Sem categoria

LIÇÃO Nº 5 – A ALMA: A NATUREZA IMATERIAL DO SER HUMANO


INTRODUÇÃO

-Na continuidade do estudo da doutrina bíblica do homem, analisaremos a sua segunda parte, a alma.

-A alma é a sede da personalidade: razão, sentimento e vontade.

I- OS SIGNIFICADOS DA PALAVRA “ALMA”

-Em continuidade ao estudo das partes que compõem o ser humano, analisaremos hoje a alma, que é a segunda parte mais importante do homem (I Ts.5:23), como também a segunda que foi criada por Deus (Gn.2:7).

-A palavra ” alma”, como a maioria das palavras, é ” plurívoca”, ou seja, tem muitos significados.

-Assim, não podemos deixar de observar que nem sempre a palavra ” alma”, quando se encontra na Bíblia Sagrada, quer dizer a mesma coisa, variando de passagem para passagem, até porque sabemos que o texto bíblico foi escrito, primeiramente, em três línguas (hebraico e alguns trechos em aramaico – Antigo Testamento e grego – Novo Testamento), por pessoas de diferentes classes sociais e em diversas circunstâncias e épocas, o que faz com que o significado de alguns termos tenham se alterado ao longo dos anos e tempos.

-Isto ainda acontece nos nossos dias, tanto que, naturalmente, quando falamos “A propaganda é a alma do negócio”, “não acredito em almas penadas” ou ” a minha alma tem sede de Deus”, evidentemente não estamos dando à palavra “alma” o mesmo significado.

-Um primeiro significado da palavra ” alma” é o de ” essência da vida”, “base da vida”. Neste significado, a palavra “alma” sempre se refere à essência, à própria vida.

-A alma, então, seria o próprio núcleo do ser humano, a sua individualidade, a sua própria existência enquanto ser vivente.

-Este é o significado que adotaremos de alma em nosso estudo. A alma é a parte do homem que o torna diferente de todos os demais, que o torna distinto dos demais seres, humanos ou não.
-Na alma, estão a nossa personalidade, os nossos sentimentos, a nossa vontade e o nosso entendimento.

-Uma pessoa é diferente da outra por causa da sua alma, da sua ” essência”, da sua “base”. É neste significado que podemos dizer, como o salmista, ” A minha alma tem sede de Deus”.

-Um segundo significado da palavra “alma” é o de “vida”, de “existência”, “sobrevivência”, significado que surgiu em virtude do significado anterior.

-Como a alma é a sede da individualidade de alguém, deu-se à palavra ” alma” a própria ideia de vida, de existência, de movimento.

-É por isso que os seres que se movimentam de um lado para outro, que se locomovem foram chamados pelos antigos de “animais”, ou seja, “seres dotados de vida”, “seres dotados de alma” (pois se pensava que as plantas, por serem estáticas, ou seja, não se locomoverem, não teriam “vida” neste sentido).

-É neste significado que devemos compreender a expressão “A propaganda é a alma do negócio”, ou seja, a vida de um negócio, a sua existência e sobrevivência depende da propaganda.

-Também é neste significado que devemos compreender a tão polêmica expressão bíblica que se encontra em Gn.9:4, a saber, “a carne, porém, com sua alma (a Versão Almeida Revista e Corrigida contém uma variante aqui, substituindo “alma” por “vida”), isto é, com seu sangue, não comereis”.

-Esta expressão não quer significar, em absoluto, que a alma se confunda com o sangue, como defendem as Testemunhas de Jeová, mas apenas está afirmando que o sangue é necessário para a sobrevivência, para a existência física, pois é este o significado de “alma” na passagem bíblica mencionada.

-A palavra ” alma” também significa “respiração da vida”, pois, como a vida física é indicada pela respiração, logo se criou a ideia de que a alma está relacionada com o ato de respirar.

-Por isso, inclusive, a expressão “último suspiro” para indicar a morte. A alma, que é a vida, foi associada ao ato de respirar, e a morte, à saída da alma. É o que vemos em passagens bíblicas como Gn.35:18 e I Rs.17:21,22.

-A palavra ” alma”, muitas vezes, significa ” pessoas”, ” indivíduos” no sentido de que a parte que distingue cada pessoa de outra é a alma. É assim que vemos a aplicação da palavra em Rm.13:1.

II – O QUE É A ALMA

-Visto o que significa a palavra “alma”, vejamos o que é a alma segundo a Bíblia Sagrada.

-A alma é a parte do homem interior que nos distingue dos demais seres, onde ficam nossos sentimentos, nossa vontade, nosso entendimento e nossa personalidade.
-É a alma que nos faz diferentes dos demais homens e onde é feita a escolha para servirmos a Deus ou não.

-A alma, sendo a sede de nossa vida, a essência mesma do viver, é a responsável direta pela conservação da nossa vida.

-A vida não nos pertence, mas, sim, pertence a Deus, pois foi Ele quem nos deu o ” fôlego de vida” e nos fez “alma vivente” (Gn.2:7).

-O homem deve, sempre, lutar pela preservação da vida humana, seja a sua, seja a de outro semelhante. A luta pela vida e em sua defesa constitui-se um dos principais deveres que tem o homem enquanto administrador supremo da criação na Terra.

-Deus concedeu-nos a vida e só Ele a pode tirar (I Sm.2:6). Ao homem cabe, simplesmente, preservá-la ao máximo, de forma a que possa ser vivida, e de forma digna, até o dia em que o Senhor assim o quiser.

-Dizer que “a vida é minha”, que “eu sou dono da minha vida” são expressões corriqueiras e que ouvimos todos os dias, mas que representa um ato de rebeldia e de inobservância completa da doutrina da mordomia tal qual nos ensinam as Escrituras.

-O trabalho divino sempre foi o de preservação da vida, entendendo-se a vida não só como a existência física, mas como a manutenção de um verdadeiro relacionamento entre Deus e o homem, de uma comunhão entre Deus e o homem.

-Foi esta, precisamente, a missão de Jesus, como Ele próprio nos indica ao dizer que tinha vindo para trazer vida e vida com abundância (Jo.10:10), para fazer o homem passar da morte para a vida (Jo.5:24).

-Somente em Deus podemos ter vida, pois Deus tem a vida em Si mesmo (Jo.5:26). O próprio Jesus identificou-Se como sendo a própria vida (Jo.11:25), tendo o apóstolo dito que n’Ele estava a vida (Jo.1:4), vida que é a luz dos homens (Jo.1:4).

-Não admira, portanto, que, no mundo onde vivemos, dominado pelo maligno, exista uma verdadeira ” cultura da morte”, ou seja, todo um sistema que busca desprestigiar a vida humana, pois o organizador deste sistema tem em vista matar, roubar e destruir o homem (Jo.10:10).

-Assim, devemos ter muito cuidado com os conceitos e valores defendidos pelo mundo, que buscam, sempre, desvalorizar a vida humana, colocá-la em último plano, abaixo de coisas muito menos valiosas, como as riquezas, o prazer ou a fama. Nada pode se comparar a este dom divino, que é a vida, algo que nos foi dado diretamente pelo Senhor, pelo Seu soprar.

-Comportamentos como a defesa do aborto, da eutanásia, do suicídio, do uso terapêutico de embriões humanos, o uso de drogas, da prostituição, da prevalência das coisas materiais em detrimento do ser humano são sintomas e demonstrações de que vivemos num mundo que não admite ser subserviente à Palavra de Deus e aos mandamentos que impõem o respeito máximo à vida humana.

-Todos os cuidados que devemos ter com o corpo, como vimos na lição anterior, somente serão possíveis se nos dispusermos, através de nossa vontade, a cumprir o propósito divino.

-O corpo é um mero instrumento do homem interior e sem uma disposição de nossa alma em cuidarmos do nosso corpo, que é o tabernáculo da alma, de nada adiantará todos os conselhos e determinações constantes na Palavra de Deus para a mordomia do corpo.

-Somente defenderemos a vida, tanto a nossa quanto a de nossos semelhantes, se, efetivamente, escolhermos servir a Deus, se O amarmos.

-Jesus disse que somente provaremos que O amamos quando cumprirmos os Seus mandamentos (Jo.15:14).

-De nada adianta falarmos no amor de Deus, irmos a todas as reuniões religiosas de que tivermos notícia, sermos assíduos frequentadores de uma igreja, se não estivermos dispostos a fazer a vontade de Deus, se não nos submetermos (e quem o faz é a alma) à Sua vontade. Para defendermos a vida, precisamos amar e só amaremos se nos dispusermos a obedecer a Deus e à Sua Palavra.

-A questão da origem da alma tem gerado muitas discussões através dos séculos entre os teólogos, filósofos e religiosos.

-A narrativa bíblica que dá ensejo à criação, por Deus, da parte imaterial do homem, em Gn.2:7 tem trazido muitas discussões, até porque, na época em que houve a redação do texto por Moisés, não tinham, ainda, os hebreus uma noção clara a respeito do que era a parte imaterial do homem, algo que foi sendo gradativamente revelado durante a história de Israel.

-Grande parte dos estudiosos entende que não se pode pensar que a criação do homem interior tenha sido feita da mesma forma que a criação do corpo. O corpo teria sido formado do pó da terra, mas o texto bíblico diz que Deus soprou nas narinas do homem, ou seja, transmitiu de Sua própria essência o ” fôlego de vida”, tornando o homem ” alma vivente”.

-Teria havido, assim, uma transmissão direta de algo próprio de Deus para o homem, este algo próprio de Deus é que teria constituído a parte imaterial do homem.

-Como este dom divino ao homem passou para os demais seres humanos é outra questão polêmica entre os estudiosos.

Há os que defendem que Deus cria um homem interior a cada instante em que há uma concepção (a chamada teoria do criacionismo); outros entendem que, no instante da concepção, da mesma maneira que os pais geram um novo corpo, gera-se, também, um novo homem interior, pois haveria não só uma herança corpórea mas, também, incorpórea (a chamada teoria do traducionismo) e há, mesmo, aqueles que defendem que o ser imaterial já exista eternamente e que vem a ocupar os corpos que são concebidos (a chamada teoria da pré-existência).

-Sem adentrarmos no mérito destas teorias, é importante, apenas, considerar que a teoria da pré-existência está extremamente influenciada pelo hinduísmo e pela filosofia platônica, não podendo ser aceita, como nos explica Lewis Sperry Chafer:

“…Os advogados desta hipótese reivindicam em bases racionais e totalmente à parte da autoridade bíblica que, qualquer que possa ter sido a derivação original da parte imaterial do homem-seja criada ou eternamente existente – é sujeita à reencarnação ou transmigração de um corpo para outro.(…).

Esta teoria, conquanto aceita com várias modificações pelos homens que poderiam se valer da verdade bíblica, deve sua origem totalmente à filosofia pagã.…” (Teologia sistemática, t.1, v.2, p.580). Apesar de seu caráter antibíblico, não são poucos os que, dizendo-se evangélicos, têm defendido esta teoria nos nossos dias.

-De qualquer modo, o texto bíblico de Gn.2:7 ressalta a diferença de natureza entre o homem interior e o corpo e entendemos que seja este o principal propósito das Escrituras ao nos dar a conhecer esta peculiaridade da criação do homem.

-Ao contrário dos demais seres na Terra, o homem é dotado de uma porção imaterial, que é composta de duas partes: a alma, que o faz um ser diferente dos demais e o espírito, que o faz um ser que pode relacionar-se com o seu Criador.

-A alma, portanto, é aquela porção do homem que nos permite perceber que somos diferentes dos demais seres, que nos permite conhecer a nós mesmos, que faz com que sejamos portadores de um entendimento, de um sentimento, de uma vontade. Esta junção de entendimento, sentimento e vontade é o que se denomina de “PERSONALIDADE”.

-A palavra “personalidade” vem de ” pessoa” que, por sua vez, vem de ” persona”, palavra latina que significa ” pelo som”.

-“Persona” é o nome que recebiam as máscaras dos atores no teatro antigo. Ao contrário do que ocorre hoje, nos teatros da Grécia ou de Roma, na Antiguidade, os atores não mostravam seus rostos, mas faziam suas apresentações segurando máscaras que escondiam as suas faces, exatamente para que o público soubesse que não eram as pessoas que estavam encenando que viviam aquelas situações mas as “personagens” da peça

teatral. A “pessoa”, portanto, era a personagem, um ser diferente daquele ator que a estava representando no palco.

-A nossa alma, portanto, é a nossa ” pessoa”, é aquilo que nos faz diferentes dos demais, é a nossa parte que nos identifica diante de Deus e dos homens.

-É a nossa alma que contém a nossa “personalidade”, aquilo que nós somos e que, através do corpo, tornamos conhecidos aos homens e a Deus (se bem que Deus não necessita da exteriorização do nosso corpo para nos conhecer, pois Ele bem sabe o que há no nosso íntimo, antes que isto venha à tona no mundo exterior – I Sm.16:7; Jo.2:25).

-Esta personalidade do homem precisa estar sob o governo de Deus. É algo que também nos foi dado por Deus (seja desde a transmissão originária, como defendem os traducionistas, seja por uma criação a cada surgimento de um novo homem, como defendem os criacionistas) e do qual também deveremos prestar contas diante do Senhor de todas as coisas.

-Que esta personalidade, que esta individualidade é de Deus não há qualquer dúvida pelo que está nas Escrituras, como, por exemplo, no Sl.24:1, onde, textualmente, diz-se que é do Senhor” aqueles que nele (i.e., no mundo) habitam”, ou seja, cada indivíduo, cada alma.

-Em Ez.18:4, o texto é ainda mais enfático, ao afirmar que ” Eis que todas as almas são Minhas (é o Senhor quem está falando, observação nossa).

-Quantas vezes ouvimos alguém dizer que não pode mudar, que esta é a sua personalidade, é o seu modo de ser, é o seu temperamento, é o seu caráter, que Deus o fez assim e assim ele será para sempre, tendo os outros de aceitá-lo ” por amor ao próximo”.

-Entretanto, tais pensamentos são totalmente contrários ao que nos ensina a Palavra de Deus. Esta personalidade, esta “nossa” individualidade, este “nosso” jeito de ser não é “nosso”, mas de Deus. Foi Deus quem nos criou, inclusive a “nossa” alma e ela tem de estar sob o Seu senhorio.

-Eis um dos grandes, senão o maior desafio do homem na sua busca de Deus: renunciar-se a si mesmo, renunciar ao seu “eu”, à “sua” personalidade e colocá-la à inteira disposição do Senhor.

-Não há outro caminho para o fiel mordomo do Senhor, não há outro modo para que possamos agradar a Deus e servi-l’O verdadeiramente.

-É este o sentido da palavra que Jesus proferiu ao dizer que ” quem achar a sua vida (ou alma) perdê-la-á e quem perder a sua vida por amor de Mim achá-la-á” (Mt.10:39).

-Se negamos a nossa própria personalidade, se deixamos de viver para que Cristo viva em nós (Gl.2:20), ou seja, tenha pleno controle de nossa alma, teremos encontrado a verdadeira vida, que é a comunhão perfeita com o Senhor, pois a alma é do Senhor e não podemos querer nos afastar d’Ele, o que será morte e a pior de todas as mortes, a morte eterna, a morte espiritual, a chamada segunda morte (Ap.20:14,15).

III – AS FACULDADES DA ALMA

-Sendo a sede de nossa personalidade, a alma possui algumas atividades, algumas faculdades que a compõem e que são, como vimos, o entendimento, o sentimento e a vontade.

-A reunião destas atividades compõe a alma, pois é a alma que pensa, que sente e que quer, usando, para isto, do corpo como mero instrumento.

-Assim, ao contrário do que dizem os materialistas, não é o cérebro que pensa, nem reações químicas que geram, em nosso organismo, os sentimentos ou a vontade, mas tais reações químicas ou órgãos apenas são resultados, efeitos de atos que transcendem a matéria e que são praticados, pensados, sentidos e queridos pela nossa alma.

-Por mais que a ciência tenha tentado reduzir as sensações, as realizações e os desejos dos homens a simples dados materiais, sempre têm surgido fenômenos que desmentem estas teses materialistas, um elemento indicador de que Deus não Se deixa escarnecer e que, frente a cada vez mais intensa rebeldia humana, mantém- Se no absoluto controle de todas as coisas, impedindo que o vaso de barro possa querer achar-se mais importante ou entendido que o oleiro.

-A primeira faculdade da alma, ou seja, a primeira atividade que é realizada pela alma é o entendimento ou intelecto.

-Os dicionários chegam, mesmo, a dizer que a personalidade é a ” individualidade consciente” e que pessoa ” é a substância individual de caráter racional”. A capacidade de o homem entender o mundo que está em volta de si, de ter consciência de si mesmo e do que não é ele próprio está num dos pontos principais da diferenciação entre o homem e os demais seres criados na Terra.

-O filósofo grego Aristóteles, aliás, diante desta distinção, acabou definindo o homem exatamente por esta característica, definição que é a mais aceita definição de homem de todos os tempos: “o homem é o animal racional” .

-O entendimento é mostrado na Bíblia, logo em seu início, como uma das mais caras faculdades peculiares do ser humano.

-Dizem as Escrituras que, criado o homem e colocado no jardim do Éden, o Senhor fez com que Adão desse nome a todas as demais criaturas, o que só foi possível fazer porque o homem era dotado de entendimento, de intelecto.

-Adão não só cumpriu com êxito esta tarefa como também percebeu que não tinha uma companheira, ou seja, através desta narrativa, Deus mostra-nos que é através do intelecto, do entendimento, que percebemos as coisas que estão à nossa volta. Adão, então, notou algo que Deus já havia notado antes e, em razão desta consciência, Deus acabou por criar a mulher.

-Deus deu ao homem entendimento exatamente para que ele tivesse consciência de seu papel na ordem cósmica (isto é, na ordem do universo, de todas as coisas criadas) e pudesse entender que é o administrador supremo das coisas criadas na Terra e que, como tal, domina sobre os demais seres da Terra e está submisso à autoridade divina.

-Sem o entendimento, Deus não poderia exigir do homem qualquer prestação de contas a respeito da mordomia, pois, se o homem não tivesse entendimento, não poderia saber que é um mordomo.

-Quando o homem não tem o entendimento, não é capaz de saber o que é e o que está em sua volta, é um ser sem razão, é um louco, um insensato, um desvairado, alguém sem juízo.

-O homem que não compreende que Deus é seu Senhor e que ele é um simples mordomo é alguém que não usa do entendimento que Deus lhe deu e, assim, equipara-se ao louco, ao “doido varrido” do nosso linguajar popular (Rm.1:22).

-É por isso que, na parábola do rico insensato, Deus chama de louco ao rico (Lc.12:20), porque, apesar de toda a sua opulência material, não pôde ele entender que nada daquilo era seu e que não tinha domínio algum sobre a sua vida.

-Do mesmo modo, no sermão do monte, Jesus recriminou a conduta daqueles que consideram o seu próximo louco e assim o tratam (Mt.5:22), pois tal julgamento representa um posicionamento de superioridade em relação ao outro, a assunção de um lugar de juiz do próximo, algo que não nos cabe mas unicamente a Deus, de quem é o entendimento (Tg.4:11,12).

-O entendimento, conforme têm dito, ao longo dos séculos, os filósofos e teólogos, é uma atividade humana que envolve três ações, três áreas, a saber: a imaginação, a razão e a memória.

-Todas estas áreas não são nossas, embora sejam formadoras de nosso “eu”. São do Senhor e devem ser exercidas segundo a vontade e o propósito de Deus.

-“Imaginar algo é fazer a representação ou imitação mental de alguma coisa. Trata-se do poder de conceber figuras que a nossa mente tem, conjurando imagens e analogias.

As imagens assim produzidas podem ser de coisas físicas, ou de ideias, conceitos, ideais e aspirações. Uma imaginação pode ser uma fantasia, uma noção ou uma crença; e, por muitas vezes, é alguma representação falsa, distorcida.

Também pode envolver uma crença falsa, irracional. Também pode envolver um planejamento, de natureza positiva ou negativa.…” (CHAMPLIN, Russel Norman. Imaginação. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.249).

-Deus fez o homem com a capacidade de imaginar, de imitar, na mente, o que existe, de poder conceber coisas novas, ainda não existentes, através da combinação do que Deus criara, como Adão fez ao dar nome aos demais seres do jardim do Éden.

-A “nossa” imaginação, entretanto, como nos dá conta o próprio exemplo de Adão no jardim do Éden, deve seguir a orientação de Deus, deve seguir o Seu propósito. Adão deu nome aos demais seres, porque assim Deus o quis.

-Entretanto, logo depois, vemos que o primeiro casal, já caído, buscou usar da sua imaginação para fazer vestes para si (Gn.3:7), expediente que se mostrou ser o menos adequado para a solução do problema surgido.

-O pecado faz com que a imaginação do homem seja perversa e grotesca e que busca tão somente o mal, pois, no pecado, “toda a imaginação dos pensamentos do coração do homem é só má continuamente” (Gn.6:5), pois, no mundo, como afirma o salmista, “os povos imaginam coisas vãs” (Sl.2:1), ou seja, coisas despidas de sentido, de senso, de razão.

-Quando observamos a história da humanidade, e cada vez com maior intensidade, percebemos como todo o esforço criativo e imaginativo do homem tem servido única e exclusivamente para a sua própria destruição.

-As grandes inovações tecnológicas dos últimos dois séculos quase que instantaneamente ao seu surgimento foram convertidas como instrumentos de morte e de destruição do próximo, como, por exemplo, a tecnologia nuclear ou bioquímica ou os meios de transporte e de comunicação.

-Vivemos um mundo onde as pessoas defendem a plena e ilimitada liberdade de expressão e de opinião, mas onde, a cada dia, os homens estão sendo reféns de manipulações e de distorções de um grupo seleto de pessoas que comandam o fluxo de informações no planeta, fluxo este direcionado para o desenvolvimento de tudo o que não agrada a Deus.

-Devemos manter o controle de nossa mente nas mãos do Senhor. Devemos apenas imaginar o que é bom, o que é proveitoso.

Ante o volume incrível de informações que nos são trazidas pelos sentidos a cada momento, devemos apenas reter aquilo que é bom (I Ts.5:21), esforçando-nos para adestrar a nossa mente à Palavra do Senhor.

-É por isso que a felicidade do homem se encontra em meditar na lei do Senhor durante todo o tempo (Sl.1:2), pois é através do contacto contínuo com as Escrituras que poderemos exercitar a nossa mente de modo a poder discernir o que é bom do que não é.

-Se não podemos impedir que os maus pensamentos e as más mensagens venham a nosso encontro, poderemos, sim, como fiéis e verdadeiros mordomos, impedir que eles venham a se aninhar em nossas mentes.

Como já foi dito por alguém, nós não podemos impedir que a excreção de uma ave que estiver voando caia em nossas cabeças, mas podemos impedir que esta ave faça ninho nelas.

-A imaginação abrange a nossa capacidade de planejar, de fazer planos, de projetar situações e circunstâncias. Neste ponto, também, devemos ter plena consciência de qual é o propósito de Deus para nossas vidas. Não podemos fazer planos e projetos e submetê-los a Deus, como se nós tivéssemos qualquer direito de determinar o que Deus deve fazer por nós.

-Um dos grandes erros dos nossos dias é a presença deste comportamento por parte de alguns crentes que se comporta como verdadeiro “crente medida provisória”, ou seja, um cristão que, a exemplo do que pode fazer o Presidente da República no Brasil, edita uma medida provisória, que passa a valer como lei desde o momento da sua publicação, e depois busca que esta medida seja discutida e aprovada no Congresso Nacional.

-Muitos crentes tomam a sua decisão, fazem seus projetos e o colocam em prática e só depois buscam a aprovação divina, achando até que Deus é obrigado a lhes dar êxito e sucesso.

-Não é, entretanto, este o princípio bíblico que advém da doutrina da mordomia. Bem ao contrário, ensina- nos Jó que Deus tudo pode e que nenhum dos Seus planos pode ser frustrado (Jó 42:2 NAA).

-Esta afirmação do patriarca, fruto do aprendizado que teve na sua grande prova, é um exemplo e uma experiência que deve estar vívida na mente de todos os fiéis mordomos do Senhor.

-O plano é de Deus, o projeto é de Deus e devemos apenas executá-los. Como já disse em aula o querido e amado irmão pastor Antônio Sebastião, diretor da Faculdade Teológica de Santo André (FATESA), que, numa obra, o elemento mais importante é o dono da obra, pois até os projetos do arquiteto somente terão vida e existência se estiverem de acordo com o querer do dono.

-O dono da obra da criação é Deus e, ainda que sejamos criativos e talentosos nos projetos (como o arquiteto), jamais nos esqueçamos de que o projeto somente se tornará em realidade se for do agrado, da vontade do dono da obra.

-Jesus, em toda a Sua Divindade, não ousou criar qualquer projeto ou plano que não fosse da vontade do Pai e, por isso, pôde dizer, em alto e bom som, “eu Te glorifiquei na Terra, tendo consumado a obra que Me deste a fazer” (Jo.17:4)

-A segunda área do entendimento é a razão, entendida esta como sendo a capacidade do homem de estimar, de avaliar, de calcular.

Como afirma Russell Norman Champlin, “…com essa capacidade, através de seus poderes intelectuais, ele(o homem, observação nossa) é capaz de extrair conclusões lógicas de uma série de pensamentos organizados…” (Razão. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.5, p.557).

-A razão é a atividade do entendimento que permite ao homem tirar conclusões, ter consciência de si mesmo e daquilo que o cerca. É o que vemos, em algumas passagens bíblicas, conhecido como “exame”.

-Paulo afirma que devemos, antes de participar da ceia do Senhor, “examinarmo-nos a nós mesmos” (I Co.11:28) e Jesus nos ensina que devemos proceder como o construtor que, antes de iniciar uma obra, avalia se tem condições de terminá-la bem como o rei, que inicia uma guerra, verifica se tem condições de vencê-la (Lc.14:28-32).

-O homem foi feito por Deus um ser racional e deve, portanto, sempre avaliar quais as consequências de seus atos e como deve proceder para ter este ou aquele resultado. Deus mostra-nos que ao homem foram dadas condições para que possa compreender, avaliar o Seu senhorio e de nos submetermos, pois nenhum homem poderá alegar que não teve condições de fazê-lo (Rm.1:18-21).

-O aspecto racional do homem é mais um ponto que o aproxima do seu Criador e que o permite ser chamado de imagem e semelhança de Deus. Com efeito, ao observarmos Deus no ato da criação de todas as coisas, vemo-l’O avaliando cada ponto da criação.

-Diz a Bíblia que, após a criação, Deus fazia uma apreciação do que tinha feito e achava que tinha sido bom, prova de que é um Deus que avalia, um Deus que julga, um Deus que estima.

-Verdade é que o homem é apenas uma pálida expressão desta razão divina, razão esta que está tão longe dos pensamentos humanos como o céu da terra (Is.55:8,9), pois há uma semelhança com Deus e não uma igualdade.

-Por isso, devemos sempre colocar, no mínimo, sob suspeita toda e qualquer doutrina, todo e qualquer pensamento humano que se arrogue como discernidor de toda a lógica divina, como, por exemplo, a doutrina kardecista.

-Nossa razão deve estar completamente submetida ao senhorio de Deus. Por isso nosso culto é chamado pelo apóstolo Paulo de culto racional (Rm.12:1).

-Devemos nos apresentar a Deus como verdadeiros adoradores, em espírito e em verdade (Jo.4:24). A adoração a Deus envolve, assim, dois elementos: o espírito, que será desenvolvido na próxima lição e a verdade, verdade esta que resulta de uma avaliação mental, pois é sabido que é a razão aquela que nos permite identificar entre o verdadeiro e o falso (Aliás, graças a esta capacidade que Deus nos deu de distinguir pela razão a verdade da falsidade que foi criada a lógica, parte da filosofia que nos permite distinguir entre os raciocínios verdadeiros e os falsos, que foi inicialmente desenvolvida, de forma sistematizada, por Aristóteles).

-É interessante observar que a razão nada tem contra a fé ou contra a espiritualidade do homem. Vez por outra somos confrontados com a ideia de que a razão está relacionada à ciência, ao materialismo e que tudo o que é racional é, necessariamente, despido de qualquer contacto com o divino, com o sobrenatural, com o espiritual.

-Esta é uma das muitas ideias mentirosas que vêm sendo disseminadas pelo adversário de nossas almas e que, inadvertidamente, encontra guarida em muitas mentes de cristãos.

-A ciência verdadeira nada mais é que a comprovação, por métodos lógicos e humanos, daquilo que Deus já tem revelado através de Sua Palavra.

-Quem fez o universo foi Deus e, portanto, tudo o que o homem vier a descobrir estará, necessariamente, de acordo com o que foi revelado pelo Senhor através das Escrituras. É por isso que Paulo adverte a Timóteo que combata não a ciência, mas a ” falsamente chamada ciência” (I Tm.6:20).

-Quando fazemos uso da razão, já o dissemos, procedemos a avaliações, a julgamentos, a apreciações da realidade que nos cerca. Deus fez o homem um ser racional. Desta forma, é natural que o homem faça julgamentos, cálculos e apreciações da realidade.

-Muitos crentes embaraçam-se com esta afirmação, pois costumam dizer que Jesus disse que não devíamos julgar o próximo (Mt.7:1), algo que foi, posteriormente, repetido por Tiago, em texto já referido, inclusive, neste estudo (Tg.4:11,12).

-Entretanto, devemos entender bem o que estamos a dizer e o que os textos bíblicos ensinam. O que a Bíblia condena não é o julgamento feito pelo homem, pois o homem, por ser um ser racional, faz julgamentos e apreciações da realidade por força da sua própria natureza. Assim, Adão chegou à conclusão de que era um ser solitário, ainda que Deus não o tivesse falado e tal julgamento não foi, em absoluto, pecado.

-Quando a Bíblia condena o julgamento, temos, aqui, a condenação de algo que não está cometido ao homem na ordem estabelecida por Deus. As Escrituras proíbem o homem de julgar o seu semelhante, ou seja, dar um veredicto a respeito da dignidade ou não de outro ser humano, do merecimento ou não deste ser humano em receber o favor, ou não, de Deus.

-Observe que Jesus diz que quem fizer julgamento desta natureza, estará, também, permitindo, pela lei da semeadura, que seja, posteriormente, julgado da mesma maneira, enquanto Tiago condena, veementemente, que exteriorizemos juízo a respeito da condição espiritual de algum irmão.

-Quem julgará o comportamento espiritual do homem é o Senhor, a quem o homem deve prestar contas. Não temos o direito de querer que os homens prestem contas a nós pela sua vida espiritual, pois isto está além do que Deus nos deu na condição de Seus mordomos. Um mordomo não presta contas a outro mordomo, mas tão somente ao seu Senhor.

-A Bíblia ensina-nos que devemos avaliar a nossa própria condição espiritual, na passagem já mencionada da ceia do Senhor, de forma que a nós compete tão somente, em assuntos espirituais, cuidar de nossas próprias vidas, não nos sendo autorizado que julguemos os semelhantes, mas que nos disponhamos tão somente a sermos instrumentos de Deus para a salvação e aperfeiçoamento dos demais.

-Isto, entretanto, nada tem a ver com a capacidade que Deus deu ao homem de tirar conclusões a respeito dos fatos, inclusive de ordem espiritual.

-Com efeito, Jesus diz-nos que, pelos frutos das pessoas, conheceremos se elas são árvores boas ou árvores más (Mt.8:15-20), bem como que seremos capazes de colocar à prova e identificar os falsos mestres (Ap.2:2).

-Contudo, isto é resultado de uma razão que está submissa a Deus, que somente pensa e calcula de acordo com a vontade de Deus e que, por isso mesmo, embora chegue às suas conclusões, guarda-as para si, sem qualquer intento de julgamento de outrem.

-Uma razão submissa a Deus é uma razão que não faz julgamentos e avaliações segundo a aparência (I Sm.16:7; Jo.7:24), mas segundo a reta justiça.

-O critério de julgamento do mordomo deve ser a Palavra de Deus, a luz que deve iluminar o nosso caminho (Sl.119:105). É este o farol que deve dirigir os nossos pensamentos e as nossas avaliações. Jamais poderemos olhar para as coisas segundo a aparência (II Co.10:7).

-A terceira atividade do entendimento é a memória, que deve ser entendida como sendo “…aquele processo ou faculdade mental de representar na consciência um ato, uma experiência ou uma impressão pertencente ao passado…” (CHAMPLIN, Russell Norman. Memória. In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.4, p.213).

-O homem foi dotado por Deus de memória, exatamente para que possa reter todas as informações e conhecimento que vá adquirindo ao longo do tempo.

Embora a memória, segundo as descobertas científicas dos últimos anos, tenha sua atividade corporal vinculada a um dos hemisférios cerebrais, não é simplesmente uma atividade física, mas se trata de uma faculdade da alma, de uma atividade que é exercida pela alma e que tem no cérebro a sua projeção corporal.

-Deus dotou o homem de memória exatamente porque o homem foi feito para viver eternamente. Sem memória, o homem não teria condição alguma de poder reconhecer a grandiosidade do seu Deus nem tampouco de avaliar o Seu amor e a Sua glória.

-Uma vez que o homem está sujeito ao tempo, fora da dimensão da eternidade, é imperioso que o homem seja dotado de memória, para que possa reconhecer a sua fragilidade e a grandeza do seu Senhor.

-A memória, portanto, deve estar relacionada com estes propósitos divinos, de modo que devemos sempre nos lembrar do amor de Deus para conosco, da Sua grandiosidade, dos Seus grandes feitos.

-A Bíblia sempre nos incentiva a lembrarmos as ações de Deus e o Seu grande amor para conosco. Por isso, Deus determinou que Israel comemorasse a páscoa, para que sempre se lembrasse do cuidado do Senhor na libertação de Seu povo (Ex.13:1-16) bem como estabeleceu o altar de sacrifícios (Ex.20:24).

-Com o mesmo propósito de não nos deixar esquecer o grande amor mostrado na cruz do Calvário, Jesus instituiu a ceia do Senhor, que tem na vivificação da memória do cristão um de seus principais objetivos (Lc.22:19). Nossa memória estará cumprindo a sua mordomia se estiver integralmente relacionada com os feitos e o nome do Senhor (Is.26:8).

-A memória, entretanto, não deve ser usada quando o assunto não é a glorificação do Senhor, mas o pecado meu ou do meu semelhante.

-Quando o assunto é pecado, devemos agir não com memória, mas, bem ao contrário, devemos esquecer tais coisas. Muitos crentes não têm sido fiéis mordomos do Senhor porque se martirizam com os seus pecados passados, com os erros cometidos e que já foram perdoados e purificados pelo Senhor.

-Deus afirma que de nossos pecados e iniquidades não se lembra mais (Mq.7:8; Jr.31:34; Hb.8:12 e Hb.10:17), de modo que não poderemos, mesmo, ficar deles nos lembrando, pois fomos purificados pelo sangue de Jesus de uma forma radical.

-Por isso, doutrinas como a maldição hereditária e suas variações, inclusive a que fala em regressões ou confissões de pecados passados, devem estar totalmente distantes de nossa prática espiritual, pois Jesus já nos perdoou e se O aceitamos, fomos purificados de todo o pecado e devemos nos conduzir como o apóstolo Paulo que, apesar de ter sido um dos maiores perseguidores da Igreja antes de sua conversão, dizia em alto e bom som que ” uma coisa faço, e é que, esquecendo-se as coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Fp.13b,14).

-Além de não poder funcionar a memória de um mordomo com os próprios pecados passados, devemos, também, não deixar que a lembrança das ofensas das quais fomos vítimas por parte de outras pessoas venham a ter consequências em nossas ações em relação a essas pessoas.

-O perdão não é o esquecimento destas ofensas, pois não se confunde com a amnésia. É evidente que sempre nos lembraremos do que sofremos, mas o perdão é a total ineficácia da memória em relação a nosso comportamento com relação a quem nos ofendeu.

-A Bíblia determina que o fiel mordomo de Deus seja um perdoador. “Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas”, disse Jesus (Mt.6:15), que, inclusive, não apenas ensinou, mas também fez, como vemos no instante em que era pregado na cruz, ou no Seu relacionamento posterior com Pedro, que O negou, ou com o próprio Paulo, que tanto O perseguiu.

-Quem perdoa, embora não esqueça, não leva em consideração o que lembra e, portanto, não permite que a memória dê nascimento a rancor ou a raízes de amargura e ressentimentos, verdadeiras ervas daninhas que põem em risco a própria salvação e a dos que com ele convivem (Hb.12:15).

-Não podemos impedir que os pensamentos se manifestem em nossas mentes, mas, se Deus nos controla, se somos fiéis mordomos, não permitiremos jamais que estes pensamentos vindos do passado possam se aninhar em nossas cabeças e gerem comportamentos e condutas nossas que, certamente, serão atitudes de rebeldia e de inobservância da Palavra de Deus.

-A segunda faculdade da alma é o sentimento. O homem foi feito um ser dotado de sentimento, um ser sensível, um ser que sente emoções, paixões e dores.

-A sensibilidade é uma das faculdades da alma e é através dela que podemos amar, gostar, odiar, aborrecer, chorar, sorrir, enfim, sentir.

-Deus é um ser sensível e essa sensibilidade do homem é mais um aspecto que nos mostra que o homem é, sem dúvida, a imagem e semelhança de Deus.

-Com efeito, a Bíblia nos diz que Deus é amor (I Jo.4:8b), que é o mais sublime de todos os sentimentos, que Deus Se aborrece (Pv.6:16), Se alegra (Sl.104:31), Se entristece (Ef.4:30).

-O homem é dotado de sentimento. Após ter percebido estar só, o homem sentiu solidão, o que não foi agradável a Deus, que, então, criou a mulher.

-Em seguida à queda, o homem sentiu medo (Gn.3:10) e, como consequência do pecado, passaria a mulher a sentir muitas dores na conceição (Gn.3:16) e o homem, dores na luta pela sobrevivência (Gn.3:17). Algum tempo depois, Caim sentiu ira e ódio de seu irmão, a ponto de matá-lo (Gn.4:5,8).

-Como podemos perceber, portanto, o homem é um ser que sente, mas este sentimento deve ser disciplinado e conduzido pelo Senhor, se quisermos ser fiéis mordomos.

-Devemos ter o mesmo sentimento que houve em Jesus (Fp.2:5). O primeiro sentimento que devemos ter é o de submissão a Deus, é o de que somos servos e Ele, o Senhor.

-Foi este o sentimento que norteou a vida de Jesus em Seu ministério terreno e é o exemplo que devemos seguir. Quando reconhecemos o senhorio de Deus em nossas vidas, nossas paixões, nossos sentimentos passam a ser controlados pelo Senhor e, assim, não seremos por eles escravizados.

-Paulo bem demonstrou isto ao afirmar que, por se rebelarem contra Deus, os homens foram abandonados à própria sorte, sendo, então, facilmente aprisionados pelos mais perversos sentimentos (Rm.1:24,26,27).

-É extremamente perigoso quando nos deixamos levar pelas nossas emoções e sentimentos, sem que eles possam estar sob o controle do Senhor. Observemos, bem, que não estamos, aqui, dizendo que os servos do Senhor devem ser insensíveis, pessoas que não demonstrem afeto, carinho, amor. Não, absolutamente não!

-Quando abrimos as páginas dos Evangelhos, nós observamos um Jesus amoroso, bom, sensível, extremamente sensível, que Se emocionou (por duas vezes é dito que Jesus chorou). Por diversas vezes, vemos que Jesus se compadeceu daqueles que o cercavam e compadecer-se é ter o sentimento do outro, é sentir exatamente aquilo que o outro está sentindo.

-Quando observamos o ministério de Jesus, porém, vemos que os Seus sentimentos eram voltados para o próximo, para o outro. Jesus jamais Se conduziu de forma a satisfazer as Suas necessidades, jamais olhou o mundo como um local destinado à plena satisfação de Suas sensações ou de Suas emoções.

-Muito pelo contrário, Jesus é fruto do amor altruísta, do amor em relação ao outro e, por isso, deixou a Sua glória para provar o Seu amor para conosco, morrendo por nós quando nós ainda éramos pecadores (Rm.5:8). Os sentimentos e as emoções levavam em conta o próximo e a glória de Deus.

-Vivemos um tempo em que a frieza é uma constante nas relações entre os homens. O desenvolvimento tecnológico, a vida agitada das grandes metrópoles, a luta pela sobrevivência e a acirrada competição dos nossos dias têm tornado os homens insensíveis e sem afeto natural (I Tm.3:3).

-Mesmo nas igrejas locais, a proximidade entre os irmãos tem rareado cada vez mais e não é difícil que nos sintamos estranhos ao término de nossas reuniões, perdidos em uma multidão, algo que é absolutamente contrário ao modelo bíblico estabelecido para a igreja (At.2:44,46) e que alguns têm aproveitado para disseminar heresias e falsos ensinamentos, como a substituição da igreja por ” células”.

-Em virtude disto, não têm sido poucos os artifícios que o homem tem criado para preencher este vazio que tem causado distúrbios inumeráveis à humanidade, pois, afinal de contas, o homem precisa sentir, amar, sorrir.

-Desta necessidade, nascem os expedientes que já conhecemos: as tentativas de substituição do amor pelo sexo, do companheirismo e da amizade pela companhia esporádica e pela diversão, dos sonhos e propósitos pelas “viagens” das drogas e demais fantasias enganadoras e até mesmo a experiência genuína com Deus através de um culto pelo sensacionalismo e pelo emocionalismo de movimentos barulhentos mas totalmente despidos da presença do Espírito de Deus.

-A mordomia do sentimento leva-nos, obrigatoriamente, à busca do amor divino, o caminho mais excelente que pode ser trilhado por um verdadeiro mordomo de Deus (I Co.12:31).

-É preciso que tenhamos amor a Deus. Ora, amor é apego, é o desejo de se estar junto a alguém. Assim, temos de querer estar junto a Deus, de nos apegarmos a Ele e só o faremos se observarmos a Sua Palavra, pois só ama a Deus quem guarda os Seus mandamentos (Jo.15:14).

-Se amamos a Deus, amaremos o nosso próximo (I Jo.4:20). Assim fazendo, teremos os melhores sentimentos com o foco no outro e não em nós mesmos e, assim nos conduzindo, estaremos tendo o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus e, deste modo, nossos sentimentos gerarão atitudes que correspondem às qualidades do fruto do Espírito (Gl.5:22).

-A terceira faculdade da alma é a vontade. O homem é dotado de livre-arbítrio, ou seja, pode escolher entre fazer o que Deus quer ou não.

-Isto percebemos logo na primeira fala de Deus a um homem especificamente, ou seja, em Gn.2:17, é dito que Deus permitiu que o homem tivesse o poder de escolher entre obedecer-Lhe, ou não.
-O próprio Jesus demonstra que o homem foi dotado de livre-arbítrio, ao afirmar que havia a Sua vontade e a vontade do Pai na oração que proferiu no Getsêmane (Lc.22:42).

-Somos dotados de vontade, pois podemos querer e desejar algo de nós mesmos. Embora Deus tenha a Sua vontade, Ele criou o homem com liberdade e deixa um espaço para a o homem possa fazer a sua vontade ou a vontade de Deus, o que já vimos ser a ” vontade permissiva de Deus”.

-O homem não é um robô, um autômato, que é programado para executar as tarefas que lhe foram confiadas. Muito pelo contrário, Deus fez o homem com o poder de escolher, ou não, cumprir o propósito que Deus tem estabelecido para cada indivíduo.

-O homem, por ser dotado de vontade, é responsável pelos seus atos. Somente a liberdade poderia gerar responsabilidade pelos atos praticados. Quando vemos que o homem prestará contas pelos atos que tiver

cometido, consequência da sua condição de mordomo, isto somente faz sentido na medida em que o homem é dotado de livre-arbítrio, da capacidade de escolher fazer, ou não, aquilo que foi determinado por Deus.

-Caso o homem não pudesse escolher, jamais poderia ser obrigado a prestar contas, pois não poderia responder pelos atos cometidos, já que não teriam tido origem nele mesmo mas em Deus.

-Devemos sacrificar a nossa vontade e fazer a vontade de Deus. Esta realidade é o que Jesus denomina de ” reino de Deus”.

É o que ensina a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…A expressão ‘Reino de Deus’ deve ser entendida como sendo o domínio de Deus [Lc.17:20,21] …” (DFAD 2. ed., VIII.13, pp.132-3).

-Na oração-modelo, Jesus diz-nos que devemos pedir a Deus que o Seu reino venha e que a Sua vontade se faça assim na terra como no céu (Mt.6:10).

-Ora, ao assim afirmar, Jesus deixa-nos bem claro que o reino de Deus, ou seja, o governo de Deus, o senhorio de Deus somente é possível na medida em que a Sua vontade se realiza na terra e no céu.

-É interessante verificar que Jesus coloca a terra em primeiro lugar, numa ordem contrária a da criação (cfr. Gn.1:1), exatamente porque está se referindo a uma comunicação entre Deus e o homem, que é o mordomo na terra (cfr. Gn.1:26).

-Para que o senhorio de Deus se estabeleça, é fundamental que a vontade divina se realize na terra e isto somente será possível na medida em que o homem, que é o supremo administrador da criação na Terra, coloca- se em atitude de submissão a Deus e sacrifique a sua vontade em favor da vontade de Deus.

-Daí a importância singular que tem o Getsêmane no plano da salvação do homem. Embora tenha sido no Calvário que Jesus tenha vencido a morte e o pecado, embora a cruz represente o poder de Deus (I Co.1:17) e seja nela que esteja o motivo de nosso gloriar (Gl.6:14), a cruz não seria possível se, antes, Jesus não tivesse sacrificado a Sua vontade, decorrente do próprio instinto humano de sobrevivência, em prol da vontade de Deus.

-No Getsêmane, temos o primeiro passo para que Cristo fosse vencedor, pois ali o homem Jesus completou o sacrifício da Sua vontade, aceitando morrer por nós (Jo.6:38).

-Devemos seguir-Lhe o exemplo, sacrificando, também, a nossa vontade para que a vontade de Deus se faça plenamente em nós.

-Davi foi chamado homem segundo o coração de Deus, exatamente porque se propôs a executar toda a vontade do Senhor (At.13:22) e Paulo demonstrou, claramente, que o importante é vermos para cumprir a vontade de Deus (At.21:13,14).

Só quem faz a vontade de Deus permanece para sempre (I Jo.2:17).
-Temos sacrificado a nossa vontade em prol da vontade de Deus ou temos querido servir a Deus do nosso modo, da nossa maneira, como se pudéssemos agir assim? O verdadeiro mordomo não faz o que quer, mas o que é da vontade do seu Senhor.

-Este aspecto da mordomia da alma é de suma importância, pois demonstra quão equivocado é o pensamento dos pregadores da confissão positiva, que defendem que Deus é obrigado a cumprir os nossos desejos, os nossos caprichos, por causa dos compromissos que tenha assumido em Sua Palavra.

-Deus é soberano e faz aquilo que Lhe apraz. Verdade é que cumpre as Suas promessas e que vela pela Sua Palavra para a cumprir (Jr.1:12). Entretanto, Sua Palavra diz que devemos sacrificar nossa vontade para que a vontade de Deus se faça em nós.

-Uma passagem muito citada pelos defensores da confissão positiva é a que consta em Jo.15:7, segundo a qual (para citarmos apenas a parte interessante a estes falsos mestres), “pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito”.

-Entretanto, este versículo, longe de dizer que Deus é obrigado a satisfazer as nossas vontades, é a conclusão de todo um contexto, que se inicia com as seguintes palavras de Jesus, a saber: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o lavrador” (Jo.15:1).

-Ou seja, Jesus coloca-Se como sendo o principal servo do Pai, a videira verdadeira, a principal planta da vinha (e sabemos que a vinha é sempre um símbolo do povo de Deus na Bíblia), enquanto Deus é o dono da vinha, o soberano.

-Nós somos varas, ramos desta videira e, portanto, dependemos inteiramente de Cristo para que possamos dar fruto. Somente estando em Cristo é que poderemos dar fruto.

-Ora, se assim é, como afirma a primeira parte de Jo.15:7 (sempre omitida pelos propagandistas da confissão positiva), é indispensável que estejamos em Cristo e que as Suas palavras estejam em nós, para que, aí, sim, nós possamos pedir tudo o que desejemos.

-Ocorre que este desejo não será a nossa vontade, o nosso capricho, como ensinam estes enganadores, mas, sim, a vontade de Deus, pois, se estivermos em Cristo, seremos como um ramo enxertado, que passará a ter correndo em si a seiva da planta, que aqui representa a vontade de Deus.

– Quereremos apenas o que Deus quer e é por isso que tudo o que desejarmos será realizado. Algo muito diferente do que andam dizendo por aí.

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11826-licao-5-a-alma-a-natureza-imaterial-do-ser-humano-i

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Iesus Kyrios

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading