LIÇÃO Nº 4 – A PATERNIDADE DIVINA
INTRODUÇÃO
– Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade, analisaremos o significado da paternidade divina.
– Profundo o significado de Deus ser Pai.
– A IDENTIFICAÇÃO DE DEUS COMO PAI NO ANTIGO TESTAMENTO
– Concluindo o primeiro bloco deste trimestre dedicado ao estudo da Doutrina da Trindade, em que estamos a analisar a Pessoa Divina do Pai, analisaremos o significado da paternidade divina.
– Deus nada faz sem propósito e ao Se revelar aos homens como Pai, e a identificar uma das Pessoas Divinas como Pai, quis demonstrar a grande profundidade do relacionamento que quer estabelecer com a humanidade, a coroa da criação terrena (Sl.8:5).
– Deus não só Se revelou como Pai, como também assim é identificado uma das Pessoas Divinas, o que, por si só, já nos mostra como o Ser Supremo considera importante que apreendamos o significado de tal aspecto de Sua essência.
– Isto ainda mais se intensifica ao verificarmos que a Pessoa Divina que Se humanizou e veio habitar entre nós Se identificou como Filho, ou seja, quis também, em Sua sublime revelação, deixar ainda mais forte a figura divina como Pai, a ponto de ensinar que todo o relacionamento com o Senhor se fizesse mediante esta nomenclatura.
– Assim, a começar pela oração, manda-nos que nos dirijamos a Deus como Pai (Mt.6:6,9; Lc.11:2) e, no sermão do monte, dirigido a Seus discípulos, faz questão, sempre, que vejamos a Deus como Pai (Mt.5:45; 6:18,32; 7:11).
– Na Sua oração sacerdotal, dirige-se ao Pai e revela que o objetivo de Sua obra salvífica outro não é senão o de construir uma unidade dos Seus discípulos com o Pai, assim como Ele a tinha (Jo.17:21).
– Sua ênfase em relação era tanta que Filipe, um dos apóstolos, bem traduziu este anseio gerado por Cristo em torno do Pai, tanto que disse que bastava o Senhor Jesus mostrar-lhes o Pai que isto lhes seria bastante (Jo.14:8).
– A figura de Deus como Pai é tão forte que é encontrada corriqueiramente em todas as nações, mesmo tendo elas se rebelado contra o Senhor no episódio de Babel (Gn.11:1-9). “…A invocação de Deus como
«Pai» é conhecida em muitas religiões. A divindade é muitas vezes considerada como «pai dos deuses e dos homens»… (§ 238 CIC).
– Nas Escrituras, vemos, de início, o valor que é dado à figura do pai, sempre visto como uma referência, um ponto de apoio, um respaldo que conferia legitimidade a alguém.
Assim, o varão deixa seu pai e mãe, i.e., seus pais, para se unir a sua mulher e constituir nova família que é, assim, mera continuidade de uma convivência já estabelecida e firme (Gn.2:24).
– Não é por outro motivo que o Senhor, sempre que Se apresenta aos patriarcas, faz questão de dizer que era o Deus do pai da pessoa a quem Se apresentava, como que não só recordando as promessas proferidas ao ancestral, mas respaldando na autoridade, honra e credibilidade do pai, no papel por ele desempenhado, a Sua própria aparição ao descendente, descendente que também se referia a Deus como o Deus de seu pai, reforçando este papel autenticador do pai em relação à própria divindade (Gn.26:3,24; 28:13; 31:42,53; 32:9; 46:3; Ex.3:6; 15:2; 18:4).
– Vemos, pois, que, a princípio, Deus Se revela como sendo o Deus dos pais de Seus servos, usando a paternidade como um fator de autenticação, de legitimidade para a Sua própria atuação.
– A primeira identificação de Deus como Pai, ainda no período patriarcal, se dá pela fala de Eliú, o mais moço dos amigos de Jó, que, em meio à sua fala, dirige-se a Deus como “Pai meu” (Jó 34:36).
– É elucidativo que Eliú é o único dos amigos de Jó que não é repreendido por Deus por não ter dito o que era correto a Seu respeito (Jó 42:7), numa demonstração de que Ele disse o que era certo a respeito de Deus, embora tenha, também, cometido o erro de imputar a Jó a prática de pecados, o que não era o caso.
– Assim, ao identificar o Senhor como Pai, agiu Eliú corretamente, sendo, pois, este já um vislumbre de que assim Deus Se revelaria na sequência da história humana.
– Quando o Senhor manda Moisés ir ao Egito para livrar os filhos de Israel, ordena que Moisés O identifique a Faraó como Pai dos israelitas, pois determina que Moisés diga a Faraó que “Israel era Seu filho primogênito” (Ex.4:22) e que, em virtude da recusa em libertar o Seu filho, morreria o primogênito de Faraó (Ex.4:23), o que acabou acontecendo (Ex.12:29).
– A celebração da Páscoa, portanto, em certa medida, é a comemoração de que Deus é o Pai dos israelitas e que matou os primogênitos do Egito porque Faraó não libertou o seu primogênito.
– No seu último cântico, Moisés identifica a Deus como Pai de Israel, porque o Senhor o adquiriu, o fez e o estabeleceu (Dt.32:6).
– Sabemos que os cânticos na Bíblia são mensagens proféticas, ou seja, é o próprio Deus que está a falar com o povo por meio do canto.
Este cântico tinha uma peculiaridade, pois se tratava de uma mensagem especial que serviria como testemunha divina contra o povo de Israel, cuja desobediência e infidelidade já tinham sido preditas pelo Senhor (Dt.31:16-19).
– Pois bem, ao anunciar que o povo se corromperia, Moisés diz que isto seria uma triste e ingrata recompensa ao Senhor, que era o Pai de Israel, porque o adquirira, o fizera e o estabelecera (Dt.32:5,6).
– Afirma o Catecismo da Igreja Católica que esta declaração de paternidade está vinculada à criação: “…Em Israel, Deus é chamado Pai enquanto criador do mundo (Dt.32:6; Ml.2:10) …” (§ 238 CIC).
– E parece ter mesmo razão, porquanto, embora, à primeira vista, pareça haver algo além da mera criação, por causa do verbo “adquiriu” constante do texto, temos aqui a palavra hebraica “qanah” (ָקָנה), cujo significado primeiro é “erigir”, “erguer”, “fazer surgir” e, só por extensão, “comprar, obter, adquirir”.
– Assim, a melhor tradução para o texto parece estar com a Nova Versão Internacional (NVI): “É assim que retribuem ao Senhor, povo insensato e ignorante? Não é ele o Pai de vocês, o seu Criador, que os fez e os formou?” ou, então, até mesmo a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH):
“Povo sem juízo e sem sabedoria, é assim que tratam o SENHOR Deus? Ele é o seu Pai, que os criou; foi ele quem fundou e firmou a nação de vocês.”, como também a Nova Versão Transformadora (NVT): “⁶ É assim que retribuem ao Senhor, povo tolo e sem juízo? Não é ele o Pai de vocês, que os criou? Não foi ele que os fez e os estabeleceu? “.
Por fim, é o que também diz a Bíblia de Jerusalém (BJ): “É isto que devolvei a Iahweh? Povo idiota e sem sabedoria…Não é Ele teu pai, teu criador? Ele próprio te fez e te firmou!”.
– Cumpre observar que, em nota, a Bíblia de Jerusalém faz questão de dizer que, a partir desse momento, no último cântico de Moisés, começa-se um resumo da história sagrada, ou seja, a identificação de Deus como Pai tem a ver precisamente com o próprio surgimento do povo de Israel.
– Deus não só fez surgir, fez aparecer o povo de Israel como também o executou, pois é este o significado de “fez” no texto, a palavra hebraica “asah” (ָעָשה), cujo significado é “executar ou fazer, no sentido mais amplo e na mais extensa aplicação …” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 6213, p.1857). O Pai não é apenas o que faz surgir, mas o que “forma”, “acaba e termina de fazer”.
– Mas também Deus é dito como Aquele que “estabeleceu” Israel, e aí temos a palavra hebraica “kun” ( ּכּון), cujo significado é de “estar ereto (i.e. ficar perpendicular); donde (causativo) erigir, numa grande variedade de aplicações, quer literais (estabelecer, fixar, preparar, aplicar) ou figuradas (indicar, garantir, assegurado, apropriado ou próspero) (…) certo, certeza, confirmar…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 3559, p.1702).
– O pai não só termina de fazer, como faz algo que fica firme, fixo e estabelecido. Quando Moisés entoa este cântico, é exatamente a situação em que se encontrava o povo de Israel: totalmente formado, faltando apenas conquistar a terra de Canaã, já tendo, inclusive, dominado os territórios que antes pertenciam a Ogue, rei de Basã e a Seom, rei dos amorreus.
– É este mesmo sentido com que o profeta Isaías chama a Deus de Pai de Israel (Is.63:16), como também de Pai de todo ser humano, por ser o Criador da humanidade (Is.64:8).
– Deus também Se identifica como Pai de Salomão, aquele que edificaria o templo, quando firma o pacto com Davi (II Sm.7:14; I Cr.17:13; 22:10).
Nessa oportunidade, é elucidativo que o Senhor Se identifica como Pai para dizer que seria benigno para com o sucessor de Davi, não o tratando como Saul, a indicar que Salomão alcançou a salvação, apesar de seu desvio espiritual.
– O pai, portanto, não é apenas que faz surgir, faz aparecer, mas também aquele que liberta da escravidão, protege, cuida e quer bem, a ponto de perdoar os pecados cometidos.
– É dentro deste contexto que o Senhor Se identifica, no Salmo 68, de autoria de Davi, como “o Pai dos órfãos e juiz de viúvas” (Sl.68:5), mostrando assim que faz parte da paternidade a “proteção amorosa”.
– Também é no contexto da benignidade divina que Etã, o ezraíta, ao cantar as benignidades do Senhor no Salmo 89, um masquil, isto é, um salmo didático, em que o sábio salmista quer ensinar quem é o Deus benigno, diz que Davi O invocaria como pai precisamente por ter sido alvo da benignidade divina (Sl.89:26), ainda que o salmo tenha uma aplicação profética em relação ao Messias, ao Filho de Davi (Sl.89:20-28).
– É também o que nos diz o Salmo 103, que diz que o Senhor é como um pai que Se compadece dos seus filhos para com aqueles que O temem (Sl.103:13).
– Esta noção de Pai como protetor, porém, era tida como insuficiente pelo Senhor. Uma das atitudes que eram repreendidas dos judaítas do tempo de Jeremias, período de apostasia, era, precisamente, o de considerar os ídolos como “pais”, mas pedir a proteção do Senhor nos momentos de perigo e aflição (Jr.2:27).
– A apostasia era tanta que, nem mesmo diante da retirada das chuvas, os judaítas nem sequer mais invocando ao Senhor como Pai para pedir clemência (Jr.3:4,5), a indicar que a paternidade era, também, um relacionamento, que, ante a insistência na vida pecaminosa que, então, era vivida por Judá, que, bem por isso, era denominada de testa de uma prostituta que não queria ter vergonha, já não mais sequer dialoga com Deus.
– Por isso, quando houver a restauração tanto de Israel como de Judá, aí, sim, legitimamente, o povo chamará ao Senhor de Pai (Jr.3:19).
– É isto também que Malaquias abordará, ao transmitir a mensagem de censura do Senhor ao povo de seu tempo, cerca de um século após o retorno do cativeiro, um povo marcado pela indiferença espiritual.
– O Senhor reclama que o povo O chamava de Pai mas não O honrava, menosprezando o Seu nome, a ponto de permitir que animais defeituosos fossem oferecidos em sacrifícios (Ml.1:6-8) e na deslealdade de uns contra os outros, a começar pelos divórcios constantes entre os sacerdotes (Ml.2:10-14).
– Por isso, razão tem o Catecismo da Igreja Católica, ao afirmar: “Ao designar Deus com o nome de «Pai», a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os Seus filhos.…” (§ 239 CIC).
II – A IDENTIFICAÇÃO DE DEUS COMO PAI EM O NOVO TESTAMENTO
– Com a vinda de Cristo, o Filho, evidentemente que Se teria a plena revelação do Pai, pois, como visto, a paternidade é uma relação, um relacionamento.
– Por primeiro, no estertor da dispensação da lei, João Batista, em sua pregação, já censura a soberba israelita com fulcro na paternidade biológica de Abraão, considerando-a uma tola presunção, pois Deus poderia suscitar filhos a Abraão até mesmo de pedras (Mt.3:9; Lc.3:8), pregação que seria repetida pelo próprio Cristo (Jo.8:33-47).
– Aqui já se revela que a paternidade divina não estava relacionada tão somente com a criação, mas é algo mais profundo, uma paternidade espiritual, fundada no amor a Deus, na verdade, na santidade, no amor ao próximo, na obediência ao Senhor.
– Por isso mesmo, ao ser informado de que os fariseus haviam se escandalizado com as palavras proferidas por Jesus contra a invalidação dos mandamentos divinos pela tradição (Mt.15:1-11), Cristo disse que toda planta que não tivesse sido plantada pelo Pai celestial seria arrancada (Mt.15:13), a indicar claramente que não há como se ter relacionamento espiritual verdadeiro se não se reconhecer a Deus como Pai.
– No sermão do monte, o Senhor dá-nos o padrão a ser observado pelos Seus discípulos: ser perfeitos como é perfeito o Pai que está nos céus (Mt.5:48), a quem devemos orar (Mt.6:6,9), de quem unicamente devemos aguardar o galardão (Mt.6:1,4), o perdão (Mt.6:14,15), o sustento (Mt.6:26,32) e o atendimento de nossos pedidos (Mt.7:11) e cuja vontade devemos fazer (Mt.7:21).
– Jesus também mostrou que o Pai, além de ser perfeito e, como tal, ser tomado como exemplo de nossa conduta, é também misericordioso (Lc.6:36), retomando, assim, a figura da benignidade sempre vinculada ao Pai no Antigo Testamento.
– Jesus também ensinou que é Ele o mediador entre o Pai e os homens, tanto que só conhece o Pai quem conhece o Filho (Mt.11:27; Lc.10:22; Jo.14:6), pois o conhecimento do Pai dá-se pelo Filho (Jo.1:18), e quem confessa ou nega o Filho, o Filho o confessará ou negará diante do Pai (Mt.10:32,33).
– De igual modo, somente quem honra o Pai, honra o Filho (Jo.5:23) e quem aborrece o Filho, também aborrece o Pai (Jo.15:23).
– Não é por outro motivo que quem nega o Filho e, portanto, nega o Pai, tem o espírito do anticristo (I Jo.2:22- 24), bem ao contrário daquele que segue a doutrina de Cristo, que tem tanto o Pai quanto o Filho (II Jo.9).
– Cristo Jesus ensinou que o Pai deve ser adorado em espírito e em verdade (Jo.4:21,23), que somente fazia o que o Pai fazia (Jo.5:19), que o Pai O ama (Jo.5:20; 10:37), que o Pai tem a vida em Si mesmo (Jo.5:26), que selou o Filho (Jo.6:27), que honra os que servem a Cristo (Jo.12:26),que prometeu o Espírito Santo (At.1:4).
– Na sequência do Novo Testamento, vemos a adoção da expressão “Deus e Pai” (Rm.15:6; II Co.1:3; Gl.1:3; Ef.1:2,3; 4:6; 5:20; 6:23; Fp.1:2; 4:20; Cl.1:2; I Ts.1:1,3; 3:11,13; II Ts.1:2; 2:16; I Tm.1:2; II Tm.1:2; Tt.1:4; Fm.3; Tg.3:9; I Pe.1:3; II Jo.3; Jd.1; Ap.1:6) e que depois seria reproduzida no Credo Niceno- Constantinopolitano, que se inicia “Creio em Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador dos céus e da terra”.
– Esta expressão, em absoluto, quer dizer que só o Pai é Deus, até porque, por vezes, a expressão segue ou é seguida de ‘Nosso Senhor Jesus Cristo”, expressão que também expressa a deidade do Filho. É o que se vê, por exemplo, em I Co.8:6, onde é dito que só há um Deus, o Pai e um só Senhor, Jesus Cristo.
– Aliás, quando confessamos que Jesus é o Senhor, ou seja, reconhecemos a deidade de Cristo, estamos, com este gesto, glorificando ao Pai (Fp.2:11).
– Tal expressão, como bem explica o Catecismo Romano, é “…para inculcar que a Primeira Pessoa foi sempre Deus e sempre Pai ao mesmo tempo, é que no Símbolo enunciamos juntos os nomes de Deus e Padre…” (Catecismo Romano por Frei Leopoldo Pires Martins. Petrópolis/RJ: Vozes, 1951. I Parte: Do Símbolo dos Apóstolos, 1º Artigo, § 10, p.96).
– O Pai é a Pessoa Divina que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz, uma vez que é d’Ele a eleição (I Pe.1:2), ou seja, a escolha da humanidade para ser alvo do plano da salvação, algo que foi recusado aos anjos (Cl.1:12), uma vez mais se evidenciando o papel planejador da figura do Pai.
– Esta eleição não só da salvação mas do próprio Salvador, que seria o Filho, é o que podemos entender seja a “eterna geração” do Filho (Sl.2:7; Hb.1:5).
Ao conceber a salvação, antes da fundação do mundo, tendo a Cristo como o Salvador, a Pessoa Divina Se fez Pai e constituiu a Pessoa que haveria de Se humanizar como Filho, e isto desde a eternidade.
– Por isso, é do agrado do Pai que toda a plenitude habite em Cristo (Cl.1:19), que, assim, é o Messias, plenamente Deus e plenamente homem, uma singularidade em todo o Universo.
– A paternidade é demonstrada como sendo reconhecida por parte daqueles que creem em Jesus e, “ipso facto”, recebem o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo.1:12), reconhecimento que se dá por meio da atuação do Espírito Santo no salvo (Rm.8:15; Gl.4:6).
– Só é verdadeiramente filho de Deus aquele que se aparta do pecado (II Co.6:17,18) e, por viver fora do mundo, tem o amor do Pai (I Jo.2:15,16).
– Esta ideia da paternidade como que dependendo da salvação não retira, porém, a ideia, que já era presente no Antigo Testamento, da paternidade divina como decorrente da própria criação, tanto que Deus é denominado “Pai dos espíritos” (Hb.12:9) e de “Pai das luzes” (Tg.1:17), o que é mui elucidativo, aqui não há uma referência propriamente dita à Pessoa do Pai, mas a Deus como Criador, ou seja, às três Pessoas Divinas.
– Tiago vai nos dar uma elucidativa informação ao nos dizer que a religião, ou seja, a religação com Deus, é uma religação ao Pai (Tg.1:27), reafirmando o ensino do Mestre de que temos de nos dirigir ao Pai, por meio do Filho, na comunhão do Espírito Santo.
– Bem por isso Pedro nos diz que devemos invocar ao Pai (I Pe.1:17), o mesmo Pai que deu honra e glória ao Filho quando da transfiguração (II Pe.1:17).
-Esta necessária religião para com o Pai e invocação ao Pai explica-nos porque Jesus é a manifestação da vida que estava no Pai (I Jo.1:2) e o nosso Advogado para com o Pai (I Jo.2:1).
III – OS SIGNIFICADOS DA PATERNIDADE DE DEUS
– Tendo visto como a Bíblia apresenta o Pai, resta-nos esclarecermos os significados com que Deus é dito ser “Pai”.
– O primeiro significado de “Pai” diz respeito à origem. Deus, ao criar todas as coisas, estabeleceu com
elas um relacionamento e, neste sentido, é “Pai” de todas as coisas.
– Assim como o autor de uma obra é chamado de o “pai” daquela obra, assim também a criação é obra de Deus e, assim, Deus é chamado “Pai” de todas as coisas.
– Neste sentido, como sabemos, toda a Triunidade Divina criou os céus e a terra (Gn.1:1 fala de “Elohim”, um nome plural), não é correto entender que só o “Pai” é criador, tendo-o sido tanto Ele, quanto o Filho e o Espírito Santo.
– Entretanto, é do Pai, pelo que vemos nos textos bíblicos mencionados, a iniciativa da criação, o início do processo volitivo que, em Deus, já é efetivo.
– Assim, a Pessoa Divina do Pai é o ponto de partida da Criação e é neste sentido que devemos entender esta Pessoa como o “Pai da criação”, o “gerador” da humanidade (At.17:29), o “mesmo Pai de todos” (Ml.2:10), “o Pai de quem é tudo e para quem nós vivemos” (I Co.8:6).
– A divindade como um todo é, pois, tida como sendo o “Pai dos espíritos” (Hb.12:9) ou “Pai das luzes” (Tg.1:17), ou seja, Aquele que criou os espíritos, como também o que criou “as luzes”, o que nos leva ao relato da criação, tudo começando com a luz (Gn.1:3).
– Sendo o Criador de todas as coisas, Deus é o Pai de toda a criação e, como tal, tem direito sobre todas as coisas, pela sua qualidade de autor de tudo, residindo aí, pois, um dos aspectos do Seu senhorio. Deus é o Senhor de todas as coisas, pois, como diz o salmista Davi: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl.24:1).
– Este senhorio decorre da criação e, portanto, Deus é o proprietário de todas as criaturas. É bem por isso que todos terão de reconhecer o senhorio de Cristo ao término dos tempos:
“Pelo que também Deus O exaltou soberanamente e Lhe deu um nome que é sobre todo o nome para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp.2:9-11).
– Em retribuição à humilhação que a Pessoa Divina do Filho fez ao Se humanizar, executando o planejamento feito pelo Pai, plano este que foi sustentado pelo Espírito Santo, o Pai exaltou o Filho, dando-Lhe todo o poder (Mt.28:18) e, após o Filho ter posto todos os inimigos debaixo do escabelo de seus pés (I Co.15:25; Hb.1:13; 10:13), fará com que todos confessem que o Filho é o Senhor e, neste gesto, o Pai será glorificado.
– Notamos aqui, portanto, como a paternidade tem um aspecto relacional. A submissão de todos os seres ao Filho representa a glorificação do Pai, porque não há como dissociar o Pai do Filho, porquanto o Filho sempre fará referência ao Pai, pois se há Filho, é necessário que haja o Pai.
– Ao Se humilhar, humanizando-Se, o Filho agradou o Pai (Is.42:1-4; Mt.3:17; 12:18; 17:5; Mc.1:11; 9:7; Lc.3:22; 9:35), glorificou o Pai na Terra consumando a obra que Lhe foi dada a fazer (Jo.17:4) e, em retribuição, será exaltado pelo Pai, que, deste modo, O glorifica (Jo.17:1).
– Esta submissão de todos na exaltação de Cristo confirma que a paternidade por força da criação é direito inerente ao próprio ato da criação, independendo de qualquer ação humana e, bem por isso, pode, legitimamente, Deus mandar a todos os homens impenitentes para o lago de fogo e enxofre, pois é o dono de todos eles, por força da criação.
– Esta paternidade por força da criação chama de filhos as criaturas, sendo, pois, toda criatura um filho de Deus, já que o Senhor é “Pai dos espíritos”.
– É somente neste sentido que podemos dizer que todos os homens são filhos de Deus, uma denominação, porém, que tem sido distorcida, querendo com isto estabelecer que a paternidade divina, sob este aspecto, permite inferir que Deus, por ser benigno, salvará a todos.
– Não resta dúvida de que, sendo “o Pai dos espíritos”, Deus, que não faz acepção de pessoas (Dtr.10:17; II Cr.19:7; Jó 34:19; Is.47:3; At.10:34; Rm.2:11; Ef.6:9; Cl.3:25; I Pe.1:17), quer o bem de todos os homens, quer que todos os homens se salvem (I Tm.2:4,5) e, por isso, dá real oportunidade a cada ser humano para que alcance a salvação, o que se costuma chamar de “graça preveniente”.
– Bem por isso, no dia mesmo da queda, o Senhor já revelou o plano da salvação para o homem, revelação feita ao primeiro casal, ou seja, a toda a humanidade. Entretanto, ao anunciar a salvação, o Senhor disse que ela se faria mediante o sacrifício da “semente da mulher”, ou seja, por meio de Cristo Jesus.
– Portanto, o fato de Deus ser o pai da criação não faz com que as pessoas, simplesmente por existirem, já se tornem membros da “família de Deus” e sejam, por isso mesmo, “filhas de Deus” no sentido de terem alcançado a vida eterna com Deus.
– Para que se torne propriamente “filho de Deus”, necessário se faz que se creia em Jesus (Jo.1:12) e se aparte do pecado (II Co.6:17,18) e quem não o fizer, não tendo o nome no livro da vida do Cordeiro, será lançado no lago de fogo e enxofre (Ap.13:8; 20:15), porque, ao não crer no Salvador, fez-se mentiroso (I Jo.2:22) e, como tal, ficará de fora da cidade celestial (Ap.22:15), sendo alguém que não se firma na verdade (I Jo.2:4), assim como o diabo (Jo.8:44), tendo, pois, o mesmo destino dele (Mt.25:41)
– O segundo significado pelo qual devemos compreender a paternidade de Deus se refere a Israel que, como vimos, é uma das primeiras (senão a primeira) manifestações escriturísticas de Deus como Pai, pelo menos a primeira mais explícita, que não é apenas uma exclamação, como vemos nas palavras de Eliú no livro de Jó.
– Para Israel, Deus Se apresenta como “Pai”, não só porque resolveu, ao chamar Abrão, criar um povo Seu, uma propriedade peculiar dentre todos os povos, dada a rejeição gentílica a servi-l’O em Babel, sendo, pois, ‘Pai” no mesmo significado primeiro de autor, mas também porque não só criou, como Se encarregou de sustentar, estabelecer e adquirir, ou seja, buscou tomar a iniciativa de um relacionamento, criando laços de amor, amizade e companheirismo com relação a este povo.
– Na feliz expressão do Catecismo da Igreja Católica a respeito: “…Deus é Pai em razão da Aliança e do dom da Lei a Israel, seu «filho primogénito» (Ex.4:22). …” (§ 239 CIC).
– Isto bem vemos no episódio das pragas sobre o Egito, em que Deus demonstrou, em cada praga, que os “deuses egípcios” nada eram e que Ele, sim, era Deus (Yahweh – “Eu sou o que sou” – Ex.3:14), a ponto de guardar e proteger Israel de todas as pragas. É “Pai” porque cria, sustenta e protege, ou seja, porque cuida.
– Neste sentido, Deus é Pai porque é o “cuidador”, o “sustentador”, o “mantenedor” daquilo que foi criado. Jesus alude a este aspecto da paternidade, ao dizer, no sermão do monte, que o Pai “… faz que o Seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mt.5:45).
– A manutenção de toda a criação, em particular, da humanidade, permitindo que ela sobreviva sobre a face da Terra, na medida em que permite que haja a fotossíntese e, por conseguinte, como ensina a ecologia, o desenvolvimento de toda a cadeia alimentar que permite ao homem subsistir, faz com que a propriedade e senhorio adquiridos quando da criação perdure ao longo das gerações, pois Deus não abandonou a criação.
– Esta paternidade por cuidado e manutenção, a propósito, desmente todo o discurso ambientalista de que a sobrevivência no planeta está em risco por causa da ação humana, uma vez que não é possível o homem se sobrepor ao cuidado divino sobre a criação, cuidado este que se manterá até o final desta Terra (Gn.8:22), final que também já está predito nas Escrituras (II Pe.3:10-12).
– Tanto a paternidade pela criação quanto pela manutenção faz com que os homens fiquem inescusáveis com relação ao eterno poder e a divindade do Senhor, sendo já legitimador da condenação dos homens que não se converterem, visto que a recusa em obedecer a Deus decorre da recusa de glorificação ao Criador e Mantenedor de todas as coisas (Rm.1:18-21).
– O terceiro significado de “Pai” é o de “Pai dos redimidos”, ou seja, Deus Se faz Pai de todos quantos creem em Jesus Cristo e tem seus pecados perdoados por força desta fé e pelo sacrifício vicário de Cristo na cruz do Calvário.
– Como já dissemos, a expressão “filhos de Deus” somente se refere aos homens nas Escrituras em relação ao sacrifício de Cristo, à obra redentora do Filho.
– A todos quantos creem no nome de Jesus, Deus lhes dá o poder de serem feitos filhos de Deus (Jo.1:12). Ora, este texto nos indica que Deus só é Pai daqueles que crerem em Jesus(Gl.3:26;I Jo.3:1-3).
– É neste sentido, aliás, que não podemos concordar que “todos os homens são filhos de Deus”. Todos os
homens são criaturas de Deus, mas, não, seus filhos, no significado pleno.
– Precisamos estar bem cientes disso, porque está a se desenvolver um “discurso da fraternidade universal”, que recebeu forte impulso com a chamada Declaração de Abu-Dhabi, em 2019, onde é dito que
“…A fé leva o crente a ver no outro um irmão que se deve apoiar e amar. Da fé em Deus, que criou o universo, as criaturas e todos os seres humanos – iguais pela Sua Misericórdia –, o crente é chamado a expressar esta fraternidade humana, salvaguardando a criação e todo o universo e apoiando todas as pessoas, especialmente as mais necessitadas e pobres.…” (Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum. Prefácio. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/travels/2019/outside/documents/papa- francesco_20190204_documento-fratellanza-umana.html Acesso em 05 nov. 2025).
– Este pensamento de “fraternidade universal” nada mais é que o discurso de uma “religião mundial”, algo que, sabemos todos, está relacionado com o “espírito do Anticristo”, pois será a religião que será chefiada pelo Falso Profeta (Ap.13:11-15).
– Neste terceiro significado, vemos que Deus é “Pai” não só porque criou, nem só porque sustentou, protegeu e guardou os homens, mas porque eles aceitaram o Seu dom precioso, porque reagiram favoravelmente ao Seu amor concretizado no envio de Seu Filho Unigênito.
– Deus é Pai porque amou o homem, mandou o Filho e o homem creu no Filho, reconhecendo o amor do Pai (Jo.3:16).
– É Pai porque houve uma adoção, porque houve um consenso, um acordo de vontades, pelo qual o homem aceita ser filho de Deus, que quer seu Pai. E, por causa da adoção, este Pai abençoa o filho com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Ef.1:3-6).
– Bem por isso, após ter ressuscitado, o Senhor Jesus, ao dialogar com Maria Madalena, chama o Pai de “Meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus” (Jo.20:17), enfatizando que Ele é Filho em relação ao Pai por natureza, por força da “eterna geração”, tendo a mesma essência e substância de Deus, enquanto os Seus discípulos são filhos “por adoção”, sendo criaturas enquanto o Pai é o Criador, sendo homens, enquanto o Pai é Deus.
– O quarto significado de “Pai” diz respeito à paternidade em relação a Jesus Cristo.
– Como já visto supra, as Escrituras distinguem entre a paternidade de Deus em relação aos homens e em relação a Jesus. Tal distinção se faz evidente, na medida em que Jesus não foi criado, nem tampouco surgiu depois de Israel e, muito menos, precisou ser perdoado por Deus de seus pecados, já que nunca pecou.
– Portanto, todos os significados de “Pai” até aqui expostos não podem, em absoluto, se aplicar a Jesus.
– A paternidade de Deus em relação a Jesus é tão somente uma ordenação de precedência aos olhos e mentes dos homens, pois o Pai e o Filho são um, sendo iguais em tudo, juntamente com o Espírito Santo.
– Todavia, o Pai Se apresenta como o iniciador de todo o processo, manifestando ao Filho que, depois, revelará o Espírito Santo, que, entretanto, provirá tanto do Pai quanto do Filho.
– A “paternidade” aqui significa tão só que o início do processo está nesta Pessoa Divina, por decisão soberana
e imutável da Triunidade.
– Por isso o Pai é quem faz partir o processo do amor em relação ao homem e quem envia o Filho e, depois, o Espírito Santo, mantendo-se como o alvo a ser atingido no fim de todas as coisas.
– É precisamente o que nos diz a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…A paternidade é o papel da Primeira Pessoa da Trindade que opera por meio do Filho e do Espírito Santo [I Co.12:4-6; Ef.4:4-6] …” (DFAD 2.ed., II.1, p.40) ou, como afirma o Catecismo Maior de Pio X: “…25) Por que o Pai é a primeira Pessoa da Santíssima Trindade? O Pai é a primeira Pessoa da Santíssima Trindade, porque não procede de outra Pessoa, mas é o princípio das duas outras Pessoas, que são o Filho e o Espírito Santo.”
– Há, ainda, um outro aspecto que se deve adotar com relação à ideia da “paternidade divina”, que poderíamos considerar como sendo a da “parentalidade”, entendida esta como “…conjunto de práticas e responsabilidades de cuidado e educação dos filhos, que envolve o desenvolvimento de um vínculo afetivo, com amor, atenção, carinho e limites, para assegurar o bem-estar físico e psicológico da criança…” (IA do Google).
– Neste sentido, temos o papel divino de afetividade em relação aos homens, máxime em relação ao amor demonstrado em relação ao homem e ao cuidado que dá em relação às emoções e sentimentos dos seres humanos.
– É evidente que o amor é a própria essência da substância divina, pois é dito que “Deus é amor” (I Jo.4:8), o que faz com que todas as Pessoas Divinas estejam envolvidas e as Escrituras bem o demonstram, pois mostram o amor do Pai (Jo.3:16), do Filho (Jo.15:9,13; Rm.5:8; 8:35; Gl.2:20; Ef.3:19; 5:2) e do Espírito Santo (Rm.15:30).
– Entretanto, em relação ao Pai, temos este amor, como tudo na Primeira Pessoa da Trindade, como uma iniciativa, por meio da qual se revela o amor das demais Pessoas Divinas.
– O Pai amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito para que todo aquele que n’Ele crê não
pereça mas tenha a vida eterna (Jo.3:16). O elemento motor de todo o plano da salvação foi o amor do Pai.
– Este amor do Pai, então, não poderia dispensar, como efetivamente não dispensou, a figura do amor materno para caracterizá-lo. Assim, há trechos das Escrituras em que o Pai é comparado a u’a mãe.
– Como bem explica o Catecismo da Igreja Católica:
“…Ao designar Deus com o nome de «Pai», a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é a origem primeira de tudo e a autoridade transcendente, e, ao mesmo tempo, que é bondade e solicitude amorosa para com todos os seus filhos.
Esta ternura paternal de Deus também pode ser expressa pela imagem da maternidade (Is.66:13; Sl.131:2), que indica melhor a imanência de Deus, a intimidade entre Deus e a sua criatura A linguagem da fé vai, assim, alimentar-se na experiência humana dos progenitores, que são, de certo modo, os primeiros representantes de Deus para o homem.
Mas esta experiência diz também que os progenitores humanos são falíveis e podem desfigurar a face da paternidade e da maternidade. Convém, então, lembrar que Deus transcende a distinção humana dos sexos. Não é homem nem mulher: é Deus.
Transcende também a paternidade e a maternidade humanas (Sl.27:10), sem deixar de ser de ambas a origem e a medida (Ef.3:14,15; Is.49:15): ninguém é pai como Deus.…” (§ 239 CIC).
– Como foi o próprio Deus quem criou a paternidade e a maternidade (Gn.2:24), vínculos indispensáveis para que se tenha uma família que cumpra o propósito divino da multiplicação (Gn.1:28), não é difícil a Deus mostrar que Sua paternidade abrange tanto os aspectos da paternidade quanto da maternidade.
– Por isso, pois, Deus Se apresenta, em alguns trechos da Bíblia Sagrada, como “mãe”, até porque o amor de mãe é o mais próximo amor humano ao amor de Deus (Is.49:15).
– Logicamente que a consideração de Deus como “mãe” nada tem que ver com uma eventual sexualidade da substância divina, como, aliás, também a consideração de Deus como “pai” não pode ter esta conotação, em absoluto.
– Tal identificação ocorre, porém, como diz o texto romanista trazido, tão somente é uma forma de entendermos o cuidado que Deus tem para conosco, inclusive a Pessoa Divina do Pai, e como Ele está, sim, interessado em nos suprir emocional e sentimentalmente, como também a nos instruir e educar de tal modo que possamos com Ele viver para todo o sempre.
– É o que vemos em todas as Escrituras, mas, principalmente, no livro dos Salmos, onde os salmistas demonstram como o relacionamento espiritual entre Deus e os homens envolve o cotidiano emocional e sentimental dos homens sobre a face da Terra.
– Assim, vemos como o Senhor é o refúgio e fortaleza, o socorro bem presente na angústia (Sl.46:1), o guia e companheiro que conosco passa pelo vale da sombra e da morte (Sl.23:4), Aquele que nos ouve no dia da angústia e que envia o Seu socorro (Sl.20:1,2), Aquele que nos livra de todos os temores (Sl.34:4), Aquele que inclina os seus ouvidos para nos escutar (Sl.40:1; 77:1; 116:1; 120:1) e tantos outros pormenores que nos dão equilíbrio psíquico e espiritual durante a nossa peregrinação terrena.
– Daí o Senhor ser denominado “…o Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em toda a nossa tribulação, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma tribulação, com a consolação com que nós mesmos somos consolados de Deus. Porque, como as aflições de Cristo são abundantes em nós, assim também a nossa consolação sobeja por meio de Cristo” (II Co.1:3-5).
– Sabedor desta necessidade sentimental e emocional do ser humano, que só por Deus pode ser satisfeita, o adversário de nossas almas cedo implantou entre os homens a figura da “deusa-mãe”, sempre presente entre os falsos deuses criados pela imaginação humana corrompida pelo pecado ao longo dos séculos (Rm.1:22,23).
– Em Israel, mesmo, vemos vários cultos a estas “deusas-mães” como Astarote (Jz.2:13; I Rs.11:5,33; II Rs.23:13), Aserá (I Rs.15:13; I Rs.18:19; II Cr.15:16) e a “rainha dos céus” (Jr.7:18; 44:17-19,25).
– No mundo greco-romano, alvo da evangelização primeira da Igreja, não era diferente, como vemos, por exemplo, no culto a deusa Afrodite (Vênus para os romanos), que tantos problemas gerou entre os crentes da igreja de Corinto, por exemplo.
– Estas “deusas-mãe” eram adoradas como sendo as responsáveis pela criação, fertilidade e natureza, tendo seus cultos, quase sempre, elementos de imoralidade sexual e de sentimentalismo e emocionalismo.
– É inegável que o culto a Maria, surgido entre os cristãos, está relacionado com tais divindades e foi um modo de se adaptar estas figuras divinas femininas dentro do universo cristão, no sistema de paganização que resultou na formação de segmentos como a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Ortodoxa Grega e suas ramificações, entre outros.
– Alguns dos títulos dados à Maria bem revelam esta tendência, como, por exemplo, os de
“Nossa Senhora” (surgida da “devoção popular” e adotada em escritos no final da Idade Média),
“Mãe de Deus” (oração “Ave Maria”, cuja segunda parte foi oficializada em 1568),
“Santa Mãe de Deus” (Ladainha Lauretana – aprovada em 1587 mas que já teve sua composição iniciada no século XIII; oração “Sub tuum praesidium”, composta por volta de 250),
“Esposa do Espírito Santo” (adotada na encíclica “Redemptoris Mater” do Papa João Paulo II, mas o título surgiu na antífona “Santa Maria Virgo” do Ofício da Paixão de autoria de Francisco de Assis, por volta de 1226) e
“Rainha dos céus” (adotada na encíclica “Ad Caeli Reginam” do Papa Pio XII, mas que se baseia na antífona “Regina Coeli”, que remonta ao século X ou XI).
OBS: Eis como Maria é aproximada da Santíssima Trindade neste trecho da conhecida obra mariana de Luís Maria Grignion de Monfort:
“…Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio ele reservou para si. Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-la e ocultá-la durante a vida para lhe favorecer a humildade, tratando-a de mulher – mulier (Jo 2, 4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em seu Coração a estimasse e amasse mais que todos os anjos e homens. Maria é a fonte selada (Ct 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só ele pode penetrar.
Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins; e criatura algumas, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio.…” (Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem, n.5)
– Ultimamente, têm surgido falsos ensinos, reveladores de que estamos às vésperas do arrebatamento da Igreja, que procuram demonstrar que existe um “deus-mãe” na Bíblia, tese estapafúrdia defendida pela Igreja de Deus Sociedade Missionária Mundial, fundada em 1964 pelo sul-coreano Ahn Sahng-hong (1918-1985), que se autoproclamou o “Segundo Cristo” e que teria como “Mãe Celestial” ou “Mãe Jerusalém” a Zahng Gil-jah, pois segundo eles, “não haveria pai sem mãe” e, segundo eles, a expressão “façamos” em Gn.1:26,27 falaria exatamente dos dois deuses; “o Deus Pai e o Deus Mãe”. Quanto absurdo!
– Não entremos nestas confusões, mas não deixemos de reconhecer que a figura materna expressa, sim, parte da ação divina em relação ao homem, porquanto a mesma ternura, abnegação, cuidado que caracterizam a figura de sua mãe estão, sim, presentes no Senhor.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12075-licao-4-a-paternidade-divina-i
