificamos as Escrituras, vemos que a Bíblia distingue no homem três partes, a saber: espírito, alma e corpo.

– Segundo a corrente de pensamento dita tricotômica, a alma e o espírito são partes distintas, diferentes do homem, não se confundindo, portanto.

– Textos bíblicos indicam que alma não é o mesmo que espírito. Em I Ts.5:23, é dito que o homem todo é composto de “todo o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.

– Em Hb.4:12, lemos que ” a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito…”.

– Quando vemos o homem modelar das Escrituras, ou seja, Jesus, observamos que a Bíblia diz que Ele possuía corpo (Jo.19:38), alma (Mt.26:38) e espírito (Lc.23:46).

– Além das Escrituras revelarem que há uma distinção entre alma e espírito, ou seja, que não são a mesma coisa, ainda que possam ter algumas semelhanças e sejam inseparáveis, como veremos adiante (o que explica a existência de textos em que as palavras “alma” e “espírito” correspondem a “homem interior”), temos que tal interpretação é a que melhor se coaduna com o relato bíblico da criação, pois é dito que Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança (Gn.1:26,27).

– Ora, se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, deve ter a mesma estrutura da divindade e sabemos que Deus é uma triunidade (Pai, Filho e Espírito Santo, cfr. Mt.28:19), de forma que o homem, também, deve ser uma triunidade.

– A posição tricotômica, ademais, é a única que explica e conforma a estrutura humana para a sua posição estabelecida por Deus para o homem na terra.

– Sendo uma triunidade, explica-se tranquilamente a posição de mordomo que o ser humano tem na criação da terra.

Enquanto administrador, o homem tem de se relacionar com o seu Senhor (e, para tanto, é dotado de espírito), consigo mesmo (e, para tanto, é dotado de alma) e com as demais coisas criadas na terra, colocadas sob sua autoridade (e, para tanto, é dotado de corpo).

– A linha de pensamento dicotômica, além de partir de uma concepção pessimista em relação à matéria, como se ela fosse algo de mau (pensamento desmentido pelas Escrituras, como vemos em Gn.1:31), não explica este relacionamento do homem com Deus e esta posição diferenciada do homem em relação às demais criaturas terrenas.

OBS: “… Muitos evangélicos modernos têm defendido a posição da tricotomia. A asseveração de C.I. Scofield é tão boa quanto outra.

Diz ele:’ O homem é uma trindade. Que a alma e o espírito humanos não são idênticos se comprova pelos fatos de que são divisíveis (ver Hb.4:12) e que alma e espírito são claramente distinguidos quando do sepultamento e da ressurreição do corpo.

É sepultado o corpo natural (no grego, ‘soma psuchikon’, ‘corpo animado’) e é ressuscitado corpo espiritual (no grego, ‘soma pneumatikon’, ‘corpo espiritual’), conforme se lê em I Co.15:44.

Portanto, asseverar-se que não há diferença entre alma e espírito é dizer que não há diferença entre o corpo mortal e o corpo ressurreto.…” (CHAMPLIN, Russell Norman. Dicotomia, tricotomia. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.2, p.148)

– É essa a posição adotada pela Declaração de Fé das Assembleias de Deus, “in verbis”: “… Entendemos que o ser humano é um ser tricotômico, constituído de três partes, uma física, corpo, e duas imateriais, alma e espírito. Exemplo dessa constituição nós temos no próprio Jesus [Lc.24:39; Jo.12:27; Lc.23:46].

As Escrituras também apresentam essas três características distintas e essenciais do ser humano: ‘todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis’ […] (I Ts.5:23); e mais penetrante

que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas’
(Hb.4:12).…” (DFAD 2. ed., V.5, pp.85-6).

– Quando observamos o relato bíblico da criação, de imediato se percebe que o homem foi criado de forma distinta dos demais seres criados na Terra.

– Enquanto os demais seres foram criados tão somente pela palavra do Senhor, o homem foi objeto de cuidado especial, tendo Deus deixado bem claro que o ser humano seria um ser diferente, pois seria feito à imagem e semelhança de Deus e que, além disso, seria constituído como superior em relação aos demais.

– Por isso, muito feliz o item 2 do Cremos da Declaração de Fé das Assembleias de Deus, na sua primeira edição, quando afirmou:

“[CREMOS] Em um só Deus (…) Criador do Universo, de todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, e, de maneira especial, os seres humanos, por um ato sobrenatural e imediato, e não por um processo evolutivo (Dt.6:4; Mt.28:19; Mc.12:29; Gn.1:1; 2:7; Hb.11:3 e Ap.4:11)”.

– A expressão divina de Gn.1:27 encerra, portanto, todos estes elementos, seja o de uma estrutura diversa e distinta dos demais seres, seja a condição de superior aos demais.

– É por este motivo que não se pode considerar que a estrutura do homem seja idêntica a dos demais seres criados na Terra, como querem pretender as teorias evolucionistas que dominaram as ciências biológicas a partir do século XIX, com as obras de Lamarck e de Darwin, pois há uma distinção fundamental entre os homens e os demais seres.

– Todos os seres criados na Terra, com exceção do homem, são guiados pelo instinto e, se são dotados de alguma inteligência, esta se dá e se revela apenas por força do adestramento, da repetição, sem qualquer consciência, como ocorre com os primatas ou com outros seres, ao passo que o homem é totalmente diferente, tendo a capacidade de inferir, de criação, de novos conhecimentos além dos que foram aprendidos e absorvidos pela repetição e observação.

– Daí porque ser erro manifesto querer-se confundir a alma dos animais com a alma humana, como quando se aplica um texto bíblico como o de Gn.9:4 ao ser humano.

– No relato da criação do homem, portanto, a Bíblia já nos informa que o homem seria um ser diferenciado e, realmente, dos seres criados na Terra, o homem é o único que é tricotômico, que é triúno, que é dotado de espírito, alma e corpo.

– Esta estrutura é a única que explica porque o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, bem assim como teria capacidade de dominar sobre os demais seres.

– Esta estrutura, ademais, era própria tanto do homem, quanto da mulher. Deus, ao anunciar a criação do homem, fê-lo também distinto dos seres celestiais, pois, se os anjos eram, também, dotados de moralidade e de consciência, não eram capazes de se reproduzir (cfr. Mc.12:25).

– O homem, entretanto, foi criado para que se multiplicasse, para que se reproduzisse e, por isso, Deus o criou sexuado (Gn.1:27,28).

– Assim, tanto o homem quanto a mulher têm a mesma estrutura tricotômica, não sendo senão um triste resquício cultural decorrente da cegueira espiritual causada pelo pecado o entendimento de certos estudiosos das Escrituras, ainda na época da lei judaica, que colocavam em dúvida o fato de a mulher ser, ou não, dotada de alma e de espírito.

– É interessante observar, a propósito, que tanto na criação do macho, quanto da fêmea, Deus foi cuidadoso e operou distintamente com relação aos demais seres criados na Terra.

– Para criar o homem, Deus procedeu diferentemente do restante da criação, soprando nas narinas do homem formado mas ainda sem vida, enquanto que, no tocante à mulher, Deus fez cair profundo sono sobre Adão e, então, fez a primeira clonagem de que se tem conhecido na história da humanidade.

– Nada fez pelo simples poder de Sua Palavra, para demonstrar Seu cuidado e o papel preponderante que estava reservando ao ser humano na Sua criação sobre a Terra.

– A narrativa bíblica da criação do homem é desenvolvida em dois instantes nas Escrituras: de forma sucinta, no capítulo 1 do livro do Gênesis, em meio a narração da criação de todas as coisas e, depois, de forma pormenorizada no capítulo 2.

– Esta repetição tem sido alvo de muitas conjecturas e pensamentos entre os estudiosos da Bíblia, mas quer nos parecer que razão têm aqueles que indicam aí mais um fator demonstrativo do valor do homem para Deus, de sua superioridade perante todas as demais criaturas terrenas, bem como um próprio indicador de que queria Deus que ficasse bem patente à humanidade, a quem se dirigem as Escrituras, que nós temos um lugar especial reservado na ordem estabelecida pelo Senhor.

– O relato da criação, portanto, revela que, tanto o homem como a mulher, foram criados com propósitos certos e determinados, que deveriam ser perseguidos por estas criaturas distintas e superiores criadas sobre a face da Terra. Deus fez o homem e a mulher para dominar sobre as criaturas terrenas e para serem, por assim dizer, o elo de ligação entre o Criador e a criação.

– Homem e mulher deveriam cuidar da criação, administrá-la e, de forma livre e espontânea, amar a Deus, obedecer-Lhe e desfrutar de uma íntima comunhão com seu Criador.

Era este o propósito divino estabelecido quando da criação do ser humano. O homem, portanto, não seria jamais dono de si, mas existiria para fazer a vontade d’Aquele que o criou.

II – AS SUBSTÂNCIAS MATERIAL E IMATERIAL DO HOMEM

– Na segunda narrativa a respeito da criação do homem, no capítulo 2 do livro do Gênesis, a Bíblia mostra como se deu esta criação.

– Já na primeira narrativa, ficou evidenciado que o homem era diferente dos demais seres criados na Terra, porque havia sido feito à imagem e semelhança de Deus e com autoridade e domínio sobre os demais seres. As Escrituras, assim, revelam, claramente, já ao introduzir o homem na ordem cósmica, que era ele um ser distinto.

– No capítulo 2, entretanto, a narrativa bíblica é mais explícita, é mais pormenorizada, trazendo informações a respeito desta diferença, desta distinção que já havia sido indicada no capítulo 1.

– Inicia-se a narrativa mediante uma expressão nova, que até então não havia surgido na narrativa da criação.

– Afirma-se que Deus formou o homem do pó da terra. Esta expressão é a tradução do original hebraico “yasar” (ר ַוִּייֶצ), que quer dizer dar a forma de um vaso por parte de um oleiro, verbo que é reproduzido em textos como Is.29:16 e Jr.18:4.

– O relato bíblico, portanto, faz questão de nos revelar que Deus não tirou o homem, nesta parte, do nada, como fez com os demais seres, mas, bem ao contrário, utilizou-se de algo já existente, ou seja, o pó da terra, o barro, a argila, para dele fazer parte do homem.

– Feito para dominar sobre os demais seres, o homem foi feito, em parte, de algo já existente na criação, para que não se esquecesse de sua condição de criatura, para que não se vangloriasse e se achasse superior aos demais seres.

– Do pó da terra foi feita uma parte do homem, parte esta que passou a ser conhecida como a sua parte física, ou seja, a parte que vem da natureza (“physis” em grego quer dizer natureza- φύσις), como a sua parte material, isto é, a parte que vem da matéria, e o pó da terra, tem demonstrado a química, é uma substância que possui praticamente todos os elementos encontrados na natureza.

OBS: “…O pó em forma de limo da terra, ou argila, conforme dizem algumas versões bíblicas, é formado por diversas substâncias orgânicas que fazem parte da constituição do corpo humano.

Este pó não se refere simplesmente a algum boneco feito de barro, como os humanos fazem, para significar ou representar alguma coisa.

Devemos entender, acima de tudo, que se trata da integração de substâncias ainda hoje encontradas na formação do corpo físico humano. Estão presentes em tal variedade que, através de novas pesquisas, a ciência ainda consegue descobrir novas substâncias nos corpos físicos, substâncias estas, muitas vezes, capazes de determinar a hereditariedade de certos indivíduos ou coisas semelhantes.

O Criador não precisou sujar as mãos de barro, como faz qualquer oleiro de nossos dias, juntando água e amassando o barro, para fazer um boneco. O Senhor formou pelo poder e força de Sua Palavra, ou quiçá só por Seu pensamento.

Toda a composição que Ele desejou, as substâncias incluídas como parte do corpo humano para formá-lo com características diferentes dos outros animais, toda ela foi feita pelo Seu poder.…” (SILVA, Osmar José da. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade, v.2, p.42-3).

– Aquele que domina é feito, em parte, daquilo de que é constituído o dominado. Esta figura é uma expressão que deve causar nossa reflexão, pois jamais devemos nos esquecer que aquele que é colocado acima de outros jamais deve se esquecer que é constituído do mesmo material dos outros, jamais deve se esquecer de que é um igual em relação aos demais, ainda que esteja numa posição de destaque.

– O ministério de Jesus é profícuo e exitoso, “porque assim o que santifica, como os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se envergonha de lhes chamar irmãos.” (Hb.2:11).

– Muito dos erros e desastres que vemos em lideranças e autoridades decorre, precisamente, da falta de consciência de que, em essência, somos iguais e que jamais devemos nos esquecer desta realidade.

– Esta parte material do homem é o corpo, que foi tomado do pó da terra e que, com o pecado, foi determinado que a este pó da terra tornasse (Gn.3:19).

– O corpo é separado do restante do homem, por ocasião da morte, que é, por isso, chamada de morte física, ou seja, a separação da parte natural da parte sobrenatural do homem.

– O corpo que agora temos é um corpo natural, submetido às regras da natureza, frágil e débil, visto que veio do pó da terra, mas não é algo danoso ou que cause, por si só, o mal, pois, sendo fruto da natureza, é algo bom, como nos anuncia a Palavra de Deus (Gn.1:31). Tanto assim é que a palavra “homem”(adam), em hebraico, é derivada da palavra “terra” (adamah – ָָֽהָאָָ֗דם).

OBS: É oportuno aqui observar que a relação entre o corpo do homem e o pó da terra é uma ideia recorrente em diversos povos e culturas, a indicar que esta ideia original, evidentemente transmitida pelo primeiro casal a seus descendentes, não foi apagada totalmente da memória dos povos.

Assim, se formos observar a mitologia grega a respeito da criação de todas as coisas, veremos que o poeta Hesíodo nos traz uma narrativa muito semelhante à bíblica, fazendo questão, ainda, de dizer que ao pó da terra teria sido adicionada água a fim de se formar a argila.

– Mas o trecho bíblico prossegue, dizendo que, feita a parte material do homem, “…Deus soprou em seus narizes o fôlego de vida; e o homem foi feito alma vivente”(Gn.2:7), ou seja, criou a parte imaterial do homem, constituída da alma e do espírito.

– Este é o aspecto totalmente diverso entre o homem e os demais seres vivos criados na Terra. O homem é dotado de uma parte imaterial, que o faz sobrenatural, ou seja, que o coloca acima da natureza e que lhe permite dominar sobre ela.

– Esta parte imaterial, resultado do sopro de Deus, é o que Paulo denomina de “homem interior”, porque é a parte do homem que não aparece aos nossos olhos, parte do homem que as Escrituras identificam figurativamente como “mente” (v.g., Rm.7:25), “coração”(v.g., Pv.4:23) e “rins” (v.g., Ap.2:23).

– O fôlego de vida soprado por Deus não é o ar que conhecemos, mas a própria vida dada ao homem, a própria imagem e semelhança de Deus. O homem é imagem e semelhança de Deus exatamente porque Deus lhe imprimiu algo de Sua essência, algo que veio diretamente d’Ele, ao contrário do restante da criação, que foi feito a partir da vontade divina expressa por Sua Palavra.

– Apesar de reconhecermos que há vários estudiosos que consideram que a expressão “alma vivente” de Gn.2:7 quer significar tão somente que o homem passou a existir enquanto ser vivo após este soprar de Deus, não podemos deixar de considerar que a expressão deva ser entendida como sendo a indicação de que o homem passou a ter uma parte imaterial, passou a ser dotado de uma substância imaterial (o “homem interior”).

– Entende-se que, ao tempo de Moisés, os judeus não tinham, ainda, uma noção de uma parte imaterial do homem e que o Pentateuco não mostra qualquer ideia a respeito da tricotomia (ou mesmo dicotomia) do homem.

– Entretanto, devemos observar que o texto bíblico é objeto de revelação divina e que é indiferente se o autor do escrito tinha a exata noção da amplitude e da profundidade do texto que escreveu.

– O fato é que a Palavra é de Deus e, como tal, esta expressão quer, mesmo, indicar ao homem que há, nele, uma parte imaterial, uma parte sobrenatural, que não se confunde com o seu corpo, dado que, ao longo da história de Israel, passou a ser compreendida na gradual revelação divina.

– Ao se dizer que o homem foi feito “alma vivente”, está sendo dito que o homem é uma alma que tem vida, ou seja, é uma alma que está em comunhão com Deus, pois vida, aqui, não é uma mera existência, mas é uma demonstração de existência de uma comunhão entre Deus e a Sua criatura.

– Deus soprou nos narizes do homem e ele foi feito “alma vivente”, ou seja, surgiu deste sopro uma alma e esta alma tinha consciência de que vinha de Deus e estava ligada a Ele.

– Temos, então, as duas instâncias do homem interior: a alma, que é a sede dos sentimentos e do entendimento; o espírito, que é a sede da consciência da existência de uma relação de dependência do homem em relação a Deus.

É neste sentido que podemos, aqui, reproduzir o ensino de C.A. Auberlen, mencionado por Larry Chafer: “corpo, alma e espírito não são nada além da base real dos três elementos do ser humano, consciência do mundo (corpo, observação nossa), autoconsciência (alma, observação nossa) e consciência de Deus (espírito, observação nossa)” (CHAFER, Larry Sperry. Teologia sistemática, t.1, v.2, p.592).

OBS: “…Em nenhum outro ser, seja ele dotado de corpo animal, ou seja, um ser angelical, ouviu-se dizer que Deus soprou sobre ele, dando-lhe o fôlego de vida.

Foi esse fôlego de vida que tornou o homem um ser capaz de raciocinar, empregar a razão, memorizar, possuir consciência, tornando-se semelhante ao Senhor. O corpo humano é, sem dúvida, a mais bela obra-prima do Criador. O que o faz belo é a vida intelectual e espiritual que permite a participação da própria vida de Deus (…).

Com o sopro divino, o homem recebeu vida para sempre, mas pela desobediência perdeu esse direito de vida eterna. Jesus veio para nos dar vida eterna (…).

Para alcançar a vida eterna que Deus soprou sobre Adão no Éden, é preciso que a mentalidade humana volte a ser como o Criador a fez quando soprou sobre o homem. Jesus fez isto sobre Seus discípulos, ao soprar sobre eles (…).

Ao pecar, o ser humano perdeu o espírito de vida eterna e sobre ele caiu a condenação da morte; para reverter este quadro, é preciso que ele se volte para Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, o único caminho, verdade e vida e receba a presença do Senhor, tornando-se templo do Espírito Santo.

A palavra ‘espírito’, no original, significa pneuma, vento, sopro. Esta é a grande diferença entre os seres humanos e os animais. Os animais não receberam o sopro, vento, espírito e, por isso, não têm entendimento como o homem.”(SILVA, Osmar José da. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade, v.2, p.41-2).

– Vemos, além disto, que o homem é mero objeto da ação de Deus, pois é dito que foi quem Deus tanto que formou o homem, como também que o fez alma vivente.

– Em ambas as expressões bíblicas, o homem é apresentado apenas como tendo sido o resultado da ação divina. É em virtude desta situação que o homem não pode, em hipótese alguma, arrogar-se o direito de ser proprietário de si mesmo, que pode achar que seja “dono de seu nariz” (aliás, é interessante notar esta expressão do linguajar popular em nossa língua, porquanto ela reflete bem o engano deste pensamento, pois a Bíblia, textualmente, diz que foi Deus quem formou o nariz do homem e, neste nariz, soprou o fôlego de vida, ou seja, o homem não é mesmo dono do seu nariz).

– A alma é a sede dos pensamentos e dos sentimentos do homem, a sede da sua personalidade, da sua individualidade, a parte do homem que tem consciência de si mesmo. Já o espírito é a parte do homem que faz a relação dele com Deus, é a sede da consciência, daquele instrumento que nos permite discernir o certo do errado, é o elo de ligação entre Deus e o homem, a instância em que tomamos consciência da existência e da soberania de Deus.

III – HOMEM, O BEM MAIOR DE DEUS NA TERRA

– Pela narrativa bíblica da Criação, como vimos, Deus demonstra todo o Seu cuidado e Seu zelo para com o homem e o Seu propósito de tornar o homem a principal criatura Sua na face da Terra. O homem foi criado com o propósito de ser o administrador, o mordomo de toda a criação na Terra.

OBS: É interessante observar que os judeus entendem que a narrativa bíblica da Criação é uma demonstração do amor de Deus.

É o que consta no tratado Pirke Avot do Talmude, que ora transcrevemos: ” Ele (Rabi Akiva) dizia: Amado é o homem, pois foi criado à imagem de Deus, e como prova desse amor lhe foi dado saber que ele foi criado à imagem de Deus, conforme foi dito: ‘ Porque Deus fez o homem à sua imagem.’ …” (Pirke Avot 3,18a apud BUNIM, Irving M. A ética do Sinai, p.180)

– Ao mesmo tempo, porém, Deus mostra ao homem, através das Escrituras, que o homem é uma criatura Sua, que é resultado do Seu poder e que, portanto, embora esteja colocado acima das demais criaturas, deve obediência e submissão ao seu Criador.

A narrativa da criação não deixa qualquer margem a dúvidas: embora superior às criaturas terrenas, o homem é inferior a Deus e deve a Ele toda a razão de Sua existência.

– Foi Deus quem formou o homem (ou seja, quem determinou a integração das substâncias do pó da terra para dar surgimento ao corpo). Foi Deus quem soprou nas narinas do homem e o fez alma vivente (ou seja, quem deu o fôlego de vida, quem criou a alma e o espírito do homem).

– Desta maneira, o homem tem consciência de que não pode se assenhorear sequer de si mesmo, pois todo o seu ser, espírito, alma e corpo, devem sua existência única e exclusivamente a Deus e, portanto, a Deus deve prestar contas no dia aprazado pelo Senhor, este, sim, o verdadeiro proprietário do ser humano.

– Quando chegamos a esta conclusão, observamos, claramente, que nossas atitudes, que nossas condutas devem ser feitas levando única e exclusivamente à vontade divina, pois Ele é o nosso Senhor, por direito de criação, estando todo o nosso ser envolvido nesta dependência e pertinência.

– Neste ponto, aliás, percebemos qual falho é o pensamento difundido por muitos de que Deus somente está interessado em partes da vida do ser humano, de que Deus somente quer de nós a tomada de certos posicionamentos ético-morais, de certas posturas em determinados momentos ou instantes de nossas vidas.

– Se bem nos conduzirmos, ou seja, se fizermos aquilo que, aos nossos olhos e aos olhos da sociedade em que vivemos, seja razoável, justificável e compreensível, estaremos agradando a Deus e, assim, alcançando a Sua compreensão e a Sua bênção.

– Deus não é um ser que possa ser tratado desta maneira, pelo simples motivo de que não somos nós quem ditamos as regras ou que estabelecemos se isto é, ou não, tolerável, compreensível ou razoável.

– O Senhor de nossas vidas é Deus e não nós. Não temos qualquer direito de dizermos o que devemos, ou não, fazer, pois todo o nosso ser pertence a Deus.

– Espírito, alma e corpo foram feitos por Deus e devem exercer as atividades estabelecidas pelo seu Criador e na forma por Ele determinada.

Quando nos arrogamos o direito de decidir o que fazer na “nossa vida”, estamos cometendo um grave equívoco, pois a vida nunca foi, não é e jamais será “nossa”. Tudo é de Deus e aqui somos meros administradores de nossa própria existência.

– Em relação a si mesmo, é muitíssimo comum o ser humano achar que tem domínio pleno sobre a sua própria existência. Até mesmo os cristãos se iludem, vez por outra, com a liberdade que recebeu da parte de Deus e

creem que os destinos de sua vida, as atitudes que digam respeito somente a si próprio, são assuntos que lhes dizem respeito, que estão na sua esfera de atuação.

– Achamos que somos senhores de nós próprios, quando, em verdade, nem mesmo sobre nós mesmos temos qualquer direito ou domínio.

O salmista afirma que do Senhor são todos os que habitam na terra (Sl.24:1), ou seja, todo o nosso ser, espírito, alma e corpo, pertencem a Deus, pois foi Ele que nos criou, como deixa bem claro já nos dois primeiros capítulos da Bíblia. Antes mesmo de pecar, o homem nada mais era que um simples administrador de si mesmo.

– Esta submissão do homem a Deus, entretanto, depende da vontade do homem, pois, tendo sido constituído à imagem e semelhança de Deus, o homem, além de ser tricotômico, é também livre, ou seja, tem o livre- arbítrio, pode escolher servir a Deus, ou não, como ficou bem claro na primeira expressão divina feita ao homem que se encontra registrada nas Escrituras em Gn.2:16,17.

– O homem deveria fazer a vontade de Deus, deverá prestar contas perante o Senhor daquilo que Deus lhe tem confiado, mas, por ser um ser moral, tal obediência não é algo senão fruto de uma consciência, de uma manifestação de vontade.

– O homem pode escolher entre o bem e o mal e, em virtude disto, é tentado a crer que pode se assenhorear de sua vida, que pode manter uma vida independente de Deus. Ao crer nesta possibilidade, o primeiro casal pecou e ocasionou a perda da comunhão com o Senhor.

– Entretanto, Deus não tem outro prazer senão que o homem possa retomar esta comunhão inicial com o Senhor e esta foi a razão pela qual enviou Seu Filho ao mundo. Jesus não veio senão buscar e salvar o que se havia perdido (Lc.19:10).

– Veio, em lugar da separação entre Deus e o homem, que é a morte, estabelecer a vida e a vida com abundância (Jo.10:10). Por isso, se o homem quiser se submeter integralmente a Deus, deve aceitar a Cristo como seu Senhor e Salvador.

– Esta submissão exige que conheçamos a vontade de Deus para as nossas vidas, pois só assim poderemos dedicar todo nosso corpo, alma e espírito ao senhorio de Deus. Esta vontade nós a conhecemos através das Escrituras, porque são elas que testificam de Cristo (Jo.5:39).

– Ora, só mesmo as Escrituras podem nos fazer cumprir a mordomia, porquanto só elas têm condição de penetrar até à divisão da alma e do espírito e das juntas e medulas e ser apta para discernir os pensamentos e intenções do coração (Hb.4:12).

– Larry Chafer afirma que “…a distinção entre alma e espírito é tão incompreensível quanto a própria vida, e os esforços dos homens em estruturar decisões devem sempre ser insatisfatórios…” (Teologia sistemática, t.1, v.2, p.588) e, neste ponto, tem razão o teólogo, pois somente a Palavra de Deus sabe, precisamente, onde termina a alma e onde começa o espírito e tem condições de distinguir entre um e outro, não propriamente quanto a seus conceitos, mas na sua atuação no dia-a-dia de cada um de nós.

– Com tamanha capacidade, a Bíblia Sagrada é, portanto, o guia seguro e certo para que cumpramos a mordomia que nos foi determinada pelo nosso Senhor.

OBS: ” …o primeiro passo no verdadeiro conhecimento é tomado quando reverentemente abraçamos o testemunho de que Deus tem se agradado em dar de Si mesmo (ou seja, as Escrituras, observação nossa). Pois não somente ele cria fé, fé perfeita e completa, mas todo conhecimento correto de Deus causa obediência.

E, certamente, a este respeito, Deus tem providenciado com singular Providência a humanidade em todos os tempos…” (CALVINO, João. Instituições da religião cristã, I, 6, p.91. In: Os Grandes Mestres da Teologia – 300 Títulos – Século XVIII. CAL_INST.PDF. 1 CD-ROM) (tradução nossa).

– As Escrituras são a Palavra de Deus, cujo poder de penetração supera toda e qualquer entendimento ou inteligência humanos e, por isso, não podemos, mesmo, admitir pensamentos que digam que a Bíblia é fruto da cultura de um povo ou resultado de um magistério de uma instituição humana. A Bíblia é a própria revelação divina e a ela devemos nos submeter por ser o único guia seguro de Deus para o homem.

– Por fim, embora já o tenhamos dito supra, é importante salientar que o homem é visto diante de Deus como uma integralidade. Ou servimos a Deus com todo o nosso ser ou não O estaremos servindo.

– Pode ser que alguém, diante dos homens, apareça como alguém que esteja servindo a Deus sinceramente, mas que, no íntimo, tenha parcelas de suas vidas que não estão submetidas ao Senhor, áreas de sua vida, ocultas aos demais homens, em que Deus não tem domínio, uma verdadeira “reserva de mercado” para o ego, para a carne, enfim, pontos em nossa vida em que ainda cometemos o equívoco de querer sermos senhores, “pequenos deuses”.

– Se isto pode ficar encoberto ante os nossos familiares, ante os nossos irmãos em Cristo, na igreja local, no trabalho ou na escola, saibamos que isto não está encoberto diante de Deus, que tudo vê, que a tudo assiste.

– Aliás, esta verdade bíblica encontra-se, não por coincidência, na sequência do texto que nos mostra o poder das Escrituras, como se poderá verificar da leitura de Hb.4:13: “todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos d’Aquele com quem temos de tratar”.

– Se, porventura, temos nos tornado usurpadores de um direito que não é nosso, ou seja, se temos nos comportado como se fôssemos donos de nós mesmos em alguma área de nossas vidas, é momento de, ao estudarmos esta lição, nos rendermos inteiramente ao Senhor, nos renunciarmos a nós mesmos (cfr. Mt.16:24) e deixarmos que o Senhor venha nos dominar completamente.

– Somente aqueles que forem fiéis, que se submeterem integralmente ao Senhor poderão receber o “vinde” maravilhoso que nos está prometido (Mt.25:34), pois serão aqueles que foram fiéis no pouco (o nosso próprio ser) e, por isso, serão colocados sobre o muito (i.e., o reino que está preparado para os servos do Senhor) (cfr.Mt.25:23).

– O assunto é sério e envolve a nossa própria salvação. Ainda é tempo oportuno, desvencilhemo-nos de nossas tolices (e, quando dizemos tolices, não estamos sendo fortes, pois o Sl.2:4 diz que o Senhor Se ri das “declarações de independência em relação a Deus ” proveniente dos rebeldes, pois isto é uma tolice, algo digno de riso, de zombaria) e, com humildade, voltemo-nos ao Senhor e, com o coração contrito, submetamo- nos inteiramente a Ele, repetindo a oração do salmista:

“Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova- me e conhece os meus pensamentos e vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Sl.139:23,24).

– Como diz o cantor sacro: “Quando tudo perante o Senhor estiver, e todo o teu ser Ele controlar. Só, então, hás de ver que o Senhor tem poder, quando tudo deixares no altar” (refrão do hino 577 da Harpa Cristã).

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11759-licao-1-o-homem-corpo-alma-e-espirito-i

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