LIÇÃO Nº 12 – O ESPÍRITO HUMANO E O ESPÍRITO DE DEUS
INTRODUÇÃO
-Na continuidade do estudo da doutrina bíblica do homem, veremos o relacionamento entre o espírito humano e o Espírito de Deus.
-O espírito humano foi criado para ser guiado pelo Espírito Santo.
I – AS FUNÇÕES DO ESPÍRITO HUMANO
-Em lição anterior, já vimos que a função do espírito humano é estabelecer o relacionamento com o Senhor.
-O homem foi criado para ser o elo entre Deus e a criação terrena (Gn.1:26-28) e, por isso, é o único ser que tem, simultaneamente, uma parte material e outra imaterial:
o homem exterior, o corpo, para que possa ter contato e interação com a Terra, com o Universo físico;
o homem interior, a alma e o espírito, para que possa ter contato com o Senhor, que é o Criador, e Seu ambiente celestial, espiritual.
-O homem recebeu um corpo, formado do pó da terra (Gn.2:7) para que pudesse interagir com a criação terrena e já neste ponto se mostra como tinha uma posição singular e diversa da do querubim ungido, que fora posto no Éden (então apenas o chamado Éden mineral) para protegê-lo (Ez.28:14), mas sem qualquer possibilidade para promover uma interação, um inter-relacionamento com a criação (seja ela a mineral, seja ela até, como entendem alguns, já com seres vivos).
-Graças ao corpo que possuía, o homem poderia sujeitar e dominar a criação terrena, utilizando da sua criatividade, da sua inteligência, atributo da alma, para poder fazer com que a natureza lhe trouxesse benefícios.
-De igual modo, o homem foi dotado de uma parte imaterial, a alma e o espírito, para poder interagir com o seu Criador, que é Espírito (Jo.4:24), a fim de que pudesse ter a devida orientação e direção na condução de sua administração sobre a face da Terra, como também desfrutasse dessa comunhão e amizade que Deus queria com ele estabelecer, tanto que, diariamente, vinha ao encontro do homem (Gn.3:8).
-Esta interação se faria por meio do espírito, aquele “sopro” dado por Deus nas narinas do homem e que lhe
deu o fôlego da vida, tornando-o alma vivente (Gn.2:7).
-É por este motivo que alguns estudiosos entendem que o espírito humano é uma “concessão”, ou seja, a cessão de sua opinião ou direito a outrem, a outorga do direito de executar a outrem em seu nome, mediante certos encargos e obrigações, uma obra, o consentimento, a permissão.
-O espírito é resultado deste “sopro divino”, que daria ao homem as condições para que pudesse administrar a face da Terra, porque tal espírito teria condições de ter pleno acesso ao Senhor de todas as coisas (Sl.24:1), fazendo com que, por meio deste relacionamento, pudesse ser cumprida a tarefa estatuída por Deus de frutificação, multiplicação, enchimento da terra, sujeição da Terra e dominação sobre a criação terrena.
-Não confundamos a “concessão” com a “emanação”. O espírito humano não é uma “emanação” de Deus no homem, não é uma “fagulha divina” dentro do homem, mas uma parte criada no homem para manter relacionamento com Deus, que jamais se separa da alma e que permite que o homem tenha condições de administrar, em nome do Criador, a Terra.
-Assim como há uma interação do homem com o Universo físico por meio do corpo e, mediante esta interação, a alma, que é a sede da personalidade de cada ser humano, faz com que seu entendimento, sensibilidade e vontade atuem sobre a criação, também há uma interação do homem com Deus por meio do espírito e, mediante esta interação, a alma leva seu entendimento, sensibilidade e vontade a atuar sob Deus.
-É interessante, aliás, a observação feita pelo saudoso pastor Antônio Gilberto da Silva (1927-2018) ao analisar I Co.15:44 em estudo sobre a triunidade do homem que encontramos na Bíblia de Estudo Antônio Gilberto nas páginas 1921 e 1922.
-Nesta nossa peregrinação terrena, temos um “corpo-alma” (“soma psychon” – σῶμα ψυχικόν), ou seja, uma atividade voltada para o Universo físico, onde o corpo promove a interação da alma com o que está à sua volta.
-Quando, porém, formos transportados para a dimensão eterna, na glorificação, receberemos um “corpo- espírito” (“soma pneumatikon” – σῶμα πνευματικόν), que tratará de possibilitar a nossa interação com o Senhor e o ambiente celestial.
-Enquanto isto não ocorre, a nossa interação com Deus se dá por meio só do espírito, que promove tal interação com a nossa alma e, por isso, ainda não temos todo o nosso ser integral em relação com o Senhor.
-Nesta interação com Deus, o espírito exerce, primordialmente, quatro funções: fé, consciência, intuição e comunhão.
-A “fé natural” é o “conhecimento oriundo da observação da natureza e do labor filosófico que conduz à certeza quanto à existência do Supremo Ser” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fé natural. In: Dicionário Teológico, p.157), ou seja, é o espírito mostrando à alma que há um Deus que é Senhor de todas as coisas, é um despertamento para a realidade do Criador.
-Esta “fé natural”, quando misturada com a Palavra de Deus, torna-se “fé salvadora” e leva à salvação (Rm.10:17). Trata-se, pois, de um chamado do espírito para que a alma possa saciar a sua sede de Deus (Sl.42:2).
-Foi com base nesta fé natural, diz a tradição judaica, que Abrão despertou para a existência de um único e verdadeiro Deus e que, deste modo, permitiu que Deus o chamasse para ser o “pai da fé”, o pai não só da nação de Israel mas de todos quantos crerem no Senhor (Gl.2:29).
OBS: Eis como Flávio Josefo (37 ou 38-ca.100), o grande historiador judeu, registra esta tradição: “…[Abraão] Era homem muito sensato, prudente e de grande espírito e tão eloquente que podia persuadir sobre o que quisesse.
Como nenhum outro o igualava em capacidade e em virtude, deu aos homens um conhecimento muito mais perfeito da grandeza de Deus, como jamais tiveram antes.
Foi ele quem primeiro ousou dizer que existe um só Deus, que o universo é obra das mãos d’Ele e que a nossa felicidade deve ser atribuída unicamente à sua bondade, e não às nossas próprias forças.
O que o levava a falar dessa maneira era o fato de ter deduzido, após considerar atentamente o que se passava sobre a terra e sobre o mar e o curso do Sol, da Lua e das estrelas, que há um poder superior regulando esses movimentos, sem o qual todas as coisas cairiam em confusão e desordem, por não terem de si mesmas poder algum para nos proporcionar os benefícios que delas haurimos — elas os recebem dessa potência superior, à qual estão absolutamente sujeitas, o que nos obriga a honrar somente a Ele e a reconhecer o que lhe devemos por contínuas ações de graças.
Os caldeus e os outros povos da Mesopotâmia, não podendo tolerar as palavras de Abraão, levantaram-se contra ele. Assim, por ordem e com o auxílio de Deus, ele saiu do país para ir morar na terra de Canaã.…” (Antiguidades Judaicas I, 7, 22. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, p.34).
-A consciência, que é a impressão da lei divina no coração do homem (Rm.2:15,16), a voz secreta que nos dá a noção do bem e do mal, do certo e do errado, possibilitando o julgamento de nossas ações mediante o critério divino.
-Por meio da consciência, o espírito mostra à alma que ela está errada, que está em falta diante do Senhor,
que já se mostrou existente pela “fé natural”.
-No entanto, quando o homem está no pecado, insuficientes são tanto a “fé natural” quanto a consciência para
que o homem se liberte deste estado de morte espiritual.
-A “fé natural” mostra a existência de um Deus e a consciência que este Deus está a condenar o homem pelas
suas ações, pois não faz o bem que aprova, mas o mal que desaprova é que é feito (Rm.7:14-23).
-Torna-se, pois, necessário que Deus, que quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (I Tm.2:3,4), anuncie esta salvação ao homem e, então, determina o Senhor que seja proclamada a mensagem de salvação, o Evangelho.
-Quando a Palavra de Deus é pregada, abre-se a oportunidade para que o homem seja convencido pelo Espírito Santo do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8-11). Se o homem misturar a Palavra pregada com a sua fé natural, esta se converterá em fé salvadora e, ele, convencido pelo Espírito Santo, alcançará a salvação (Rm.10:17; Hb.4:2).
-Aí, com o perdão dos pecados, estabelece-se a comunhão entre Deus e o homem e o espírito é
“reativado” e poderá, então, exercer as suas duas outras funções: a intuição e a comunhão.
-Enquanto isto não ocorrer, não se terá como o espírito humano exercer o seu papel, pois, no estado pecaminoso, está o espírito morto, sem condições de agir.
-Esta realidade é bem descrita pelo missionário e poeta sacro Henry Maxwell Wright (1849-1931): “Eu ouvia falar desta graça sem par que do céu trouxe nosso Jesus. Mas eu surdo me fiz, converter-me não quis ao Senhor, que por mim morreu na cruz.
Mas um dia senti meu pecado e vi sobre mim a espada da lei, apressado fugi, em Jesus me escondi e abrigo seguro n’Ele achei. Quão ditoso, então, este meu coração, conhecendo o excelso amor, que levou meu Jesus a sofrer lá na cruz p’ra salvar um tão pobre pecador” (três últimas estrofes do hino 15 da Harpa Cristã).
-Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) define a intuição como “…penetração na singularidade do objeto por parte do sujeito, na captação imediata dos aspectos fenomênicos que o objeto exibe…” (Intuição. In: Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p.874).
-Watchman Nee (1903-1972) chama a intuição de “sentido espiritual” (O homem espiritual, p.279), ou seja, é o “sentimento do espírito”.
-Segundo este pastor e teólogo chinês, trata-se da captação imediata de algo do Espírito Santo, um sentimento, um pensamento que nos vem não pela nossa alma, não de nós mesmos ou de outras pessoas, ou mesmo das coisas, mas diretamente de Deus.
-A intuição é a “unção do Santo” de que fala o apóstolo João (I Jo.2:20), que nos faz “saber” as coisas de Deus, pois “saber” é diferente de “entender” ou “compreender”.
“Saber” é “sentir o sabor”, é, de forma imediata, termos a certeza de algo, enquanto que “entender” ou “compreender” é uma tarefa da mente, do intelecto, que analisa e chega a conclusões, de modo mediato, mediante a reflexão, comparação e análise.
-A comunhão é a função do espírito que nos faz aprofundar esta intuição e a ação da consciência, é a função do espírito que nos aproxima a cada dia do Senhor, é o “crescimento na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (II Pe.3:18), o “prosseguimento no conhecimento do Senhor” (Os.6:3), a fim de que atinjamos a “unidade da fé e conhecimento do Filho de Deus, [a qualidade de] varão perfeito, a medida da estatura completa de Cristo” (Ef.4:13), a constituição da unidade entre nós e o Senhor, o propósito da obra salvífica de Jesus (Jo.17:21-23).
-Em lição anterior, vimos como as disciplinas cristãs são utilizadas pelo espírito humano para o aprimoramento e estreitamento da comunhão entre o homem e o Senhor, neste processo que os teólogos denominam de “santificação progressiva” ou “santificação presente” (Hb.12:14; Ap.22:11).
II – O ESPÍRITO SANTO E A “REATIVAÇÃO” DO ESPÍRITO HUMANO
-Notamos, portanto, que o relacionamento entre o Espírito Santo e o espírito humano inicia-se quando há a proclamação do Evangelho, momento em que o Espírito Santo passa a agir junto ao homem para convencê-lo do pecado, da justiça e do juízo.
-Vemos, pois, como é importantíssima a pregação do Evangelho, tarefa deixada pelo Senhor Jesus à Igreja nesta dispensação. Sem ela, não há como o homem alcançar a salvação, porquanto é, por meio de tal proclamação, que se poderá levar a pessoa ao arrependimento e confissão dos pecados, com o consequente perdão e justificação pela fé em Jesus Cristo.
-Como bem disse o apóstolo Paulo: “como ouvirão se não há quem pregue?” (Rm.10:14 “in fine”).
-Quando se prega o Evangelho, o Espírito Santo começa a atuar em quem está ouvindo a Palavra, buscando convencê-lo do pecado, da justiça e do juízo.
-O Espírito Santo convence do pecado, ou seja, mostra ao homem que ele é pecador, confirmando a reprovação advinda da consciência, que mostra ao homem que ele faz op mal que desaprova. O Espírito Santo confirma, deste modo, o testemunho do que ainda restou ativo no espírito humano, conclamando o ouvinte da pregação a crer em Jesus como Senhor e Salvador.
-O Espírito Santo convence da justiça, ou seja, procura mostrar ao ouvinte da pregação que Jesus é o Salvador, Deus que Se fez homem, viveu sem pecar e que, por amor, Se entregou por todos os homens, pagando o preço dos nossos pecados e que, ao ressuscitar ao terceiro dia, garantiu que quem n’Ele crer terá seus pecados perdoados e poderá viver eternamente como Ele.
-O Espírito Santo convence, por fim, o homem do juízo, lembrando que aquele que procura fazer o ouvinte da pregação desacreditar na mensagem pregada, ou seja, o diabo, o príncipe deste mundo, aquele que tem ditado como tem vivido este indivíduo que é alvo do convencimento do Espírito, está irremediavelmente condenado, não podendo ser levado em consideração.
-Se a pessoa crer e se convencer do pecado, da justiça e do juízo, ela alcança a salvação, nasce de novo (Jo.3:3,5), é gerado pela semente incorruptível da Palavra (I Pe.1:23).
-Com a salvação, os pecados são perdoados (At.2:38) e tirados (Jo.1:29), deixando de existir a separação entre Deus e o homem (Is.59:2) e, desta maneira, torna a haver relacionamento entre o Senhor e este indivíduo.
-Esta restauração de relacionamento gera a “reativação” do espírito, porque se restabelece a ligação entre
Deus e o ser humano e esta relação, como vimos, é feita pelo espírito.
-É a isto que Paulo denomina de “vivificação” (I Co.15:22; Ef.2:1), ou seja, tornamos a ter vida e, como vida,
nas Escrituras, é comunhão, isto significa que voltamos a ter comunhão com o Senhor.
-O convencimento do Espírito Santo, portanto, leva o homem ao arrependimento e confissão de pecados e,
por conseguinte, à “lavagem da regeneração” (Tt.3:5).
-E, nesta nova geração, o espirito humano “renasce”, passando, então, a não só exercer a função da fé, que não é mais a fé natural, mas a fé salvadora, que se desenvolverá e assumirá, inclusive, o patamar de “fé viva”, “fé ativa” ou “fé santificante”, que o pastor Antônio Gilberto diz ser “a confiança absoluta em Deus, mediante a Sua Palavram, e certeza absoluta de que Ele cumprirá o que nela diz (…) nesse caso, é tanto confiar em Deus como confiar-se a Deus…” (Um estudo da doutrina da fé. In: Bíblia de Estudo Antônio Gilberto, p.2299).
-O espírito humano, ao ser vivificado, faz com que a consciência não seja mais a “má consciência” (Hb.10:22), a “consciência das obras mortas” (Hb.9:14) ou a “consciência de pecado” (Hb.10:2), que trazia a reprovação divina aos atos praticados pelo pecador, levando-o até ao desespero, a ponto de exclamar: “miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm.7:24).
-Agora, com a salvação, o homem passa a ter uma “boa consciência” (At.23:1; I Tm.1:5,19; Hb.13:18; I Pe.3:16,21), uma “consciência pura” (I Tm.3:9: II Tm.1:3), uma “consciência sem ofensa” (At.24:16), que o aprova diante de Deus e, inclusive, o anima a se apresentar diante de Deus no santuário (Hb.10:19-23). Aleluia!
-Mas, além da fé e da consciência, o espírito humano passa a exercer as duas outras funções, a intuição e a comunhão.
-Com efeito, agora há uma comunicação entre Deus e o homem por meio do espírito e o espírito passa a ser guiado em toda a verdade pelo Espírito Santo, que nos dirá tudo o que tiver ouvido e nos anunciará o que há de vir (Jo.16:13), dando-nos sabedoria e prudência (Pv.1:2-7).
-Ora, esta sabedoria vinda diretamente do alto (Tg.3:17) nada mais é que o resultado da função da intuição
espiritual e que nos torna “sal da terra” (Mt.5:13), faz-nos ter “o sabor do céu”.
-O espírito humano passa, também, a exercer a função da comunhão, pois inicia um trabalho de disciplina do nosso corpo e de nossa alma, levando-os a servir a Deus, a se aproximar cada vez mais do Senhor, mediante os meios de santificação (Palavra de Deus, oração, jejum, temor a Deus, busca do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais), fazendo com que nos conformemos cada vez mais à imagem de Cristo (Rm.8:29).
III – O ESPÍRITO SANTO E O DERRAMAMENTO DO AMOR DE DEUS
-Tendo papel importantíssimo na “reativação” do espírito humano, o Espírito Santo passa a ser fundamental para o próprio funcionamento deste espírito humano reativado, pois surge aqui uma “parceria”, uma “sociedade” que, por vezes, se torna até difícil saber se quem está a atuar é o espírito do homem ou o Espírito de Deus.
-Isto é notado em traduções e versões da Bíblia Sagrada, onde, em algumas vezes, há divergência sobre a grafia da palavra “espírito”.
Em algumas versões, encontramos a palavra “espírito” com “e” minúsculo, a indicar que se trataria do espírito humano, enquanto, em algumas outras versões e/ou traduções, a palavra é grafada com “E” maiúsculo, indicando que seria o Espírito Santo (Rm.8:4 – “Espírito” na Nova Versão Internacional e “espírito” na Bíblia de Jerusalém, por exemplo).
-Esta dificuldade e divergência são um fator a nos mostrar como realmente a Bíblia é a verdade (Jo.17:17), pois nos mostra como o trabalho do espírito humano é estabelecer a pretendida unidade entre Deus e o salvo, objetivo da obra salvífica de Cristo Jesus (Jo.17:21-23) e isto faz com que se tenha a situação muito bem descrita pelo apóstolo Paulo: “já estou crucificado com Cristo e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim…” (Gl.2:20a).
-Assim que o espírito humano é vivificado, o Espírito Santo nele vem fazer morada, porque todo aquele que crê em Jesus recebe o Espírito Santo, é selado pelo Espírito, passando a ser propriedade de Jesus (Jo.7:38,39; Ef.1:13).
-Em que lugar do homem o Espírito vem habitar? No espírito, que, além de ser a parte do homem que faz a ligação entre Deus e o ser humano, era a única parte do homem que se encontrava sem atuação enquanto o homem vivia no pecado, ou seja, o que “faltava” no homem era precisamente o espírito atuante e, agora, com o novo nascimento, é somente ele quem pode dar guarida ao Espírito Santo.
-A vinda do Espírito Santo para habitar no espírito humano torna o espírito vivificado o “lugar da presença de Deus” no interior do homem e isto faz com que nos lembremos tanto do tabernáculo quanto do templo na dispensação da lei, que são figuras da realidade espiritual por nós agora vivida na dispensação da graça (Hb.10:1).
-Passamos, então, como novas criaturas (II Co.5:17), a sermos templo do Espírito Santo (I Co.6:19), a sermos tabernáculo (II Co.5:1) e este templo segue o modelo do tabernáculo celestial (Ex.25:9; Hb.8:5), tendo, portanto, três partes: o pátio ou átrio, o lugar santo e o lugar santíssimo.
-O pátio ou átrio deste templo é o corpo, a parte externa, que é visível a todos, onde todos podem entrar, ou seja, aquela parte do homem que entra em contato com tudo e todos. No pátio, estava o altar de sacrifícios e a pia de bronze.
-O corpo é apresentado como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, o culto racional (Rm.12:1), tendo de se manter em pureza, não podendo ser instrumento de iniquidade, mas como instrumento de justiça (Rm.6:13).
-O lugar santo é a parte intermediária, a primeira parte da tenda coberta (tabernáculo) ou do edifício (templo), onde somente podiam entrar os sacerdotes, onde sem encontravam a mesa dos pães da proposição, o candelabro e o altar de incenso.
-O lugar santo é figura da alma, que deve ser a intermediária entre o corpo e o espírito, fazendo com que o corpo exteriorize as orientações do espírito, bem como fazendo com que suas faculdades sejam sempre dirigidas pela luz de Cristo (o lugar santo era iluminado pelo candelabro), mantendo a separação daquilo que é impuro no mundo exterior.
-A mesa dos pães da proposição representa a vontade, porquanto ficavam eles expostos durante toda a semana e a vontade é o elemento mais presente na alma, que a todo tempo está agindo, ininterruptamente.
-O candelabro representa o entendimento, porquanto é o entendimento que traz a “iluminação” para a alma, que a faz discernir o que se passa tanto no relacionamento com Deus quanto no relacionamento com o mundo exterior.
-Por fim, o altar de incenso, que traz o aroma do incenso para o lugar santo, representa a sensibilidade, as emoções, sentimentos e sensações da alma.
-O lugar santíssimo é figura do espírito, é o lugar onde Deus está presente, onde ficava a arca do concerto, símbolo da presença divina. Na arca, ficavam as tábuas da lei, a vara de Arão e o pote de maná, sendo que, quando a arca foi levada para o templo, só estavam nela as tábuas da lei.
-A arca, como ensina Watchman Nee, mostra as três funções do espírito: as tábuas da lei, que representam a intuição; o propiciatório (a tampa da arca), a comunhão e a consciência, que é o testemunho advindo das tábuas da lei ante a conduta do povo.
-No lugar santíssimo, só podia entrar o sumo sacerdote, e uma vez ao ano, no dia da expiação e, por isso, era ele separado do lugar santo por um véu (assim como o lugar santo era separado do átrio ou pátio por um véu).
-Com a morte de Cristo, porém, o véu foi rasgado de alto a baixo (Mt.27:51; Mc.15:38; Lc.23:45), significando que agora havia livre acesso a Deus por parte do salvo e é bem por isso que podemos entrar no lugar santíssimo com inteira certeza de fé e o coração purificado da má consciência (Hb.10:19-22).
-Tendo nos tornado templo do Espírito Santo, morada de Deus no Espírito (Ef.2:22), o Espírito Santo, ao vir habitar no espírito humano, derrama o amor de Deus nele (Rm.5:5).
-Deus é amor (I Jo.4:8) e não haveria como habitar em um ser sem que trouxesse a esta morada o Seu amor.
-Este mesmo amor fora demonstrado diariamente no tabernáculo e no templo com o sacrifício contínuo (Nm.28:1-8), bem como com o sacrifício especial no dia da expiação (Lv.16:29-34), todos com o objetivo de cobrir os pecados de todo o povo, impedindo, assim, a punição até a vinda do Messias.
-Depois, este amor é provado no sacrifício de Jesus na cruz do Calvário (Rm.5:8) e, quando cremos em Cristo como Senhor e Salvador, este sangue nos purifica de todo o pecado (I Jo.1:7) e, justificados pela fé, temos paz com Deus (Rm.5:1).
-Com a salvação, somos cheios do amor divino, como bem diz o missionário pioneiro Gunnar Vingren (1879- 1933): “Do Teu amor me encheste, ó maravilhoso Jesus, quando o Espírito me deste, trazendo gozo à flux” (segunda estrofe do hino 478 da Harpa Cristã).
-Ao derramar o amor de Deus no espírito de cada nova criatura em Jesus Cristo, o Espírito Santo cria condições para que este novo homem venha a cumprir o propósito primeiro da criação do homem pelo Senhor, que é o propósito da frutificação (Gn.1:26).
-A frutificação muitas vezes é confundida com a reprodução biológica, mas assim não é, pois, logo em seguida à ordem divina de “frutificar”, vem a ordem de “multiplicar”, esta, sim, vinculada à reprodução, a formação de prole.
-A palavra hebraica aqui é “parah” (פךח), cujo significado é “…produzir fruto (literal ou figurado) …” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento verbete 6509, p.1875).
-Com o derramamento do amor de Deus, o espírito humano pode frutificar, produzir fruto, ou seja, pode passar a produzir o fruto do Espírito (Gl.5:22), cuja primeira qualidade é precisamente o amor de Deus (Gl.5:22).
-Este novo homem, gerado de uma semente incorruptível (I Pe.1:23), começa a frutificar, a produzir o fruto do Espírito, porque agora, sendo participante da natureza divina (II Pe.1:4), já que em comunhão com o Senhor, tem condições de produzir fruto de justiça (Fp.1:11), pois, sendo árvore boa poderá produzir frutos bons (Mt.7:17).
-O fruto do Espírito Santo nada mais é que o amor que se desdobra em oito outras qualidades: gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, mansidão, fé e temperança.
-Três qualidades do fruto do Espírito dizem respeito diretamente à presença de Deus no interior do homem: o amor, que é derramado pelo Espírito no espírito humano; o gozo, que é a alegria da salvação (Sl.51:12), este “gozo que vem à flux” mencionado por Gunnar Vingren na estrofe do hino 478 da Harpa Cristã e a paz, que é a comunhão, a completude alcançada pelo homem, que volta a se unir a Deus (Rm.5:1).
-Três qualidades do fruto do Espírito dizem respeito ao relacionamento com o próximo. O amor de Deus produz no espírito humano o amor a Deus (I Jo.4:19) e o amor ao próximo, o que faz com que o espírito humano passe a cumprir o mandamento de Jesus (Jo.13:34; 15:12).
-Este amor ao próximo é demonstrado mediante a longanimidade, a benignidade e a bondade.
-As três últimas qualidades do fruto do Espírito Santo são voltadas para o próprio indivíduo, pois devemos amar o próximo como a nós mesmos, ou seja, devemos também nos amar.
-Este amor a si nada tem que ver com o egoísmo que antes existia no estado pecaminoso (II Tm.3:2), pois esta verdadeira egolatria é um falso amor a si, totalmente enganoso, pois, na verdade, o homem no pecado promove a sua autodestruição, pois este é o caminho daqueles que rejeitam a Deus, que são entregues às concupiscências do seu coração, à imundície e à desonra de seus próprios corpos (Rm.1:24), a paixões infames (Rm.1:26), a um sentimento perverso (Rm.1:28), a entendimento entenebrecido (Ef.4:18).
-O verdadeiro amor a si mesmo leva o homem à mansidão, à fé e à temperança.
IV – O ESPÍRITO SANTO PROMOVE O FORTALECIMENTO DO ESPÍRITO HUMANO
-Mas a ação do Espírito Santo não se limita ao cumprimento do propósito da frutificação por parte do espírito humano, o propósito mais diretamente vinculado a esta parte do ser humano.
-O Senhor Jesus diz que Seu intento não apenas que o homem frutifique, mas que, em frutificando, produza ainda mais fruto (Jo.15:2).
-Por isso, estabelece uma “poda”, segundo a qual ele limpa os Seus servos para que eles produzam ainda
mais.
-Na parábola do semeador, o Senhor diz que o salvo produz trinta, sessenta e cem (Mt.13:23; Mc.4:20), a indicar que seu objetivo sempre é que haja aumento de produção.
-Este aumento de produção faz com que o Espírito Santo estabeleça no espírito humano a intensificação da proximidade com Deus, mediante a santificação progressiva, pela qual quem é santo precisa se santificar ainda, quem é justo, precisa se fazer justiça ainda (Ap.22:11).
-Em lição anterior, já vimos como o espírito humano exerce a sua função de comunhão mediante as disciplinas cristãs, que promovem esta santificação do cristão, o seu crescimento espiritual.
-É evidente que tal santificação é produzida pelo Espírito Santo. Senão vejamos.
-A leitura e meditação na Palavra de Deus somente opera o efeito santificante porque é o próprio Espírito Santo quem revela ao homem as Escrituras, até porque foi Ele quem inspirou os seus escritores (II Pe.2:21), porque as coisas espirituais são comparadas espiritualmente (I Co.2:13).
-A oração somente atinge os céus (Ap.5:8; 8:3), porque é aperfeiçoada pelo Espírito Santo que, com gemidos inexprimíveis, ora conosco (Rm.8:26), visto que nada pode adentrar às mansões celestiais se não for perfeito.
-O jejum é um reforço à oração e, portanto, a ação do Espírito Santo se dá na oração, reforçada pelo jejum.
-A adoração é feita porque nos tornamos templo do Espírito Santo e Deus quer que O adoremos em espírito e em verdade e quem nos guia em toda a verdade é o Espírito da verdade (Jo.16:13).
-Mas não é apenas na santificação progressiva que o Espírito Santo atua para que venhamos a ter crescimento espiritual, maior produção do fruto do Espírito.
-Faz-se necessário que tenhamos uma maior presença do Senhor em nosso interior e isto se dá quando somos cheios do Espírito Santo, quando somos revestidos de poder (At.1:8; 2:4).
-O batismo no Espírito Santo é uma necessidade para que venhamos a ser testemunhas de Jesus, para que eficaz e poderosamente preguemos o Evangelho, promovamos a evangelização do mundo, fazendo com que outras pessoas venham a alcançar a salvação, sejam convencidas do pecado, da justiça e do juízo (I Co.2:4).
-Quando somos batizados no Espírito Santo, o Espírito Santo tem o pleno domínio de nosso ser, inclusive de nosso corpo, submetendo o órgão que é mais refratário à ação divina, a língua, que as Escrituras denominam de “mundo de iniquidade” (Tg.3:6), ao seu controle, tanto que falamos línguas concedidas pelo Espírito, sem que entendamos o que estamos a falar.
-Aliás, tal domínio do Espírito Santo estabelece uma maior intimidade entre o Espírito Santo e o espírito humano, pois o falar em línguas estranhas representa uma comunicação direta entre o espírito e o Espírito Santo sem que se passe pela alma, sem que se passe pelo entendimento.
-O apóstolo Paulo isso nos ensina quando afirma que quem ora em línguas ora sem a intervenção do entendimento, comunicando-se diretamente com o Espírito Santo, orando bem e se edificando espiritualmente (I Co.14:2,4,14).
-O falar em línguas estranhas, portanto, é um importante elemento que deve existir em nossa vida espiritual, porquanto nos traz uma maior intimidade com o Senhor, produzindo uma comunicação direta de espírito ao Senhor, que promove edificação espiritual.
-Esta realidade diz respeito a um dom espiritual que o próprio apóstolo Paulo disse ser um dom inferior ao dom de profecia, a nos mostrar, pois, que o recebimento de dons espirituais faz com que haja uma mudança de patamar no relacionamento entre Deus e o homem.
-Daí porque recomendar o apóstolo dos gentios que houvesse a busca com zelo dos dons espirituais (I Co.14:1).
-Quando se buscam os dons espirituais, tem-se maior intensidade do relacionamento do espírito humano com o Espírito Santo, pois é o Espírito Santo quem opera estas coisas e reparte os dons particularmente a quem quer e como quer (I Co.12:11), em mais uma demonstração do Seu senhorio sobre o homem salvo.
– Vemos, pois, como o Espírito Santo amplifica, e muito, a ação do espírito humano, gerando, assim, as condições para que caminhemos para a unidade com o Senhor, o que se perfará quando da glorificação.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11978-licao-12-o-espirito-humano-e-o-espirito-de-deus-i
