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LIÇÃO Nº 11 – O PAI E O ESPÍRITO SANTO

INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade, passaremos ao quarto bloco do trimestre, onde estudaremos o relacionamento do Espírito Santo com as demais Pessoas Divinas.

-O Pai mandou o Espírito Santo a pedido do Filho.

I – O ESPÍRITO SANTO: O CONTROLADOR, AVALIADOR E CHECADOR

-Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade, passaremos ao quarto e último bloco do trimestre, em que estudaremos o relacionamento entre as Pessoas Divinas, mais precisamente do relacionamento do Espírito Santo com o Pai e com o Filho, já que, ao estudarmos tanto o Pai quanto o Filho, acabamos por já estudar o relacionamento entre ambos.

-Na própria nomenclatura das Pessoas Divinas, vemos que há uma intuitiva relação entre o Pai e o Filho. Se há Filho, evidentemente tem de se ter um Pai, de forma que uma Pessoa leva natural e logicamente à outra e, de pronto, se procura estabelecer a relação entre elas.

-Quando da explícita revelação da Trindade, por ocasião do batismo de Jesus por João no rio Jordão, que inaugura o ministério público terreno de Nosso Senhor e Salvador, a voz do céu proclama que Jesus era o Seu Filho amado em que Se comprazia (Mt.3:17), de pronto já estabelecendo esta relação entre as duas Pessoas Divinas.;

-Assim, ao se analisar tanto o Pai quanto o Filho, como fizemos no trimestre, já estabelecemos a relação entre Eles.

-Daí porque, agora, neste quarto bloco do trimestre, dedicarmo-nos, apenas, ao estudo do relacionamento entre essas duas Pessoas Divinas e a terceira, o Espírito Santo, lembrando, porém, que as Pessoas Divinas relacionam-Se entre Si de igual maneira, pois, como bem sabemos, são Elas coiguais, consubstanciais e coeternas.

-Daí porque ser elucidativa a figura do triângulo para representá-las, visto que, nesta figura geométrica, vemos os vértices se relacionando igualmente entre si.

-Na própria revelação explícita da Trindade por ocasião do batismo de Jesus, vemos que o Espírito Santo Se manifesta na forma de uma pomba que desce dos céus e vem sobre Cristo (Mt.3:16).

-Nesta manifestação, já temos um fator importante: os céus se abriram e o Espírito Santo desceu de lá e lá, do céu, veio uma voz que Se identificou como sendo o Pai (Mt.3:17).

-Temos, então, que o Espírito Santo já Se mostra, na revelação explícita da Trindade, como uma Pessoa enviada pelo Pai do céu (I Pe..1:12) para que estivesse aqui na Terra sobre o Filho, o Verbo que Se fizera carne (Jo.1:14), o último Adão (I Co.15:45).

-O Espírito Santo veio do Pai e pousa sobre o Filho. Fê-lo porque, sendo o Espírito Santo, somente poderia vir sobre o Santo, como era o Filho de Deus (Lc.1:35).

-A palavra “vir” aqui é a palavra grega “erchomai” (ἔρχομαι), cujo significado é “… acompanhar, aparecer, trazer, vir, entrar, cair, ir, crescer (…) raras vezes são usadas a respeito de alguém que sai ou se vai…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 2064, p. 2211).

-O que se percebe, pois, é que esta “vinda” do Espírito Santo é uma “vinda permanente”, uma vinda para fazer companhia ao Filho durante o Seu ministério terreno, “entrar n’Ele”, trazer a Ele a necessária virtude para que desempenhasse a Sua tarefa de pregar o Evangelho, ensinar e fazer sinais e maravilhas para confirmar Sua messianidade, a fim de que Israel o recebesse como o Cristo (Mt.4:23; 9:35; Mc.1:14,14).

-Pedro explicou esta realidade na casa de Cornélio, quando disse que “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude” (At.10:34a). A vinda do Espírito Santo sobre o Filho, encheu o homem Jesus do Espírito Santo (Lc.4:1) e veio fazer companhia à Pessoa Divina do Filho.

-Tudo isto foi feito mediante o envio do Pai, que está nos céus e mandou que o Espírito Santo viesse sobre o Filho, para Lhe fazer companhia e dar a Sua plenitude para que exercesse, sob o ponto de vista humano, o Seu ministério, inclusive para nos ensinar que impossível é dar continuidade ao trabalho de Cristo sem o revestimento de poder do Espírito.

-O Pai, como “…o princípio das duas outras Pessoas, que são o Filho e o Espírito Santo…” (Catecismo Maior de Pio X, resposta à pergunta nº 25), enviou o Espírito Santo dos céus (I Pe.1:12) para que o Senhor Jesus bem executasse a Sua obra salvífica.

-Esta vinda para a companhia do Filho, a quem incumbia a execução da obra salvífica, dá ao Espírito Santo o Seu papel proeminente que, para fazermos uso uma vez mais da figura do processo administrativo, é o do controle, que o teórico da administração Jules Henri Fayol (1841-1925) definia como sendo a verificação do seguimento das normas e regras estabelecidas, ou seja, o cuidado para que nada saísse do que fora planejado.

-Ainda se utilizando da figura do processo administrativo, estamos aqui, como diz a abordagem da qualidade total na teoria da Administração, consoante o ensino de Armand Vallin Feigenbaum (1920-2014), a avaliação ou checagem, que é o monitoramento das transformações implementadas na execução da obra salvífica.

-O papel do Espírito Santo, portanto, é de criar as condições para que o plano seja efetivado, comparando aquilo que foi planejado com o que efetivamente foi efetivado e analisando os pontos que precisam de melhorias, para que se tenha a qualidade total, ou seja, o pleno cumprimento do quanto querido.

-Evidentemente, quando se trata de ações divinas, que, por sua própria natureza, são perfeitas, não há o que se corrigir ou melhorar, mas, sim, trata-se de conservar, sustentar, manter ativo, como fez o Espírito Santo seja em relação à criação, seja em relação à obra salvífica de Jesus Cristo.

-Com relação, porém, às ações humanas, que, por natureza são imperfeitas, o Espírito Santo faz as devidas correções, o devido aprimoramento e melhoria, a fim de que atingidos sejam os objetivos e propósitos divinos estabelecidos.

-Esta tarefa de aprimoramento das ações humanas é que se denomina de “santificação” e, bem por isso, se costuma dizer que o papel proeminente do Espírito Santo é a “santificação”: “… 136) Que obra é atribuída especialmente ao Espírito Santo? Ao Espírito Santo atribui-se especialmente a santificação das almas.…” (Catecismo Maior de Pio X).

-Salientemos que estamos a falar de proeminência, de preponderância, pois tanto o Pai, quanto o Filho também santificam. O próprio Catecismo Maior de Pio X o admite: “137) O Pai e o filho também nos santificam, assim como o Espírito Santo? Sim, todas as três Pessoas divinas igualmente nos santificam.”

-Mediante a santificação, passa-se à ação, outra “fase do processo administrativo”, que, na abordagem da qualidade total, é a correção e a implementação das melhorias identificadas durante a checagem. Esta ação é o que o apóstolo Paulo denomina de bom ajuste do corpo de Cristo, que é a Igreja, ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, fazendo o aumento do corpo para sua edificação em amor (Ef.4:16).

-Como afirma Agostinho (354-430):

“Se, portanto, denomina-se o Filho — o Enviado —, pelo fato de se ter tornado visível numa criatura corporal aquele que sempre permanece oculto na sua natureza espiritual para os olhos dos mortais, torna-se fácil então entender por que o Espírito Santo é também denominado “enviado”. Pois ele tornou-se igualmente, no tempo, uma espécie de criatura na qual pôde se revelar visivelmente.

Isso quando desceu por sobre o próprio Senhor na figura corpórea de uma pomba (Mt 3,16); ou quando dez dias após a ascensão, no dia de Pentecostes, veio, de repente, um ruído semelhante ao soprar de impetuoso vendaval e apareceram umas como línguas de fogo que foram pousar sobre cada um dos apóstolos (At 2,2.3).

Essa operação visível, oferecida aos olhos dos mortais, denominou-se missão do Espírito Santo, não porque se tenha manifestado em sua essência, que é invisível e incomunicável como a do Pai e a do Filho, mas para que os corações dos homens, comovidos por tais sinais exteriores, se voltassem — através da manifestação temporal daquele que veio —, para a eternidade oculta daquele que sempre está presente.” (A Trindade. Coleção Patrística. 2 ed. São Paulo: Paulus, 5.10, p.78).

-O Espírito Santo, assim, tem como papel proeminente o de controlador, avaliador ou checador, ou seja, Aquele que Se incumbe de manter a execução conforme o que foi planejado.

II – O PAI E O ESPÍRITO SANTO NA CRIAÇÃO

-Este papel preponderante de controle, avaliação ou checagem, foi previsto desde a eternidade, pois estamos
a falar de Pessoas Divinas, que como tal, como diz o Credo de Atanásio, nos seus itens 10 e 11, “O Pai é

eterno, o Filho é eterno e o Espírito Santo é eterno e, no entanto, não são três ternos, mas há apenas um eterno”
(DFAD 2.ed. Apêndice. Credos ecumênicos, p.213).

-Assim, já na Criação, o Espírito Santo desempenhou este papel, como vemos em a narrativa constante do capítulo 1 do livro do Gênesis.

-Após ter dito que todas as Pessoas Divinas, “Elohim”, criaram, no princípio, os céus e a Terra (Gn.1:1), o texto sagrado diz que o Espírito de Deus Se movia sobre a face das águas, com a terra sem forma e vazia, havendo trevas sobre a face do abismo (Gn.1:2).

-Esta passagem bíblica tem suscitado grandes debates ao longo dos séculos, pois muitos veem Gn.1:1 como a introdução do texto narrativo da criação, que se encerraria em Gn.2:1, a chamada “teoria do caos pré- criação”, enquanto outros entendem que Gn.1:2 dá início a uma “recriação” ou “restauração do quanto criado” após um caos que se teria seguido após uma catástrofe, que muitos identificam como tendo sido a queda do querubim ungido e da terça parte dos anjos que o seguiram (Ap.12:3,4), a chamada “teoria do caos pós- criação” ou “teoria do intervalo”, porque acredita haver um intervalo temporal entre Gn.1:1 e Gn.1:2.

-Esta divergência de linhas de pensamento, porém, é indiferente para o assunto que iremos tratar, qual seja, o papel do Espírito Santo em relação ao Pai. Senão vejamos.

-Como afirma o teólogo canadense Wilfred Hinderbrandt: “… Gênesis 1:2 consiste de três cláusulas nominais: ‘Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo e o Espírito de Deus (…) se movia sobre a face das águas.

Estas cláusulas são circunstanciais à cláusula principal no versículo 3: ‘Disse Deus: Haja luz, e houve luz. A questão exegética fundamental é se todas as três cláusulas descrevem a mesma situação de caos ou se a terceira cláusula permanece em contraste com as duas primeiras…” (A teologia do Espírito Santo no Antigo Testamento. Trad. de Élcio Bernardino Correia. Santo André: Academia Cristã, 2004, p.48).

-Deste modo, pouco importa se o caos é anterior ou posterior à criação, mas, sim, qual o papel do Espírito Santo em meio a este estado caótico.

-Por primeiro, cumpre observar que “o Espírito de Deus” é tradução das palavras hebraicas “ruach Elohim” ( ֱאלִהים ח_ רּו) e, de pronto, notamos que o Espírito é de “Elohim”, ou seja, provém da unidade composta, do único Deus subsistente em três Pessoas, que confirma a posição do Espírito Santo como procedente do Pai e do Filho.

-Tem-se aqui um exemplo típico que alicerça o quanto diz, com propriedade, o Catecismo Maior de Pio X: “133) De quem procede o Espírito Santo? O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, por meio da vontade e do amor, como de um só princípio.”

-Quando se verifica o texto bíblico, tem-se que as expressões “E a terra era sem forma e vazia” refere-se “…ao estado sem forma, desorganizado e sem vida (…) as trevas, mencionadas em Gênesis 1:2, são aparentemente independentes da criação de Deus, e constitui uma descrição suplementar do caos…” (HINDEBRANDT, Wilfred, idem, pp.48-9).

-Neste cenário de caos, a menção do Espírito de Deus, que é a chamada terceira cláusula, revela que o Espírito veio pôr fim à desordem, à desorganização. Como explica o teólogo já mencionado:

“… O waw [a letra que, no texto original hebraico antecede a palavra “ruach” – Espírito, que é traduzida entre nós por “e”] antes de “ruach” é melhor entendido como um waw adversativo (…). Deste modo, ele separa a descrição da situação caótica do significado simples de “ruach Elohim”. … (ibid.).

-Temos, pois, que o Espírito põe ordem no caos, ou seja, faz com que o caos esteja pronto para se tornar cosmos, ou seja, algo ordenado, para que se tenha o ato criativo e, desta maneira, vemos que o Espírito é enviado pela Trindade (ou seja, pelas outras duas Pessoas Divinas) para que se cumpra o quanto foi planejado.

-“…o “ruach” é o fôlego de Deus por meio do qual a palavra falada no versículo 3 coloca os atos criativos em efeito (…) de um modo metafórico, o fôlego que mantém o potencial ativo para a atividade criativa torna- se real por meio da fala de Deus e traz a criação à realidade (…).

É evidente que o “ruach Elohim” não está somente supervisionando a obra da criação, mas de fato está enfatizando a real e poderosa presença de Deus, que traz a palavra falada à realidade pelo Espírito. Assim, o Espírito e a palavra operam juntos para apresentar como o único Deus é responsável por tudo o que é visto no universo físico. Desta forma, o invisível tornou- se o mundo físico, material por meio do criativo e ativo Espírito

(…) A evidência acima ilustra a natureza e modo pelos quais os atos da criação foram trazidos à existência. Quando nós consideramos o padrão da narrativa da criação na qual Deus anuncia e cumpre Sua palavra, nós cremos que “o elo perdido” no padrão entre a palavra e o cumprimento é a atividade do Espírito (…).

O padrão,

(1) uma fórmula declarativa,

(2) uma ordem,

(3) a execução de uma ordem e

(4) a fórmula de aprovação, é mais completa se nós notarmos que a execução da ordem é cumprida pelo “ruach Elohim”. A palavra e seu cumprimento realizam-se por meio da poderosa força ativa do Espírito de Deus…” (HILDEBRANDT, Wilfred. idem, pp.52-4).

-Nota-se, pois, no desenvolvimento da análise feita por Hindebrandt, baseando-se em alguns exegetas do texto bíblico do início da narrativa da Criação, que o Espírito Santo foi enviado pelo Pai para como que “conservar o estado caótico”, o “nada” para que ele viesse a se tornar o “tudo que existe”, ou seja, é Ele a Pessoa Divina que é incumbida de “conservar aquilo que foi planejado” e que, posteriormente, em verificando o que foi planejado foi fielmente executado, o mantém e toma as devidas providências para que persista na “qualidade total”, e, em relação à Terra, que assim persista, já que entregue à administração humana.

-O Pai proclamou as palavras criadoras, o Filho, executou-as e o Espírito Santo Se incumbe de verificar se a execução atingiu o propósito divino e, após tudo o que ocorre, é dada a fórmula de aprovação pela Santíssima Trindade.

-Hindebrandt, ainda, menciona a teoria que vê no “mover-Se” do Espírito Santo sobre a face das águas a ideia de “chocar”, desenvolvida por alguns teólogos.

-Como bem explica o teólogo Daniel Conegero: “…O verbo “pairar” traduz um termo hebraico que indica uma “preparação cuidadosa”, como uma ave-mãe que paira sobre sua ninhada, aguardando o momento certo para agir (cf. Deuteronômio 32:11).

Então, da mesma forma que uma ave-mãe envolve seus ovos para produzir vida, o escritor bíblico apresenta o Espírito de Deus como uma águia pairando sobre as águas e o abismo primordial escondido em trevas, envolvendo aquela massa informe, e pronto para infundir vida e ordem no caos.…” (O que significa ‘O Espírito de Deus pairava sobre as águas?’. Disponível em: https://estiloadoracao.com/o-espirito-de-deus-pairava-sobre-as-aguas/ Acesso em 09 nov. 2025).

-Nesta linha de pensamento, também, temos a mesma situação do pensamento anteriormente desenvolvido, porquanto o Espírito Santo é enviado pelo Pai à criação caótica (primitivamente caótica ou caótica após a rebelião de Lúcifer, tanto faz), com o fim de preservá-la e cuidar para que, consoante a execução feita pelo Verbo, ante o plano do Pai, seja ela verificada para ser posteriormente aprovada pelo Deus Criador, Pai, Filho e Espírito Santo.

-Neste ponto, aliás, conquanto Conegero tenha preferido ligar a figura da “ave-mãe” à águia, Hindebrandt prefere entender que se esteja aí diante de uma “pomba”, pois a primeira referência à “pomba” nas Escrituras está, precisamente, num contexto de recriação, em Gn.8:8-12, quando Noé, após ter soltado um corvo, depois que as águas do dilúvio minguaram, não saiu da arca senão quando a pomba não mais retornou para a arca, ou seja, a exemplo do Espírito Santo que veio sobre Jesus, “foi fazer companhia, veio para a natureza para não mais voltar”.

-Assim entende, também o comentarista bíblico judeu da Idade Média, Shlomo Yitzhaki (1040-1105), conhecido como Rashi: “O Espírito de Deus movia-Se: o trono da glória permanecia no ar e movia-Se sobre a face das águas pelo Espírito da boca do Santo, bendito seja Ele, e pela Sua Palavra como uma pomba que

choca sobre o ninho’ (apud HINDEBRANDT, Wilfred. idem, p.55), muito provavelmente se baseando no mestre judeu Ben Zomá, que viveu entre o final do século I e início do século II, que diz que “…o Espírito de Deus estava chocando sobre a face das águas como uma pomba que choca sobre os filhotes, mas não os toca…” (Talmude Babilônico. Tratado Hagigah 15a).

-Assim, tem-se no episódio da pomba na arca uma elucidativa figura da ação do Espírito Santo como vinda do Pai. Noé, que passou a ser o pai da humanidade ante o dilúvio, tanto que o Senhor lhe repete a ordem dada a Adão (Gn.9:1), envia a pomba para fora da arca, para o lugar que fora devastado em virtude do pecado, para o caos, indicando com isto o que fez o Pai ao enviar o Espírito Santo.

-O Espírito Santo não só é enviado para o caos (seja antes da criação ou após a rebelião do querubim ungido, tanto faz), como também para a Terra após o pecado do homem, tanto que é dito que o Espírito começou a contender com a humanidade antediluviana (Gn.6:3).

-Entretanto, assim como a pomba na arca (Gn.8:9), o Espírito Santo não encontrou guarida, lugar para pousar, pois todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Gn.3:23; 5:12).

-Quando muito, o Espírito Santo só visitava alguns homens, os profetas, utilizando-os seja para transmitir mensagens ao povo (Hb.1:1), como as profecias e os cânticos registrados no Antigo Testamento, a partir de Enoque (Jd.14), seja mesmo para fazer os registros sagrados (II Pe.1:20,21), a partir de Moisés.
-Assim como a pomba voltou para a arca, o Espírito Santo, mesmo visitando alguns, retornava, não permanecia entre os homens.

-O relato bíblico diz que, sete dias depois, Noé soltou novamente a pomba e ela retornou ao final da tarde, com uma folha de oliveira no seu bico (Gn.8:11). A pomba havia encontrado pouso, numa oliveira, mas ainda não tinha condições de ficar fora da arca.

-Isto nos fala, precisamente, do envio do Espírito Santo, que encontrou guarida no Filho, no Verbo encarnado, como se verifica explicitamente no batismo de Jesus (Mt.3:16).

-Em verdade, o Senhor Jesus já foi gerado como homem por obra e graça do Espírito Santo (Lc.1:35), tendo sido cheio no dia de Seu batismo por João (Lc.4:1), não tendo, pois, a natureza pecaminosa, bem como nunca tendo pecado (Jo.8:46; Hb.4:15; 9:28), o que permitiu que estivesse sempre na comunhão com o Espírito Santo.

-Durante todo o dia, que representa a peregrinação terrena de Cristo sobre a Terra, o Espírito Santo esteve com Ele (Is.11:1,2; Jo.9:4; 3:34).

-A folha de oliveira representa Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que, depois de ter descido do céu, a Ele volta, triunfante e na companhia do Espírito Santo (At.1:11; 2:32,33; eAp.5:6,7).

-Entretanto, Noé manda a pomba pela terceira vez para fora da arca e, nessa ocasião, a pomba não mais volta (Gn.8:12). Temos aqui, então, o envio do Espírito Santo pelo Pai no dia de Pentecostes (At.1:4,5; 2:1-4,33) e, desde então, está o Espírito entre os homens, convencendo-os do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:7-11).

-Este envio do Espírito Santo pelo Pai, esta processão é denominada pelos teólogos de “aspiração” ou “espiração”, porque como que o Pai “respira” o amor mútuo entre o Pai e o Filho, este “respiro” que chega até nós é a Pessoa Divina do Espírito Santo.

-Como ensina Tomás de Aquino: “Em Deus há duas processões, a do Verbo e uma outra. O que se evidencia considerando que em Deus a processão implica um ato que não tende a nenhum termo extrínseco, mas permanece no próprio agente. Ora, tal ato, nos seres de natureza intelectual, pertence ao intelecto e à vontade.

Ora, a processão do Verbo implica um ato inteligível. Segundo, porém, o ato da vontade, há em nós outra processão — a do amor, pela qual o amado está no amante, assim como, pela concepção do verbo, a coisa dita ou inteligida está no inteligente. Donde, além da processão do Verbo, há em Deus outra processão, que é a do Amor” (Suma Teológica I, q.27, a.3).

-Daí porque dizer o Catecismo Maior de Pio X: “135) Por que a terceira Pessoa da Santíssima Trindade é chamada particularmente com o nome de Espírito Santo? A Pessoa da Santíssima Trindade é designada particularmente com o nome de Espírito Santo, porque procede do Padre e do Filho por meio de aspiração e de amor.”

-Assim como um vento, que é o ar em movimento, traz para um determinado ambiente as suas características, o Espírito Santo traz à Criação as características divinas, visto que é Deus (At.5:3,4) e, por isso mesmo, é a Pessoa Divina incumbida de derramar no coração daquele que crê em Jesus o amor de Deus (Rm.5:5).

-Uma vez mais evocando o Catecismo Maior de Pio X: “138) Se assim é, por que a santificação das almas é atribuída, em especial, ao Espírito Santo? Atribui-se em especial ao Espírito Santo a santificação das almas porque é uma obra de amor, e as obras de amor são atribuídas ao Espírito Santo.”

III – O PAI E O ESPÍRITO SANTO NA SALVAÇÃO

-Tendo sido vista a relação entre o Pai e o Espírito Santo na Criação, vejamos agora como se já a relação entre essas Duas Pessoas Divinas na Salvação ou Redenção.

-Ora, Deus é Salvador (I Tm.2:3), de modo que, assim como na Criação, temos a participação de toda a Santíssima Trindade, também, na Salvação ou Redenção, estão presentes todas as Pessoas Divinas, cada qual exercendo o Seu papel proeminente.

-“…O Pai planejou a redenção [Tt.1:2], e o Filho realizou-a [Jo.17:4; Hb.5:9]. Quando o Filho retornou ao céu, o Espírito Santo foi enviado pelo Pai e pelo Filho para ser o Consolador e o Ensinador [Jo.14:26] …” (DFAD 2.ed., II.1, p.40).

-Na verdade, o Espírito Santo já foi enviado pelo Pai para inspirar os profetas, que mantinham viva a promessa da redenção (Mt.12:36; At.1:16; Hb.1:1). Era O Pai incumbindo o Espírito para que se conservasse na memória dos homens a promessa da redenção feita desde o dia da queda no Éden.

-Em I Pe.1:11,12, é dito que os profetas profetizaram da graça que nos seria dada e que traria salvação a todos os homens (Cf. Tt.2:11), inquirindo e tratando diligentemente da salvação, indagando em que tempo ou que ocasião ela se daria, enquanto o Espírito que neles estava testificava dos sofrimentos que a Cristo haveriam de vir e a glória que se lhes havia de seguir, tendo-lhes sido revelado que, não para eles mesmos, mas para os discípulos de Jesus ministravam essas coisas, discípulos estes que, pelo mesmo Espírito Santo, agora pregam o Evangelho.

-Mais uma vez, temos o Espírito Santo atuando como o controlador, o avaliador ou checador, Aquele que incumbe para que a promessa da salvação não se perdesse, fosse mantida viva, fosse conservada geração após geração.
-Esta atuação do Espírito Santo revela-se de modo proeminente no período intertestamentário, o
período do chamado “silêncio profético”, entre Malaquias e João Batista.

-Alguém pode dizer: mas se o Espírito Santo atuava por meio dos profetas para conservar viva a promessa da redenção, como diz que a atuação do Espírito se fez sentir precisamente quando não houve profetas?

-Apesar de não ter havido profetas neste período, a história nos mostra que o povo judeu não perdeu a esperança messiânica. Pelo contrário, houve até um aguçamento dela naquela época, como mostram diversos fatos, como o próprio surgimento da chamada “literatura apocalíptica” e isto foi, sem dúvida, ação do Espírito

Santo, como bem demonstra o exemplo do velho Simeão, a quem o Espírito disse que não morreria sem antes ver o Messias (Lc.1:25-35).

OBS: “…A esperança messiânica aumentou significativamente durante o período intertestamentário (aproximadamente 400 a.C. até o nascimento de Jesus). Esse intervalo entre o último profeta do Antigo Testamento (Malaquias) e o Novo Testamento foi marcado por sofrimento, opressão política e fervor religioso, fatores que alimentaram intensamente a expectativa por um Messias libertador. (…)

Sim, a esperança messiânica cresceu muito no período intertestamentário, impulsionada por: Crises políticas (especialmente sob selêucidas e romanos), Literatura apocalíptica, Reinterpretação profética, Diversidade de expectativas (guerreiro, sacerdote, juiz celestial).

Quando Jesus nasceu, Israel vivia uma das maiores febres messiânicas de sua história — por isso Simeão, Ana, os magos e até Herodes reagiram com tanta intensidade à notícia do “rei dos judeus”.” (Grok em resposta a questão: a esperança messiânica aumentou durante o período intertestamentário?).

-O Espírito Santo atua, então, no processo de encarnação do Verbo, pois é enviado pelo Pai para descer sobre Maria e, nesta ação, gerar, juntamente com o Filho, a célula-ovo que materializaria o corpo preparado pelo Pai ao Filho.

-No processo da encarnação, vemos que o corpo foi preparado pelo Pai (Hb.10:5) e “preparar” aqui é a palavra grega “kataretidzo” (καταρτίζω), cujo significado é “…completar integralmente, reparar (literal ou figurado) ou ajustar:— encaixar, adequar, consertar, reparar, (tornar) perfeito, aperfeiçoar, unir perfeitamente, preparar, restaurar…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento, verbete 2675, p.2259).

-O Pai planejou um corpo perfeito para o Filho, a quem enviou para a Terra, e a execução deste plano ficou a cargo tanto do Filho, que Se fez carne (Jo.1:14), quanto do Espírito Santo, que desceu sobre Maria e a cobriu com a Sua sombra (Lc.1:35; Mt.1:18,20), gerando, assim, a célula-ovo que, após regular desenvolvimento, nasceu e, como recém-nascido, foi envolto em panos numa manjedoura (Lc.2:7,12,16).

-Este desenvolvimento do Verbo encarnado prosseguiu ao longo dos anos (Lc.2:52), crescimento tanto físico quanto espiritual, atuando, pois, o Espírito Santo no crescimento em sabedoria e em graça do menino, adolescente e jovem Jesus, como se pode ver pela inteligência e resposta dada aos doutores da lei quando tinha doze anos de idade (Lc.2:47), quando já revela, inclusive, a José e Maria, que tinha de tratar dos negócios do Pai (Lc.2:49).

-No batismo de Jesus, o Espírito Santo, enviado pelo Pai, enche o Verbo encarnado (Lc.4:1), como estava profetizado (Is.11:1,2).

-A atuação do Espírito sobre Jesus foi sem medida (Jo.3:34), pois Jesus não tinha pecado e n’Ele o Espírito
havia pousado de forma definitiva (Mt.3:16; Lc.3:22; Jo.1:33), como já se disse supra.

-Quando Cristo estava na cruz, o Espírito Santo já convenceu ao ladrão arrependido de que Jesus era o Salvador, tanto que ele creu no Senhor, tendo sido a primeira a ser salva e a entrar diretamente para o Paraíso ou terceiro céu (II Co.12:4; Lc.23:42,43), pois ninguém diz que Jesus é o Senhor a não ser pelo Espírito Santo (I Co.12:3).

-Por fim, a pedido do Filho, quando Este Se assentou à direita do Pai (At.2:33), o Espírito Santo é enviado aos discípulos no dia de Pentecostes, enchendo-os (At.2:4; 4:8,31; 6:3; 7:55; 9:17; 10:44,45,47; 11:15,16,24; 13:9,52), para com eles estar e habitar neles (Jo.14:16,17; At.1:8; I Co.6:19; II Tm.1:14).

-Esta vinda do Espírito Santo é chamada pelo Filho de “promessa do Pai” (Lc.24:49; At.1:4), pois foi algo prometido pelo Pai por intermédio do profeta Joel (Jl.2:28,29; At.2:16-21).

-Nesta companhia e habitação, o Espírito Santo, enviado pelo Pai em nome do Filho, ensina todas as coisas, faz os discípulos de Jesus lembrar de tudo quanto Jesus dissera (Jo.14:26), guia em toda a verdade, diz tudo que tiver ouvido, anuncia o que há de vir, glorifica o Filho (Jo.16:13,14; At.16:6; 20:23; 21:11; I Co.2:13), diz o que deve falar o discípulo quando este for entregue às autoridades por causa do Evangelho (Mc.13:11; Lc.12:12), deseja com a Igreja o arrebatamento (Ap.22:17).

-Em todas estas ações, o Espírito Santo promove a edificação espiritual dos discípulos de Cristo, contribuindo decisivamente para que venham a se conformar à imagem do Filho (Rm.8:29), a se manterem puros para a vinda do Senhor (I Jo.3:2,3; Tt.3:4-7).

-Em sendo assim, continua a realizar a Sua tarefa precípua de santificação (II Ts.2:13; I Pe.1:2), que é, conforme a analogia que fizemos com a abordagem da qualidade total, em teoria da Administração, a checagem para que se alcance a máxima melhoria, atingindo-se o quanto planejado, ou seja, o propósito traçado pelo Pai.

 Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12196-licao-11-o-pai-e-o-espirito-santo-i

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