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LIÇÃO Nº 2 – A IGREJA DE JERUSALÉM: UM MODELO A SER SEGUIDO


INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo da igreja em Jerusalém, observaremos o modelo de sua estruturação.

-A igreja em Jerusalém é um modelo a ser seguido pelas igrejas locais.

I – A IGREJA EM JERUSALÉM É MODELO BÍBLICO

-Na sequência do estudo sobre a igreja em Jerusalém, verificaremos a qualidade dela de ser um modelo a ser seguido pelas igrejas locais.

-Consoante vimos na primeira lição deste trimestre, o livro de Atos dos Apóstolos não é apenas o livro histórico do Novo Testamento, mas também é uma obra de caráter normativo, que nos apresenta qual o modelo de Igreja que deve ser seguido pelos discípulos de Cristo.

-Lucas, ao iniciar o livro de Atos, diz que havia escrito o primeiro tratado, ou seja, o evangelho, para registrar o que Jesus começou não só a fazer mas a ensinar (At.1:1).

-Ora, ao assim se manifestar, o evangelista diz que seu registro tinha por finalidade tornar conhecido o que Jesus fez enquanto esteve em Sua peregrinação terrena, para que isto servisse de exemplo a cada um daqueles que cressem n’Ele.

-Tanto assim é que Lucas diz que seu registro era apenas o que Jesus começou, agora haveria de registrar, em Atos, a continuidade dos feitos de Jesus, por intermédio de Suas testemunhas (At.1:8), a Sua Igreja.

-Os Evangelhos não têm apenas o propósito de registrar a biografia de Nosso Senhor, mas, também, mostrá- l’O como exemplo a ser seguido. Ele próprio determinou aos discípulos que quem quisesse vir após Ele deveria segui-l’O (Mt.16:21; Mc.8:34) e Pedro foi claro ao afirmar que Jesus é o nosso exemplo, cujas pisadas devemos seguir (I Pe.2:21).

-Atos, portanto, tem o mesmo propósito, não apenas dá informação a respeito dos primeiros anos da história da Igreja, mas também mostrar-nos qual foi o modelo estabelecido pelo Espírito Santo para a Igreja, modelo este que deve ser, portanto, seguido, até porque faz parte de texto inspirado pelo próprio Espírito.

-Neste ponto, a igreja em Jerusalém, nascida sob a ação direta do Espírito Santo no dia de Pentecoste, por ser a primeira igreja local estabelecida e que ocupa a maior parte do livro de Atos enquanto tal, é um evidente modelo a ser seguido pelas demais igrejas locais.

-Observemos, ainda, o cuidado tomado pelo Espírito Santo, que inspirou para este registro uma pessoa imparcial, que nem sequer fazia parte da igreja em Jerusalém, um meticuloso escritor, minudente, detalhista e que somente registrava aquilo que efetivamente tivesse comprovado (Lc.1:1-4) e que, além de tudo, era gentio e discípulo do apóstolo Paulo, que teve muitos adversários naquela igreja.

-Portanto, diante de tais circunstâncias, não há como verificar que o que o texto nos transmite é a mais pura verdade e que, portanto, tem-se evidenciado o cuidado e zelo do Espírito Santo para a transmissão de tais fatos, que, deste modo, devem ser vistos como um norte, uma direção de como devem se estruturar as igrejas locais enquanto Jesus não vem arrebatar a Sua Igreja.

II – O QUE É COMUNHÃO

-Em seguida à narrativa das primeiras conversões, Lucas passa a fazer uma descrição da igreja local surgida em Jerusalém. Após o “Kristos” como tema da mensagem e da proclamação da Palavra, o “kerigma”, feita por Pedro, Lucas mostra que, da genuína conversão, nasce a “koinonia”, isto é, a comunhão.

-A palavra “comunhão” é uma expressão típica da Igreja, tanto que sé é encontrada nas Escrituras Sagradas em o Novo Testamento e, mais especificamente, após a “inauguração” da Igreja a partir do dia de Pentecostes do ano 29.

-Seu primeiro aparecimento na Bíblia é em At.2:42, na primeira descrição deste novo povo de Deus, quando se diz que os crentes perseveravam na doutrina dos apóstolos e na “comunhão”.

-É a tradução da palavra grega “koinonia” (κοινωνία). A Bíblia de Estudo Plenitude aponta o significado desta palavra como sendo “compartilhamento, uniformidade, associação próxima, parceria, participação, uma sociedade, um companheirismo, ajuda contribuinte, fraternidade”, dizendo tratar- se de “uma uniformidade realizada pelo Espírito Santo.

Em koinonia, o indivíduo compartilha o vínculo comum e íntimo do companheirismo com o resto da sociedade cristã. Koinonia une os crentes ao Senhor Jesus e uns aos outros.” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Palavra-chave: comunhão, p.1109) (destaques originais).

-A Bíblia On-line da Sociedade Bíblica do Brasil, por sua vez, afirma que a comunhão é “associação com uma pessoa, envolvendo amizade com ela e incluindo participação nos seus sentimentos, nas suas experiências e na sua vivência”, “relacionamento que envolve propósitos e atividades comuns”.

-O surgimento da palavra “comunhão” nas Escrituras Sagradas só depois do início da evangelização feita pelos apóstolos é uma demonstração de que se trata de um fenômeno que exige, previamente, a salvação das pessoas.

Não há que se falar em “comunhão” se, antes, não se tiver o novo nascimento, ou seja, a visão e a entrada no reino de Deus (Jo.3:3,5).

-Em Seu diálogo com Nicodemos, o Senhor Jesus deixou bem claro que somente através do novo nascimento se pode ver e entrar no reino de Deus e que quem vê e entra está na luz (Jo.3:21) e para que tenhamos comunhão uns com os outros e com Deus é necessário que andemos na luz (I Jo.1:7).

-A “comunhão” é, portanto, um efeito da salvação, uma consequência de termos nos arrependido dos nossos pecados, crido em Jesus como nosso único e suficiente Salvador e, em virtude disso, passado a ter um novo modo de viver, uma nova direção em nossas vidas (conversão), o que é possível porque somos perdoados dos nossos pecados, tornados justos por Deus (a justificação) e separados do pecado e de seu domínio (a santificação posicional).

-Antes estávamos longe de Deus mas, pelo sangue de Cristo, chegamos perto (Ef.2:13) e, por isso, passamos a integrar este novo povo, a Igreja, o grupo daqueles “reunidos para fora”. Destarte, passamos a viver separados do mundo mas unidos a Cristo e a Seus irmãos, união esta que é a “comunhão”.

-Esta “comunhão” é “tornar comum”, ou seja, “tornar de todos”, aquilo que somente Jesus Cristo tinha, que
era a qualidade de não ter pecado e, portanto, ser um com o Pai (Jo.10:30;17:22).

-Como Jesus nunca pecou, mantinha, enquanto homem, uma estrita comunhão com o Pai, pois o que faz divisão entre o homem e Deus é o pecado (Is.59:2).

Como não havia pecado da parte de Cristo, nada impedia que Ele e o Pai estivessem em plena unidade, fossem um, tivessem comunhão e é por isso que nós, na medida em que cremos em Jesus e temos removidos os nossos pecados, também podemos ter esta mesma comunhão e se realize, assim, o anseio e desejo do Senhor manifestado na Sua oração sacerdotal, de sermos “perfeitos em unidade” (Jo.17:23).

-“Comunhão”, portanto, é passar a compartilhar dos sentimentos, propósitos e desígnios de Deus, é ser “participante da natureza divina” (II Pe.1:4), é ser “vara da videira verdadeira” (Jo.15:4,5).

-O salvo, ao alcançar a salvação, passa a ter em comum a natureza divina, ou seja, passa a ser santo, a se separar do pecado, a abominá-lo, assim como Deus e a ter os mesmos desejos, pensamentos e sentimentos divinos em suas atitudes, sendo, portanto, um instrumento, consciente e livre, para a manifestação do amor divino para os demais seres humanos.

-Não é coincidência, pois, que Lucas, ao descrever a igreja nos seus primeiros dias, tenha afirmado que se tratava de um povo que perseverava na doutrina dos apóstolos e na comunhão, ou seja, a igreja é um povo que, por permanecer nos ensinos dos apóstolos, que são os ensinos de Cristo Jesus, a Palavra de Deus, é um grupo de pessoas que permanece na comunhão, persiste sendo um conjunto de pessoas que compartilha dos mesmos desejos, dos sentimentos e desígnios.

-A comunhão apresenta-se, pois, como a principal característica da Igreja, a sua marca perante a humanidade, a característica indispensável para que o Senhor possa realizar a Sua obra através do Seu povo.

-Pela comunhão, a Igreja mostra-se como um povo perante os demais seres humanos e, graças a ela, pode cumprir todas as tarefas determinadas a ela.

Tanto assim é que o relato de Lucas a respeito da igreja primitiva termina com o cumprimento da principal missão da Igreja: “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (At.2:47 “in fine”).

-Para que haja comunhão, portanto, é preciso que haja ausência de pecado, não só em virtude da chamada “santificação posicional”, ou seja, a nossa colocação por Deus entre os santos, pelo perdão dos nossos pecados (cfr. Sl.40:2,3), como também em virtude da nossa “santificação progressiva”, ou seja, a nossa contínua separação do pecado no dia-a-dia de nossa vida espiritual (cfr. Ap.22:11).

-A multiplicação do pecado em nossos dias (Mt.24:14) produz inevitavelmente a diminuição da comunhão e o consequente crescimento das divisões, porfias, dissensões e todas as obras pecaminosas similares a estas no meio daqueles que servem a Deus (Gl.5:20; Jd.20).

-A comunhão é o compartilhamento, participação, ou seja, a ação de tomar parte em algo, de se tornar parte de alguma coisa. Quando aceitamos a Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador, nós nascemos de novo e, ao nascermos novamente, esta nova criatura que surge é um ser que decide ser parte de um corpo, que é a Igreja, que deseja, de livre e espontânea vontade, passar a ser apenas uma parcela, uma parte de um organismo que tem propósitos, sentimentos e vontade determinados pelo Senhor Jesus, que é a sua cabeça.

-Desejar ser parte da Igreja é desejar ser submisso a Cristo, fazer o que Ele manda, tomar a posição e exercer a função que Ele determinar neste corpo. O crente que está em comunhão com Deus é um crente que

não escolhe lugar, trabalho, tarefa, mas que se põe onde o Senhor manda, que ocupa o espaço que lhe é reservado no corpo de Cristo, pois tem consciência de que é parte do corpo, que é um “membro em particular” (I Co.12:27), ou, como diz a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, “cada um é uma parte desse corpo”.

-A comunhão é a consciência que o crente tem de que é uma “parte desse corpo”, é uma “peça da engrenagem” e que, portanto, deve se relacionar bem com os demais integrantes do corpo, sabendo que todos são necessários, que ninguém é melhor do que ninguém, de que precisamos uns dos outros e que a obra de Deus somente se fará pela união de esforços, de objetivos, propósitos e sentimentos, o que nos será transmitido pelo Espírito Santo, a Quem incumbe nos anunciar tudo o que tiver ouvido e glorificar a Cristo (Jo.16:13,14).-

Comunhão é compartilhamento, é participação e, por isso, é muito mais que uma conjugação de esforços, que uma mistura, que uma adição de pessoas.

Muitos têm confundido a comunhão com uma simples mistura, esquecidos de que, na mistura, como nos ensina a química, há “associação de substâncias, distribuídas uniformemente, em processo que deixa intactas as moléculas, resultando num todo homogêneo”, ou seja, apesar de, a olho nu, na mistura, muitas vezes, vermos uma confusão na reunião de pessoas, na associação de elementos, na verdade, cada elemento continua intacto, ainda que isto nos seja invisível.

Há um todo homogêneo, mas cada elemento continua diferente, muitas vezes até oposto (aliás, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa considera que um dos significados de “mistura” é, precisamente, “reunião de coisas diversas e/ou opostas”).

-Mistura não é comunhão, pois, na mistura, os elementos permanecem sendo o que eram antes de ser reunidos, antes de ser confundidos, antes de ser dissolvidos, mas, na comunhão, ao contrário, o que se tem é a transformação do elemento em parte de um todo que é uniforme, não apenas a olho nu, mas em essência, em natureza.

Por isso, o apóstolo Paulo podia dizer que não mais vivia, mas Cristo vivia nele, porque agora era parte do corpo de Cristo, um elemento que participava da natureza divina, não um ser independente e que se mantinha intacto, intocado por Deus.

-Exemplo de mistura era o “vulgo” que saiu com Israel do Egito (Ex.12:38; Nm.11:4). A palavra hebraica para se referir a esta “mistura de gente” é “`ereb” (עדב), cujo significado é de “material entrelaçado, combinado”, como se fossem as linhas juntadas pelo tricô ou crochê, ou seja, pessoas que haviam estabelecido relacionamentos, que haviam se juntado com o povo de Israel, que pareciam ligados a eles mas que se mantinham intocados por Deus, que não faziam parte do povo de Deus, que não constituíam aquela nação que havia se comprometido a servir ao Senhor.

-Por isso, mantinham-se alheios aos propósitos divinos, não eram “parte do povo”, mas, sim, uma “mistura”, elementos que se mantinham independentes de Deus, sem qualquer compromisso com Ele. Foram estes que levaram a geração do Êxodo à incredulidade e à morte (Hb.3:19).

OBS: Em Nm.11:4, a palavra hebraica utilizada para designar o “vulgo” é “’aspesuf” (אספסף), que significa “ralé”, “conjunto de pessoas à parte”, a indicar que se tratava de um grupo que não estava unido ao povo, à propriedade peculiar de Deus entre os povos, mas pessoas que se mantinham apartadas da presença de Deus.

-A Igreja é um povo que tem comunhão com Deus e, por ter comunhão com o Senhor, sabe que é apenas uma parte e, por isso, acaba tendo comunhão uns com os outros, pois como temos consciência de que somos “partes”, sabemos que os outros irmãos também são “partes” e, por isso, nos unimos, sabendo que somente com a nossa união, o corpo poderá produzir o que a cabeça exige e determina, pois sabemos que somos “membros uns dos outros” (I Co.12:27 APF).

Para que produzamos fruto e o nosso fruto permaneça (Jo.15:16), é fundamental que nos comportemos como “varas da videira verdadeira”, que assumamos a nossa condição de “partes” do corpo de Cristo.

-Por isso, devemos ter todo o cuidado para fazer distinção entre os que são membros da igreja local e os que são apenas “congregados”, ou seja, aqueles que frequentam as reuniões e atividades da igreja local mas ainda não tiveram a experiência do novo nascimento, ainda não entregaram suas vidas para Cristo.

-É evidente que a igreja local deve ser amistosa e acolhedora, bem recebendo todas as pessoas que quiserem participar do cotidiano da igreja, mas não podemos nos esquecer de que há uma distinção entre os salvos e os não salvos, de sorte que se deve evitar a imediata inclusão dos congregados ou simpatizantes em atividades da igreja, pois isto só trará prejuízo, já que não há comunhão entre a luz e as trevas (II Co.6:14).

-Lamentavelmente, nos dias hodiernos, este cuidado não se tem verificado e as pessoas que chegam às igrejas locais, mesmo antes de se batizarem nas águas, já assumem funções e atividades na igreja local, o que tem muito contribuído para a frieza espiritual de muitos destes lugares.

-Este mesmo cuidado deve existir com aqueles que passam a ter uma vida na prática do pecado, demonstrando estarem fora da comunhão com Cristo, terem retornado a se envolver com as corrupções do mundo (II Pe.2:20- 22), pessoas que devem ser excluídas da comunhão da Igreja, pois passaram a ser iníquas (I Co.5:13), a ser filhas do diabo (I Jo.3:8) e, como tal, proibidas de qualquer participação no cotidiano da igreja enquanto não se arrependerem.

-Lembremo-nos do que dizia o missionário Theodore Richard Stohr (1915-2000) em artigo publicado no jornal Mensageiro da Paz em 1938: “… Cremos na vida santa dos discípulos (mesmo os contemporâneos nossos).

Não permitimos que tomem partes em nossos coros, orquestras etc., aqueles que não tenham passado pela experiência do novo nascimento.

Excluímos (em absoluto) aquele que seja fumante ou bebedor ou que frequente teatros, cinemas, bailes, jogos, e tantas outras misérias do mundo. Os tais não fazem parte do santo corpo de Cristo, que é a Igreja.…” (apud GERMANO, Altair. A origem do “Cremos” das Assembleias de Deus no Brasil. Disponível em: http://www.altairgermano.net/2011/10/origem-do-cremos-das-assembleias- de.html Acesso em 27 dez. 2016).

-É importante vermos que o fato de assumirmos a condição de “partes” do corpo de Cristo não significa a anulação de nossa individualidade.

Somos “membros em particular” do corpo de Cristo, ou, na expressão trazida pela Nova Versão Internacional, “cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo” (I Co.12:27) ou, na Tradução Brasileira, “individualmente um de seus membros”, o que nos mostra, claramente, que mantemos a nossa individualidade, mas a nossa vida passa a ser vivida em função do Senhor Jesus e de nossa posição no Seu corpo.

Não viramos “massa” nem “robôs”, mas, por livre e espontânea vontade, passamos a renunciar a nós mesmos e a fazer a vontade do Senhor (Mt.16:24).

-A comunhão é, portanto, um estado espiritual que deve ser mantido pela nossa submissão ao Senhor Jesus, de Quem nos tornamos participantes (Hb.3:14), participação esta que exige, de nós, a retenção firme do princípio da nossa confiança até o fim, ou seja, que mantenhamos a nossa fé em Cristo Jesus até o instante de nossa morte física ou do arrebatamento da Igreja, se estivermos vivos até lá. Comunhão se faz, portanto, mediante a submissão nossa a Cristo, através da manutenção da nossa fé.

-Vemos, pois, que a associação que se fez entre a comunhão e a participação na ceia do Senhor é apenas uma figura da comunhão e não ela mesma, como, infelizmente, alguns consideram, ainda sob o influxo dos ensinos sacramentalistas surgidos no seio do romanismo.

-Não há dúvida de que a ceia do Senhor é uma declaração de que estamos em comunhão com Deus (o que é representado pelo vinho, símbolo do sangue que nos fez chegar perto de Deus) e com os nossos irmãos (o que é representado pelo pão, símbolo do corpo de Cristo, ou seja, da Igreja) (I Co.10:16).

-No entanto, o simples ato de participar da celebração da ceia não é prova da comunhão nem nos traz comunhão, mas é uma declaração de que estamos em comunhão.

A comunhão vem de nossa vida espiritual de submissão a Deus, de conscientização de que somos “parte do corpo de Cristo” e que estamos “separados do pecado” desde o dia em que aceitamos a Cristo e fomos purificados pelo Seu sangue, que continua a nos purificar, dia após dia, se nos mantivermos em santidade.

-Tanto assim é que os que participam da ceia do Senhor sem ter esta vida de comunhão com Deus estão selando a sua própria condenação, porque estão a mentir, a faltar com a verdade, a não discernir o corpo do Senhor, a não compreender o que é a Igreja, o que é ser salvo, o que é ter comunhão com Deus e com o Seu povo (I Co.11:29,30).

III – A IGREJA PERSEVERA NA DOUTRINA DOS APÓSTOLOS E NA COMUNHÃO

-Visto o que é a comunhão, notemos a descrição que Lucas faz desta igreja formada por convertidos, que receberam a Palavra e que se uniram aos discípulos que haviam sido batizados com o Espírito Santo no dia de Pentecostes.

-A primeira característica que notamos é a “perseverança”. Lucas diz que “perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações”. Jesus mesmo disse que “aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt.24:13).

-O novo nascimento é essencial, pois só através dele é possível ver o reino de Deus, passar a ter a viva esperança da herança incorruptível e incontaminável que está guardada para nós nos céus, mas, se isto é necessário, não é, contudo, suficiente.

O próprio Jesus disse que, depois de nascer de novo, torna-se necessário nascer da água e do Espírito para se poder entrar no reino de Deus (Jo.3:5).

-A Igreja é formada por aqueles que “perseveram”, ou seja, como nos mostra o teólogo norte-americano e autor de concordância bíblica James Strong (1822-1894), em seu vocabulário de termos gregos do Novo Testamento, o grego “hupomeno” (υπομενω) se refere àqueles que “conservam a intenção de alguém em conflito, resistem à adversidade, à pressão, mantêm-se firmes, persistem sob pressão, esperam calma e corajosamente” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Palavra-chave: perseverar, Mt.24:13, p.983).

Aqueles mencionados pelo Senhor Jesus na carta à igreja de Filadélfia, que “guardam a Sua Palavra e não negam o Seu nome” (Ap.3:8).

-Somos aqueles que “perseveram”? Temos resistido às investidas da carne, do mundo e do diabo contra nós? Ou estamos já completamente envolvidos pelo pecado e sob seu domínio? A Igreja, em primeiro lugar, é aquela que “persevera”, que permanece naquele mesmo sentimento que a fez deixar a geração perversa, se arrepender dos seus pecados e passar a viver para Deus.

-A perseverança, em primeiro lugar, é com “a doutrina dos apóstolos”. Notemos que só foram batizados os que “receberam a Palavra” (At.2:41). Agora, estes, que receberam a Palavra, são os que “perseveram na doutrina dos apóstolos”.

-A “doutrina dos apóstolos” não era novidade alguma, era aquilo que eles haviam aprendido com Jesus durante o Seu ministério terreno, a doutrina de Jesus que não era d’Ele mas do Pai que O havia enviado (Jo.7:16).

Tanto assim é que os próprios inimigos dos apóstolos reconheciam que eles ensinavam a doutrina de Jesus (At.5:28). Quem persevera na doutrina de Cristo, tem tanto ao Pai quanto ao Filho (II Jo.9).

-Para que sejamos Igreja, é mister que “perseveremos na doutrina dos apóstolos”. Lamentavelmente, já são muitos os que trocaram a “doutrina dos apóstolos” pelos “preceitos ou mandamentos de homens” (Mc.7:7; Cl.2:22) e, mesmo, por “doutrinas de demônios” (I Tm.4:1). Tomemos cuidado de nós mesmos e da doutrina, para que não deixemos de ser parte da Igreja que será arrebatada (I Tm.4:16).

-Nos dias em que vivemos, muitos são os que cristãos se dizem ser que são verdadeiros “analfabetos funcionais bíblicos”, que não compreendem nem conhecem o que dizem as Escrituras e que, por isso, são facilmente levados por qualquer “vento de doutrina” (Ef.4:14). É necessário “perseverarmos na doutrina dos apóstolos”, é indispensável, para chegarmos ao céu, conhecermos e prosseguirmos em conhecer ao Senhor (Os.6:3).

OBS: Recentemente, o Brasil ficou estarrecido com a votação estrondosa obtida pelo palhaço Tiririca, o deputado federal mais votado nas eleições de 2010. Verificou-se que ele era um analfabeto funcional e, mesmo assim, mais de um milhão e trezentos mil eleitores de São Paulo, o estado mais desenvolvido do país, elegeu-o.

No segmento dito evangélico não tem sido diferente. Milhares de “tiriricas bíblicos” têm arrastado após si multidões. Tomemos cuidado, temos de “perseverar na doutrina dos apóstolos”!

-Mas, além de perseverar na doutrina dos apóstolos, a Igreja também persevera “na comunhão”. Já vimos supra o que é comunhão, e esta comunhão era mantida, preservada entre os servos do Senhor Jesus.

A comunhão, entendamos bem, não gera apenas a unidade, mas também faz com que haja respeito com a diversidade existente no meio do povo de Deus, que é unido, mas não, uniforme.

-A comunhão mostra-nos, com clareza, onde está a nossa esperança, em quem e o que devemos esperar. Quem tem comunhão com Deus comporta-se como peregrino nesta Terra (Sl.119:19), a exemplo de Abraão, o pai da fé (Gn.23:4) e dos demais heróis da fé (Hb.13:13-16).

-Quando vemos pessoas que se dizem servas do Senhor mas que estão completamente envolvidos com as coisas desta vida, podemos notar que são pessoas que partem rapidamente para a morte espiritual, se é que já não a alcançaram (Mt.13:22).

-Há um só Senhor, ou seja, a Igreja tem uma única cabeça, o Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ele é o Sumo Pastor (I Pe.5:4).

-Quando estamos em comunhão com Deus, temos esta consciência de que somos servos e que há um só Senhor. Na Igreja, todos sabem que não são melhores do que os outros e que os maiores existem para servir os menores (Mt.20:26; Mc.10:43).

-Os falsos mestres, falsos profetas e falsos apóstolos procuram arrebanhar pessoas à sua volta, procuram criar subterfúgios e falsos ensinos para fazer valer a sua “autoridade” sobre os crentes, por intermédio de “novas unções”, “coberturas apostólicas” e coisas desta natureza, que nada mais são do que enganos e provas de que são pessoas que estão fora da comunhão do Senhor.

Há um só Senhor e não há qualquer mediador entre Deus e os homens, a não ser Jesus Cristo homem (I Tm.2:5).

-Por isso, a comunhão com Deus impede o mercenarismo, a simonia, ou seja, o amor ao dinheiro. Com efeito, como ensina o Senhor Jesus, não se pode servir a dois senhores: ou se serve a Deus ou se serve às riquezas (Mt.6:24; Lc.16:13).

-Como, na “koinonia”, há um só Senhor, vemos que não é possível estar em comunhão com o coração nos tesouros desta terra (Mt.6:19,21). Vemos, pois, quão longe da genuína e autêntica Igreja estão os falsos mestres, movidos pela ganância, pela avareza e enxergam no povo de Deus só uma forma de fazer negócios, de enriquecimento (cada vez mais fácil, aliás) (II Pe.2:1-3).

-Há uma só fé, ou seja, a verdadeira fé, a única fé é aquela que é nascida pelo ouvir e o ouvir pela Palavra de Deus (Rm.10:17), que testifica de Jesus Cristo (Jo.5:39). A comunhão faz com que tenhamos fé apenas em Jesus, ou seja, na Sua Palavra, abandonando, assim, as fábulas, as crendices, as superstições, os pensamentos filosóficos e científicos.

-Muitos têm se apartado da simplicidade que há em Cristo Jesus (II Co.11:3), sendo enganados pelo adversário de nossas almas e passando a crer em tudo menos na Palavra de Deus. Entretanto, a fé é única e sem esta única fé não poderemos, de modo algum, alcançar a salvação e, consequentemente, a comunhão (Ef.2:8).

-Há um só batismo, ou seja, somente se ingressa no corpo de Cristo por intermédio do novo nascimento, da operação do Espírito Santo na vida daquele que, convencido pelo Espírito Santo, arrepende-se dos seus pecados e passa a viver uma nova vida na fé do Filho de Deus (Gl.2:20). Este batismo a que Paulo se refere

não é nem o batismo nas águas, nem o batismo com o Espírito Santo, mas o batismo por ele próprio mencionado em I Co.12:13, ou seja, o ingresso no corpo de Cristo através da regeneração, da salvação. Ninguém pode entrar no reino de Deus a não ser nascendo da água e do Espírito (Jo.3:5), i.e., crendo na pregação do Evangelho e sendo convencido pelo Espírito Santo.

-Isto é muito importante porque, nas igrejas locais, há muitos que ali estão não porque foram “batizados em um Espírito” nem tampouco porque tenham nascido de novo, mas que estão a pertencer ao grupo social por tradição familiar, por simpatia ou, mesmo, por religiosidade, quando não, como tem sido cada vez mais frequente, por interesses materiais.

Estes não estão em comunhão, porque só há um batismo, só há uma forma de se ingressar no corpo de Cristo, e esta forma exige a fé na Palavra e o convencimento do Espírito Santo, ou seja, o novo nascimento.

-Lamentavelmente, há muitos que acham que podem entrar no céu pela janela, mas a única entrada possível é pela porta, que é o próprio Jesus (Jo.10:9), Aquele que é pregado na Palavra e que o Espírito Santo trabalha para que seja glorificado.

Quem não entra pela porta, é ladrão e salteador (Jo.10:8). Não há, pois, como se ingressar no reino de Deus a não ser pelo sangue de Cristo vertido na cruz do Calvário (Ap.22:14).

-Há um só Deus e Pai de todos, O Qual é sobre todos, e por todos e em todos. A comunhão traz-nos também a certeza de que há um só Deus e Pai de todos, ou seja, pela comunhão sentimos o amor de Deus por nós e Seu cuidado paternal a cada um de nós. A “koinonia” faz-nos ter a consciência de que somos filhos de Deus, de que fomos feitos filhos de Deus e que isto não é um merecimento nosso, mas fruto da graça divina, da Sua infinita misericórdia. Por isso, nossa comunhão é com o Pai e com o Filho (I Jo.1:3 “in fine”).

-A comunhão da Igreja leva-nos a ver a cada irmão como filho de Deus, como alguém dotado de uma posição privilegiada na ordem cósmica, como alguém que é fruto do amor divino e que, por isso, tem de ser considerado, respeitado e dignificado. É Deus de todos, ou seja, não faz acepção de pessoas e considera a todos os salvos igualmente.

-Além do mais, a comunhão faz-nos perceber que Deus está sobre todos nós, ou seja, é soberano, Alguém que deve ser objeto de adoração e obediência; que Deus está por todos, ou seja, que Ele sempre está trabalhando a nosso favor, é um Deus que intervém na criação, que não nos abandona e um Deus que está em todos, ou seja, que habita em cada salvo.

-Como, então, sermos parciais na Igreja? Como tratarmos bem alguns e não outros? Como fazer acepção, como, aliás, desde a igreja primitiva, ocorria, como vemos registrado na carta do apóstolo Tiago, ele próprio pastor da igreja em Jerusalém (Tg.2:1-13). Tal comportamento demonstra que não se está em comunhão com o Senhor.

-Vemos, pois, que quem nega a divindade de Jesus, quem nega Sua condição de Filho de Deus não pode estar em comunhão com o Pai e, portanto, não pertence à Igreja de Deus.

Reconhecer a Deus como Pai é “ipso facto” reconhecer a Jesus como o Filho, pois quem nega o Pai, nega o Filho. Eis, pois, um importante fator de identificação do povo de Deus, que tem comunhão com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo (I Co.1:9; II Co.13:14; i Jo.1:3).

-A comunhão não significa, porém, uniformidade, ou seja, não se exige que todos os salvos tenham, em todos os lugares e em todas as épocas, a mesma forma, a mesma maneira, o mesmo jeito de servir a Deus.

-Muito pelo contrário, a comunhão proporciona a união, que é a qualidade de ser um, mediante a unidade na diversidade. Como disse o apóstolo Paulo, no trecho que estamos a analisar, na Igreja, temos a “unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef.4:3).

-Ora, se existe um vínculo (em grego, a palavra é “sundesmos” – σύνδεσμος), é porque existe uma ligação,
algo que junta dois ou mais seres, ou seja, não se trata de um único ser, mas de um conjunto de seres. Somos

o corpo de Cristo, mas, também, “seus membros em particular”, isto é, não perdemos a nossa individualidade,
as nossas características próprias quando nos unimos ao Senhor e à Sua Igreja.

-Esta é uma das grandes riquezas do povo de Deus que, muitas vezes, é desprezada e até alvo de ataque por alguns menos avisados e que não conhecem bem a Palavra de Deus.

-O povo de Deus tem um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, mas é um povo formado por pessoas que são diferentes umas das outras, que têm grupos que se distinguem por causa de sua cultura, de seu modo de viver, de seus costumes, de sua maneira de servir a Deus.

-Todos são santos, todos têm de ser separados do pecado, todos devem servir ao mesmo Senhor, ter a mesma fé, ter o mesmo batismo, ter o mesmo Pai. Todos são irmãos e, portanto, devem amar-se uns aos outros, não devem promover dissensões, lutas e pelejas entre si, porque produzem o fruto do Espírito e não as obras da carne, mas, nem por isso, são iguais. Deus, aliás, não fez uma pessoa igual ou idêntica a outra sobre a face da Terra e, como a Igreja é formada por seres humanos, naturalmente que será um grupo de pessoas que diferem entre si.

-A Bíblia mostra-nos que o Espírito Santo é um só, é o mesmo, mas atua por intermédio de diversas atuações (I Co.12:4-6), a confirmar, pois, que, no corpo de Cristo, como em qualquer corpo, embora se tenha uma unidade, existem elementos que diferem uns dos outros, mas cujas diferenças, além de necessárias, servem para reafirmar a unidade do corpo.

-Esta aparente contradição é encontrada na raiz da própria palavra “igreja”, que, como sabemos, é o conjunto dos “reunidos para fora”.

Por estarem reunidos, trata-se de um corpo, de uma unidade, mas por serem indivíduos que foram postos “para fora”, não são uma massa uniforme, um agregado de mesmices, mas pessoas que estão “fora”, ou seja, que foram “apartadas”, “afastadas” de outras, que continuam sob o domínio do mal e do pecado.

Por isso, são “diversas”, pois a palavra “diversa” tem origem no latino “diversus”, que significa precisamente “apartado”, “separado”.

OBS: Lembramos que a palavra grega para “diversidade”, em o Novo Testamento, é “diairésis” (διαίρεσις), cujo significado é o mesmo, ou seja, “variedade” no sentido de “distribuição, divisão, separação”.

-A sabedoria de Deus é “multiforme” (Ef.3:20), assim como é “multiforme” a Sua graça (I Pe.4:10), de modo que não podemos, de forma alguma, exigir que todos os salvos tenham a nossa mesma “forma”, o nosso mesmo “jeito”.

-Identificamos um salvo não pela sua aparência, não pelo seu modo de servir a Deus, mas, sim, com o “olhar de Barnabé”, i.e., verificando se, no grupo social que encontramos, naquela igreja local com que nos deparamos, há a “graça de Deus” e o “propósito do coração para permanecer no Senhor” (At.11:23).

-A unidade do Espírito é feita pela existência de um andar digno da vocação do Senhor, com humildade, mansidão e longanimidade, pela presença de um só Espírito, de uma só esperança, de um só Senhor, de uma só fé, de um só batismo, de um só Deus e Pai de todos.

-Havendo estas características no meio de um certo grupo de pessoas, devemos reconhecê-la como parte da Igreja e nos unirmos a ela com o “vínculo da paz”, ou seja, devemos viver em harmonia com este grupo, dedicando-nos a servir a Deus da nossa forma, atendendo à nossa vocação, enquanto aquele grupo também o faz do modo determinado pelo Senhor a eles.

-Não podemos contender nem lutar com eles, mas cada qual, pelo vínculo da paz, fazer o trabalho que é o mesmo: o da pregação do Evangelho e preparação dos salvos para a volta do Senhor.

-Um reino dividido contra si mesmo é devastado, como ensinou o Senhor Jesus (Mt.12:25,26). Por isso, o adversário de nossas almas tem conseguido causar grande prejuízo à obra de Deus porque consegue criar, no

meio do povo de Deus, o espírito de divisão, o ânimo da competição, gerando brigas, disputas e lutas entre quem deveria ser irmão.

-Este espírito faccioso tem origem diabólica (Tg.3:15,16), gerando tão somente perversão e animalidade. Fujamos, pois, de tal comportamento, buscando estar debaixo da mão potente de Deus, em comunhão com Ele e com o Príncipe da Paz, pois temos paz com Deus (Rm.5:1) e, enquanto depender de nós, devemos ter paz com todos os homens (Rm.2:13), o que significa termos, sempre, paz com os irmãos (I Ts.5:13).

OBS: Neste sentido, devemos concordar com a expressão cunhada na Constituição dogmática Lumen Gentium, o principal documento doutrinário do Concílio Vaticano II, que ora transcrevemos:

“…o Espírito suscita em todos os discípulos de Cristo o desejo e a ação, para que todos, pelo modo estabelecido por Cristo, se unam pacificamente em um só rebanho sob um único Pastor.…” (LG. nº 15).

Também, no decreto “Unitatis Redintegratio”, o principal documento do Ecumenismo na Igreja Romana, verdadeira é a afirmação que ora se transcreve:

“…Todos, na verdade, se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e andam por caminhos diferentes, como se o próprio Cristo estivesse dividido.

Esta divisão, sem dúvida, contradiz abertamente a vontade de Cristo, e se constitui em escândalo para o mundo, como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a criatura…”(UR, nº 1).

-Desta maneira, não podemos ser “sectaristas”, ou seja, entendermos que só o nosso modo de ser é o correto, que somente podemos servir a Deus da maneira como o fazemos, dentro dos costumes, tradições e modo de pensar do grupo, ministério, convenção ou denominação a que pertencemos.

-O sectarismo leva à intransigência, à intolerância e vemos que, quem está em comunhão com Cristo, é longânimo, ou seja, paciente, tolerante, suporta a todos em amor (Ef.4:2). O sectarista não tem o Espírito de Deus mas é movido pelo espírito faccioso, que, como vimos, não tem origem em Deus.

-Isto não significa, por óbvio, que sejamos tolerantes com o pecado, pois a longanimidade de Deus está relacionada com o pecador, jamais com o pecado (Ap.21:27), que o Senhor abomina e jamais aceita, visto que é um ser santo (Lc.11:44; I Pe.1:16).

-Temos um só Senhor, que é santo e a comunhão com Deus, como sabemos, é consequência da remoção dos nossos pecados. Aliás, quem diz que está em comunhão com Deus e vive pecando, não pratica a verdade (I Jo.1:6).

-Evidentemente, pois, não podemos consentir com o pecado nem praticá-lo, mas daí a ser sectarista há uma grande distância, distância que, infelizmente, muitos não têm sabido observar. O sectarismo leva ao farisaísmo, que é abominável ao Senhor Jesus (Mt.23).

-A unidade na diversidade, a diversidade com unidade permite que se tenha a paz entre os irmãos, entre os membros do corpo de Cristo e o resultado disto é o crescimento bem ajustado de todo o corpo em amor (Ef.4:15,16).

O vínculo da paz permite que cada um exerça a função para a qual foi chamado, que cada grupo cumpra o seu propósito para o Senhor e, como consequência disto, há uma operação conjunta, há um desenvolvimento da obra de Deus, o seu crescimento em amor, pois o amor é o “DNA” do povo de Deus.

-Fala-se muito em crescimento de igrejas na atualidade, havendo dezenas, senão centenas de estratégias, de modelos, de visões e de mecanismos para o crescimento da Igreja. No entanto, o único modelo, estratégia, visão e mecanismo a funcionar é o crescimento em Cristo, que é a cabeça, mediante o seguir da verdade em amor (Ef.4:15).

Quando estabelecemos a “unidade do Espírito pelo vínculo da paz”, o resultado só pode ser o crescimento da Igreja, seja em quantidade, com o agregar daqueles que se hão de salvar, seja em qualidade, mediante a maturidade espiritual dos salvos.

-O Salmo 133 revela esta realidade. Ao falar da vida em união que deve haver entre os irmãos, o salmista revela que, somente num ambiente de união, o Espírito Santo atua plenamente; somente num ambiente de união, cada membro em particular do corpo de Cristo (figurado por Arão, o escolhido para o sacerdócio) se deixa envolver plenamente pelo Espírito Santo (figurado pelo azeite);

somente num ambiente de união, o refrigério do Espírito Santo pode nos consolar e nos permitir, mesmo neste mundo de sequidão e necessidade, termos a paz, a alegria e o amor divinos (figurados pelo orvalho de Hermom);

somente num ambiente de união, a Igreja prossegue vitoriosa para se encontrar com o seu Senhor nos ares, cheia de vida espiritual e abençoada nos lugares celestiais em Cristo (Jo.15:5,6; Ef.1:3), porque é no ambiente de união que “…o Senhor ordena a vida e a bênção para sempre” (Sl.133:3 “in fine”).

-Para sermos unidos é preciso estarmos integrados em Cristo, ou seja, termos o absoluto comando da cabeça, do Senhor Jesus. Somente quando renunciamos a nós mesmos, de modo consciente e voluntário, sem perdermos nossa individualidade, mas a submetendo à vontade do Mestre, poderemos propiciar o crescimento da Igreja em amor.

Por isso, vemos claramente que a comunhão é resultado de uma vida disciplinada, pois, conforme já visto anteriormente neste trimestre, toda disciplina começa pelo amor a Deus, que impõe a renúncia de nós mesmos.

-Na comunhão, tornamos real e concreto em nossas vidas o desejo expresso pelo Senhor na oração que nos ensinou: “seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu”. Ao promover a comunhão com Deus e uns com os outros, tornamos realidade e fato a vontade de Deus na Igreja, por nosso intermédio.

-A comunhão dos santos é fundamental para que a Igreja desempenhe as suas tarefas. É, aliás, uma de suas missões a construção e a manutenção desta comunhão, missão que não é apenas das lideranças, nem tampouco dos ministros, mas de cada crente em particular.

Somente quando tomamos consciência do que significa ser “parte do corpo de Cristo”, de sermos “varas da videira verdadeira” é que poderemos, com êxito, fazer tudo aquilo que nos está proposto pelo Senhor. Estamos a perseverar na comunhão do Senhor?

III – A IGREJA PERSEVERA NO PARTIR DO PÃO E NAS ORAÇÕES

-Esta perseverança na doutrina dos apóstolos e na comunhão leva à perseverança no partir do pão. Esta expressão “partir do pão” tem sido objeto de discussão entre os estudiosos da Bíblia: está Lucas se referindo à participação na ceia do Senhor ou no sustento material dos crentes?

-Alguns entendem que o “partir do pão” deve ser interpretado materialmente, até porque, logo a seguir, o escritor narra que os crentes “partiam o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração” (At.2:46), a indicar, portanto, que se tratava de uma repartição de alimentos, para impedir que as pessoas passassem fome ou necessidades materiais.

-Por isso mesmo, alguns veem aí um “comunismo cristão”, e, mais do que depressa, afirmam que Jesus Cristo foi o “primeiro comunista” e que, portanto, as ideologias socialistas e comunistas que pulularam no meio das nações, com maior intensidade, a partir do século XIX, teriam um “fundamento cristão”, seriam o “verdadeiro cristianismo”.

-Outros, no entanto, veem na expressão “partir do pão” tão somente a ceia do Senhor, a celebração daquele ritual estabelecido pelo Senhor Jesus na noite em que foi traído, inclusive, a partir daí, construindo toda uma teoria de que a manutenção da unidade da Igreja e da sua própria existência depende deste “sacramento”, deste “sinal da graça de Deus” entre os que cristãos se dizem ser.

-Preferimos entender que a expressão “partir do pão” aqui trazida por Lucas abrange ambos os significados. O “partir do pão” tanto é a participação na ceia do Senhor, que é a reunião magna da Igreja, pois nela se comemora a morte e ressurreição do Senhor Jesus até que Ele venha, como também traduz a repartição dos alimentos entre todos os integrantes daquela igreja local formada a partir do dia de Pentecostes.

-O “partir do pão” é consequência tanto da doutrina como da comunhão e, portanto, é uma demonstração tanto de cumprimento das Escrituras quanto do amor de Deus.

Ao participar da ceia do Senhor, os crentes estavam cumprindo o mandamento dado por Jesus (I Co.11:24-26); ao ajudar os necessitados, impedindo-os de passar necessidades materiais, os crentes também estavam a cumprir o mandamento de Jesus que nos mandar amar uns aos outros como Ele nos amou (Jo.15:12).

-Ademais, devemos observar que estávamos, ainda, dentro de uma esfera cultural tipicamente judaica e, para os judeus, a refeição é um prolongamento do sacrifício, é a continuação de uma adoração a Deus. Na lei, as refeições sempre se seguiam aos sacrifícios pacíficos cerimoniais, não só para os sacerdotes (Lv.2:3,10; 6:16; 7:14-16) como para o povo em geral (II Sm.6:18,19; Ne.8:10-12).

-“…Para os judeus religiosos, o comer e o beber nunca significaram, tão somente, a mera gratificação sensorial ou o simples apaziguamento da fome ou da sede, como o era para os outros povos; constituíam, na verdade, um rito religioso. Essa atitude desprendida tornava os judeus ainda mais conscientes de sua identidade. Dava-lhes, também, naturalmente, a sensação de serem ‘diferentes’ de outros grupos religiosos ou étnicos.(…).

Na verdade, os judeus estavam proibidos de comer pão que houvesse sido cozido por um gentio ou, até mesmo, de comprar dele vinho, leite e queijo (…) — alimentos que não podiam, naturalmente, ser preparados segundo as leis dietéticas.

A razão da existência da lei contra o partilhar do pão com os não-judeus em seus lares era explicada, de maneira a mais franca, no Talmud [segundo livro sagrado do judaísmo, observação nossa]: ‘Não devemos comer do pão deles pois que seremos levados a beber do vinho deles.

Não devemos beber o vinho deles porque podemos ser levados a casar com um deles, e isso só nos levará a adorar seus deuses’…” (AUSUBEL, Nathan. Leis dietéticas. In: A JUDAICA, v.5, pp.448-9).

-Notamos, pois, que o “partir do pão” representa muito mais que simples repartição de alimentos, mas uma demonstração de pertencimento a um mesmo povo, uma atitude que fazia com que todos se reconhecessem como “irmãos”, o que se dava não só na celebração da ceia do Senhor, mas na participação em todas as refeições.

-Mas, além de noção de pertencimento a um mesmo povo, as refeições judaicas eram ocasiões de adoração a Deus, pois, antes e depois das refeições, era imperioso que o judeu desse graças, recitasse bênçãos.

“…Na lei judaica, você está proibido de comer nem que seja só um pouquinho antes de recitar uma bênção Caso contrário, o Talmud diz que você estará cometendo o pecado do roubo.

Deus nos dá muito, mas exige em troca a nossa gratidão e o reconhecimento pelas maravilhas do universo. (…). Para os judeus praticantes, toda refeição tem que terminar do mesmo modo que começou — com uma bênção.

O judaísmo ensina que agradecer após as refeições é muito mais importante do que antes de comer. Quando você está com fome, é fácil agradecer a Deus pela comida que está prestes a comer.

O verdadeiro teste para uma pessoa vem quando ele ou ela está saciado(a) (Dt.8:10) …” (BLECH, Benjamin. O mais completo guia sobre judaísmo. Trad. Uri Lam, pp.268, 275).

-Por isso, a perseverança no “partir do pão” é uma demonstração concreta e efetiva da comunhão, uma verdadeira exteriorização desta comunhão que é um fenômeno espiritual mas que se traduz por atitudes concretas de amor a Deus e de amor ao próximo (I Jo.3:16-19).

-Mas, além da perseverança no “partir do pão”, havia, também, perseverança nas orações. Quem está em comunhão com o Senhor tem desejo ardente de contemplar a Sua face continuamente, de entrar, com ousadia, diante do trono da graça, o que se faz pela oração.

-A oração é a “elevação da alma a Deus por Sua graça” e, quem está em comunhão com o Senhor, quem tem a viva esperança de uma herança incorruptível e incontaminável guardada para nós nos céus jamais deixa de orar.

-Conforme já vimos na lição anterior, a igreja em Jerusalém, ainda antes do seu nascimento, já estava perseverando unanimemente em oração aguardando o batismo no Espírito Santo (At.1:14) e, em oração, escolheram o substituto de Judas Iscariotes (At.1:24-26).

-Não há, pois, como se ter uma comunhão com Deus se não se tiver a prática da oração, pois a oração é uma das formas de comunicação com o Senhor e não há comunhão sem prévia comunicação, pois esta é a ação de tornar comum e a comunhão, consoante já vimos, é o estado de ser comum.

-Jesus é o exemplo de oração: entrou no mundo orando (Hb.10:5-7); exerceu Seu ministério sempre orando (Lc.11:1); morreu orando (Lc.23:46) e, agora, no céu, continua orando pelos Seus discípulos (Rm.8:34).

-A igreja em Jerusalém tinha um culto diário no templo, no alpendre de Salomão, precisamente na “hora da oração”, ou seja, quinze horas (At.3:1,11).

-Uma das características dos pentecostais é a prática da oração, como nos dá conta o missionário Theodore Richard Stohr no já mencionado artigo do jornal O Mensageiro da Paz:

“…Tal despertamento nasceu em oração e vive, deste modo, até hoje. É na atmosfera da oração que temos respirado o puro ar celestial, que nos revigora e nos conduz como Igreja missionária, triunfante!” (ibid.).

-O esfriamento espiritual de nossos dias demonstra-se claramente pela pífia frequência dos cultos de oração, pela substituição da oração por outras atividades nos ainda existentes cultos de vigília (porque muitas igrejas locais nem mais os realizam) e pelo enorme número de pessoas que não mais oram nos templos ainda do início das reuniões.

-Lembremos de provérbio cunhado pelos cristãos da China: “Muita oração, muito poder; pouca oração, pouco poder; nenhuma oração, nenhum poder”.

IV – AS CONSEQUÊNCIAS DA PERSEVERANÇA DA IGREJA

-Diante deste quadro descrito por Lucas, não temos dificuldade de entender o ambiente espiritual que reinava na igreja de Jerusalém.

-Em virtude da perseverança na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações, é dito
que “em toda a alma havia temor”.

-O temor a Deus é resultado de uma vida de intimidade com Deus. Quem teme a Deus, i.e., quem reconhece a Sua soberania, o Seu senhorio, quem Lhe obedece é somente aquele que passa a conhecê-l’O, passa a ter intimidade com Ele, mediante o aprendizado da “doutrina dos apóstolos” e as experiências com o Senhor e com os irmãos na comunhão, no partir do pão e nas orações.

-Nos dias difíceis pelos quais atravessamos, a falta de perseverança na doutrina dos apóstolos faz com que não se conheça quem é o Senhor e, desta maneira, não há como se desenvolver o temor a Deus.

Não há comunhão, mas competição, espírito faccioso e, desta maneira, não se tem como estar unido à videira verdadeira (Jo.15:1-5).

-O temor do Senhor advém do aprendizado da Palavra de Deus (Sl.34:11), é o princípio da sabedoria (Sl.111:10), o princípio da ciência (Pv.1:7), um fator que nos faz distanciar do pecado e nos aproximar da presença de Deus (Pv.8:13;16:6; II Co.7:1).

-A igreja é composta de pessoas tementes a Deus, pessoas que não têm medo de Deus, mas, sim, respeitam e reverenciam o Senhor, obedecendo-lhe de coração. Por serem tementes ao Senhor, fazem a Sua vontade e, por conseguinte, são ouvidas por Ele (Jo.9:31).

-Num ambiente de perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações, há a manifestação de sinais e maravilhas (At.2:43).

Este tópico será desenvolvido especialmente numa lição próxima, visto que o livro de Atos é uma sequência de relatos de milagres operados em nome do Senhor Jesus, mas é importante verificar que os sinais seguem aos que creem (Mc.16:17), são confirmação da Palavra (Mc.16:20).

-O evangelho completo tem de ter sinais e maravilhas, mas os sinais e maravilhas são consequência de uma perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações. Atualmente, muitos

sinais e prodígios estão a surgir no meio do povo que se diz de Deus, mas são acontecimentos sobrenaturais totalmente desvinculados de um ambiente de doutrina, comunhão, partir do pão e orações. Tomemos cuidado com isto, pois vivemos os dias em que, se possível fora, enganados seriam até mesmo os escolhidos (Mt.24:24).

-Outra consequência da perseverança da Igreja na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações é a fraternidade, a união entre os crentes. “Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum” (At.2:44).

-Esta afirmação de Lucas, como já dissemos supra, tem sido utilizada por alguns como prova de um “comunismo cristão”, como uma tentativa de “demonstração bíblica” de ideologias materialistas que passaram a ser adotadas por muitos a partir do século XIX e que redundou no surgimento dos regimes marxista-leninistas que dominaram mais da metade do mundo em boa parte do século XX e que ainda dominam alguns países (China, Coreia do Norte, Cuba, Vietnã, Nicarágua e Venezuela), tendo a clara preferência da maior parte dos governos da América Latina (Brasil inclusive) na atualidade.

-Por primeiro, este “comunismo” da igreja de Jerusalém era resultado de uma comunhão com Deus, ou seja, os crentes, ao se arrependerem de seus pecados, passaram a ter uma viva esperança de viver com o Senhor Jesus, entendendo que, muito brevemente, haveriam de contemplar o retorno do Senhor dos céus.

-Esta comunhão com Deus e o desejo ardente de irem para o céu contrasta com o marxismo-leninismo que, para começo de conversa, é ateu, não crê na existência de Deus e, muito menos, de uma vida além-túmulo.

-Por segundo, este “comunismo” da igreja de Jerusalém era resultado do derramamento do amor de Deus nos corações dos crentes pelo Espírito Santo (Rm.5:3), a colocação em prática do mandamento de Jesus que mandava os discípulos se amarem uns aos outros como Jesus os havia amado (Jo.15:12).

-Ao contrário, o marxismo-leninismo defende o ódio entre classes, a eliminação da “burguesia”, que explora o “proletariado”, mediante a “revolução”, o clímax da chamada “luta de classes”.

-Note-se que todos vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um, de forma voluntária, não mediante uma “conscientização de classe” que usasse de meios violentos para a eliminação física e tomada à força do patrimônio alheio, como sempre aconteceu nas chamadas “revoluções comunistas”.

-Ademais, nos regimes marxista-leninistas, não há repartição dos bens tomados, mas o acúmulo da maior parte deles nas mãos de uma elite, normalmente a cúpula do partido comunista que liderou a revolução, enquanto a pobreza é dividida pela população, que sempre experimenta a miséria e a necessidade.

-Por terceiro, este “comunismo” da igreja de Jerusalém não tinha qualquer pretensão de estabelecer um planejamento de sobrevivência sobre a face da Terra, tanto que, depois de alguns anos, diante da perseguição e da dispersão dos crentes pela Judeia, passaram eles a padecer necessidades, tendo de ser ajudados por crentes de outros lugares (At.11:29; Rm.15:25,26; I Co.16:1-3).

-Ao contrário, o marxismo-leninismo pretende criar um sistema planejado de sobrevivência do homem sobre a Terra onde não haja mais injustiça social e onde todos possam usufruir igualmente dos bens e recursos existentes, ainda que, na prática, tal sistema tenha sido sempre um rotundo fracasso, pois representa apenas a inviabilização do progresso e do desenvolvimento, já que suprime o mérito e o estímulo ao aprimoramento.

-Por quarto, este “comunismo” da igreja de Jerusalém levou os crentes a terem uma vida de dedicação exclusiva ao Senhor, perseverando todos unânimes no templo todos os dias, louvando a Deus e promovendo o crescimento do número de salvos.

-Ao contrário, o marxismo-leninismo é ateu e quer que todos sejam ensinados a não crer em Deus, considerando a religião “o ópio do povo”, perseguindo e impedindo a religião pública, destruindo os templos e não permitindo, de forma alguma, o crescimento do número de salvos (ainda que, como nos ensinou a China, tenham também fracassado nesta intenção de sufocar o Evangelho).

-Outra consequência da perseverança da Igreja na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações é a unanimidade da perseverança dos crentes na frequência aos cultos, seja nos templos, seja nas casas, cultos onde havia a concreta demonstração da unidade e do amor de uns para com os outros, uma verdadeira unidade que levava os crentes a frequentarem as casas uns dos outros, a terem suas vidas compartilhadas, não só no partir do pão, como também na alegria e singeleza de coração (At.2:46).

-A presença de crentes no templo e nas casas destrói a falsa ideia desenvolvida nos últimos anos de que a existência de templos foi uma “paganização” da Igreja. Os crentes de Jerusalém reuniam-se, até o início da perseguição, no templo de Jerusalém, pois era ele o lugar reservado à adoração ao Senhor.

Temos, pois, desde o início da Igreja, uma reunião pública de todos os crentes, reunião que era diária, feita na hora da oração, a nona (At.3:1).

-Além desta reunião pública, os crentes também se reuniam em suas casas, para juntos partir o pão, o que envolve não só participação nas refeições, mas, também, adoração a Deus, como já vimos supra. Tudo era feito com “alegria e singeleza de coração”, ou seja, havia um ambiente de fraternidade, de companheirismo, uma confraternização verdadeira entre os irmãos.

-Na atualidade, cada vez mais temos apenas plateias e multidões que se reúnem como se estivessem num teatro, cinema ou qualquer outro local de espetáculo, onde sentem certas emoções durante um período e depois retornam para seus lares.
-Isto é completamente avesso ao que existia na igreja de Jerusalém.

Esta falta de comunhão, de solidariedade, de compartilhamento de vidas é um traço do desamor que impera entre os que cristãos se dizem ser na atualidade. Tomemos cuidado para não transformarmos os templos em locais de espetáculo, os cultos em “shows”. Construamos uma vida de comunhão com os nossos irmãos!

-De igual modo, temos de tomar cuidado com a proliferação das reuniões “on line”, à distância, que se disseminaram após a equivocadíssima política de distanciamento social adotada durante a pandemia do COVID-19, que fez com que milhares e milhares de crentes passassem a se ausentar das reuniões presenciais.

-Se a presença física sem interação, como já vimos, é um traço de desamor, que dirá a ausência de relacionamento pessoal. O isolamento dos cultos “on line” contraria o modelo bíblico de igreja local.

A transmissão “on line” dos cultos somente se justifica como forma de evangelização a incrédulos e mitigação de uma situação prévia de isolamento da pessoa que se encontra impossibilitada de estar presente na congregação quando da realização do culto, pois a assistência “on line” é um mal menor em relação à completa ausência.

-Outro traço da igreja que tem perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações é
a “alegria e singeleza de coração”. O evangelho é simples, tudo que diz respeito a Cristo é simples.

-Infelizmente, muitos têm abandonado a simplicidade que há em Cristo Jesus (II Co.11:3), adotando uma sofisticação que demonstra a ausência do Espírito Santo.

O Espírito Santo veio nos lembrar das coisas que o Senhor nos disse (Jo.14:26) e, desde o Seu nascimento numa estrebaria, numa manjedoura em Belém (Lc.2:7), Jesus nos ensina a sermos mansos e humildes de coração (Mt.11:29).

-Outro efeito da perseverança da igreja na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações é o louvor a Deus. A igreja de Jerusalém louvava a Deus.

-O louvor a Deus é um sacrifício, o fruto dos lábios que confessam o Seu nome (Hb.13:15) e que somente pode oferecer aqueles que se convertem, que expulsam toda a iniquidade e recebem o bem (Os.14:2).

-Nos dias hodiernos, não são poucos os que não louvam a Deus, mas a si mesmos, que têm apresentado a Deus sacrifícios abomináveis, visto que provenientes de um coração impuro e que, não raras vezes, são ofertas igualmente impuras, com ritmos, melodias e letras profanas, que não agradam ao Senhor (Is.1:11-20).

-A perseverança da Igreja na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações produziu, também, a “queda na graça de todo o povo” da Igreja, ou seja, os crentes passaram a ter uma credibilidade e uma reputação diante do povo judeu. Quem lê este ponto, parece confundir-se, já que Jesus havia dito que os Seus discípulos seriam aborrecidos do mundo como Ele o foi (Jo.15:18-20).

-Não podemos confundir as coisas. Não resta dúvida de que a igreja, por sua conduta de comunhão com Deus, tornar-se-á inimiga do mundo, pois, afinal de contas, foi este o trabalho que Jesus veio fazer, como preconizado desde a queda do homem no Éden (Gn.3:15). No entanto, todo o sofrimento e toda a oposição sofrida pela Igreja é por causa do seu bom testemunho. O cristão padece por ser fiel a Deus (I Pe.2:12; 4:13- 17).

-A Igreja, mesmo perseguida, tem uma boa reputação diante dos homens, que nada poderão dizer contra o crente senão o fato de ele ser servo de Deus.

O mundo sempre dirá que o cristão é uma boa pessoa, honesta, cumpridora de seus deveres, mas cujo “defeito” é o de ser “crente”.

Todos viram que o rosto de Estevão brilhava como um rosto de um anjo (At.6:15), o que não o impediu de ser apedrejado. De igual modo, o testemunho da Igreja é insofismável, ainda que, por causa dele, venhamos a padecer perseguições e aflições.

-Por fim, em virtude da perseverança na doutrina dos apóstolos, comunhão, partir do pão e orações, veio o crescimento numérico da Igreja. “E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar” (At.2:47).

-O crescimento quantitativo da Igreja é, sim, um objetivo a ser alcançado pela evangelização, mas é como que o derradeiro efeito de toda uma vida de comunhão com Deus.

-Os números demonstram a presença do Espírito Santo no trabalho, mas, antes deles, muita coisa precisa acontecer. O grande problema dos “movimentos de crescimento de igreja” da atualidade é que estão a buscar, em primeiro lugar, os número$, quando eles são uma consequência inevitável que virá no tempo certo.

-Em busca de número$, está-se a abrir mão da doutrina dos apóstolos e, sem perseverança na doutrina, não teremos crescimento do número de salvos, pois o aumento era daqueles que se haviam de salvar, é este o único crescimento que conta para Deus. A inserção de pessoas não salvas nas estatísticas das igrejas locais é algo que não tem qualquer importância para Deus.

-Em busca de número$, está-se a abrir mão da comunhão. Há um espírito de competição, uma verdadeira concorrência entre os diversos segmentos, movimentos, ministérios e denominações, num verdadeiro “mercado de salvação”.

-Nesta “lei da oferta e da procura”, não há como se falar em arrependimento de pecados e conversão, pois é preciso fazer número e uma mensagem “antipática”, “dura”, fará com que a pessoa vá para a próxima esquina, atrás de uma mensagem “light”.

-Desta maneira, não há qualquer crescimento verdadeiro, mas tão somente divisão, até porque tudo que é movido pelo sentimento faccioso é terreno, diabólico e animal (Tg.3:14-16) e Jesus já disse que o que é nascido da carne é carne (Jo.3:6a).

-Em busca de número$, está-se a abrir mão do partir do pão. Nesta competição e concorrência desenfreada, não há lugar para demonstração de amor ao próximo, muito menos de uma verdadeira comunhão com Deus e com os irmãos.

-A própria ceia do Senhor é banalizada, oferecida indiscriminadamente, sem qualquer reverência. O que se incentiva e estimula é o egoísmo, o individualismo, não a ajuda ao necessitado nem o compartilhamento seja de bens materiais, seja de bens espirituais.

-Em busca de número$, está-se a abrir mão das orações. Afinal de contas, se não há mensagem de arrependimento de pecados, não há conversão e, se não há conversão, não há como se orar a Deus, que só ouve a quem tenha deixado e abandonado seu pecado (Is.59:2).

Em troca da oração, estabelecem-se “fórmulas”, “sacrifícios”, ilusões que mantenham o povo dependente dos líderes enganadores, que querem ter à sua volta os incautos.

– Não são estratégias humanas que fazem o homem alcançar a salvação, mas tudo era acrescentado pelo Senhor. À Igreja cumpre perseverar na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações que o Espírito Santo se encarrega de convencer os pecadores do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8) e de acrescentar aqueles que se hão de salvar. Temos compreendido isto?

 Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11573-licao-2-a-igreja-de-jerusalem-um-modelo-a-ser-seguido-i

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