LIÇÃO Nº 11 – UMA IGREJA HEBREIA NA CASA DE UM ESTRANGEIRO
– Na sequência do estudo sobre a igreja em Jerusalém, estudaremos a ação missionária de Pedro em Cesareia, na casa de Cornélio.
– Pedro abriu a porta do Evangelho aos gentios em Cesareia.
I – PEDRO E O CRESCIMENTO DA IGREJA NA JUDEIA
– Conforme já vimos em lição anterior, o capítulo 9 é destinado ao relato da conversão de Saulo e do início de seu ministério, como pregador tanto em Damasco como em Jerusalém, fato que levou a uma momentânea desaceleração da perseguição da Igreja.
– No entanto, a dispersão levara o Evangelho a Judeia, Samaria e Galileia, com a multiplicação de igrejas locais, que andavam no temor do Senhor e consolação do Espírito Santo (At.9:31).
– Até então, porém, o Evangelho não havia chegado ainda “até aos confins da Terra”. Filipe evangelizara os samaritanos que, apesar de ser um povo misturado que havia adotado parcialmente princípios judaicos (II Rs.17:24-41), eram, de certo modo, vinculados ao “mundo israelita”.
– Até mesmo a conversão do mordomo-mor da rainha dos etíopes não deixava de ser a conversão de um prosélito do judaísmo, prosélitos que haviam sido alcançados desde o dia de Pentecostes (At.2:10).
– O Evangelho ainda não havia se mostrado como “o poder de Deus para salvação tanto do judeu quanto do gentio” (Rm.1:16), pois os gentios propriamente ditos, ou seja, aqueles que não tinham qualquer ligação ou relação com o judaísmo, não haviam sido alcançados pelo anúncio da Palavra (Cf. At.11:19).
– Apesar das palavras de Jesus anunciando que o Evangelho deveria ser pregado por todo o mundo a toda a criatura (Mc.16:15), a todas as nações se pregasse o arrependimento e remissão dos pecados, apenas se começando por Jerusalém (Lc.24:47),
que os discípulos deveriam ser testemunhas em Jerusalém, Judeia e Samaria e até aos confins da Terra (At.1:8), que o Senhor Jesus tinha de agregar ovelhas de outro aprisco, além dos filhos de Israel (Jo.10:16), a mente da igreja em Jerusalém não conseguia ainda entender que viviam um novo tempo no plano da salvação, que Israel havia rejeitado o Cristo e que, com isso, era hora de pregar as boas novas de salvação aos gentios (Jo.1:12).
– A mentalidade vigente continuava a ser de que o povo de Deus era Israel e que, para desfrutar da salvação em Jesus, necessário se fazia primeiramente pertencer ao povo judeu, fazendo-se um prosélito, o que implicava em se circuncidar e passar a observar a lei de Moisés, para, então, obter a vida eterna (Cf. At.15:5).
– No entanto, não era esta a realidade, porquanto Jesus havia morrido por toda a humanidade e, com Seu sacrifício vicário, restabelecido a amizade entre Deus e os homens, independentemente da nação a que pertenciam (I Jo.2:2; Ap.5:9).
– Na ascensão, o Senhor já dissera aos discípulos que não deveriam mais se preocupar com os planos divinos para com Israel, devendo dedicar-se à pregação do Evangelho para todos os homens (At.1:6-8).
– No dia de Pentecostes, embora o auditório fosse de judeus e prosélitos, a escolha do Senhor por este auditório, com judeus de várias nações e a manifestação das línguas estranhas e o povo a ouvir as grandezas de Deus em seus próprios idiomas, num movimento contrário ao que ocorreu em Babel, onde surgiram as nações, já era um indicativo de que se estava a inaugurar um novo tempo, que atingiria a todos, mas os discípulos não tiveram tal discernimento.
– Pedro, mesmo, no sermão que proferiu após a cura do coxo da porta Formosa do templo, dissera que o intuito da pregação do Evangelho era a vinda dos tempos do refrigério pela presença do Senhor e que haveria um tempo até a vinda de Jesus desde os céus para a restauração de tudo conforme as profecias messiânicas ainda não cumpridas (At.3:19-21).
– Mesmo assim, porém, mesmo diante desta mensagem inspirada pelo Espírito Santo, era um dos que ainda
entendia ser necessário primeiro pertencer a Israel para só depois vir a ser “nazareno” ou “do Caminho”.
– Como prova de que o Espírito Santo está na Terra para glorificar o Filho e para nos fazer lembrar as palavras ditas pelo Senhor Jesus (Jo.16:14; 14:26), no instante em que Paulo volta a Tarso, para ser devidamente preparado para o trabalho que faria perante os gentios, não é com Filipe que se abrirá a porta do Evangelho aos gentios, mas, sim, com Pedro.
– Com efeito, a Pedro que o Senhor Jesus havia dado as chaves do reino dos céus, duas chaves, para abrir a porta da graça primeiramente aos judeus, o que já fizera no dia de Pentecostes, e, agora, para os gentios, em Cesareia, onde haveria de pregar na casa de Cornélio (Mt.16:19), pois assim se edificaria a Igreja, com judeus e gentios (Ef.2:11-14).
– Após a experiência tida em Samaria, os apóstolos passaram a vistoriar, supervisionar as igrejas formadas na Judeia, Samaria e Galileia.
– Pedro era um deles e, portanto, ia por toda a parte, chegando a Lida (At.9:32), cidade que ficava no caminho entre Azoto e Cesareia e que, portanto, deve ser sido inicialmente evangelizada por Filipe.
– A Pedro havia sido dado o apostolado dos judeus, denominado por Paulo de “apostolado da circuncisão” (Cf. Gl.2:7,8), em mais uma evidência de que Pedro não havia sido constituído como “pastor universal da Igreja”, como defendem os romanistas.
– Em Lida, Pedro foi usado por Deus para a cura de Eneias, um homem que estava há oito anos paralítico, episódio que demonstra, com absoluta clareza, que o evangelho pregado ali era o mesmo que havia sido pregado em Samaria, o evangelho segundo o qual Jesus salva, cura, batiza com o Espírito Santo e brevemente voltará.
– Este sinal serviu de impulso para a conversão de vidas tanto em Lida quanto em Sarona, cidade próxima (At.9:35).
– Eis a grande diferença entre a pregação genuína e completa do Evangelho e aquela que é feita apenas em torno de discursos vãos e, não raras vezes, por ganância.
– O Evangelho não fica apenas nos sinais e maravilhas, mas traz também conversão de almas e batismo com o Espírito Santo.
– Nos dias hodiernos, vemos até a operação de sinais e maravilhas, mas, em muitos lugares, após a cura física, após o milagre, nada mais vemos.
– Não há revestimento de poder e, o que é mais grave, não há conversão, não há transformação de vidas. O Evangelho completo não só proclama que Jesus dá saúde, como também promove a transformação de vidas. Lembremos disto!
– Pedro ainda estava em Lida quando é chamado por alguns discípulos de Jope (que também deve ter sido evangelizada por Filipe) para que ele para lá se dirigisse.
– Ali, Dorcas, uma discípula, havia morrido e os crentes, em vez de sepultá-la, mostrando sua fé em Jesus, foram chamar Pedro para que ele fosse até onde eles estavam sem demora, pois haviam lavado o corpo da falecida e a depositado em um quarto alto (At.9:36-38).
– Pedro já era conhecido por ser um homem que realizava sinais e maravilhas. Havia efetuado o primeiro milagre da igreja em Jerusalém, a cura do coxo da porta Formosa do templo de Jerusalém (At.3:6-8) e, a partir de então, muitos outros sinais, a ponto de que as pessoas iam ao seu encontro para receberem curas de enfermidades (At.5:15,16).
– Neste registro de Lucas, vemos que não se constitui em pecado procurar a cura de enfermidades ou qualquer outro sinal junto a algum servo do Senhor que tem sido usado por Deus neste ministério.
– O que se devem evitar, porém, são duas atitudes que, vez por outra, acompanham esta procura.
– A primeira é a da idolatria, passar-se a achar que Jesus só cura por intermédio daquela pessoa. Buscar a pessoa e não a Jesus é um erro fatal, é pecado. Os irmãos de Jope não foram procurar Pedro porque achavam que Pedro era o curador, mas, sim, porque sabiam que Jesus tinha escolhido Pedro para realizar sinais, prodígios e maravilhas.
– A segunda é a da soberba, pois tais pessoas buscam a glória que somente a Deus pertence (Is.42:8), como se fossem eles os poderosos e não meros instrumentos do poder de Deus em suas vidas.
– Bem por isso as Escrituras chamam estas pessoas de “falsos cristos” e “falsos profetas” (Mt.24:24). São “falsos cristos”, porque tomam o lugar de Jesus, como se fossem eles os mediadores entre Deus e os homens, a fonte do poder sobrenatural que realiza sinais, prodígios e maravilhas.
– Não é por outro motivo que o próprio Jesus diz a Seus discípulos para que não creiam quando se disser “Eis que o Cristo está aqui ou ali”, porque, na verdade, Jesus sempre estará conosco (Mt.28:20), em nós (Jo.14:23) e, quando estivermos reunidos em Seu nome, no meio de nós.
– São “falsos profetas”, porque não são mensageiros de Deus, não falam a Palavra de Deus, mas apenas as suas próprias palavras, pois querem ser enaltecidos pelos homens, querendo atraí-los para si e não para Cristo (At.20:30).
– Em nossos dias, muitos falsos cristos e falsos profetas têm se levantado e, com a realização de sinais, prodígios e maravilhas, enganado a muitos (Mt.24:24). Não devemos acreditar nestes que, como lobos cruéis,
querem nos levar seja ao deserto, seja ao interior da casa, para ali nos devorarem, fazer-nos presa sua? (Mt.24:26). Tomemos cuidado, amados irmãos!
– Mas há, ainda, um fator que contribui para o aparecimento deste tipo de gente. É a falta de discípulos que realizem sinais, prodígios e maravilhas. Se, em Jope, houvesse algum crente que realizasse sinais, iriam eles procurar Pedro em Lida? Certamente que não!
– Muitos hoje estão a criticar irmãos que frequentam nossas igrejas locais mas vão à procura destes falsos cristos, falsos profetas, falsos apóstolos e mercadores da fé.
– É realmente reprovável que pessoas que conheçam o Evangelho venham a se deixar levar pelas falsas teologias da confissão positiva e da prosperidade e corram atrás de sinais, prodígios e maravilhas, quando a Palavra de Deus diz outra coisa que não o que tem sido propagandeado por aí.
– Mas, é igualmente reprovável que tais pessoas não encontrem, em suas igrejas locais, servos do Senhor que sejam usados por Deus e realizem sinais, prodígios e maravilhas. Se o poder de Deus estivesse atuando em suas igrejas, certamente que estas pessoas não iriam atrás de milagres em outros lugares.
– Que tal, em vez de criticar esta ida das pessoas de nossa membresia a tais lugares, buscarmos o poder de Deus e vermos o Senhor realizar milagres onde nós congregamos?
– Pedro foi com eles e lá chegando, foi rodeado pelas viúvas que, chorando, mostravam as túnicas e vestidos que Dorcas fizera para elas enquanto estava com elas.
– Pedro, então, pediu que todas saíssem e, no quarto, pôs-se de joelhos e orou e ressuscitou Dorcas, o primeiro milagre de ressurreição relatado na história da Igreja (At.9:40).
– Este sinal também abriu o caminho para a conversão de muitos em Jope, tendo, então, Pedro ali ficado, na casa de um certo Simão, curtidor (At.9:42,43).
II – PEDRO NA CASA DE CORNÉLIO
– É neste momento que o Senhor começa a trabalhar para que o Evangelho chegasse aos gentios.
– Um anjo se apresenta a Cornélio, centurião da coorte italiana, ou seja, oficial do exército romano em Cesareia, onde ficava a capital romana da Judeia.
– Cornélio, embora fosse romano, era um homem piedoso, que dava esmolas e de contínuo orava a Deus.
– Há quem relacione Cornélio ao centurião que comandou a tropa na crucifixão de Jesus (Mt.27:54; Mc.15:39; Lc.23:47), mas se trata de uma ilação que não se pode comprovar biblicamente.
– Nesta visão do anjo, foi-lhe mandado que trouxesse Pedro, que estava na casa de Simão, o curtidor, em Jope, que lhe diria o que deveria fazer para que tivesse um relacionamento com Deus (At.10:1-6).
– Este relato da visão de Cornélio apresenta preciosas lições.
– Por primeiro, que Deus não está alheio às boas obras feitas pelos homens, ainda que eles não sejam salvos.
– Deus contempla a todos e tudo sabe, tudo vê. Ele é onipresente e onisciente, de forma que não devemos nos preocupar com o que acontece ao nosso redor. Muitos, sem qualquer necessidade, são tomados por apreensões, angústias, temores a respeito do que estão a maquinar contra si, não raro desenvolvem até uma “síndrome do pânico”.
– Tudo isto é falta de fé. O mesmo Deus que sabia muito bem o que Cornélio fazia de bom, também vê e conhece tudo quanto é feito, tanto de bom quanto de mau. Por isso, tranquilizemo-nos, pois o Senhor está sempre ciente do que está acontecendo.
– Por segundo, embora Deus tenha pleno conhecimento das boas obras feitas pelos homens, elas não podem trazer salvação.
– Cornélio era um varão piedoso, que dava esmolas e orava de contínuo a Deus e suas esmolas e orações subiam à presença de Deus, mas não era um homem salvo.
– Para alcançar a salvação, é preciso crer em Jesus. Era isto que Pedro falaria a Cornélio, era disto que Cornélio
precisava para ser salvo. Como diz conhecido cântico, “sem Jesus, não dá”!
– Por terceiro, anjos existem e estão para servir a favor daqueles que vão herdar a salvação (Hb.1:14), mas eles nada podem fazer para nos salvar, para nos conceder a vida eterna.
– O anjo foi enviado para Cornélio para que este trouxesse Pedro a fim de que pudesse lhe falar o que é devido. Anjos não são para ser adorados, nem tampouco devemos dirigir-lhes oração.
– Quem nos deve orientar é a Palavra de Deus, o Evangelho é o poder de Deus para salvação, salvação que se dá pela fé em Jesus. Não adianta irmos atrás de anjos ou querermos ver anjos. Cornélio viu um anjo, mas não foi salvo por causa disso.
– Por quarto, o Evangelho tem de ser pregado pelos homens. O anjo apareceu a Cornélio, mas quem deveria pregar a Palavra era Pedro, não o anjo.
– Deus, na Sua infinita graça e misericórdia, pode usar de meios naturais e sobrenaturais para criar condições para que o Evangelho seja pregado, mas é à Igreja, nesta dispensação, que é imposta esta obrigação e ai de nós se não nos desincumbirmos desta responsabilidade (I Co.9:16)!
– Após ter trabalhado com Cornélio, por meio da mensagem angelical, o Senhor passa a trabalhar com Pedro.
– Quase à hora sexta, Pedro subiu ao terraço, na casa de Simão, o curtidor, para orar. Vemos que não era à toa que Pedro era usado por Deus com sinais e maravilhas: tinha uma vida de oração.
– Era perto do meio-dia, Pedro estava em oração, enquanto lhe preparavam o almoço. Teve, então, um arrebatamento de sentidos e uma visão de um grande lençol arado pelas quatro pontas e vindo para a terra no qual havia de todos os animais quadrúpedes e répteis da terra e aves do céu, ouvindo uma voz que lhe dizia: Pedro, mata e come.
– Pedro, então, respondeu que de modo nenhum comeria aquilo, pois nunca havia comido coisa imunda, tendo, então, a voz lhe dito que não podia chamar imundo aquilo que Deus purificara (At.10:11-15). Esta visão se repetiu por mais duas vezes.
– Pedro ainda duvidava a respeito desta visão, quando chegaram as pessoas mandadas por Cornélio para buscá- lo, tendo, então, o Espírito Santo mandado que fosse com eles, o que fez no dia seguinte (At.10:19-24).
– Esta dúvida de Pedro, que não se dissipou completamente, tanto que, apesar de tudo, o apóstolo, ao entrar na casa de Cornélio, considera que estava a fazer o que não lhe era lícito (At.10:28), reflete a dificuldade que temos de transpor as barreiras culturais quando da pregação do Evangelho que, por ser o poder de Deus, não está sujeito a elas.
– Apesar de ter pregado em Samaria, de ser grandemente usado por Deus, Pedro, como um homem, era preso às suas raízes culturais, à sua formação, ainda mais sendo, como era, um judeu, povo que primava pela sua identidade frente às demais nações.
– Assim, não tinha, mesmo, condições de simplesmente renegar toda a sua história de vida e aceitar facilmente que o Evangelho também era destinado aos gentios.
– Após ter ouvido de Cornélio o relato da visão do anjo, Pedro, entendendo o significado da sua própria visão do grande lençol, reconheceu que Deus não fazia acepção de pessoas e, incontinenti, começou a pregar a Cristo. Uma vez mais vemos que a mensagem que deve ser pregada é Jesus Cristo e Este, crucificado (At.10:34-44).
– Enquanto Pedro pregava, Cornélio e os que estavam com ele creram na Palavra e, como prova disso, o Senhor os revestiu de poder, passando eles a falar em línguas estranhas, como havia acontecido desde o dia de Pentecostes (At.10:44-46).
– Este batismo com o Espírito Santo, antes mesmo do batismo nas águas, tinha uma razão de ser: não fosse o revestimento de poder, não seria possível a derrubada da barreira cultural.
– Não fosse o revestimento de poder, jamais aceitariam que os gentios se batizassem nas águas sem antes pertencer ao povo judeu mediante a circuncisão e todas as demais exigências constantes da tradição para alguém se tornar um prosélito.
– Como “dom de Deus”, que Pedro já sabia não ser alcançado por dinheiro, o batismo com o Espírito Santo
também não era alcançado pela cultura ou pela religiosidade, muito menos pela nação.
– Esta lição Pedro não tinha ainda aprendido e o batismo com o Espírito Santo de Cornélio e dos que com ele estavam era necessário para que se fizesse tal aprendizado.
– Pedro permitiu que estes gentios fossem batizados nas águas e, como se não bastasse, ainda ficou alguns dias na casa deles (At.10:48). Iniciava-se, assim, a Igreja entre os gentios, utilizava-se Pedro da “segunda chave” que lhe fora dada pelo Senhor para abrir a porta do Evangelho (Cf. Mt.16:19).
III – A REAÇÃO DA IGREJA EM JERUSALÉM À PREGAÇÃO NA CASA DE CORNÉLIO
– Esta notícia não tardou chegar a Jerusalém, aos apóstolos. Quando Pedro retornou, teve uma recepção não muito agradável, pois parte dos irmãos, que Lucas chama como sendo “os da circuncisão”, passaram a repreendê-lo porque havia entrado na casa de varões incircuncisos e comido com eles (At.11:2).
– A tradição judaica vedava a presença dos judeus em ambientes habitados ou frequentados pelos gentios, pois, em tais locais, certamente não eram observadas as rigorosas regras de purificação seguidas pelos israelitas (Cf. Mc.7:2-4; Jo.18:28) e, portanto, entrar nestes locais causaria a impureza e o judeu, então, teria de se purificar, inclusive apartando-se dos conterrâneos até efetuar tal purificação.
– Por isso, tinha Pedro dito, assim que entrou na casa de Cornélio, que não era lícita a sua conduta, pois estava a violar a tradição judaica ingressando na casa de um gentio, mas ele havia entendido, pelas visões que tinha tido, que Deus não fazia acepção de pessoas e que não se deveria submeter a tais tradições em detrimento da salvação das almas e da própria pregação do Evangelho, mostrando, claramente, que o Evangelho estava acima das culturas.
– Notemos que a notícia que havia chegado a Jerusalém era de que os gentios haviam recebido a Palavra de Deus (At.11:1), mas “os da circuncisão” estavam tão somente interessados no fato de Pedro ter entrado na casa de um incircunciso e comido com incircuncisos.
– É sempre assim: os legalistas, os formalistas estão tão somente preocupados com a aparência externa, com rituais, liturgia, sem se importar em ver “o homem do lado de dentro”, com a operação do Espírito Santo na vida dos alcançados pelo Evangelho.
– A igreja não deve julgar segundo a aparência, mas segundo a reta justiça, como, aliás, já ensinara o Senhor Jesus durante Seu ministério terreno (Jo.7:24).
– Barnabé, ao ir até Antioquia, onde se instalaria a primeira igreja gentílica, teve esta visão do homem interior, tanto que, ao ali chegar, “viu a graça de Deus e exortou a todos que permanecessem no Senhor com propósito do coração” (At.11:23).
– Pedro, então, diante destas acusações, relatou toda a experiência que tivera em Jope e os fatos que haviam ocorrido na casa de Cornélio e, diante disto, mesmo “os da circuncisão” se apaziguaram e glorificaram a Deus, reconhecendo que até aos gentios Deus havia dado o arrependimento para a vida (At.11:4-18).
– O relato de Pedro havia apaziguado “os crentes da circuncisão”, mas não seria suficiente para dissipar a mentalidade cultural judaica predominante ainda na Igreja, o que se faria tão somente quando do Concílio de Jerusalém, como teremos ocasião de estudar em lição próxima.
IV – BARNABÉ E O SURGIMENTO DA PRIMEIRA IGREJA LOCAL GENTÍLICA EM ANTIOQUIA
– Apesar de o Evangelho ter sido aberto aos gentios através de Pedro na casa de Cornélio, em Cesareia, não seria em Cesareia que se teria a primeira igreja local gentílica.
– Na verdade, os gentios salvos e revestidos de poder em Cesareia foram congregar juntamente com os judeus que já haviam aceitado a fé, sob o comando de Filipe, que ali passara a residir (At.8:40; 21:8).
– Por isso até o título de nossa lição: “uma igreja hebreia na casa de um estrangeiro”. Mas a igreja em Jerusalém
haveria de dar origem à primeira igreja gentílica, motivo por que também trataremos deste tema nesta lição
– O episódio ocorrido em Cesareia teve a devida repercussão. Se, até então, os dispersos não pregavam o Evangelho senão somente aos judeus (At.11:19), alguns varões cipriotas e cirenenses, ao entrarem em Antioquia, para onde haviam ido, ousaram pregar o Evangelho aos gentios (At.11:20).
– Antioquia que era a capital romana da província da Síria, à qual pertencia a Judeia naquela época, passaram a anunciar o Senhor Jesus também para os gentios, certamente cientificados de que “até aos gentios Deus havia dado o arrependimento para a vida” (At.11:20).
– Estes anônimos crentes, assim como aqueles que haviam iniciado a pregação fora de Jerusalém, mostram- nos, com absoluta clarividência, que a obra de Deus não precisa das lideranças legitimamente constituídas pelo Senhor para se realizar.
– A expansão do Evangelho, notemos, deu seus passos iniciais não por iniciativa dos apóstolos, mas, sim, de crentes anônimos que eram, então, seguidos em seu desbravamento, pelos apóstolos, evangelistas ou diáconos.
– Quando olhamos a história da Igreja, percebemos que assim continuou a ocorrer ao longo dos séculos, não tendo sido diferente com as Assembleias de Deus no Brasil, onde os pioneiros, embora devidamente separados, depois de dar ciência de suas chamadas por parte do Espírito Santo, pelas igrejas em que estavam a congregar, anonimamente e confiados única e exclusivamente no Senhor, realizaram esta grande obra. Por que, então, na atualidade, insiste-se tanto na necessidade de lideranças irem à frente de crentes anônimos?
– Estes crentes anônimos, embora não tivessem títulos nem tampouco qualquer posição de liderança, estavam
a fazer aquilo que o Senhor queria que fosse feito e, por isso, “a mão do Senhor era com eles” (At.11:21a).
– Qual era a prova que “a mão do Senhor era com eles”? O texto sagrado responde: “grande número creu e se converteu ao Senhor” (At.11:21b).
– A transformação de vidas, a presença da graça de Deus na vida das pessoas é a prova de que “a mão do Senhor é com o pregador”.
– Não devemos nos basear em sinais, maravilhas, nem mesmo em batismos com o Espírito Santo, mas, sim, na conversão das almas.
– O inimigo de nossas almas pode também fazer sinais e prodígios (e, nos dias em que vivemos, isto se intensificará ainda mais – Mt.24:24; II Ts.2:9-12), pode até, mesmo, imitar o falar em línguas estranhas, mas jamais o diabo irá fazer com que as pessoas se convertam ao Senhor. Por isso, julguemos o que vemos não segundo a aparência, mas, sim, segundo a reta justiça.
– Chegando a notícia a Jerusalém a respeito do que acontecia em Antioquia, os apóstolos mandaram para lá Barnabé.
– A escolha foi, certamente, dirigida pelo Espírito Santo. Barnabé, assim como parte dos anônimos que haviam evangelizado Antioquia, era também natural de Chipre (At.4:36), sendo, ademais, levita e, como tal, considerado entre os judeus.
– Tratava-se, pois, de pessoa que sabia muito bem equilibrar-se tanto entre “os da circuncisão” como entre os
gentios, ao contrário dos outros, que eram judeus da terra de Israel.
– Tanto assim é que, como já dissemos supra, ao chegar a Antioquia, Barnabé teve um olhar despido de
barreiras culturais, “vendo a graça de Deus” (At.11:23).
– O nome de Barnabé era José, mas passou a ser assim chamado pelos apóstolos (At.4:36). Este apelido que recebeu dos apóstolos, cujo significado é “filho da consolação”, mostrava que Barnabé é um modelo de homem conforme a vontade do Espírito Santo.
– “Filho da consolação” nada mais é que um epíteto para alguém que obedece ao Consolador, ou seja, ao Espírito de Deus. Não é possível evangelizarmos se não formos “filhos da consolação”. Obedecemos ao Espírito Santo?
– A “visão da graça de Deus” alegrou Barnabé que, então, exortou os crentes gentios a que permanecessem no
Senhor com propósito do coração.
– Diz Lucas (que provavelmente deve ter se convertido nessa igreja de Antioquia) que Barnabé assim procedeu
porque “era homem de bem, e cheio do Espírito Santo, e de fé”.
– Qual foi o resultado desta postura de Barnabé? “E muita gente se uniu ao Senhor” (At.11:24). Temos permitido que “o olhar de Barnabé” traga mais pessoas ao Senhor Jesus ou nossa cultura tem fechado a porta da salvação a muitos? Pensemos nisto!
– Não podemos permitir que nossa visão espiritual seja limitada pela cultura. Mas o que é a cultura, a que tanto temos aludido nesta lição?
“…Cultura (do latim colere, que significa cultivar) é um conceito de várias acepções, sendo a mais corrente a definição genérica formulada pelo antropólogo inglês Edward Burnett Tylor (1832-1917), segundo a qual cultura é ‘aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade’…” (WIKIPÉDIA. Cultura. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura Acesso em 20 jan. 2011).
– A cultura, portanto, é o conjunto das criações humanas, a reunião de todas as formas criadas pela inteligência humana em sua existência terrena.
– Como se trata de obra humana, naturalmente é algo sujeito ao tempo e ao espaço, motivo pelo qual a cultura varia de lugar para lugar, de época para época.
O Evangelho, sendo a Palavra de Deus, está acima da cultura e não pode ser limitado por ela. Daí a importância de sempre levarmos em conta a “transculturalidade” do Evangelho, que é mais evidente quando se está a evangelizar povos completamente diferentes dos nossos, mas que não se limita apenas a este aspecto.
– O “olhar de Barnabé” permite-nos vislumbrar que, em matéria de evangelização, precisamos ser “homens de bem, cheios do Espírito Santo e de fé”.
– Assim, não podemos nos prender a hábitos de vida criados pelo homem, mas, sim, a verificar se, entre os povos atingidos pelo anúncio da Palavra, há transformação de vidas, conversão. Este é o objetivo do anúncio de Jesus Cristo e somente se anunciarmos Jesus Cristo em vez de hábitos culturais é que conseguiremos alcançar as almas para o Senhor. É esta a tarefa da Igreja.
– Barnabé, movido pelo Espírito Santo, foi até Tarso e trouxe Paulo de lá para que ensinasse a Palavra àqueles crentes. Outra escolha orientada por Deus pois Paulo era a pessoa preparada pelo Espírito Santo para levar a doutrina de Cristo aos gentios e para amalgamar judeus e gentios em torno da Palavra (At.9:15; 22:21; 26:16-18).
– Foi em Antioquia que os salvos foram, pela primeira vez, chamados “cristãos”, ou seja, “parecidos com Cristo”, “pequenos Cristos”.
– A identificação dos servos de Jesus como “cristãos”, por incrível que possa parecer, deu-se na primeira igreja local totalmente desprendida do judaísmo, formada por gentios.
– A identidade com o Senhor Jesus ficou tão patente que os que nunca haviam visto Jesus, ao verem aqueles salvos e o Jesus que eles pregaram, não tiveram outra reação senão dizer que aqueles homens e mulheres que traziam aquela nova doutrina eram semelhantes, parecidos com o Senhor a quem eles serviam.
– Ao contrário do que ocorre hoje, em que as pessoas se dizem cristãos, os crentes de Antioquia foram chamados pelos incrédulos de “cristãos”, porque eram testemunhas, provas de que era possível viver como o Jesus que eles pregavam. Podemos ser chamados de “parecidos com Cristo” com as pessoas com quem convivemos? Damos testemunho de Jesus?
– O crescimento da igreja em Antioquia levou, inclusive, que profetas descessem de Jerusalém para lá, como Ágabo, que, inclusive, profetizou a respeito de uma grande fome em todo o mundo, o que se deu nos dias de Cláudio César (At.11:28).
– Em Antioquia, que se tornaria o grande centro missionário dos dias apostólicos, a igreja se estruturava de modo exemplar: após o anúncio da Palavra por crentes anônimos, chegou o enviado do ministério com a “visão da graça de Deus” que trouxe o ensinador para a edificação dos crentes.
– O resultado disto foi o testemunho de toda a igreja perante a sociedade e a manifestação do poder do Espírito Santo, inclusive com os dons espirituais.
– A igreja de Antioquia, ademais, não se apresentou como “independente” e “isolada”, mas manifestou, também, seu amor para com os irmãos judeus, inclusive os ajudando com socorro material aos crentes da Judeia que já padeciam necessidades (At.11:29,30).
– O Evangelho chegava aos gentios de forma plena e, a partir de Antioquia, chegaria até aos confins da Terra de então por intermédio do apóstolo Paulo, como passará a relatar o livro de Atos partir do capítulo 13.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11713-licao-11-uma-igreja-hebreia-na-casa-de-um-estrangeiro-i
