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LIÇÃO Nº 13 – A RENOVAÇÃO DA ESPERANÇA

INTRODUÇÃO

-Encerrando o estudo do Evangelho segundo João, analisaremos os episódios ocorridos após a ressurreição do Senhor.

-A vitória de Jesus sobre a morte dá-nos esperança da vida eterna.

– AS APARIÇÕES DE JESUS NO CENÁCULO

-O Evangelho segundo João noticia quatro aparições de Jesus ressurreto a Seus discípulos: a aparição a Maria Madalena no sepulcro, duas no cenáculo onde havia celebrado a Páscoa e instituído a ceia do Senhor, uma na tarde do domingo da ressurreição e outra oito dias depois e outra, um tempo depois, a sete discípulos, junto ao mar da Galileia.

-João, na continuidade do registro de seu testemunho sobre os fatos relacionados com a paixão, morte e ressurreição de Jesus, registra que, na tarde do domingo da ressurreição, enquanto os discípulos se encontravam trancados no cenáculo, com medo dos judeus, Jesus chegou e Se pôs no meio deles, dizendo: “Paz seja convosco” (Jo.20:19).

-João, até pela sua qualidade de testemunha privilegiada, apresenta as aparições de Jesus de forma minudente, inclusive no que toca ao tempo em que se deram. Assim, destaca que, já na tarde do domingo da ressurreição, Jesus aparece para dez apóstolos, já que Tomé estava ausente.

-Vemos aqui a constatação de que, apesar de terem fugido e deixado o Senhor, os discípulos acabaram por se reunir no mesmo cenáculo onde haviam celebrado a Páscoa com o Mestre, que ali instituíra a ceia do Senhor.

-Mesmo tendo deixado só o Senhor (com exceção do próprio João), os discípulos se mantiveram unidos, tendo resolvido se esconder no cenáculo e ali estavam com medo dos judeus, trancados.

-Jesus mantinha, assim, a unidade do colégio apostólico, demonstrando todo o Seu poder. Todavia, apesar de Pedro e João terem visto o túmulo vazio e Maria Madalena ter anunciado a ressurreição do Senhor, continuavam com medo dos judeus e trancados no cenáculo.

-Não era de se esperar outro comportamento deles, uma vez que, se João e Pedro, que tinham ido ao túmulo vazio, tinham ficado céticos quanto ao ocorrido, que dirá os demais que nem até lá haviam ido, lembrando de que não sabiam a Escritura que diz que era necessário que ressuscitasse dos mortos (Jo.20:9) bem como não tinham o Espírito Santo para os lembrar do que Jesus havia dito (Jo.14:26). Este clima de ceticismo é registrado por Lucas em seu evangelho (Lc.24:21-24).

-Jesus pôs-Se no meio deles e os saudou. Aqui João já mostra que estamos diante do Cristo glorificado, porquanto, mesmo estando as portas fechadas, o Senhor conseguiu entrar no recinto.

-Para que não houvesse dúvida alguma de que se tratava de Jesus em corpo, o apóstolo do amor diz que Jesus Lhes mostrou as mãos e o lado, confirmando que era Aquele que havia sido crucificado, mas que agora estava vivo. Desmentia, deste modo, o apóstolo os falsos ensinos dos gnósticos, que estavam a perturbar a Igreja ao tempo da redação deste evangelho, que negam que Jesus tivesse encarnado. O apóstolo mostra que, mesmo ressurreto, Jesus continuava sendo um ser humano, ainda que, agora, glorificado.

-A presença destas cicatrizes de Jesus, também chamadas de “chagas de Cristo” ficaram como marcas do sacrifício vicária do Senhor, provas indeléveis e que eternamente comprovarão o amor e o resgate da humanidade por Nosso Senhor e Salvador. Como diz o conhecido cântico da autoria de Jorge Araújo: “Cicatrizes que provam que Ele precisou sofrer pra que eu pudesse ser livre”.

-A presença destas cicatrizes, ademais, era o parcial cumprimento de profecia bíblica, pois tais cicatrizes, que serviram para provar que Jesus era Aquele que morreu na cruz aos Seus discípulos, também servirão para que Israel O reconheça como o Messias por ocasião do término da Grande Tribulação (Zc.12:10; 13:6).

-Estas cicatrizes eram a comprovação da realização da justiça de Deus. Com a Sua morte, Jesus assumira o pecado da humanidade e pagava o preço dos nossos pecados (Isa.53:4,5), satisfazendo a justiça divina e agora poderia nos imputar a Sua justiça, uma vez tendo crido n’Ele.

-Estas cicatrizes, também, são a comprovação de que Jesus também cura as enfermidades, pois, pelas Suas pisaduras, fomos sarados (Is.53:4,5), de modo que podemos também realizar obras maiores que as feitas pelo Senhor Jesus (Jo.14:12), pois, como Deus também está conosco, andaremos, a exemplo do Mestre, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At.10:38). O Senhor que perdoa os nossos pecados, também é o mesmo que sara as nossas enfermidades (Sl.103:3).

-Como afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…A Bíblia mostra que a obra redentora de Cristo incluiu também o corpo: ‘Gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo’ (Rm.8:23). A vontade de Deus é, portanto, curar tanto a alma como o corpo…” (DFAD XXI, p.179).

-Os discípulos, que estavam tristes e temerosos, ao verem que o Senhor havia ressuscitado, alegraram-se. A ressurreição de Jesus trouxe-lhes alegria, como o próprio Jesus lhes havia falado nas últimas instruções (Jo.16:20-22).

-Esta alegria recebida pelos discípulos nunca foi tirada pelo mundo. Os apóstolos enfrentariam dura perseguição dali para a frente e todos seriam martirizados, com exceção de João que, embora não tenha se tornado mártir, foi preso na ilha de Patmos, o principal presídio de segurança máxima daquele tempo, por causa da sua fé em Cristo (Ap.1:9) e é esta alegria que os motivava a perseverar até o fim e que faz com que a Igreja esteja ainda hoje marchando para os céus.

-É a alegria da salvação (Sl.51:12), a alegria que é qualidade do fruto do Espírito (Gl.5:22), uma alegria interior que nos faz entrar em comunhão com Jesus, Ele próprio portador desta alegria, advinda do Pai (Hb.1:9).

-Já com esta alegria, o Senhor novamente lhes oferece a Sua paz. Estavam os discípulos como que sendo transportados para o reino de Deus, porquanto o reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm.14:17).

-Jesus, dando-lhes a justiça, alegria e paz, envia-os para que anunciassem o Evangelho, assim como Ele próprio havia sido enviado pelo Pai (Jo.20:21).

-Temos aqui como a versão joanina da Grande Comissão: somos enviados por Jesus assim como o Pai O enviara. Devemos dar prosseguimento à obra salvífica de Jesus, somos Seus apóstolos, ou seja, Seus enviados.

-Este envio não era reduzido apenas aos “doze”, como defendem os romanistas e os ortodoxos que procuram aqui, neste envio, encontrar respaldo para o chamado “sacramento da ordem” e que faz a distinção entre os “sacerdotes” e os “leigos”.

-Por primeiro, lembremos que Tomé não estava presente nesta ocasião (Jo.20:23) e. mesmo assim, estes pensadores o inserem entre os “apóstolos”, cuja sucessão daria origem a esta suposta “linhagem sacerdotal cristã”.

-Por segundo, no livro de Atos dos Apóstolos, vemos pregando o Evangelho não apenas os doze, mas os diáconos Filipe (At.8:5) e Estêvão (At.6:8-10), como também Paulo, que, inclusive, disse ser uma obrigação a pregação do Evangelho (I Co.9:16), sem falar em todos os crentes que foram dispersos de Jerusalém (At.8:4).

-Este envio mostra que os discípulos de Jesus devem ter como comida fazer a vontade de Cristo e realizar a Sua obra (Jo.4:34); nada fazer por si mesmos mas o que o Filho os ensinou (Jo.8:28) e glorificar a Cristo na Terra consumando a obra que lhe foi dada a fazer (Jo.17:4).

-Havia justiça, alegria e paz por causa do sacrifício vicário de Cristo, mas ainda não tinham os discípulos recebido o Espírito Santo. Por isso mesmo, o Senhor Jesus soprou sobre os discípulos para que eles recebessem o Espírito Santo (Jo.20:22).

-O Espírito Santo somente poderia ser dado aos discípulos depois que Jesus fosse glorificado (Jo.7:39), pois somente quando Jesus tirasse o pecado do mundo, poderia haver comunhão entre os homens e Deus, pois é o pecado que faz separação entre eles (Is.,59:2).

-Agora, todos os que creem em Jesus recebem o Espírito Santo (At.5:32; Ef.1:13). O Espírito Santo é dado para quem se arrepende dos seus pecados (At.2:38).

-Tem-se, portanto, mais uma demonstração de que Jesus não Se dirigia apenas aos “doze”, mas a todos os
Seus discípulos, como, aliás, deixara claro na Sua oração sacerdotal (Jo.17:20).

-Por isso, também, não pode ser admitida a interpretação dada pelos romanistas, ortodoxos e anglicanos de que Jesus teria instituído o “sacramento da confissão” em Jo.17:23, dando apenas aos apóstolos e seus “sucessores” o poder de perdoar pecados.

-Quando o Senhor diz que os que haviam recebido o Espírito Santo poderiam perdoar ou reter os pecados, está apenas dizendo que cabe aos Seus discípulos a incumbência de se perdoarem uns aos outros, a fim de que possam também ser perdoados, como o Senhor já ensinara por pelo menos duas vezes durante o Seu ministério (Mt.6:14,15; 18:1-22), tendo, sim, a Igreja o poder de disciplina, como, mais tarde, ensinaria o apóstolo Paulo aos coríntios, mas sempre visando a salvação das almas (I Co.5:1-5; II Co.2:5-11).

-Como bem explana o pastor e teólogo batista Russell Philip Shedd (1929-2016): “O discípulo não pode perdoar ou reter pecados (I Tm.2:5), mas pela revelação profética e pelas Escrituras pode assegurar ao pecador que já foi perdoado ou condenado por Deus (cf. At.5:4,9; 8:23).…” (Bíblia Shedd, nota a Jo.20:23, p.1523).

-A segunda aparição noticiada por João ocorreu no cenáculo no domingo seguinte ao da ressurreição (Jo.20:26). Tomé não estava presente na primeira aparição e, avisado pelos companheiros de que Jesus havia ressuscitado e lhes aparecera, não creu, dizendo que, se não pusesse o dedo no lugar dos cravos e a mão no Seu lado, de modo algum creria (Jo.20:24,25).

-Jesus, então, apareceu no domingo seguinte ao da ressurreição, novamente estando as portas fechadas e, como da vez anterior, saudou-os com a expressão: “Paz seja convosco” e disse a Tomé para que fosse pôr o dedo e visse as Suas mãos, como também pusesse a sua mão no Seu lado, dizendo que ele devia ser crente e não, incrédulo (Jo.20:27).

-Tomé, então, disse: “Senhor meu, Deus meu”, reconhecendo, deste modo, tanto a humanidade quanto a divindade de Jesus, que o repreendeu, dizendo que havia crido porque tinha visto, mas bem-aventurados seriam aqueles que não vissem e cressem (Jo.20:29), em mais uma demonstração de que as declarações de Cristo não se restringiam aos “doze”, mas eram extensivas a todos os discípulos.

-João, então, diz que Jesus havia feito muitos outros sinais que ele não registrara, mas os registrados eram suficientes para que as pessoas cressem que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus e que, crendo, tivessem vida em Seu nome (Jo.20:30,31).

II – A APARIÇÃO JUNTO AO MAR DA GALILEIA

-Parecia que João havia encerrado seu evangelho, mas ele ainda acrescentou como que um apêndice, certamente inspirado pelo Espírito Santo, a fim de que os salvos pudessem manter a esperança da vida eterna.

-Esta conclusão do evangelho inicia-se com o registro da aparição de Jesus a sete discípulos (Pedro, Tomé, Natanael (Bartolomeu), Tiago, João e dois outros mantidos anônimos, que muitos entendem ser André e Filipe, que também eram pescadores).

-João diz que esta aparição se deu “depois” das duas aparições no cenáculo e que esta foi a terceira aparição (Jo.21:1,14). Os discípulos estavam na Galileia e sabemos que, nos relatos de Mateus e de Marcos, foi ordenado aos discípulos que fossem para a Galileia (Mt.28:7; Mc.16:7).

-Seguindo a ordem do Mestre, os discípulos foram para a Galileia, mas ali o Senhor não lhes aparece de imediato. Diante desta demora, que não podemos precisar quanto tempo, só que sabemos que durante o período de quarenta dias que mediou entre a ressurreição e a ascensão (At.1:3), houve um desânimo por parte dos discípulos, notadamente de Pedro, que, então, resolveu ir pescar, no que foi acompanhado por seis dos dez discípulos, que eram pescadores (Jo.21:3).

-Jesus chamara estes discípulos para serem “pescadores de homens” (Mt.4:19; Mc.1:17), mas eles retornavam a pescar peixes. Jesus Se lhes tinha apresentado dois domingos seguidos e, agora, tendo eles vindo para Galileia, segundo Sua ordem, não mais O tinham avistado. Sentiram-se abandonados e decidiram retornar à rotina anterior ao próprio chamado, ocorrido cerca de três anos e meio atrás.

-João estava a escrever seu evangelho num período da história da Igreja que muitos denominam de “época sombria dos tempos apostólicos”, um período em que a Igreja estava a sofrer tanto a perseguição do Império Romano, como também o ataque de heresias, em especial a dos gnósticos, tendo restado do colégio apostólico só o próprio João.

Tudo parecia estar se perdendo, mas o apóstolo do amor mostra, com a narrativa desta aparição, que Jesus pode parecer estar ausente, mas Ele sempre está presente e que devemos n’Ele crer e jamais abandonar o nosso chamado.

-Os discípulos pescadores nada apanharam durante toda a noite. A pesca fora um fracasso, o que, talvez, tivesse feito Pedro, Tiago, João e, muito provavelmente, André se lembrarem daquela outra pesca frustrada que antecedeu ao seu chamado pelo Mestre (Lc.5:5).

-Pela manhã, Jesus Se apresentou na praia, mas os discípulos não O reconheceram. Jesus perguntou se tinham eles algo de comer e eles disseram que não. Jesus, então, mandou que lançassem a rede à direita do barco, que achariam peixes e, ao fazerem-no, pescaram uma multidão de peixes, tendo, então, João identificado que aquela personagem era o Senhor, tendo Pedro, então, se cingido com a túnica, tendo os demais discípulos levado o barco até a terra e, para sua surpresa, quando lá chegaram, já havia peixe na brasa e pão, tendo Jesus os convidado para a refeição (Jo.21:4-14).

-Jesus participava de uma refeição com os Seus discípulos, sinal de comunhão. Como se não bastasse, a refeição fora preparada pelo próprio Senhor, não pelo esforço dos discípulos, que haviam pescado, aliás, por orientação do Mestre.

-O Senhor lhes ali uma importante lição de como deveriam se conduzir na sua vida espiritual, na continuidade da obra do Senhor. Deveriam tão somente “nada fazer por si mesmos mas falar como Cristo havia ensinado” (Cf. Jo.8:28). Fora da orientação de Jesus, o fracasso é inevitável, como fora aquela pesca frustrada.

-Pedro tinha sido o pivô daquela situação e isto não tinha sido acaso. Ele havia negado o Senhor Jesus, verdade que tinha se arrependido e Jesus demonstrou que O havia perdoado, ao citá-lo nominalmente como Seu discípulo às mulheres ao ressuscitar (Mc.16:7).

-Todavia, Pedro ainda não tinha reparado seu erro e o Senhor aproveita esta oportunidade para obter do Seu discípulo uma tríplice confissão de amor, já que havia ocorrido uma tríplice negação.

-Jesus pergunta a Pedro se ele O amava e o apóstolo responde afirmativamente. A pergunta é repetida mais duas vezes e Pedro, na terceira vez, entristecido com a insistência, acaba dizendo que Jesus tudo sabia e que sabia que era amado por Simão (Jo.21:15-17).

Era tudo o que Jesus queria: eliminar, de vez, a autoconfiança e autossuficiência de Pedro, que o havia levado à negação. Agora, Pedro reconhecia que sem Jesus nada poderia fazer (Jo.15:5).

-Este diálogo entre Jesus e Pedro merece uma análise um pouco mais aprofundada. Inicia-se após o jantar, ou seja, é travado num clima de comunhão, pois, como sabemos, a refeição simboliza a comunhão.

-Jesus chama Pedro pelo seu nome de nascimento, Simão, filho de Jonas e lhe indaga se ele O amava mais do que os outros discípulos (Jo.21:15).

-Ao chamar Pedro pelo seu nome de nascimento e não pelo nome que havia posto no discípulo (Mc.3:16), Jesus está como a Se dirigir ao “velho homem”, aquele que havia acompanhado Jesus em todo o Seu ministério terreno, já que, como o próprio Senhor dissera, Pedro ainda não havia se convertido, o que ocorreu somente após a negação, quando chorou amargamente (Mt.26:75; Lc.22:62).

-Este “velho homem” havia como que ressuscitado e foi ele quem disse: “Vou pescar” e que, inclusive,
contagiou os demais a também tomar esta decisão (Jo.21:3).

-O significado de Simão é “ouvinte” ou “cana”. Simão foi, durante o ministério terreno de Jesus, alguém que ouvia o que Jesus pregava e ensinava mas não praticava, alguém que era uma cana que não vergava, que não se submetia à vontade de Cristo, mas fazia sempre a própria vontade.

-A pergunta de Jesus a Simão era se ele O amava mais do que os outros. Tal indagação está relacionada com esta atitude do discípulo de fazer prevalecer a sua vontade, tanto que, quando o Senhor disse que todos O deixariam no processo de paixão e morte, Simão disse que jamais o faria, porque daria a sua vida pelo Senhor, mostrando com todo o esplendor a prevalência do seu ego.

-Simão é rápido na resposta: “Sim, Senhor; Tu sabes que te amo” (Jo.21:15). No texto grego, temos algo
interessante. Na pergunta, Jesus Se utiliza do verbo “phileo”, que é o amor humano e Pedro responde

com o mesmo verbo, “phileo”. Tratava-se, pois, de uma confissão relacionada ao amor humano, ao amor amizade.

-Diante desta resposta, Jesus manda que Pedro apascentasse Seus cordeiros, ou seja, exercesse a função de pastor do rebanho do Senhor, referindo-se aqui aos “novos convertidos”, aos “meninos em Cristo” (I Co.3:1), aos que se alimentam do “leite racional” (I Pe.2:2).

-Jesus repete a pergunta, voltando a chamar Seu discípulo pelo nome de nascimento. Mas, desta vez, Jesus Se utiliza de outro verbo, a saber, “agapao”, que diz respeito ao amor divino, ao amor descrito em I Co.13.

-Quando Simão é indagado sobre se amava com o amor divino ao Senhor, Simão responde, novamente, com o verbo “phileo”.

Ainda estava a prevalecer o eu, não havia a renúncia necessária, a confissão de amor não ultrapassava a dimensão terrena, era um amor amizade, um amor humano, algo que era insuficiente para o novo estágio espiritual advindo da conversão de Pedro após a negação e estabelecida pela paixão, morte e ressurreição de Cristo.

-Mesmo diante desta resposta insatisfatória, o Senhor Jesus manda que Pedro apascentasse Suas ovelhas, ordem que não o estava a instituir como “Papa”, mas, sim, como aqueles que deveriam cuidar das ovelhas do único rebanho e do único Pastor (Jo.10:16).

-Cristo, então, faz, pela terceira vez, a pergunta a Pedro e, desta vez, utiliza-Se da palavra “phileo” e Pedro se entristece por lhe ter sido perguntado pela terceira vez, mas, na sua resposta, embora torne a responder com a mesma palavra “phileo” (que, afinal de contas, fora empregada pelo próprio Senhor), reconheceu que Jesus tudo sabia e que sabia que o discípulo O amava.

-Embora tivesse se utilizado da palavra “phileo”, Pedro, nesta última resposta, assume a condição de que nada sabia, que quem tudo sabia era Jesus, ou seja, demonstra ter negado a si mesmo, num sinal evidente de conversão e de que, efetivamente, estava pronto para exercer o seu ministério. Superada estava a autoconfiança, a autossuficiência, que tanto haviam marcado o período em que estivera ao lado de Cristo no ministério público do Mestre.

-Jesus, uma vez mais, ordena a Pedro que apascentasse as Suas ovelhas e, ante esta afirmação de Jesus a Pedro, os papistas entendem se ter aí uma comprovação deste falso ensino.

-É importante aqui observar que esta passagem, em momento algum, representa a instituição do Papado ou a confirmação do Papado que teria sido instituído em Cesareia de Filipe (Mt.16:18).

-Pedro havia dito que era o discípulo que mais amava Jesus (Jo.13:37), mas o disse em sua autoconfiança e autossuficiência, pois nem convertido ainda era (Lc.22:32), tanto que tentara reagir com violência à prisão do Mestre (Jo.18:10).

-A ele havia sido dado o privilégio de abrir a porta do Evangelho tanto para judeus como para gentios (Mt.16:19), já que havia sido escolhido pelo Pai para ter a revelação de Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt.16:16,17).

-Deste modo, tinha mesmo de publicamente reparar a negação, a fim de obter a credibilidade para a missão que lhe fora confiada e que se cumpriu no dia de Pentecostes, quando abriu a porta do Evangelho aos judeus (At.2:7-14) e na casa de Cornélio, quando abriu a porta do Evangelho aos gentios (At.10:1-6).

-Jesus não estabeleceu Pedro como Seu “vigário”, como a “cabeça visível da Igreja”, como defendem os romanistas. Pedro foi constituído como um dos pastores do rebanho do Senhor, como, aliás, ele mesmo diria décadas depois (I Pe.5:1).

-O “Vigário de Cristo”, como ensinou o Senhor Jesus, nas Suas últimas instruções aos discípulos, é o
Espírito Santo (Jo.14:16).

-A única cabeça da Igreja é Jesus (Ef.1:22; 5:23), sendo Ele também a sua única pedra fundamental (I Co.3:11; I Pe.2:4-8).

-Jesus, ainda, diz a Pedro que ele envelheceria e, quando o fizesse, outros o cingiriam e o levariam para onde ele não quisesse (Jo.21:18), uma realidade de toda pessoa que envelhece, já que, com a perda do vigor físico, passa a depender dos outros e tem comprometida a sua própria independência, como já alertara o pregador em Ec.12.

-Ao lembrar estas palavras de Jesus, João lembrar seus leitores de que tinha sido exatamente o que tinha ocorrido com Pedro, que foi martirizado (Jo.21:19), o que reforça a tradição existente de que Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo.

-Jesus ordena a Pedro que O seguisse, o que, uma vez mais, reforça a ideia de que não se tem aqui nada semelhante ao Papado, porque Jesus dá a Pedro a mesma ordem que dá a todos os discípulos, que era o de segui-l’O (Mt.8:22; 9:9; 19:21; Mc.2:14; 10:21; Lc.5:27; 9:59; 18:22; Jo.1:43), vir após Ele (Mt.16:24; Mc.8:34; Lc.9:23).

-Este seguimento era voluntário e, ao longo do ministério terreno de Jesus, nem sempre foi correspondida esta ordem. Mateus, o publicano, atendeu a este chamado (e tanto é assim que não devia estar entre os sete discípulos que resolveram ir pescar), o que, entretanto, não foi o caso do mancebo de qualidade e de um outro discípulo que quis primeiro enterrar seu pai.

-A ordem foi dada por Jesus porque este seguimento não permitia que Pedro tivesse feito o que fizera, que
foi o de voltar a pescar, sendo que havia sido chamado para ser “pescador de homens”.

-O seguimento a Jesus exige obediência, a abnegação, ou seja, a renúncia de si mesmo, o negar-se a si mesmo. Este é, aliás, o primeiro passo a ser dado pelo discípulo. Jesus chegou mesmo a dizer que quem não renuncia a si mesmo não pode ser considerado Seu discípulo (Mty.16:24; Lc.14:33).

-Pedro havia se convertido mas havia tornado a deixar agir o seu ego e, o que é mais impressionante, levado seis outros discípulos a segui-lo nesta atitude de reativação do próprio “eu”. Como diz cântico do saudoso pastor e cantor Alceu Pires (1942-2025):

“A demora vem quando o eu encontra no coração lugar, se entregaste tua causa a Deus, sê paciente em esperar. Porque maldizer-se sem razão se é tudo como Deus quiser, ou você confia em Deus ou não, crente meio termo Ele não quer. Não deixes desvanecer tua fé, Deus não tarda e te receberá. Entrega teu caminho ao Senhor, confia n’Ele e o mais Ele fará”.

-Este diálogo entre Jesus e Pedro foi acompanhado por João, que estava próximo de ambos (Jo.21:20), o que dá a entender que Jesus manteve este diálogo não na frente de todos os discípulos, com um tanto quanto de reserva, o que é um cenário bem provável mesmo, visto que Jesus nunca humilhou ou constrangeu qualquer pessoa, algo que se precisa fazer sempre na igreja local e na vida quotidiana de cada servo de Jesus e que, lamentavelmente, nem sempre é observado, ainda mais, em nossos dias, em que a internet e as redes sociais diminuíram grandemente este espaço de reserva e de intimidade.

-Como João estava próximo, Pedro, então, pergunta ao Senhor Jesus qual seria o futuro do apóstolo do amor.
-Temos aqui uma curiosidade de Pedro.

Já que o Senhor Jesus lhe havia dito o seu futuro, dizendo que ficaria velho e que acabaria por ser cingido e levado para onde não queria ir, Simão Pedro se achou no direito de também saber o futuro daquele que era o caçula do colégio apostólico.

-Jesus, entretanto, não revelou a Pedro o futuro de João, tendo apenas dito que se Ele, Cristo, queria que João ficasse até que Ele viesse, isto não era da conta de Pedro, que deveria se limitar a seguir a Jesus (Jo.21:20- 22).

-Embora vivamos num ambiente fraternal, onde os irmãos devem amar-se uns aos outros (Jo.13:34; 15:12) e onde o próprio crescimento espiritual depende do outro (Rm.12:4-8; Ef.4:11-16; I Co.12:8-11), tanto que, quando somos salvos, somos inseridos pelo Espírito Santo no corpo de Cristo (I Co.12:13), o Senhor trata com cada um dos Seus discípulos, formando uma unidade não da massa com a Divindade, mas de cada crente com o Senhor (Jo.17:19-21).

-Deus fez a cada ser humano diferente do outro, somos indivíduos, ou seja, não podemos ser suprimidos para que se forme uma coletividade, tanto que, mesmo na eternidade, cada um terá uma individualidade diante de Deus, a ponto de cada um ter um nome que ninguém saberá a não ser o seu portador (Ap.2:17).

-Pedro queria saber algo que era da individualidade de João e, portanto, algo que não lhe cabia saber. Esta curiosidade, entretanto, não é exclusividade de Pedro e muitos são os que, hoje em dia, querem saber da intimidade e vida particular de outrem, algo que não tem o aval de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

-Esta curiosidade acaba gerando um grande mal no meio do povo de Deus, o que costumamos dizer ser um dos dois “dons” que não foram postos pelo Senhor na Igreja mas “criados” pelos crentes, a saber, o “dom da fofoca” ou “dom do mexerico” (o outro é o “dom de papagaio”, ou seja, a repetição de algo dito sem verificação de sua autenticidade e verdade).

-Os curiosos querem saber o que não lhes compete saber tão somente para divulgar o que se soube, trazendo constrangimento, humilhação e desprazer entre os irmãos. Por isso, o Senhor proibia que houvesse mexeriqueiros no meio de Israel (Lv.19:16).

-Paulo, escrevendo a Timóteo, aconselha seu filho na fé a que evitasse que surgissem mulheres ociosas, que andassem de casa em casa e que, pela ociosidade, tornassem-se paroleiras e curiosas, falando o que não convém (I Tm.5:13).

-O apóstolo mostra-nos que o mexerico, a fofoca nasce da ociosidade, da falta do que fazer e que isto degenera, rapidamente, no falar em demasia e na intromissão na vida alheia, dando origem a toda sorte de pecados, como a calúnia, injúria, mentira e falso testemunho.

-Tanto assim é que a pergunta curiosa de Pedro acabou gerando uma “fofoca” que João se sentiu na obrigação de desmentir no seu evangelho, qual seja, a de que Jesus havia dito que João não morreria até que Ele voltasse, isto é, o arrebatamento da Igreja se daria antes da morte de João (Jo.21:23).

-Vejamos quanto mal faz a curiosidade, o querer saber o que não convém saber. O apóstolo Paulo orienta- nos a que somente saibamos o que nos convém saber (Rm.12:3).

-Na verdade, o que Jesus disse é que João não morreria antes que o Senhor viesse até ele e revelasse as coisas que brevemente iriam acontecer, antes que terminasse a inspiração das Escrituras, com a revelação dada ao apóstolo na ilha de Patmos, o livro do Apocalipse, com o qual se encerra a Bíblia Sagrada (Ap.1:1; 22:8,16-21).

-João conclui o seu evangelho dizendo ter sido testemunha de tudo quanto escreveu e que Jesus havia feito muitas outras coisas que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se escrevessem.
-Jesus continuava a operar, é o que João nos quer transmitir com estas expressões, e por isso podíamos crer que Ele é o Cristo, o Filho de Deus e termos vida em Seu nome, marchando com esperança para os céus.
Podemos agir como João nos sugere? Tomara que sim!

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11543-licao-13-renovacao-da-esperanca-i

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