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LIÇÃO Nº 1 – O VERBO QUE SE TORNOU CARNE

ESBOÇO Nº 1

A) INTRODUÇÃO AO TRIMESTRE

Estamos dando início a mais um trimestre letivo da Escola Bíblica Dominical e, desta feita, pela segunda vez desde o início do atual currículo da Casa Publicadora das Assembleias de Deus em 2021, teremos um trimestre bíblico, ou seja, um trimestre em que estudaremos um livro das Escrituras, a saber, o Evangelho segundo João.

João, o “quarto evangelho”, é posto nesta ordem em o Novo Testamento precisamente porque foi o último evangelho a ser escrito, por volta de 90, por João, “o discípulo a quem Jesus amava” (Jo.19:26,27).

A este tempo, o apóstolo João era o último remanescente do colégio apostólico e, como tal, a principal autoridade da

Igreja, que passava por um período difícil, não só pela ausência dos apóstolos, com novas lideranças surgindo, mas também pela crescente oposição do Império Romano, que levaria, brevemente, à segunda grande perseguição promovida por Domiciano (51-96, imperador de 81 a 96), da qual o próprio João seria o alvo preferencial (Ap.1:9) e pelo crescimento de heresias, como a dos ebionitas, que negavam a divindade de Jesus e a dos gnósticos, que negavam a humanidade de Cristo.

Diante deste quadro, inspirado pelo Espírito Santo, João é levado a escrever e, com seus escritos, conclui-se a Bíblia Sagrada, tendo sido o autor de três epístolas, do quarto Evangelho e do livro do Apocalipse.

Entendem alguns que, tendo escrito as suas epístolas, o apóstolo resolveu, ante os evangelhos já existentes, na qualidade de um dos mais íntimos discípulos do Senhor Jesus, mostrar o Mestre numa perspectiva distinta, mostrando a Sua deidade e, como tal, buscando narrar o ministério de Jesus sem preocupação cronológica, descrevendo sete sinais que demonstrassem a Sua divindade, como também sermões proferidos pelo Senhor.

O objetivo de João, inspirado pelo Espírito Santo, ao escrever este Evangelho, foi para que seus leitores cressem “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome” (Jo.20:31).

Não é por acaso que cópias do Evangelho segundo João sejam, até hoje, um poderoso instrumento de evangelização ao longo da história da Igreja, em especial após o surgimento da imprensa.

Ante este propósito, João se diferencia dos demais evangelhos, que são chamados de “sinópticos”, porque estes compartilham fatos do ministério de Jesus, enquanto o evangelho tem outra perspectiva, iniciando na chamada “eternidade passada”, revelando a deidade de Jesus, Sua eternidade e focando a Sua obra salvífica não só por sete sinais escolhidos mas também por discursos proferidos ao longo de Sua jornada terrena.

Daí o título do trimestre: “E o Verbo Se fez carne”, expressão utilizada por João, que mostra Jesus como Deus feito homem, bem como o subtítulo, ao mostrar que o Evangelho traz o olhar do discípulo sobre o Senhor Jesus, Aquele que Ele viu tanto como homem quanto como Deus.

A capa da revista apresenta uma cena, ao anoitecer, em que o Senhor Jesus fala com os Seus discípulos, o que nos remete ao chamado “sermão das últimas instruções”, um longo discurso que Jesus proferiu aos Seus apóstolos, pouco antes de ser preso.

O psicólogo e psiquiatra Augusto Jorge Cury (1958- ) assim se refere a este sermão, que ele chama de “discurso final”:

“…Depois de banquetear-se com os discípulos, de falar sobre Seu sangue e Seu corpo e de cantar, o mestre de Nazaré saiu do cenáculo. Iniciou então um longo e profundo diálogo com Seus discípulos.

Numa atmosfera incomum de emoção, revelou os segredos ocultos do Seu coração. À mesa, falara brevemente sobre Sua missão, mas um clima de dúvida reinava entre aqueles galileus. Agora, ao ar livre, Ele Se abria para eles como nunca. Revelou Seus pensamentos mais íntimos.

Nunca, como agora, havia rasgado a Sua alma e falado de maneira cristalina sobre Seu projeto transcendental. Nunca discorrera de maneira tão transparente sobre Seu objetivo de vida e mostrara uma tal preocupação com o destino dos Seus íntimos e de todos aqueles que se agregariam a Ele após a Sua morte. Os discípulos ficaram impressionados com Seu discurso.

Disseram-lhe; ‘Agora é que nos falas claramente, sem parábolas’ (Jo.16:29) …” (O Mestre da sensibilidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2006 (Análise da inteligência de Cristo, v.2), p.66).

A ilustração, portanto, confirma o subtítulo do trimestre, evocando um sermão que, de tão impressionante, foi lembrado pelo Espírito Santo a João para que se evidenciasse o cerne da essência da pessoa de Cristo Jesus.

Após uma lição introdutória, em que já se adentra ao teor do quarto evangelho, teremos lições que analisarão parcelas deste rico livro da Bíblia, aprofundando-se em alguns discursos registrados pelo evangelista João.

O evangelho segundo João pode ser dividido em quatro partes: a introdução (Jo.1:1-14), o ministério público de Jesus (Jo.1:15-12:50), o ministério de Jesus aos discípulos (Jo.13-17) e a narrativa da paixão, morte, ressurreição e aparições de Jesus ressurreto (Jo.18-21).

Assim, podemos dividir o trimestre em três blocos:

o primeiro, que trata do ministério público de Cristo (lições 2 a 7);

o segundo, que trata do ministério de Jesus aos discípulos (lições 8 a 11) e o

terceiro, que trata da narrativa da paixão, morte, ressurreição e aparições de Jesus ressurreto (lições 12 e 13).

O comentarista do trimestre é o pastor Elienai Cabral, consultor teológico e doutrinário da Casa Publicadora das Assembleias de Deus que, há anos, comenta as Lições Bíblicas.

Que, ao término deste trimestre, possamos ter nos aprofundado na profunda revelação de Jesus como o Filho de Deus constante de João e, assim, aumentemos nossa fé de que Ele é o nosso Senhor e Salvador.

B) LIÇÃO Nº 1 – O VERBO QUE SE TORNOU CARNE
O Evangelho segundo João mostra-nos Jesus como o Filho de Deus.

INTRODUÇÃO

-Neste trimestre, um trimestre bíblico, estudaremos o Evangelho segundo João.

-O Evangelho segundo João mostra-nos Jesus como o Filho de Deus. I – O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO

-Neste trimestre, pela vez segunda desde que se iniciou o atual currículo da Casa Publicadora das Assembleias de Deus em 2022, estaremos a estudar um “trimestre bíblico”, ou seja, debruçar-nos-emos sobre um específico livro das Escrituras, a saber, o Evangelho segundo João.

-O Evangelho segundo João foi o quarto evangelho a ser escrito, o que se deu por volta do ano 90, sendo de autoria do apóstolo João, que se identifica na obra como sendo “o discípulo a quem Jesus amava” (Jo.19:26; 20:2; 21:7,20), num gesto de humildade, a mostrar que realmente era ele um aprendiz do Senhor Jesus.

-Este Evangelho é posto em último lugar entre os Evangelhos a ordem do cânon do Novo Testamento, não somente por ter sido o que foi escrito por último, mas, também, porque discrepa dos outros três evangelhos.

-Enquanto Mateus, Marcos e Lucas trazem um panorama conjunto da vida terrena de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, olhar conjunto que os faz serem chamados de “evangelhos sinópticos”, de “sinopse” que, em grego, significa precisamente esta “visão conjunta”, uma espécie de resumo da peregrinação terrena de Cristo Jesus, João tem um enfoque diferente.

-João quis apresentar sinais realizados por Cristo, como também discursos por Ele proferidos que demonstram que Ele é o Filho de Deus, a fim de que as pessoas creiam nesta verdade e alcancem a salvação. O evangelista deixa isto bem claro em Jo.20:30,31.

-À época em que João escreveu o evangelho, era ele provavelmente o último remanescente do colégio apostólico e a Igreja vivia um período extremamente difícil, como é todo período de mudança de geração, onde, além da retomada da perseguição do Império Romano de forma mais generalizada, no reinado de Domiciano, de que o apóstolo seria, inclusive, um dos principais alvos (Ap.1:9), cresciam heresias que negavam tanto a humanidade quanto a divindade de Jesus.

-João, então, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu este Evangelho para mostrar a divindade do Senhor Jesus, a Sua humanização e a sua condição de Filho de Deus e Salvador da humanidade.

-Por esta causa, o Evangelho segundo João tem uma estrutura diversa da dos demais evangelhos, iniciando- se com a eternidade do Verbo que Se faz carne, registrando sete sinais realizados por Jesus ao longo de Seu ministério público, bem como registrando discursos proferidos por Cristo que esclarecem a Sua obra salvífica.

-Não se tem, pois, uma preocupação em se mostrar o cotidiano da vida terrena de Jesus, mas episódios e ditos de Cristo que confirmem a Sua qualidade de Filho de Deus e Salvador do mundo.

-Mesmo assim, a narrativa de João é a fonte mais segura que temos quanto à duração do ministério de Jesus, porquanto é este Evangelho quem nos mostra, com clareza, que o Senhor participou de três páscoas ao longo de Seu ministério (Jo.2:13,23; 6:4; 11:55; 12:1; 13:1; 18:28,39; 19:14), a nos mostrar, pois, que teve ele a duração de pouco mais de três anos.

-Com base neste evangelho, pois, temos a divisão do ministério de Jesus em três fases: o ano da inauguração (Jo.1:15-3:36); o ano da popularidade (Jo.4) e o ano da oposição (Jo.5-21).

-Neste Evangelho, aliás, fica bem demonstrada a crescente oposição sofrida pelo Senhor Jesus, tanto que, logo no introito, João faz questão de dizer que os judeus não receberam a Jesus como o Cristo, o Filho de Deus (Jo.1:12) e, mais de uma vez, ao longo do livro, mostra a rejeição crescente ao Senhor (Jo.2:24,25; 5:16; 6:66; 7:1,5 entre outros), o que também foi explicitamente dito pelo Mestre em Seus discursos (Jo.5:43-47; 6:36; 8:23,24,43-45 entre outros).

-João é o Evangelho que mostra Jesus como o Filho de Deus, o Verbo que Se fez carne (Jo.1:1,14) e, portanto, inicia sua narrativa na eternidade, mostrando que o Verbo já existia no princípio e que é Deus, Deus que Se fez homem para salvar a humanidade (Jo.1:1-18).

-Por causa deste caráter diferenciado e pelo fato de ter sido o último Evangelho a ser escrito, há, em João, muitas peculiaridades que não se repetem nos outros Evangelhos.

“…Somente 7 acontecimentos deste Evangelho aparecem nos outros Evangelhos: as palavras de João, a última ceia, a unção em Betânia, a paixão, a ressurreição, o milagre de alimentar 5.000 pessoas e caminhar sobre o mar.

Todos os outros eventos são peculiares a João. Juntos, os quatro Evangelhos nos dão uma concepção completa de Jesus, como o Rei ideal, o Servo ideal, o Homem ideal e o Deus ideal…” (BÍBLIA DE ESTUDO DAKE. Rio de Janeiro: CPAD-Atos, p.1686).

-Este foco na Deidade de Cristo em João remete-nos à figura das cortinas de azul existentes no tabernáculo (Ex.26:1,4), azul também presente no véu (Ex.26:31) e na porta da tenda (Ex.26:36) e do pátio (Ex.27:16). Este azul fala-nos do céu e nos mostra Jesus, pois, “…ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu.” (Jo.3:13).

-Por esta causa, é o único Evangelho em que Jesus Se identifica com a expressão “Eu Sou”, que é o próprio nome de Deus, como vemos em Jo.6:20; 8:24,58; 13:19; 18:5,6,8, ou seja, Jesus assim Se identifica como Deus por sete vezes no Evangelho segundo João.

-Jesus também Se utiliza da expressão “Eu sou” para dizer que é o Cristo (Jo.4:26);

o pão da vida (Jo.6:35,48),

o pão vivo que desceu do céu (Jo.6:41,51);

a luz do mundo (Jo.8:12);

o que testifica de Si mesmo (Jo.8:18);

o que é de cima (Jo.8:28);

a porta das ovelhas (Jo.10:7);

a porta (Jo.10:9); o bom Pastor (Jo.10:11,14);

a ressurreição e a vida (Jo.11:25);

a luz que veio ao mundo (Jo.12:46);

o caminho, a verdade e a vida (Jo.14:6);

a videira verdadeira (Jo.15:1);

a videira (Jo.15:5);

rei (Jo.18:37).

São doze identificações que Jesus faz de Si mesmo neste Evangelho (já que quando diz que é o pão da vida e o pão vivo, bem a porta e a porta das ovelhas, tem-se, em ambos os casos, a mesma expressão metafórica).

-Em seguida, o Evangelho mostra o ministério público de Jesus, iniciando pelo testemunho que d’Ele dá João Batista, bem como mostrando sete sinais por Ele realizados e os discursos por ele proferidos a todo o povo (Jo.1:19-12:50), num período de três anos, como já vimos.

-Os sete sinais narrados por João são os seguintes:

a transformação da água em vinho, o primeiro milagre feito por Jesus em Seu ministério e que somente consta em João (Jo.2:1-11);

a cura do filho de um oficial do rei (Jo.4:43-54), que é o segundo milagre do Senhor, igualmente mencionado apenas por João; a cura do paralítico do tanque de Betesda, também só registrado por João (Jo.5:1-15);

a primeira multiplicação dos pães e peixes (Jo.6:1-15);

a caminhada sobre o mar da Galileia (Jo.6:16-21), os dois únicos sinais deste evangelho também citados pelos outros evangelistas;

a cura do cego de nascença (Jo.9),

milagre também só relatado em João e a ressurreição de Lázaro (Jo.11:1-45),

o maior milagre de Cristo, mas que só é relatado por João.

-Muito se indaga porque alguns milagres não foram registrados pelos outros evangelistas e somente por João. Por primeiro, é importante observar que se tem aqui o zelo divino para que houvesse uma revelação completa de tudo quanto Jesus fez. Os sinais somente mencionados por João são uma prova de que o que pode ter sido esquecido ou omitido pelos demais evangelistas não o foi pelo Espírito Santo.

-Ademais, é importante observar que os milagres somente relatados por João têm algo em comum: foram milagres que tinham circunstâncias peculiares que prejudicavam a sua divulgação.

O primeiro sinal, feito em uma festa de casamento, quando Jesus ainda estava no início de Seu ministério e era um evidente desconhecido; o segundo sinal, além de se ter dado igualmente no início do ministério de Cristo, envolveu o filho de um oficial provavelmente do tetrarca Herodes, e todos sabem como os herodianos eram adversários de Jesus; a cura feita num tanque onde havia uma nítida mistura com crendices e culto idolátrico; a cura feita a alguém que foi expulso da sinagoga e por todos discriminado, a começar de seus pais e o milagre que foi ostensivamente combatido pelas autoridades, que inclusive queriam também matar o próprio Lázaro.

-Assim, nada mais natural que Lucas não tenha conseguido as testemunhas que entendia necessárias para o registro de tais sinais em seu evangelho e que Mateus e Marcos não os tenham registrado, o que já o poderia ser feito por João, quando Jerusalém e o templo já estavam destruídos, a exemplo da identificação de Pedro como tendo sido o discípulo que cortou a orelha do servo do sumo sacerdote, igualmente identificado como Malco (Jo.18:10), o que os outros evangelistas não fizeram (Mt.26:51; Mc.14:47; Lc.22:50).

-Os discursos registrados por João foram dois testemunhos de João Batista a respeito de Jesus (Jo.1:15-34; 3:22-36);

o discurso proferido na primeira páscoa de Seu ministério (Jo.2:13-25);

o diálogo com Nicodemos (Jo.3:1-21);

o diálogo de Jesus com a mulher samaritana (Jo.4:1-30);

o diálogo de Jesus com os discípulos no monte Gerizim (Jo.3:31-42);

o discurso de Jesus após a cura do paralítico de Betesda (Jo.5:16-47);

o discurso em Cafarnaum no dia seguinte à primeira multiplicação dos pães (Jo.6:22-71);

o discurso na Festa dos Tabernáculos (Jo.7:10-53);

o discurso sobre a missão de Jesus (Jo.8:12-59);

o discurso do bom Pastor (Jo.10:1- 21);

o discurso na Festa da Dedicação (Jo.10:22-42);

o discurso na presença dos gregos que queriam ver Jesus (Jo.12:20-50).

-Nesta primeira parte do Evangelho temos também a narração de alguns episódios como

a purificação do templo (Jo.2:13-25),

a incredulidade dos irmãos de Jesus (Jo.7:1-9),

o episódio da mulher adúltera (Jo.8:1- 11),

a conspiração dos principais dos sacerdotes e dos fariseus (Jo.11:46-57),

a unção de Betânia (Jo.12:1-11),

a entrada triunfal em Jerusalém (Jo.12:12-19).

-João, então, narra o “ministério de Jesus aos discípulos”, ou seja, o momento derradeiro do ministério de Jesus em que, por ocasião da celebração da terceira páscoa de Seu ministério, tem um momento privado com Seus discípulos, não só celebrando a páscoa, mas lhes dando as Suas últimas instruções, quando, então, abertamente fala não só da Sua obra salvífica, mas do papel que teriam Seus discípulos após a Sua morte e ressurreição (Jo.13:1-17:26).

-Esta parcela começa com a narrativa do lavapés e a celebração da páscoa com os discípulos (Jo.13:1-30) e, em seguida, o chamado “sermão das últimas instruções” (Jo.13:31-16:33), terminando com a oração sacerdotal de Jesus (Jo.17).

-A terceira parte do Evangelho é a narrativa da paixão, morte, ressurreição do Senhor e Sua aparição já ressurreto, feita por aquele que foi o único discípulo que não abandonou o Senhor, tendo ficado ao pé da cruz (Jo.18:1-21:23).

-Aqui, também, a narrativa tem algumas peculiaridades em relação aos relatos dos outros evangelhos. No momento da prisão, João é o único que relata que toda a coorte caiu por terra quando o Senhor disse que era Ele a quem buscavam, após ter dito, uma vez mais, a expressão “Eu sou” (Jo.18:6), em uma clara demonstração de Sua deidade.

-Pelo que vemos do Evangelho, João era um pescador, mas, por algum motivo não revelado nas Escrituras, era ele conhecido do sumo sacerdote (Jo.18:16) e, por causa disto, acabou tendo a oportunidade de testemunhar todo o julgamento de Jesus, o que lhe deu condições de, ao escrever o Evangelho, relatar aquilo que não fora ainda registrado pelos demais escritos.

-Por isso, é ele também o único a nos informar que Jesus foi primeiramente conduzido à casa de Anás, que já não mais exercia efetivamente o sumo sacerdócio, que havia sido dado a seu genro Caifás (Jo.18:13; Lc.3:2).

-João também é o único a registrar que Jesus entregou Sua mãe aos cuidados deste discípulo (Jo.19:25-27), o que se explica facilmente pelo fato de ter sido testemunha ocular, e a única, do ocorrido, sendo também o único a registrar que os ossos de Jesus não foram quebrados, bem como o trespasse da lança no lado (Jo.19:31- 37), pormenores importantíssimos para demonstrar a consumação da obra salvífica de Cristo e que só poderiam ter sido mencionados por João, testemunha ocular deste fato.

-João, também, é o único a registrar a participação de Nicodemos no sepultamento de Jesus, até porque é o único evangelista que menciona esta personagem em o Novo Testamento (Jo.19:39).

-Quanto à ressurreição, João é, também, o único que menciona a sua ida e a de Pedro ao sepulcro na manhã do dia da ressurreição (Jo.20:2-10), como também a concessão do Espírito Santo aos discípulos na tarde daquele dia e o solene envio naquela oportunidade (Jo.20:19-23), assim como a incredulidade de Tomé (Jo.20:24-29).

-João, também, é o único a registrar a aparição do Senhor no mar da Galileia, ocasião em que houve a solene reafirmação de Pedro com relação ao seu amor a Jesus, compensando, assim, a negação anteriormente ocorrida (Jo.21:1-17).

-Em João, também, vemos as palavras proféticas de Jesus a respeito tanto de Pedro quanto de João (Jo.21:18- 23).

-Temos, então, o epílogo do Evangelho, a sua conclusão em Jo.21:24,25.

-Segundo Finis Jennings Dake (1902-1987),

João é o 43º livro da Bíblia,

tendo 21 capítulos,

879 versículos,

167 perguntas,

16 profecias do Antigo Testamento cumpridas,

43 novas profecias,

85 versículos de profecias cumpridas e

7 versículos de profecias não cumpridas.

-Alguns estudiosos das Escrituras associam João à letra hebraica “shin” (ש), cujo significado literal é “dente” e que está relacionado a tudo quanto devora e transforma, razão por que é associada ao “fogo” e à “luz”, o que nos remete à pessoa de Jesus, a “luz do mundo”, Aquele que resgata as pessoas das trevas e as leva à Sua maravilhosa luz.

-É de se lembrar, ainda, que o “fogo” é um símbolo da presença e da glória de Deus, como se verifica na inauguração tanto do tabernáculo (Lv.9:24) quanto do primeiro templo (I Rs.8:10,11; II Cr.7:1-3) e a ausência deste fenômeno na dedicação do segundo templo talvez tenha sido a causa do choro dos judeus naquela oportunidade (Ed.3:12), o que levou o próprio Deus a anunciar que a glória desta casa seria maior que a da primeira por intermédio do profeta Ageu (Ag.2:7-9).

-Pois bem, o Evangelho segundo João é precisamente o escrito que nos mostra, de forma clarividente, que Jesus é o Verbo que “Se fez carne e habitou entre nós e vimos a Sua glória como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo.1:14), Aquele que, quando é visto, mostra-nos o Paio (Jo.14:9) e que, quando subisse aos céus, mandaria outro Consolador, uma Pessoa da Sua mesma natureza, que estaria conosco e habitaria em nós (Jo.14:16,17), a todos quantos cressem n’Ele (Jo.7:39), o que já começou a ocorrer no dia mesmo da ressurreição, que foi a glorificação do Senhor (Jo.20:22).

-Por fim, é bom lembrar que a expressão “Verbo” aplicada ao Senhor Jesus no introito do Evangelho é a palavra grega “Logos”, que foi tido pelo filósofo grego Heráclito de Éfeso (570-450 a.C.) como o “princípio de todas as coisas” e cujo símbolo era, precisamente, o “fogo”.

II – JESUS, O VERBO DE DEUS

-O prólogo do Evangelho segundo João é uma apresentação da divindade de Jesus. Jesus já é apresentado como Deus antes mesmo do registro dos Seus sinais e discursos, que comprovariam esta deidade. O “discípulo amado”, inspirado pelo Espírito Santo, mostra-nos com clarividência a natureza divina do Senhor Jesus.

-Como ensina o pastor Antônio Mardônio Nogueira Vieira,

“…Realmente os quatorze primeiros versículos constituem o prefácio, o qual anuncia a divindade de Jesus e apresenta três grandes ideias que percorrem todo o seu evangelho: a revelação do Verbo (vv.1-4), a rejeição do Verbo (vv.5-11) e a aceitação do Verbo (vv.12- 14) …” (Lições bíblicas. Jovens e adultos. 1. trim. 1995. Mestre, p.5).

-Neste texto, Jesus é apresentado como o “Verbo”, palavra que traduz, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a palavra grega “Logos” (λόγος).

-O uso desta palavra pelo apóstolo tem trazido muitas discussões ao longo dos séculos, porque se trata de um termo que, na filosofia grega, tinha um significado todo especial, significado este, aliás, que havia sido como que “adaptado” ao judaísmo por um contemporâneo de Cristo, o filósofo judeu Filo (25 a.C.-±50 d.C.), natural de Alexandria e que se tornou o maior comentarista do texto grego do Antigo Testamento (a Septuaginta).

-Como o texto do evangelho segundo escreveu João é de cerca do ano 90 d.C., muitos discutem da possibilidade de João, um típico judeu palestino, ter tido acesso a tais comentários e, com esta expressão, ter querido expressar tudo o que o termo “Logos” significava no pensamento helenístico (ou seja, o pensamento dominante nos dias apostólicos, resultante da fusão entre o pensamento oriental e o pensamento grego), ainda mais que se encontrava, na época, em Éfeso, exatamente o local em que se começou a utilizar a expressão “Logos” na filosofia, com Heráclito (570-450 a.C.).

-Entendemos que o termo “logos” traduz, sim, toda a riqueza do pensamento helenístico, pois o objetivo do Espírito Santo, ao inspirar o evangelista para escrever este Evangelho, foi mostrar a todos, judeus e gentios, que Jesus é Deus e que se poderia crer n’Ele como o Salvador (Jo.20:31).

-Não devemos nos esquecer, também, de que, à época da escrita deste Evangelho, João, o único apóstolo ainda vivo, via o desenvolvimento de duas heresias no meio da Igreja: os ebionitas, que negavam a divindade de Jesus e os gnósticos, que negavam a humanidade de Deus, a própria encarnação do Filho de Deus.

-Não é por acaso que, ao longo dos séculos, notadamente após a Reforma Protestante, que milhares e milhares de vidas têm se convertido ao ler o evangelho segundo João, um dos mais poderosos instrumentos de evangelização da Igreja.

OBS: “…Qualquer pessoa que leia os conceitos (…) sobre a natureza do Logos, poderá perceber, de imediato, que o conceito do evangelho de João sobre o ‘Logos” realmente tem muitos elementos similares e que, na realidade, o autor desse evangelho se aproveitou de uma ideia corrente e bem conhecida no mundo helenista, a fim de expressar uma profunda verdade concernente à pessoa do Cristo encarnado.

Que essa doutrina não foi criada no vácuo, e que não era inteiramente original a João (embora em seus escritos existam elementos diferentes), é fato que não deve causar surpresa a quem quer que seja, e nem deve esse fator ser considerado como algo que labora contra a veracidade dessa doutrina bíblica…” (CHAMPLIN, R.N. Logos (Verbo). In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.900).

-Pois bem, qual é o significado de “Logos” para os gregos, para o pensamento helenístico, enfim, para a filosofia? “Logos” é uma palavra que tem duplo significado: discurso e razão. “Logos” tanto significa “discurso” ou “palavra”, como também, tem o significado de “razão”, “pensamento”, “raciocínio”.

-Assim, para os gregos, “logos” é uma palavra que tanto nos remete para a linguagem, para a comunicação, como também para a razão, para o pensamento.

Ao dizer que Jesus é o “Logos”, portanto, estamos afirmando que, a um só tempo, Jesus é a Palavra, a comunicação que Deus faz de Si mesmo, como também que é Ele a razão, o pensamento, a inteligência que tudo sustenta, que tudo ordena, que tudo organiza.

-O primeiro filósofo a empregar esta palavra foi o efésio Heráclito (570-470 a.C.), que dava o nome de “Logos” ao “princípio de todas as coisas”, princípio este que era o próprio movimento, a própria mudança, porque tudo mudaria, menos a mudança.

-Os filósofos estoicos (At.17:18), recuperaram esta ideia do mundo como uma constante mudança que havia em Heráclito e entenderam que o “Logos” é o princípio que animava o universo, a própria essência do mundo, que se encontrava em cada ser humano como princípio racional.

-“Logos”, aliás, desde Sócrates, tinha deixado de significar apenas “palavra”, “conversa”, para ter o significado de “razão”, de entendimento de algo (470-399 a.C.).

OBS: “…A ideia do Logos reapareceu no estoicismo, onde se tornou um virtual sinônimo de Deus. Os estoicos, porém, não concebiam um Deus pessoal.

O Logos, para eles, era um poder cósmico impessoal que se emanaria e se recolheria de novo, em grandes ciclos, criando tudo e, então, anulando tudo, mediante a reabsorção em si mesmo. (…).

O Logos existente na razão (racionalidade), dentro da psiquê humana é a força divina em operação. Essa racionalidade (no latim, ratio) torna-se palavra (no latim, oratio) nos lábios humanos, de tal modo que os homens podem falar sabedoria.…” (CHAMPLIN, R.N. op. cit., pp.901-2).

-Assim, quando o filósofo judeu Filo comenta as Escrituras, influenciado pelo pensamento grego e tendo conhecimento da lei e dos profetas, entendeu que o “Logos” nada mais era que a Palavra vinda da parte de Deus, a Palavra que tudo havia criado (Gn.1:3,6,9,11,14,20,24,26,29).

-Deus tudo criou pela Sua Palavra e esta Palavra que, a um só tempo, era “palavra”, “discurso”, mas também ordenava e organizava a criação, era o “Logos”, a Palavra de Deus.

OBS: “…Nos escritos de Filo, o Logos figura como uma manifestação pessoal de Deus, mas também como o poder divino impessoal e transcendental dos estoicos.

Outrossim, o Logos ganha, nos escritos de Filo, uma função remidora, tornando-se o meio que leva os homens a uma natureza espiritual mais elevada.

Pode-se ver nisso uma grande aproximação da doutrina do Logos, segundo o evangelho de João. Não há como pensar que o ponto de vista joanino do Logos era independente das ideias expostas por Filo.…” (CHAMPLIN, R.N. op.cit., p.902).

-Evidentemente que Filo, sendo como era um judeu, não poderia entender que esta “Palavra” viria a ser uma das Pessoas divinas, como nos esclarece o apóstolo João, mas, de qualquer maneira, pôde observar que Deus, através da Sua Palavra (em latim, “Verbum”), criou todas as coisas.

“…O Logos é um aspecto de Deus e contudo é conceitualmente distinto do ser transcendente de Deus – em verdade, é o mais alto intermediário entre Deus e o mundo.

Baseando-se no conceito de sabedoria em Provérbios (…), Filon louva o Logos como ‘o primogênito de Deus’ (veja Pv. 8.22), a ‘imagem de Deus’ (veja Gn.1:26) (…).

O Logos é o meio imaterial através do qual a atividade de Deus se manifesta no mundo. Incorporado à Torah, o Logos é a Lei de Deus segundo a qual os homens devem viver.…” (SELTZER, Roberto M. Trad. Elias Davidovich. Povo judeu, pensamento judaico. In: A JUDAICA, v.1, p.191).

OBS: “…O mais eminente de todos os helenistas judeus foi Filon (c. 20 a.E.C. – c. 40 E.C.). Por causa do interesse exclusivo que a Igreja Cristã vislumbrou em sua teologia — que resultou em ser ele ignorado pelos rabinos — a verdadeira grandeza de Filon foi menosprezada até décadas recentes. (…).

A ideia de que o historiador patrício Eusébio e outros teólogos do cristianismo primitivo como Clemente e Orígenes houvesse julgado Filon como o primeiro dos Padres da Igreja é inteiramente irônica.

Talvez mais surpreendente ainda seja o fato de ele influenciou profundamente a teologia cristã e não deixou, contudo, qualquer sinal de seu pensamento na história judaica religiosa e intelectual. Vale aqui acrescentar que os livros de Filon (…) foram proibidos pelos Sábios Rabínicos…” (AUSUBEL, Nathan. Helenistas judeus. In: A. KOOGAN (ed.). A JUDAICA, v.5, pp.332-3).

-Esta ideia de Filo está bem presente na epístola aos Hebreus, cujo autor apresenta Jesus como sendo a “expressa imagem da pessoa de Deus” (Hb.1:3), o meio pelo qual Deus fez o mundo, o sustentador de todas as coisas pela palavra do Seu poder.

-Este pensamento do escritor aos hebreus também não era desconhecido do apóstolo Paulo (se é que são pessoas distintas), que fez questão de mostrar a Cristo como sendo o Filho do amor do Pai, a “imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”, onde foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, que é antes de todas as coisas, coisas que subsistem por Ele (Cl.1:13-17).

-Temos, portanto, que a consideração de Jesus como o Logos, ou seja, o Verbo, é a consideração de Jesus como sendo o mediador entre a Divindade e a Sua própria criação.

-Foi o Verbo quem comunicou, quem expressou a vontade divina que fez com que tudo fosse criado. “Disse Deus” é a expressão utilizada no relato da criação e foi por intermédio dessa Palavra que o mundo foi criado e, como nos ensinam os textos mencionados, que mantêm a existência de todas as coisas.

-Torna-se muito interessante observar que, entre os israelitas, houve a assimilação da palavra grega “Logos” como a tradução da palavra hebraica “dãbhar” (ַ֣בר_ ְד).

-No Sl.33:6, o salmista afirma que “pela palavra do Senhor foram feitos os céus e todo o exército deles pelo espírito de Sua boca”. Temos, então, no salmista, o mesmo pensamento dos textos neotestamentários mencionados e “palavra” é, ali, “dãbhar” (דבך), que tem o significado “estar por detrás e seguir em frente” ou, ainda, “seguir adiante com o que está por detrás”, que é, basicamente, “falar”, ou seja, “deixar as palavras seguir uma após a outra”.

-“…Dabhar não significa apenas ‘palavra’ mas também ‘ação’… “(LAWRENCE, Nathan. O pensamento hebraico comparado com o pensamento grego(ocidental), p.5. Disponível em: http://www.hoshanarabbah.org/pdfs/heb_grk.pdf Acesso em 13 nov. 2007) (tradução nossa de texto em inglês).
OBS: “…Jesus é mais do que expressão falada: ele é Deus em ação, criando (Gn 1.3), se revelando (Jo 10.30) e salvando (Sl 107.19-20; 1Jo 1.1- 2).” (ILUMINA. Verbo. In: Enciclopédia: Dicionário Bíblico CD-ROM).

-Esta assimilação entre “logos” e “dãbhar”, que, evidentemente, não era desconhecida por Filo, mostra-nos, claramente, que se tinha plena convicção de que o “Logos” tinha a mesma natureza, compartilhava da mesma essência de Deus. Não é por menos que João afirma de modo peremptório que o Verbo estava no princípio, estava com Deus e era Deus (Jo.1:1).

-Quando consideramos Jesus como o Verbo de Deus, portanto, devemos observar que estamos considerando que não há como chegar-se ao conhecimento da natureza divina a não ser por Jesus.

-Ele é o único canal pelo qual podemos ter algum contacto com Deus, porque Ele é a própria expressão da personalidade divina na Criação. Todo o universo, inclusive nós mesmos, foi feito por Ele, pois é a Pessoa Divina que comunica, revela e faz percebida a Deidade para a criação.

-Não há como ver o Pai sem que veja ao Filho, pois Ele é a expressa imagem da pessoa do Pai (Hb.1:3), é a extensão do ser divino que, por ser o Verbo, põe-nos em contacto com Deus.

-Ninguém pode ter acesso a Deus a não ser por Cristo, pois Ele é o Verbo, o canal de comunicação entre Deus e os homens, o acesso do ser humano à Trindade. O mundo foi feito pelo Verbo e pelo Verbo se mantém, de maneira que não há como conceber que se tenha acesso, em sendo criatura, ao Criador a não ser por este meio pelo qual a criação se fez, pela Palavra, pelo Verbo Divino.

-Quando meditamos nesta circunstância, entendemos claramente porque o apóstolo João insiste em dizer que ninguém jamais viu a Deus (Jo.1:18; I Jo.4:12), no que é seguido por Paulo (I Tm.6:16).

-Ver a Deus, ou seja, conhecê-l’O em toda a plenitude, ter a completa visão de quem Ele é, é algo que somente pode ser realizado pelo próprio Deus.

Mesmo Moisés, que teve a revelação da lei, só pôde ver a Deus pelas costas (Ex.33:20-23) tendo tido grande intimidade com o Senhor (Nm.12:6-8; Dt.34:10), mas uma intimidade bem inferior ao do Verbo, que é o único que não só contempla a Deus em toda a Sua plenitude, como, ainda, o faz conhecido de todos nós. Só podemos ver o Pai ao vermos o Verbo (Jo.12:45; 14:9).

-Quando consideramos Jesus como o Verbo, estamos afirmando que Ele é a expressão única da personalidade divina à criação, é o único meio pelo qual podemos ter acesso a Deus. Não é à toa, pois, que Jesus é chamado de “Emanuel”, ou seja, “Deus conosco”, pois é a Pessoa divina que faz a ponte, a comunicação, a apresentação de Deus à criação.

-Por isso, João afirma que “No princípio era o Verbo” (Jo.1:1). Ao dizer que Jesus existia no princípio, o “discípulo amado” também emprega um outro conceito caro ao pensamento grego: o de “arché” (άρχή), cujo significado é “princípio”, “origem”, “início”.

-As investigações filosóficas começaram na Grécia quando os pensadores passaram a querer descobrir qual era o “princípio” (a “arché”) de todas as coisas e, nesta busca, muitos pensamentos se apresentaram.

-No entanto, inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo João mostra, claramente, que o “princípio” é o Verbo, o Verbo que estava com Deus, o Verbo que é Deus. Ele é o princípio ordenador de todas as coisas, a razão de tudo, o Logos.

-Por isso, não é Ele, de modo algum, uma “criatura excelente” ou “a mais excelente das criaturas”, como defendem alguns, mas o próprio Criador, o princípio, a razão de ser de tudo.

É este o sentido que se tem na expressão “primogênito de toda a criação” que se encontra em Cl.1:15, pois todas as coisas foram criadas n’Ele, de modo que não se pode admitir que o texto ali indique Cristo como criatura, quando o que se mostra é, precisamente, o contrário, ou seja, que Jesus é o Criador, o princípio, a origem, o início de tudo quanto foi criado.

-Tanto Jesus é Criador que o apóstolo João, ao mostrar que Ele é o princípio de todas as coisas, é categórico ao dizer que “todas as coisas foram feitas por Ele e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (Jo.1:3).

-“Princípio” aqui não significa, em absoluto, uma ordem temporal, ou seja, o primeiro a ser criado, mas, sim, que é o meio, a base, o fundamento de tudo quanto se criou.

O próprio Filo, ao explicar Gn.1:1, onde se tem a mesma expressão, fez questão de frisar que “…’No princípio Ele criou’ é equivalente a ‘primeiro de tudo Ele criou os céus’…” (FILO. Sobre a criação do mundo. Trad. C.D. Yonge, B.A. Disponível em: http://thriceholy.net/Texts/Creation.html Acesso em 13 nov. 2007) (tradução nossa de texto em inglês), dizendo que havia, assim, uma sucessão numérica e não temporal.

-O mundo foi feito por meio de Jesus e somente por meio d’Ele pode vir a conhecer a Deus, ao Criador. Não existe outro meio entre Deus e os homens a não ser o Verbo, o Logos. Por isso, a própria criação é uma das promulgações da lei divina e ninguém é inescusável, sendo obrigado a reconhecer que, pela Criação, teve como conhecer a Deus (Rm.1:20).

-Quando falamos em “lei divina”, não devemos nos esquecer, também, que, segundo alguns estudiosos, a ideia de “Logos”, entre os gregos, contrapõe-se a “mythos” (μυθος).

Enquanto esta designa a narrativa, originariamente oral, sem compromisso com a verdade (cfe. I Tm. 1:4, 4:7; II Tm.4:4; Tt.1:14; II Pe.1:16, em que a palavra é traduzida, na Versão Almeida Revista e Corrigida, por “fábula”), “logos” passou a expressar a “palavra escrita”, o fruto do pensamento, da razão, do raciocínio, a expressão da verdade, de onde, aliás, veio a noção grega do “Logos” como o princípio de todas as coisas ou o princípio ordenador do Universo.

-Neste sentido, pois, o “Logos” se apresenta como a própria “Palavra escrita”, como a “lei divina”, pois “lei”, na origem da palavra latina (“lex”), é “aquilo que pode ser lido”. Assim, o Verbo é, também, enquanto tal, a manifestação “escrita”, “ordenada”, a “revelação inteligente” feita por Deus ao homem.

-Mas não só a lei divina se promulgou em a natureza, o que se fez por meio do Verbo, mas também, na consciência do homem, homem que também foi feito por meio do Verbo, pois tudo o que se fez foi feito por Ele (Jo.1:3), sendo o próprio Jesus a vida que é a luz dos homens (Jo.1:4).

-Por isso, o Senhor Jesus bem sabe o que há no homem (Jo.2:25), sendo, pois, por Ele, também, que a lei divina se manifesta na consciência de cada ser humano (Rm.2:15), a segunda promulgação da lei de Deus.

-A lei divina, posteriormente, foi promulgada em tábuas de pedra (Ex.24:12), quando foi revelada a Moisés, em Seus preceitos fundamentais. Ora, como vimos supra, o que é reconhecido pelo próprio Filo, o Logos Se incorporou à Torá, até porque a lei de Moisés aponta para o Senhor Jesus em todos os seus pormenores.

-Todas as Escrituras hebraicas são cristocêntricas, falam de Cristo, d’Ele testificam (Lc.24:44; Jo.5:39). Por isso, os apóstolos, que somente tinham acesso aos escritos do Antigo Testamento, podiam pregar a Cristo com estes escritos. Assim, também nesta terceira promulgação da lei divina, vemos Jesus como o Verbo, o contacto entre Deus e os homens.

-A quarta promulgação da lei divina é a própria encarnação do Senhor Jesus. “E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1:14a).

Esta encarnação foi a revelação completa de Deus aos homens (Hb.1:1), como João fará questão de mostrar no evangelho de sua autoria. O Verbo encarnado era “Deus conosco”, a companhia da própria glória (Jo.1:14) e da majestade divinas (II Pe.1:16).

-A quinta promulgação da lei divina, a expressão da vontade de Deus ao homem, são as próprias Escrituras (Rm.15:4), a Bíblia Sagrada, completada que foi pelo Novo Testamento, que se combinam perfeitamente com o Antigo Testamento, sendo seu fiel complemento. São por elas que temos conhecimento de Deus, são por elas que alcançamos a fé salvadora (Rm.10:17). São elas que têm sido utilizadas pelo Espírito Santo para a glorificação do Verbo (Jo.16:13,14) até o dia glorioso da Sua vinda.

-A sexta promulgação da lei divina é a Palavra no coração dos homens que aceitam a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador (Hb.8:10). Quem crê no Senhor, recebe-O em seu coração (Jo.14:23), de modo que não mais vive, mas, sim, Cristo vive nele (Gl.2:20).

-Por isso, quando o salvo se apresenta ao mundo, mostra a Jesus Cristo, tendo sido o motivo pelo qual os antioquitas chamaram os salvos de “cristãos”, ou seja, “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”. Nossa natureza nova é a do Verbo e, por isso, mesmo em nossa carne, refletimos a glória de Deus encontrada no Verbo (II Co.3:18).

-A sétima promulgação da lei divina, que completa a revelação de Deus por meio do Verbo, e unicamente por Ele, é a vida de cada salvo (II Co.3:2,3). Quando aceitamos a Cristo, temos transformada nossa natureza e passamos a produzir o fruto do Espírito (Jo.15:16). Somos tão somente varas da videira verdadeira (Jo.15:4). Em virtude disto, nossas obras revelam o Filho, de tal sorte que, quando os homens vêem nossas obras, veem o Filho e glorificam ao Pai que está nos céus (Mt.5:16).

-A vida santa de cada crente autêntico e verdadeiro é mais uma forma de comunicação que se faz com Deus, por meio do Verbo, este tesouro que se encontra em vasos de barro (II Co.4:7).

Por isso, não podemos crer que pessoas que só querem aparecer, correm atrás de fama e reconhecimento sejam verdadeiras testemunhas de Jesus. Não, não e não! A testemunha de Jesus é uma prova de que o Verbo continua a fazer a comunicação, a dar o devido acesso a Deus (Hb.10:19,20).

-Esta condição de Cristo como o Verbo de Deus é a própria essência desta Pessoa divina, tanto que, na batalha do Armagedom, será como a Palavra de Deus que o Senhor Se identificará ao descer para salvar Israel e derrotar o Anticristo (Ap.19:13).

-“Palavra de Deus” na Versão Almeida Revista e Corrigida, mas que, no original, nada mais é que “logos tou theou” (“λόγος του θεου”). Como Logos é que Cristo voltará em glória para instituir Seu reino milenial e ser reconhecido como o Messias pelo povo judeu.

-Quando tomamos consciência de que Jesus é o Verbo Divino, vemos que não há outro meio para nos reconciliarmos com Deus, que não há outro caminho, que só em Cristo está a verdade, só n’Ele temos vida, que não há como ir ao Pai a não ser por Ele (Jo.14:6). Temos tido esta consciência? Que este trimestre possa no-la dar.

III – O VERBO É VIDA E LUZ AOS HOMENS

-Na descrição feita por João na introdução do evangelho, o “discípulo amado” também nos mostra que, no Verbo, estava a vida e “a vida era a luz dos homens” (Jo.1:4). Quando o Verbo Se fez carne, diz o apóstolo, “ali estava a luz verdadeira, que alumia todo o homem que vem ao mundo” (Jo.1:9).

-O Verbo, portanto, não só é o Criador de todas as coisas, mas a própria fonte de vida, entendida aqui não somente a vida física, mas, principalmente, a vida espiritual, a comunhão com Deus, pois, como se sabe, vida significa união, comunhão, enquanto morte é separação.

-O Verbo é o meio pelo qual se liga a Deus, pelo qual se tem vida, sendo esta a função precípua do Filho.

-O Verbo é a fonte da vida, a própria vida, vida esta que é a “luz dos homens”. Jesus é vida, como Ele próprio diria durante Seu ministério (Jo.14:6).

-Jesus veio nos trazer vida e vida com abundância (Jo.10:10) e somente em Seu nome poderemos ter vida (Jo.20:31). Uma vida que, como advém do “Logos”, que é eterno, é uma vida igualmente eterna, a promessa que Ele nos deu (Jo.6:40; 10:28; I Jo.2:25; 5:11).

-Quando João diz que Jesus é a luz, uma vez mais nos remete ao texto da criação em Gênesis. Lá vemos que a primeira palavra divina foi “Haja luz” (Gn.1:3).

-Assim, ao mencionar que Jesus é a luz, de pronto observamos que se reproduz, novamente, que Jesus é apresentado como sendo o princípio criador, Aquele que estendeu a luminosidade divina à criação e, por isso, é a própria Luz, como, a propósito, disse de Si mesmo, mais de uma vez (Jo.8:12; 12:46). Ao dizer que Jesus é a luz, João, também, reforça a ideia da divindade de Jesus, visto que “Deus é luz” (I Jo.1:5).

-Como o Verbo é a luz, faz com que o homem veja (Mt.6:22.24), permite ao homem que enxergue, que tenha condições de conhecer a realidade do seu Criador.

Mais uma vez, percebemos que Jesus é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus, pois é necessário que se possa ter luz para ver a Deus, para conhecê-l’O, para distingui-lo, como, aliás, deixou claro o apóstolo Paulo em seu discurso perante os mestres da filosofia grega no Areópago em Atenas (At.17:27).

-Sem a luz, não se pode ver a Deus e Jesus é, precisamente, a luz dos homens, o único meio pelo qual a humanidade pode distinguir e ver claramente quem é Deus e qual é o propósito do seu Criador em relação à sua criatura.

-Quando a luz surge, tudo ilumina e, se enxergamos e resolvemos nos pôr debaixo desta luz, somos transformados, passando a produzir boas obras (Jo.3:19-21). Entretanto, muitos preferem continuar nas trevas, não aceitam a luz, não a compreendem, continuam a praticar o mal (Jo.1:5).

-O Verbo é luz para todos os homens, o que nos mostra a universalidade desta luz. Não há outro meio, em qualquer época ou lugar, pelo qual os homens podem ver a Deus. Somente por meio do Verbo isto é possível, a única luz, luz que veio para toda a humanidade.

-É interessante observar que, mesmo os rabinos judeus, concordam que a luz mencionada em Is.60:3, luz para todas as nações, é uma referência ao Messias, a demonstrar, portanto, o caráter universal da missão do Verbo Divino.

-O Verbo, diz-nos o apóstolo João, também deve ser testificado, como havia sido testificado por João, não o apóstolo, mas o último profeta da dispensação da lei, o João Batista (Jo.1:6-8).

-Assim, embora Ele próprio Se tenha revelado de múltiplas formas, inclusive pela Sua encarnação, tinha de ser testificado pelos homens.

Não é por outra razão que o Senhor Jesus disse que nós éramos a luz do mundo (Mt.5:14-16) e que o apóstolo Paulo tenha dito que devemos ser irrepreensíveis e sinceros, inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, resplandecendo como astros no mundo (Fp.2:15). Temos de refletir a luz, porque somos testemunhas desta luz.

OBS: “…Assim como João Batista, não somos a fonte da luz de Deus; simplesmente refletimos essa luz. Jesus Cristo é a Luz verdadeira. Ele nos ajuda a enxergar o caminho para Deus e nos mostra como andar nesse caminho. (…).

A palavra ‘testemunha’ indica o nosso papel como refletores da luz de Cristo. Nunca somos apresentados como a luz para os outros, mas estamos sempre indicando a Cristo, a verdadeira Luz.” (BÍBLIA DE ESTUDO APLICAÇÃO PESSOAL, com. Jo.1:8, p.1413).

-Mas, esta luz não é apenas a luz dos homens e luz que deve ser testificada pelos homens aos homens, mas é também “a luz verdadeira que alumia todo homem que vem ao mundo”. O Verbo é a luz verdadeira, pois Ele mesmo é a verdade (Jo.14:6). A iluminação, portanto, só pode ser feita pela Bíblia Sagrada, a Sua Palavra, que é a verdade (Jo.17:17).

-Não é, portanto, sem razão que o próprio Jesus, em Seu sermão escatológico, faz questão de alertar Seus discípulos a respeito dos “falsos cristos”, dizendo para que não corramos para lá ou para cá em busca deles, pois o Verbo é “a luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao mundo”.

-É o Verbo que ilumina, não os homens que correm ao encontro d’Ele para ser iluminado, pois Ele Se encontra sempre no mesmo lugar, o lugar da Sua Palavra que não passa e que permanece para sempre (Mt.24:35; I Pe.1:25).

-Nos dias em que vivemos, muitos correm atrás desta “luz verdadeira” de um lado para outro. Estatísticas estimam em cerca de 500.000 (quinhentos mil) o número de “crentes flutuantes”, que vão de igreja em igreja, de denominação em denominação, buscando servir a Deus e isto só na região metropolitana de São Paulo. Não saiam atrás da luz verdadeira, porque é ela que alumia a todo homem.

-Devemos não correr de um lado para outro, mas buscar a “luz que alumia a todo o homem”. Onde está esta luz? No deserto? No interior da casa? Nos sinais e prodígios? Não, não e não!

-A verdadeira luz Se encontra no Verbo e o Verbo é testificado pela Palavra de Deus. “O mandamento do Senhor ilumina os olhos” (Sl.19:8 “in fine”); “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra e luz para o meu caminho’ (Sl.119:105); “A exposição das Tuas palavras dá luz” (Sl.119:130a); “Porque estes mandamentos são lâmpada, este ensino é luz” (Pv.6:23a). “A luz verdadeira” está nas Escrituras Sagradas.

-Por que, então, sermos negligentes no seu estudo, na sua meditação? “Deixa penetrar a luz! Deixa penetrar a luz! Que a formosa luz de Deus fulgure em ti e serás feliz assim” (refrão do hino 96 da Harpa Cristã, de autoria de José Rodrigues).

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11347-licao-1-o-verbo-que-se-tornou-em-carne-i

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