LIÇÃO Nº 6 – A CONSCIÊNCIA: O TRIBUNAL INTERIOR
INTRODUÇÃO
-Na continuidade do estudo da doutrina bíblica do homem, analisaremos a consciência.
-A consciência traz o parâmetro divino para o ser humano.
I – O QUE É A CONSCIÊNCIA
-Na continuidade do estudo da doutrina bíblica do homem, analisaremos hoje a consciência.
-O comentarista, ao estudar a consciência no bloco atinente à alma, demonstra sua compreensão de que, para ele, a consciência seria algo relacionado com a alma.
-No entanto, o mesmo comentarista, logo no início, diz haver discussão a respeito de a consciência pertencer à alma e/ou ao espírito, o que, aliás, também é mencionado pelo pastor Severino Pedro da Silva (1946-2013) em sua obra “Corpo, alma e espírito”, “in verbis”: “…A influência da consciência.
Esta influência é exercida é através da alma para nivelar estados morais. Mas, noutras ocasiões, esta influência é exercida pelo espírito humano…” (op.cit., p.84).
-O missionário e teólogo Eurico Bérgsten (1913-1999) é clarividente ao considerar a consciência como função do espírito, “in verbis”:
“…Uma das faculdades mais importantes do espírito do homem é a sua CONSCIÊNCIA, Rm.2:15,16, que é uma janela no homem, pela qual Deus olha para o interior dele.
A consciência é um ‘espião’ de Deus que persegue o homem, quando ele peca, mas que lhe fala com uma voz elogiosa quando faz o bem…” (Teologia sistemática: doutrina do Espírito Santo, do homem, do pecado e da salvação. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1986, p.78).
-O pastor Antônio Gilberto da Silva (1927-2018) também assim ensina: “…O espírito identifica o homem, a criação espiritual e dá-lhe a consciência de Deus. (…) Por meio dele o homem tem consciência de Deus.…” (A triunidade do homem. In: Bíblia de Estudo Antônio Gilberto, p.1922).
-Watchman Nee (1903-1972) também considera ser a consciência uma das funções do espírito: “…as funções do espírito poderiam ser classificadas como intuição, comunhão e consciência…” (O homem espiritual, p.277).
-“…O termo ‘consciência’ não aparece nas páginas do Antigo Testamento; entretanto, em o Novo, aparece por trinta vezes. Vem do grego ‘syneidesis’. Seu significado é: ‘um conhecimento acompanhador’. Do ponto
de vista divino da observação, a consciência é ‘a faculdade da razão’, que distingue entre o mal e o bem. A consciência é sempre vista como algo intuitivo e espiritualmente instruído pela influência do Espírito Santo.…” (SILVA, Severino Pedro da. Corpo, alma e espírito, p.83).
-“… a consciência importa a ordenação da ciência para alguma coisa, porquanto, consciência significa ciência com outra coisa (…) ela testifica, liga, instiga e, mesmo, acusa ou remorde ou repreende. E tudo isso resulta da aplicação de algum conhecimento nosso ou ciência nossa aquilo que praticamos.
E essa aplicação se faz de três modos. ― Primeiro, quando reconhecemos ter ou não feito alguma coisa (…) diz-se que a consciência testifica. ― Segundo, quando pela nossa consciência julgamos dever fazer alguma coisa, ou não. E então, diz- se que a consciência instiga ou liga. ― Terceiro, quando, pela consciência, julgamos que alguma coisa foi bem ou mal feita. E então, diz-se que a consciência excusa, ou acusa ou remorde.…” (Tomás de Aquino. Suma Teológica, I, q.79, art.13)
-“…CONSCIÊNCIA MORAL – Propriedade do espírito humano de articular juízos normativos, espontâneos e imediatos sobre o valor moral de certos atos individuais determinados.
Quando se aplica a atos executados no passado, o respectivo agente experimenta os sentidos de prazer (satisfação) ou de dor (remorso), conforme um ato foi de acordo ou não com o ditame da moral. Quando se refere a atos futuros, a consciência
assume a função de uma voz que proíbe ou comanda.
Os termos grego e latino syndéresis e conscientia significam literalmente “saber como”, e ainda se pode observar a sua progressiva aceitação de um sentido ético.
Em o Novo Testamento o termo syndéresis é muitas vezes usado, não só no sentido de consciência (conhecimento) dos próprios estados e atos, mas com o matiz ético de consciência do valor moral dos homens.…” (SANTOS, Mário Ferreira dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p.369).
-“…CONSCIÊNCIA MORAL [Do lat. conscientia, senso íntimo + morale, relativo aos costumes] Discernimento do que é justo ou injusto à luz das leis e códigos que nos deixou o Criador.
Dessas legislações, os Dez Mandamentos são a síntese. Na consciência moral, está embutida a noção de castigos e galardões. O homem sabe que, se quebrantar os mandamentos, será chamado a prestar contas diante do Justo Juiz. E o castigo será inexorável.
Mas se praticar a justiça, não deixará de receber a recompensa. Na consciência moral, está bem presente a lei da semeadura (G1 6.7). …” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Consciência moral: In: Dicionário Teológico, p.93).
-“…Voz secreta que temos na alma que aprova ou reprova nossos atos. alimentada pelo direito natural que o Todo-Poderoso incutiu em cada ser humano.
Se a consciência não for devidamente educada, fatalmente será induzida a esquecer-se dos reclamos divinos. Eis a melhor forma de se educá-la: instruí-la na Palavra de Deus.” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Consciência: In: Dicionário Teológico, p.93).
-“Consciência é a lei inata da natureza pela qual o homem sabe que é conhecido.” (CHAMBERS, Oswald.
Psicologia bíblica: soluções de Cristo para problemas do dia a dia. Curitiba/PR: Publicações Pão Diário, p.178)
-Reproduzimos estas definições de consciência, onde a consciência é apontada como um parâmetro divino que é inserido no ser humano, onde se diz o que é certo ou errado, o que agrada a Deus ou não. Temos, portanto, um critério não do homem, mas de Deus, que serviria para um contraste entre as ações realizadas ou pensadas pelo homem e a regra, a medida estatuída por Deus, o Criador.
-Em sendo assim, não vemos como deixar de considerar que a consciência não é uma faculdade da alma, mas, sim, está ligada ao relacionamento entre Deus e o homem. É o critério divino, a ordem divina, os mandamentos do Criador que são inseridos no ser humano, a fim de que ele tenha a noção do que é certo ou errado, do que é bom ou mau.
-Tal situação remete-nos ao diálogo que se estabelece no interior do salmista no Salmo 42, quando o espírito se dirige à alma, indagando o porquê estar ela abatida, recomendando que ela esperasse em Deus (Sl.42:6,11).
-É o espírito quem orienta a alma a buscar a presença de Deus, a confiar no Senhor, é o espírito quem dirige as ações relativas à alma, que são sempre vinculadas ao sentimento, raciocínio ou vontade, estas, sim, faculdades desta sede da nossa personalidade.
-A consciência, porém, é um julgamento que se faz das ações, é a “lei” que considera um ato praticado ou que se deseja praticar como correto ou não.
É, portanto, a aplicação de algo proveniente de Deus ao ser humano.
-Bem por isso o apóstolo Paulo diz ser a consciência “a testemunha da lei escrita no coração do homem” (Rm.2:15), a “voz secreta” como afirma o pastor Claudionor Corrêa de Andrade (1955-2025); “a lei inata” como afirma Oswald Chambers.
-Ora, como nos mostra o Sl.42, tem-se que esta atividade é realizada não pela alma, mas pelo espírito, pois se trata de algo inerente ao relacionamento entre Deus e o homem.
-Nem se deve esquecer, ainda, que, quando autores situam a consciência na alma, em algumas oportunidades, isto se dá porque são eles dicotomistas, ou seja, confundem a alma com o espírito, não sendo, pois, difícil entender porque consideram a consciência como uma atividade da alma, já que, para eles, espírito é apenas a substância da alma e não uma parte distinta do ser humano.
-Pois bem, entendido porque a consciência é uma função do espírito e não da alma, temos, por primeiro, que se trata de uma atividade que sempre está presente no ser humano.
Tomás de Aquino diz que não é a consciência algo que vir a existir no homem, mas algo que sempre está presente no homem, na sua linguagem, não é uma “potência”, uma “possibilidade”, mas um “ato”.
-Esta palavra só é encontrada nas Escrituras em o Novo Testamento, a palavra grega “syneidesis” (συνειδήσις), cujo significado é de “…percepção conjunta, i.e., consciência moral (…) o conhecimento de si mesmo, consciência; e, portanto, consciência, a faculdade da alma que distingue o certo do errado e impulsiona a pessoa a escolher o primeiro e evitar o segundo…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 4893, p.2411).
-Por consciência, portanto, temos esta função do espírito que mostra à alma a correção, ou não, daquilo que se fez, do que se está a fazer ou do que foi feito, à luz da vontade divina.
-Nota-se que a divergência surgida advém do significado que se dá à palavra “consciência”, que, como quase todas as palavras significativas (ou seja, palavras que possuem significado) é “plurívoca”, ou seja, possuem mais de um significado.
-Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), em seu Dicionário de Filosofia e Ciência Culturais, e Claudionor Corrêa de Andrade (1955-2025), em seu Dicionário Teológico, bem demonstraram o motivo desta divergência, ao colocarem dois verbetes separados para a palavra “consciência”: “Consciência” e “Consciência Moral”.
-O que ambos os lexicógrafos denominam de “consciência moral” é o que se encontra nas páginas das Escrituras como “consciência”, que, como vimos, é uma função do espírito, pois traz o parâmetro divino para o interior do homem.
-O que Mário Ferreira dos Santos denomina de “consciência” é a noção que tem o homem de que é um indivíduo distinto dos demais, ou seja, é o entendimento do homem de que é ele próprio e não o outro, é a compreensão de que se é diferente dos demais seres existentes.
-Eis a definição dada pelo filósofo brasileiro: “Consciência significa:
1) o próprio pensamento, sem considerar ainda a distinção entre o fato consciente e o fato de que é consciente, o que é designado pelo termo clássico
de consciência espontânea que, no entanto, foi criticado com boas razoes (Lalande) e substituído pelo termo mais acertado de consciência primitiva; e
2) o estado subjetivo, produzido pelo ato de conhecimento e como que separado do objeto em virtude de uma reflexão, o que se chama consciência reflexiva.
Mas ainda este último sentido é suscetível de duas especificações diferentes que se referem uma à outra, como subjetiva e objetiva. No primeiro caso considera-se o que ainda resta no sujeito após a diferenciação reflexiva; considera- se sua atividade própria, a virtualidade de operações novas, o que pode produzir ainda, as leis segundo as quais se desenvolve as reservas de potencial pensante, que podem levar a progressos ulteriores do conhecimento: consciência subjetiva.
No segundo caso considera-se o conhecimento atual do objeto, na posse mais completa que podíamos alcançar dele por meio dessa diferenciação reflexiva de oposição e análise (por exemplo, na clareza das nossas percepções, na precisão dos princípios do nosso pensamento raciocinante etc.) e é neste sentido que se fala, ordinariamente, de um espírito consciente: consciência objetiva.…” (Consciência. In: op.cit., p.364).
-Enquanto “consciência de si”, enquanto noção de que se é distinto dos demais, temos, com efeito, uma atividade que é própria do entendimento, que pertence à alma, mas não é desta “consciência de si” ou “autoconsciência” de que trata a Bíblia Sagrada.
-Oswald Chambers (1874-1917) discorda da ideia de que a consciência seria “a voz de Deus”, porquanto, se
assim fosse, a voz divina seria contraditória, porque teríamos diferentes consciências.
-Nitidamente, este pastor batista, ao considerar que a “consciência” seria “o olho humano”, está a tratar da “consciência de si”, da “autoconsciência”, pois, como vimos, para ele a consciência é “a lei inata da natureza pela qual o homem sabe que é conhecido” o que, efetivamente, não é do que tratam as passagens bíblicas, que nos mostram, com clareza, que a consciência é, na verdade, “o olho divino” que se faz notar pelo homem, é a percepção do “olhar divino” sobre a ação humana.
-Como afirma o pastor Severino Pedro da Silva, a consciência somente pode ser considerada uma atividade da alma enquanto “consciência espontânea” ou “consciência refletida”, como já dissemos ensinar Mário Ferreira dos Santos:
“…Podemos definir esta faculdade da alma denominada de a “consciência” da seguinte maneira: a. A consciência espontânea. Chama-se espontânea a consciência que acompanha todos os estados propriamente psicológicos, e sem a qual todos estes estados permaneceriam estranhos para nós, como fenômenos da vida vegetativa. b. A consciência refletida.
Chama-se refletida a consciência que nos obriga a voltar deliberadamente aos estados psíquicos, a fim de observá-los. Ela não é possível evidentemente a não ser pela consciência espontânea, ou pela memória, que faz reviver os estados passados.…” (op.cit., p.84).
II – A CONSCIÊNCIA – A LEI DIVINA IMPRIMIDA NO INTERIOR DO HOMEM
-As Escrituras mostram-nos que a primeira revelação de Deus ao homem é a criação, considerada a primeira das “promulgações da lei divina”. Promulgação é o ato formal em que se declara a existência e a validade de uma lei.
-Por meio da criação, Deus mostra o Seu eterno poder e a Sua divindade (Rm.1:20), mostrando-se, deste modo, aos seres humanos como o Senhor de todas as coisas e que, portanto, merece ser glorificado.
-Depois da criação, porém, o Senhor também Se manifesta aos homens como Senhor por intermédio da consciência, fazendo com que, através do espírito humano, que faz a ligação entre Deus e a sua principal criatura terrena, o homem possa discernir o que é certo ou o que é errado, o que é o bem e o que é o mau, a fim de que, por meio de boas obras e boas intenções venha o homem a glorificar o seu Criador.
-Como ensina o pastor Antônio Gilberto da Silva, “…uma das edições da lei de Deus na esfera humana é a nossa Consciência…” (Nossa consciência. In: Bíblia de Estudo Antônio Gilberto, p.1614). Pois, como ensina o saudoso e grande mestre das Assembleias de Deus no Brasil: “… Deus, para Se fazer conhecido do homem,
proveu-lhe quatro revelações de Si mesmo: (…) 2. A revelação de Deus pela consciência. A consciência (quando sensível, não cauterizada) é uma evidência do autor da lei moral interior existente em todo homem. Sabemos quando erramos; sabemos quando não erramos…” (Inocente diante de Deus ninguém é. In: op.cit., p.1615).
-É o que vemos ocorrendo com a segunda geração de homens sobre a face da Terra. Caim e Abel ofereceram sacrifícios ao Senhor, vieram cultuá-l’O, mas Caim, pela consciência, pôde perceber que nem ele nem sua oferta haviam sido aceitos por Deus, ao contrário de Abel e de sua oferta (Gn.4:4,5).
-Notemos que bem se pode até afirmar que não é a consciência, efetivamente, “a voz de Deus”, mas, sim, uma voz secreta, como diz Cyrus Ingerson Scofield (1843-1921), “…a voz que fala em silêncio…” (apud SILVA, Severino Pedro da. op.cit., p.86). Deus só irá falar com Caim depois da reação deste diante da reprovação vinda da consciência.
-A consciência é a impressão dos mandamentos divinos, do código de conduta estatuído por Deus ao homem no ser humano, o que nos faz lembrar o ensino de Pearlman citado por Timothy Munyon:
“A alma sobrevive à morte porque é energizada pelo espírito, mas alma e espírito são inseparáveis porque o espírito está entretecido na própria textura da alma. São fundidos e caldeados numa só substância” (HORTON, Stanley (ed.). Teologia sistemática: uma perspectiva pentecostal, p.132).
-Como afirma Watchman Nee: “…Anteriormente comparamos o homem ao templo e o espírito do homem ao Santo dos Santos.
Avançaremos um pouco com esta metáfora, comparando a intuição, a comunhão e a consciência do espírito à arca no Santo dos Santos.
(1) Dentro da arca jaz a lei de Deus que instrui os israelitas naquilo que devem fazer; desse modo Deus revela a Si Mesmo e Sua vontade através da lei.
Do mesmo modo Ele se faz conhecido e Sua vontade à intuição do crente, para que ele ande de acordo com ela.
(2) Sobre a arca e espargido com o sangue está o propiciatório onde Deus manifesta Sua glória e recebe a adoração do homem. Semelhantemente cada pessoa redimida pelo sangue tem o espírito vivificado; através deste espírito vivificado ela adora e tem comunhão com Deus.
Assim como Deus comungava com Israel sobre o propiciatório assim hoje Ele comunga com o crente em seu espírito purificado pelo sangue.
(3) A arca é chamada de “a Arca do Testemunho” porque nela estão guardados os Dez Mandamentos, como o testemunho de Deus a Israel.
Assim como as duas tábuas da lei silenciosamente acusavam ou desculpavam os feitos de Israel, assim a consciência do crente, na qual o espírito de Deus escreveu a lei de Deus, dá testemunho a favor ou contra a conduta do crente. “Minha consciência dá testemunho no Espírito Santo” (Rm.9:1).…” (op.cit., p.278).
-Aliás, é bem isso que diz o apóstolo, ao comparar a consciência com uma “lei escrita no coração” (Rm.2:15), ou seja, algo posto no ser humano, que faz com que se tenha uma avaliação do comportamento do próprio indivíduo por ele mesmo, mas segundo critérios que não são seus, mas que foram compartilhados por Deus no espírito humano.
-Caim percebeu que ele e sua oferta haviam sido rejeitados pelo Senhor e o resultado disto foi uma forte ira e um descair de semblante (Gn.4:5).
-Ante a ação da consciência, a alma se manifestou, demonstrando toda sua escravidão ao pecado, irando-se fortemente (e a ira é obra da carne – Gl.5:20) e mostrando uma face insatisfeita, “fechando a cara” como diz a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, tendo “o rosto transtornado”, como diz a Nova Versão Internacional e, em certa medida, a Nova Versão Transformadora, que diz que Caim “ficou transtornado”.
-Diante disto, o Senhor, então, vem falar a Caim, muito provavelmente uma fala no seu próprio interior, com o objetivo de lhe mostrar que caminho deveria tomar para que sua oferta também fosse agradável a Deus.
-É assim que a consciência opera, apresenta ao homem o agrado ou desagrado de Deus diante de uma ação do homem, ainda que só planejada, devendo o homem, então, reagir a esta avaliação feita segundo o parâmetro
divino imprimido ao homem em seu espírito, adaptando, ou não, a sua conduta, o seu pensamento ao critério estatuído pelo Senhor.
-Ante a reação negativa de Caim, o Senhor mostra toda a Sua graça, vindo falar a Caim, ainda que em seu interior, “pregando-lhe o evangelho”, trazendo a boa nova de que havia salvação para ele, desde que ele fizesse bem, assim como Abel, sob pena de ser dominado pelo pecado (Gn.4:7).
-Em virtude da natureza pecaminosa do homem, muito bem descrita pelo apóstolo Paulo no capítulo 7 da epístola aos romanos, o homem, mesmo sabendo que está sendo desaprovado por Deus, não consegue fazer o bem (Sl.14:1-3; 53:1-3; Rm.7:14-21).
-A consciência, portanto, leva o homem à ciência, ao conhecimento de que está a desagradar a Deus e que precisa mudar de atitude. Esta mudança é proclamada pelo próprio Deus, que, seja no interior do homem, como fez com Caim, Abel e Sete, seja pelos profetas, como fez de Enos até João, e, agora, por Cristo, seja na Sua pessoa física seja pela Igreja, que é Seu corpo místico, dizendo ao ser humano que quer salvá-lo.
-Se a esta proclamação, o homem misturar a sua fé (Hb.4:2,3), outra função existente no espírito humano, que o pastor Claudionor Corrêa de Andrade denomina de “fé natural” e define como “…Conhecimento oriundo da observação da natureza e do labor filosófico que conduz à certeza quanto à existência do Supremo Ser.
Este tipo de fé pode ser encontrado, por exemplo, nas obras dos filósofos gregos que, embora desconhecessem os escritos dos profetas hebreus, lograram descobrir, nalgum ponto de suas elocubrações, a presença imarcescível de Deus (Rm 1.20,21).…” (Fé natural. In: op.cit., p.157).
-Quando esta fé se mistura com a Palavra de Deus, pregada ao homem pelo Evangelho, temos o nascimento da “fé salvadora”, “…Proveniente da proclamação do Evangelho, esta fé leva-nos a receber a Cristo como o nosso único e suficiente Salvador (Jo 3.16).
Ao contrário da fé natural, que brota através do labor filosófico, a fé salvadora só há de nascer no coração humano através da pregação do Evangelho (Rm 10.13.16). Sem a mensagem da cruz, não pode haver fé salvadora.…” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Fé salvadora. In: op.cit., p.197).
-Quando se rejeita a Palavra de Deus e, portanto, conscientemente, se sai da presença do Senhor, como fez Caim (Gn.4:13-16), não só pecando como não crendo que Deus pode perdoá-lo e salvá-lo, o homem assume a responsabilidade pela sua própria perdição.
-Bem por isso, o apóstolo Paulo diz que os homens são inescusáveis, não têm desculpa de terem rejeitado a oferta salvadora de Deus (Rm.2:1-5).
-Notemos que, não fosse a graça de Deus, mediante a proclamação do Evangelho para que o homem venha a crer na salvação, feita tanto no interior do homem, após a reprovação da consciência, como pela proclamação externa do Evangelho, não teria o homem como alcançar a salvação. Por isso, somos salmos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de nós (Ef.2:8).
-A destruição de toda humanidade no dilúvio, com exceção de Noé e sua família, foi a consequência da recusa do homem de atender ao chamado salvador do Senhor, seja por Enoque, seja pelo próprio Noé, que fez com que a reprovação advinda da consciência e, depois, reforçada pelo desatendimento às mensagens daqueles dois profetas, fosse inevitável o juízo divino.
-E, como nos afirmou o Senhor Jesus, isto está na iminência de se repetir, uma vez que os nossos dias são como os dias de Noé e, uma vez mais, a consciência está a mostrar aos homens a reprovação divina pelas suas atitudes pecaminosas, e, em reforço a esta consciência, está a Igreja a pregar o evangelho a toda criatura, mas, lamentavelmente, muitos, a exemplo da geração antediluviana, estão a não receber o amor da verdade para se salvarem, a não crer na verdade, a terem prazer na iniquidade e, por isso, sofrerão o juízo da Grande Tribulação (II Ts.2:10-12).
-Não é por outro motivo que o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) iniciou a sua obra “Crítica da Razão Pura”, onde aborda a questão da moral e da ética, com a seguinte frase: “Duas coisas enchem o ânimo de crescente admiração e respeito, veneração sempre renovada quanto com mais frequência e aplicação delas se ocupa a reflexão: por sobre mim o céu estrelado; em mim a lei moral.”
-Estas duas coisas nada mais revelam que estas duas promulgações da lei divina: a criação (“o céu estrelado”) e a consciência (“em mim a lei moral”).
III – COMO A CONSCIÊNCIA SE APRESENTA NO HOMEM
-A palavra “consciência” somente aparece em o Novo Testamento, ainda que, como temos visto, tal função,
ainda que assim não denominada, seja descrita e tratada em todas as Escrituras.
-É elucidativo que Watchman Nee tenha entendido como figura da consciência as tábuas da lei que se encontravam no interior da arca do concerto, ou seja, a lei divina, as palavras ditas por Deus e gravadas na pedra, que reprovavam ininterruptamente o comportamento humano, já que ninguém cumpria a lei, e que mantinham separadas do homem no lugar santíssimo.
-Cumpre observar que, ao contrário da vara de Arão e do pote de maná, as tábuas se mantiveram no interior da arca até que desaparecesse misteriosamente quando da destruição do Primeiro Templo (I Rs.8:9; II Cr.5:10).
-Isto nos mostra que a consciência perdura no homem, mesmo quando há a morte espiritual, mantendo o homem plenamente ciente do que é certo ou errado, o que o torna inescusável, mesmo não tendo chegado a ouvir a pregação do Evangelho.
Como afirma Chambers: “…em lugar algum há qualquer registro de uma tribo canibal pensando ser certo comer um ser humano; eles sempre ocultam isso.…” (op.cit., p.184).
-Enquanto o homem está sem salvação, espiritualmente morto, a consciência existe, atua, mas é mantida alheia ao “modus vivendi”. O homem sabe que está a fazer as coisas erradas, reprováveis, mas, enquanto não der lugar à Palavra de Deus, enquanto não crer que pode mudar de atitude, que Deus quer perdoá-lo, esta ciência da reprovação divina não trará qualquer consequência, a não ser reforçar a morte existente.
-A condenação divina, sabida pelo homem por meio da consciência, ainda não é definitiva, porque, a exemplo do que fez com Caim, o Senhor dá a cada impenitente o “sinal” (Gn.4:15), pelo qual permite ao homem um tempo para que se arrependa, admita ser um pecador e alcance, deste modo, o perdão oferecido por Deus.
-Entretanto, se o homem ingressar na eternidade ainda fora da presença de Deus, rejeitando a oferta salvadora do Senhor, tal condenação será definitiva e declarada no juízo do trono branco (Ap.20:15), a exemplo do que ocorrerá com Caim, que, por isso mesmo, é chamado “do maligno” (I Jo.3:12).
-Ante esta realidade, as Escrituras mencionam diversas tarefas da consciência, como também qualidades que ela pode apresentar no ser humano.
-A consciência testifica ao homem (Rm.2:15). Acima, já vimos que Tomás de Aquino (1225-1274), o grande
teólogo da Idade Média, destaca esta tarefa da consciência, ao dizer que a consciência “testifica, liga e instiga”.
-A arca do concerto era chamada de “arca do testemunho” (Ex.25:6), porque, em seu interior, estavam as tábuas da lei, que eram testemunhas da vontade divina para o povo de Israel, assim como é a consciência a testemunha da lei escrita no coração do homem.
-Este testemunho é um “ministério da morte” (II Co.3:7), porque a consciência aponta o que é bom, mas o homem natural, vendido sob o pecado, é incapaz de fazer o bem, conforme já vimos (Sl.14:1-3; 53:1-3; Rm.7:14-21).
-Por isso, além do testemunho da consciência, torna-se necessário que venha a Palavra de Deus, que promova
o surgimento da fé salvadora (Rm.10:17) e, mediante esta fé em Cristo, a lei escrita em tábuas de pedra, pois
o coração do homem impenitente é um coração de pedra (Ez.11:19; 36:26), dê lugar a uma lei escrita em um coração de carne, ou seja, num espírito vivificado (I Co.15:22; Ef.2:1).
-Desta maneira, haverá pleno conhecimento do Senhor, uma comunhão verdadeira, instituindo-se o
“ministério do Espírito” (Jr.31:31-34; II Co.3:6-8).
-Segundo Tomás de Aquino, ainda, conhecidos como o “Doutor Angélico”, a consciência também instiga ou liga, na medida em que também sugere que façamos algo, que tenhamos de fazer alguma coisa, por ser nosso dever fazê-lo.
-A consciência não nos faz apenas voltar ao passado, como também, no presente, nos orienta como devemos proceder.
Assim, ela nos impele a que nos sujeitemos às autoridades (Rm.13:5), como também a que não escandalizemos os nossos irmãos mais fracos (I Co.8:7-12) ou que não perguntemos sobre a procedência dos alimentos (I Co.10:25) ou, ainda, deixemos de consumir alimento que saibamos ter sido sacrificado aos ídolos (I Co.10:26-29) e, por fim, quando nos dá força para que soframos agravos padecendo injustamente (I Pe.2:19).
-A consciência, afirma o Doutor Angélico, também excusa, acusa ou remorde, o que torna o homem inescusável, como já salientamos supra (Rm.2:15).
-A consciência é, assim, uma das provas que será utilizada nos julgamentos divinos que cada ser humano enfrentará (Hb.4:13), seja o Tribunal de Cristo, para a Igreja, seja o juízo do trono branco para os demais seres humanos.
-A consciência defende-nos, dizendo que estamos a agradar a Deus. O apóstolo Paulo mostrava toda a sua solidez espiritual ao afirmar que, em Cristo, sua consciência dava seu testemunho no Espírito Santo (Rm.9:1), ou seja, havia uma imensa convicção de que estava caminhando para o céu, fazendo a vontade de Deus, tanto que, mesmo diante do Sinédrio, em um momento angustiante, pôde o doutor dos gentios afirmar que estava a andar diante de Deus com toda a boa consciência (At.23:1) e, pouco depois, já diante de Félix, que tinha uma consciência sem ofensa tanto para com Deus como para com os homens (At.24:6).
-O mesmo Paulo também disse aos coríntios que sua glória, isto é, seu peso, sua autoridade era testificada pela sua consciência, tendo em vista sua vida ser vivida na simplicidade e sinceridade de Deus, não na sabedoria carnal mas na graça de Deus (II Co.1:12).
-Era este testemunho da consciência do apóstolo o ponto de partida desta segunda epístola aos coríntios, que foi a mais enfática defesa que Paulo fez de sua autoridade apostólica. Eis o valor de uma consciência que testifica que estamos a agradar a Deus!
-A consciência também nos acusa, quando estamos a desagradar ao Senhor. Tal acusação não é feita com o propósito de nos destruir, como faz o diabo (e “diabo” significa “acusador”), mas, se não nos voltarmos a Deus, certamente o adversário se utilizará desta acusação para nos convencer de que estamos irremediavelmente perdidos, como fez com Caim ou com Judas Iscariotes.
-Assim, por exemplo, Judas Iscariotes foi acusado por sua consciência do mal que fizera ao Senhor Jesus (Mt.27:3) bem como o auditório dos apóstolos no sermão do dia de Pentecostes com relação a sua vida pecaminosa (At.2:37). A consciência sempre nos acusa do pecado não perdoado.
-Ante a acusação da consciência, devemos sempre crer na mensagem de salvação em Cristo Jesus e correr
aos Seus pés, pedindo perdão dos nossos pecados e, assim, seremos purificados da “consciência das obras
mortas” (Hb.9:14), da “consciência de pecado” (Hb.10:2) ou da “má consciência” (Hb.10:22). Se, porém, não
crermos no Evangelho, seremos condenados (Mc.16:16).
-A consciência remorde, ou seja, atormenta, aflige, causa angústia. Por mais que as pessoas procurem escapar desta “voz secreta”, ela está sempre lá a exigir uma correção de conduta, a reparação de um erro. Passam-se os anos e ela não cessa de apontar a necessidade do arrependimento.
-Bem notamos isso na vida de Davi. Já no leito de morte, o rei moribundo teve de fazer um “acerto de contas”, fazendo pedidos a Salomão para que reparasse erros cometidos ao longo de sua vida, com relação a Joabe, os filhos de Barzilai e Simei (I Rs.2:1-9).
-Neste gesto, aliás, Davi mostra ter sido um homem segundo o coração de Deus, pois não passou para a eternidade antes de atender ao chamado de sua consciência.
-Ao vermos as atividades da consciência, chegamos, também, à questão dos “tipos de consciência”, das
diversas qualidades que a consciência pode se apresentar.
-Por primeiro, temos a “boa consciência” (At.23:1; I Tm.1:5,19; Hb.13:18; I Pe.3:16,21), que é a consciência de quem é filho de Deus, de quem está em comunhão com o Senhor. Esta consciência está no Espírito Santo (Rm.9:1) e sempre é ouvida pelo seu detentor, uma vez que o homem que a possui faz a vontade do Senhor, está sempre a agradar a Cisto e não aos homens (Gl.1:10).
-O objetivo do mandamento divino é que tenhamos uma boa consciência. A boa consciência é efeito de uma conservação da fé, que se preocupam em se portar honestamente neste mundo, que têm um bom procedimento em Cristo, que provam que nasceram de novo, vivem para Deus e, por isso, praticam boas obras.
-O texto sagrado também nos fala da “consciência pura” (I Tm.3:9: II Tm.1:3), também chamada de “consciência sem ofensa” (At.24:16). Esta é a consciência do espírito vivificado, ou seja, da pessoa que teve seus pecados purificados pelo sangue de Jesus (I Jo.1:7).
-Tal consciência não mais acusa ou remorde o salvo, porquanto tem ele a certeza do perdão do Senhor, possui a convicção de que Deus não mais Se lembra das iniquidades praticadas (Hb.8:12; 10:17), lançadas que foram no “mar do esquecimento” (Mq.7:19). A consciência pura se realça quando se estabelece a comunhão, outra função do espírito.
-Há também a “consciência fraca” (I Co.8:7,10,12), que é a consciência resultante de quem ainda tem uma fé fraca, que precisa se desenvolver, a “pequena fé” algumas vezes censurada por Cristo (Mt.6:30; 8:26; 14:31; 16:8; 17:20; Lc.12:28).
-Trata-se de uma consciência que, embora tenha sido purificada, ainda carece de fortalecimento e, por isso, facilmente, por causa da dúvida surgida, como não tem uma confiança robusta em Deus para se escorar, acaba cedendo ao pecado e se distancia de Deus.
-Esta consciência somente se fortificará quando houver incremento da fé, quando se buscar o crescimento espiritual, mediante a santificação, quando, então, alcançará a maturidade espiritual.
-Além do esforço para que se tenha o amadurecimento espiritual, esta consciência fraca depende da ajuda dos irmãos mais maduros, que devem evitar certos comportamentos para que não venham a ser instrumentos de escândalo e façam os detentores de fraca consciência a naufragar na fé (I Co.10:28,29), porque a consciência fraca pode ser facilmente contaminada (I Co.8:7).
-Como bem afirma o pastor Severino Pedro da Silva: “…Somos também advertidos para não ofendermos a
consciência alheia (Rm 14.21; 1 Co 10.28-32).…” (op.cit., p.85).
-Temos, pois, que é absolutamente antibíblico que um servo do Senhor se posicione contrariamente à liberdade de consciência, que é um dos direitos fundamentais da pessoa humana, como diz o artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos do Homem, “in verbis”: “Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular”.
-Ofender a consciência do outro, além de ser violação de direito humano, é um pecado contra Deus, é se tornar instrumento de escândalo e o Senhor Jesus é bem claro ao dizer a situação de uma pessoa que assim procede:
“Mas qualquer que escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Ai do mundo, por causa dos escândalos. Porque é mister que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!
Portanto, se a tua mão ou o teu pé te escandalizar, corta-o e atira-o para longe de ti; melhor te é entrar na vida coxo ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. E, se o teu olho te escandalizar, arranca-o, e atira-o para longe de ti. Melhor te é entrar na vida com um só olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno” (Mt.18:6-9).
-Tomemos cuidado, amados irmãos, porque vivemos dias em que muitos serão escandalizados (Mt.24:10) e a sentença para os que forem instrumentos de escândalo já está lavrada pelo justo juiz. Que Deus nos guarde!
-A “consciência fraca” é própria dos “meninos em Cristo” (I Co.3:1), daqueles que ainda vivem à base das faculdades da alma (entendimento, sensibilidade e vontade) e que ainda são facilmente engodados pelo inimigo e acabam por produzir as chamadas “obras da carne”, sendo, por isso, chamados de “crentes carnais”.
-Ao falarmos da “consciência fraca”, acabamos por enfrentar a questão da “consciência contaminada” (I Co.8:7; Tt.1:5). A consciência contaminada é aquela que é impura, que está manchada. A palavra em foco aqui é “miaino” (μιαίνω), cujo significado é “…manchar com cor, tingir. Em o Novo Testamento: poluir, profanar” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 3392, p.2303).
-A “consciência contaminada” é aquela que, ao lado da lei divina inscrita, possui também outros preceitos, oriundos do homem ou mesmo dos demônios, que deturpam o conhecimento da pessoa, decorrentes da crença na mentira.
-Chambers menciona esta circunstância ao considerar que “…Por exemplo, uma mãe hindu obedece à sua consciência ao tratar seu filho com severidade; uma mãe cristã obedece à sua consciência, ao enviar seu filho à escola bíblica e o criar, no geral, “…na disciplina e na admoestação do Senhor” (EFÉSIOS 6:4).
Se a consciência fosse a voz de Deus, contrastes desse tipo jamais aconteceriam. “A consciência se liga ao sistema de coisas que o homem considera o mais elevado”; consequentemente, a consciência se estabelece de variadas formas em diferentes pessoas.
A consciência da mãe hindu se apega ao mais elevado que ela conhece: a religião hindu; a consciência da mãe cristã se apega ao mais elevado que ela conhece: a revelação de Deus no Senhor Jesus. (…) O poder de registro da consciência pode ser distorcido ou pervertido…” (op.cit., pp.178- 9).
-Advém daí, aliás, o outro tipo de consciência mencionado nas Escrituras, que é a “consciência cauterizada” (I Tm.4:2). A palavra em foco aqui é “kautēriadzõ” (καυτηριάζω), cujo significado é “…queimar, marcar, i.e., insensibilizar, queimar com ferro quente…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 2743, p. 2263).
-À medida que a consciência vai se deixando contaminar, ela vai se tornando insensível, ou seja, o domínio do pecado faz com que a lei divina inscrita no coração já não seja mais sequer sentida, há um ensurdecimento da pessoa, que não mais consegue ouvir esta “voz secreta”.
Como ensina o pastor Antônio Gilberto, mencionado supra, a cauterização da consciência faz com que não se tenha mais a revelação divina por esta via ao homem.
-Esta foi a situação do povo de Israel quando da vinda de Jesus a este mundo. O próprio Cristo disse que, neles, se cumpria a profecia de Isaías: “ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis e, vendo, vereis, mas não percebereis” (Mt.13:14; Is.6:9,10).
-A multiplicação da iniquidade que caracteriza os nossos dias (Mt.24:12) tem trazido a cauterização de muitas consciências. Os homens apresentam-se, cada vez mais, apresentam-se hipocritamente, falando mentiras, como se fossem os paladinos da verdade.
– As Escrituras também nos dão conta da “má consciência” (Hb.10:22), “consciência das obras mortas” (Hb.9:14) e da “consciência de pecado” (Hb.10:2), que, conforme já visto supra, é a consciência que está a nos acusar dos pecados perdoados, gerando-nos tristeza e angústia que tem o condão de nos permitir levar ao arrependimento, a chamada “tristeza segundo Deus” (II Co.7:8-10).
Se, porém, arrependimento não houver, terá sido uma “tristeza do mundo”, que opera a morte, pois gera apenas o “remorso”, como vemos no caso de Judas Iscariotes.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11853-licao-6-a-consciencia-o-tribunal-interior-i
