LIÇÃO Nº 6 – O FILHO COMO O VERBO DE DEUS
INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da Doutrina da Trindade, analisaremos Deus, o Filho como o Verbo de Deus.
-Jesus é o Verbo de Deus
I – JESUS, O VERBO
-Na lição anterior, vimos que as Escrituras mostram claramente que Deus, o Filho é Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
-Jesus é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, assim considerada porque, na feliz expressão do Catecismo Maior de Pio X, na resposta à pergunta nº 71, “…é gerada pelo Pai por via de inteligência, desde toda a eternidade…” e, como diz o mencionado documento, “…por isso é também chamada Verbo eterno do Pai.…”
-O texto principal a respeito da deidade de Cristo é o início do evangelho segundo João, em que o “discípulo amado”, inspirado pelo Espírito Santo, mostra-nos com clarividência a natureza divina do Senhor Jesus.
-Neste texto, Jesus é apresentado como o “Verbo”, palavra que traduz, na Versão Almeida Revista e
Corrigida, a palavra grega “Logos” (λόγος).
-O uso desta palavra pelo apóstolo tem trazido muitas discussões ao longo dos séculos, porque se trata de um termo que, na filosofia grega, tinha um significado todo especial, significado este, aliás, que havia sido como que “adaptado” ao judaísmo por um contemporâneo de Cristo, o filósofo judeu Filo (25 a.C.-±50 d.C.), natural de Alexandria e que se tornou o maior comentarista do texto grego do Antigo Testamento (a Septuaginta).
-Como o texto do evangelho segundo escreveu João é de cerca do ano 100 d.C., muitos discutem da possibilidade de João, um típico judeu palestino, ter tido acesso a tais comentários e, com esta expressão, ter querido expressar tudo o que o termo “Logos” significava no pensamento helenístico (ou seja, o pensamento dominante nos dias apostólicos, resultante da fusão entre o pensamento oriental e o pensamento grego).
-Entendemos que o termo “logos” traduz, sim, toda a riqueza do pensamento helenístico, pois o objetivo do Espírito Santo, ao inspirar o evangelista para escrever este Evangelho, foi mostrar a todos, judeus e gentios, que Jesus é Deus e que se poderia crer n’Ele como o Salvador (Jo.20:31).
-Não é por acaso que, ao longo dos séculos, notadamente após a Reforma Protestante, que milhares e milhares de vidas têm se convertido ao ler o evangelho segundo João, um dos mais poderosos instrumentos de evangelização da Igreja.
OBS: “…Qualquer pessoa que leia os conceitos (…) sobre a natureza do Logos, poderá perceber, de imediato, que o conceito do evangelho de João sobre o ‘Logos” realmente tem muitos elementos similares e que, na realidade, o autor desse evangelho se aproveitou de uma ideia corrente e bem conhecida no mundo helenista, a fim de expressar uma profunda verdade concernente à pessoa do Cristo encarnado.
Que essa doutrina não foi criada no vácuo, e que não era inteiramente original a João (embora em seus escritos existam elementos diferentes), é fato que não deve causar surpresa a quem quer que seja, e nem deve esse fator ser considerado como algo que labora contra a veracidade dessa doutrina bíblica…” (CHAMPLIN, Russell Norman. Logos (Verbo). In: Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.900).
-Pois bem, qual é o significado de “Logos” para os gregos, para o pensamento helenístico, enfim, para a filosofia? “Logos” é uma palavra que tem duplo significado: discurso e razão. “Logos” tanto significa “discurso” ou “palavra”, como também, tem o significado de “razão”, “pensamento”, “raciocínio”.
-Assim, para os gregos, “logos” é uma palavra que tanto nos remete para a linguagem, para a comunicação, como também para a razão, para o pensamento. Ao dizer que Jesus é o “Logos”, portanto, estamos afirmando que, a um só tempo, Jesus é a Palavra, a comunicação que Deus faz de Si mesmo, como também que é Ele a razão, o pensamento, a inteligência que tudo sustenta, que tudo ordena, que tudo organiza.
-O primeiro filósofo a empregar esta palavra foi o efésio Heráclito (570-470 a.C.), que dava o nome de “Logos” ao “princípio de todas as coisas”, princípio este que era o próprio movimento, a própria mudança, porque tudo mudaria, menos a mudança.
OBS: Interessante observar que os estudiosos entendem que João escreveu o seu evangelho em Éfeso.
-Os filósofos estoicos (At.17:18) recuperaram esta ideia do mundo como uma constante mudança que havia em Heráclito e entenderam que o “Logos” é o princípio que animava o universo, a própria essência do mundo, que se encontrava em cada ser humano como princípio racional.
-“Logos”, aliás, desde Sócrates, tinha deixado de significar apenas “palavra”, “conversa”, para ter o significado de “razão”, de entendimento de algo (470-399 a.C.).
OBS: “…A ideia do Logos reapareceu no estoicismo, onde se tornou um virtual sinônimo de Deus. Os estoicos, porém, não concebiam um Deus pessoal. O Logos, para eles, era um poder cósmico impessoal que se emanaria e se recolheria de novo, em grandes ciclos, criando tudo e, então, anulando tudo, mediante a reabsorção em si mesmo.(…).
O Logos existente na razão (racionalidade), dentro da psiquê humana é a força divina em operação. Essa racionalidade (no latim, ratio) torna-se palavra (no latim, oratio) nos lábios humanos, de tal modo que os homens podem falar sabedoria.…” (CHAMPLIN, Russell Norman. op. cit., pp.901-2).
-Assim, quando o filósofo judeu Filo comenta as Escrituras, influenciado pelo pensamento grego e tendo conhecimento da lei e dos profetas, entendeu que o “Logos” nada mais era que a Palavra vinda da parte de Deus, a Palavra que tudo havia criado (Gn.1:3,6,9,11,14,20,24,26,29). Deus tudo criou pela Sua Palavra e esta Palavra que, a um só tempo, era “palavra”, “discurso”, mas também ordenava e organizava a criação, era o “Logos”, a Palavra de Deus.
OBS: “…Nos escritos de Filo, o Logos figura como uma manifestação pessoal de Deus, mas também como o poder divino impessoal e transcendental dos estoicos.
Outrossim, o Logos ganha, nos escritos de Filo, uma função remidora, tornando-se o meio que leva os homens a uma natureza espiritual mais elevada. Pode-se ver nisso uma grande aproximação da doutrina do Logos, segundo o evangelho de João. Não há como pensar que o ponto de vista joanino do Logos era independente das ideias expostas por Filo.…” (CHAMPLIN, Russell Norman. op.cit., p.902).
-Evidentemente que Filo, sendo como era um judeu, não poderia entender que essa “Palavra” viria a ser uma das Pessoas divinas, como nos esclarece o apóstolo João, mas, de qualquer maneira, pôde observar que Deus, através da Sua Palavra (em latim, “Verbum”), criou todas as coisas.
-“…O Logos é um aspecto de Deus e contudo é conceitualmente distinto do ser transcendente de Deus – em verdade, é o mais alto intermediário entre Deus e o mundo. Baseando-se no conceito de sabedoria em Provérbios (…), Filon louva o Logos como ‘o primogênito de Deus’ (veja Pv. 8.22), a ‘imagem de Deus’ (veja Gn.1:26) (…).
O Logos é o meio imaterial através do qual a atividade de Deus se manifesta no mundo. Incorporado à Torah, o Logos é a Lei de Deus segundo a qual os homens devem viver …” (SELTZER, Roberto M. Trad. Elias Davidovich. Povo judeu, pensamento judaico. In: A JUDAICA, v.1, p.191).
OBS: “…O mais eminente de todos os helenistas judeus foi Filon (c. 20 a.E.C. – c. 40 E.C.). Por causa do interesse exclusivo que a Igreja Cristã vislumbrou em sua teologia — que resultou em ser ele ignorado pelos rabinos — a verdadeira grandeza de Filon foi menosprezada até décadas recentes. (…).
A ideia de que o historiador patrício Eusébio e outros teólogos do cristianismo primitivo como Clemente e Orígenes houvesse julgado Filon como o primeiro dos Padres da Igreja é inteiramente irônica.
Talvez mais surpreendente ainda seja o fato de ele influenciou profundamente a teologia cristã e não deixou, contudo, qualquer sinal de seu pensamento na história judaica religiosa e intelectual.
Vale aqui acrescentar que os livros de Filon (…) foram proibidos pelos Sábios Rabínicos…” (AUSUBEL, Nathan. Helenistas judeus. In: A. KOOGAN (ed.). A JUDAICA, v.5, pp.332-3).
-Esta ideia de Filo está bem presente na epístola aos Hebreus, cujo autor apresenta Jesus como sendo a “expressa imagem da pessoa de Deus” (Hb.1:3), o meio pelo qual Deus fez o mundo, o sustentador de todas as coisas pela palavra do Seu poder.
-Este pensamento do escritor aos hebreus também não era desconhecido do apóstolo Paulo, que fez questão de mostrar a Cristo como sendo o Filho do amor do Pai, a “imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação”, onde foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, que é antes de todas as coisas, coisas que subsistem por Ele (Cl.1:13-17).
-Temos, portanto, que a consideração de Jesus como o Logos, ou seja, o Verbo, é a consideração de Jesus como sendo o mediador entre a Divindade e a Sua própria criação. Foi o Verbo quem comunicou, quem expressou a vontade divina que fez com que tudo fosse criado.
-“Disse Deus” é a expressão utilizada no relato da criação e foi por intermédio dessa Palavra que o mundo
foi criado e, como nos ensinam os textos mencionados, que mantêm a existência de todas as coisas.
-Como bem afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, “…O Pai proclamou as palavras criadoras
[Sl.33:9; Hb.11:3] e o Filho executou-as [Jo.1:3; Cl.1:16] …” (DFAD, 2. ed., II.1, p.40).
-Torna-se muito interessante observar que, entre os israelitas, houve a assimilação da palavra grega “Logos” como a tradução da palavra hebraica “dãbhar” (ָדָבר), “…que significa palavra, discurso, assunto. (…). O mais importante é o uso desta palavra para transmitir comunicação divina.…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 1697, p.1588).
-No Sl.33:6, o salmista afirma que “pela palavra do Senhor foram feitos os céus e todo o exército deles pelo espírito de Sua boca”. Temos, então, no salmista, o mesmo pensamento dos textos neotestamentários mencionados e “palavra” é, ali, “dãbhar” (דבך), que tem o significado “estar por detrás e seguir em frente” ou, ainda, “seguir adiante com o que está por detrás”, que é, basicamente, “falar”, ou seja, “deixar as palavras seguir uma após a outra”. “…Dabhar não significa apenas ‘palavra’ mas também ‘ação’… “(LAWRENCE, Nathan. O pensamento hebraico comparado com o pensamento grego(ocidental), p.5. Disponível em: http://www.hoshanarabbah.org/pdfs/heb_grk.pdf Acesso em 13 nov. 2007) (tradução nossa de texto em inglês).
OBS: “…Jesus é mais do que expressão falada: ele é Deus em ação, criando (Gn 1.3), se revelando (Jo 10.30) e salvando (Sl 107.19-20; 1Jo 1.1-
2).” (ILUMINA. Verbo. In: Enciclopédia: Dicionário Bíblico CD-ROM).
-Esta assimilação entre “logos” e “dãbhar”, que, evidentemente, não era desconhecida por Filo, mostra- nos, claramente, que se tinha plena convicção de que o “Logos” tinha a mesma natureza, compartilhava da mesma essência de Deus. Não é por menos que João afirma de modo peremptório que o Verbo estava no princípio, estava com Deus e era Deus (Jo.1:1).
-Quando consideramos Jesus como o Verbo de Deus, portanto, devemos observar que estamos considerando que não há como chegar-se ao conhecimento da natureza divina a não ser por Jesus.
Ele é o único canal pelo qual podemos ter algum contacto com Deus, porque Ele é a própria expressão da personalidade divina na Criação. Todo o universo, inclusive nós mesmos, foi feito por Ele, pois é a Pessoa Divina que comunica, revela e faz percebida a Deidade para a criação.
-Não há como ver o Pai sem que veja ao Filho, pois Ele é a expressa imagem da pessoa do Pai (Hb.1:3), é a extensão do ser divino que, por ser o Verbo, põe-nos em contacto com Deus.
-Ninguém pode ter acesso a Deus a não ser por Cristo, pois Ele é o Verbo, o canal de comunicação entre Deus e os homens, o acesso do ser humano à Trindade.
-O mundo foi feito pelo Verbo e pelo Verbo se mantém, de maneira que não há como conceber que se tenha acesso, em sendo criatura, ao Criador a não ser por este meio pelo qual a criação se fez, pela Palavra, pelo Verbo Divino.
-Quando meditamos nesta circunstância, entendemos claramente porque o apóstolo João insiste em dizer que ninguém jamais viu a Deus (Jo.1:18; I Jo.4:12), no que é seguido por Paulo (I Tm.6:16).
-Ver a Deus, ou seja, conhecê-l’O em toda a plenitude, ter a completa visão de quem Ele é, é algo que somente pode ser realizado pelo próprio Deus.
-Mesmo Moisés, que teve a revelação da lei, só pôde ver a Deus pelas costas (Ex.33:20-23) tendo tido grande intimidade com o Senhor (Dt.34:10), mas uma intimidade bem inferior ao do Verbo, que é o único que não só contempla a Deus em toda a Sua plenitude, como, ainda, O faz conhecido de todos nós. Só podemos ver o Pai ao vermos o Verbo (Jo.12:45; 14:9).
-Quando consideramos Jesus como o Verbo, estamos afirmando que Ele é a expressão única da personalidade divina à criação, é o único meio pelo qual podemos ter acesso a Deus.
-Não é à toa, pois, que Jesus é chamado de “Emanuel”, ou seja, “Deus conosco”, pois é a Pessoa divina que faz a ponte, a comunicação, a apresentação de Deus à criação.
-Por isso, João afirma que “No princípio era o Verbo” (Jo.1:1). Ao dizer que Jesus existia no princípio, o “discípulo amado” também emprega um outro conceito caro ao pensamento grego: o de “arché” (άρχή), cujo significado é “princípio”, “origem”, “início”.
-As investigações filosóficas começaram na Grécia quando os pensadores passaram a querer descobrir qual
era o “princípio” (a “arché”) de todas as coisas e, nesta busca, muitos pensamentos se apresentaram.
-No entanto, inspirado pelo Espírito Santo, o apóstolo João mostra, claramente, que o “princípio” é o Verbo, o Verbo que estava com Deus, o Verbo que é Deus. Ele é o princípio ordenador de todas as coisas, a razão de tudo, o Logos.
-Por isso, não é Ele, de modo algum, uma “criatura excelente” ou “a mais excelente das criaturas”, como
defendem alguns, mas o próprio Criador, o princípio, a razão de ser de tudo.
-É este o sentido que se tem na expressão “primogênito de toda a criação” que se encontra em Cl.1:15, pois todas as coisas foram criadas n’Ele, de modo que não se pode admitir que o texto ali indique Cristo como criatura, quando o que se mostra é, precisamente, o contrário, ou seja, que Jesus é o Criador, o princípio, a origem, o início de tudo quanto foi criado.
-Tanto Jesus é Criador que o apóstolo João, ao mostrar que Ele é o princípio de todas as coisas, é categórico
ao dizer que “todas as coisas foram feitas por Ele e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (Jo.1:3).
-“Princípio” aqui não significa, em absoluto, uma ordem temporal, ou seja, o primeiro a ser criado, mas, sim,
que é o meio, a base, o fundamento de tudo quanto se criou.
-O próprio Filo, ao explicar Gn.1:1, onde se tem a mesma expressão, fez questão de frisar que “…’No princípio Ele criou’ é equivalente a ‘primeiro de tudo Ele criou os céus’…” (FILO. Sobre a criação do mundo. Trad. C.D. Yonge, B.A. Disponível em: http://thriceholy.net/Texts/Creation.html Acesso em 13 nov. 2007) (tradução nossa de texto em inglês), dizendo que havia, assim, uma sucessão numérica e não temporal.
-O mundo foi feito por meio de Jesus e somente por meio d’Ele pode vir a conhecer a Deus, ao Criador. Não existe outro meio entre Deus e os homens a não ser o Verbo, o Logos. Por isso, a própria criação é uma das promulgações da lei divina e ninguém é inescusável, sendo obrigado a reconhecer que, pela Criação, teve como conhecer a Deus (Rm.1:20).
-Quando falamos em “lei divina”, não devemos nos esquecer, também, que, segundo alguns estudiosos, a ideia de “Logos”, entre os gregos, contrapõe-se a “mythos” (μυθος). Enquanto esta designa a narrativa, originariamente oral, sem compromisso com a verdade (cfe. I Tm. 1:4, 4:7; II Tm.4:4; Tt.1:14; II Pe.1:16, em que a palavra é traduzida, na Versão Almeida Revista e Corrigida, por “fábula”), “logos” passou a expressar a “palavra escrita”, o fruto do pensamento, da razão, do raciocínio, a expressão da verdade, de onde, aliás, veio a noção grega do “Logos” como o princípio de todas as coisas ou o princípio ordenador do Universo.
-Neste sentido, pois, o “Logos” se apresenta como a própria “Palavra escrita”, como a “lei divina”, pois “lei”, na origem da palavra latina (“lex”), é “aquilo que pode ser lido”. Assim, o Verbo é, também, enquanto tal, a manifestação “escrita”, “ordenada”, a “revelação inteligente” feita por Deus ao homem.
-É, assim, neste sentido, que também se pode entender a “geração” do Filho, que, como diz o Catecismo Maior de Pio X, é uma geração “por via da inteligência”.
“…De todas as comparações que para explicar o modo e a razão de ser desta geração eterna, nenhuma parece tão próxima da realidade, como aquela que se tira da formação do pensamento em nossa alma.
Por isso, São João dá o nome de “Verbo” ao Filho de Deus. [Jo.1:1 e ss]. Como nossa alma, reconhecendo-se até certo grau, concebe uma imagem de si mesma, imagem que os teólogos chamam de “verbo” [“verbum mentis”]; assim também, quanto as coisas humanas podem comparar-se com as divinas, Deus, reconhecendo-Se a Si mesmo, gera o Verbo Eterno.…” (Catecismo Romano. Trad. Frei Leopoldo Martins O.F.M. Petrópolis/RJ: Vozes, 1951. 1ª Parte: Do Símbolo dos Apóstolos. 2º Artigo, §§ 8-9, p.111).
-Mas não só a lei divina se promulgou em a natureza, o que se fez por meio do Verbo, mas também, na consciência do homem, homem que também foi feito por meio do Verbo, pois tudo o que se fez foi feito por Ele (Jo.1:3), sendo o próprio Jesus a vida que é a luz dos homens (Jo.1:4).
-Por isso, o Senhor Jesus bem sabe o que há no homem (Jo.2:25), sendo, pois, por Ele, também, que a lei divina se manifesta na consciência de cada ser humano (Rm.2:15), a segunda promulgação da lei de Deus.
-A lei divina, posteriormente, foi promulgada em tábuas de pedra (Ex.24:12), quando foi revelada a Moisés, em Seus preceitos fundamentais.
-Ora, como vimos supra, o que é reconhecido pelo próprio Filo, o Logos Se incorporou à Torá, até porque a lei de Moisés aponta para o Senhor Jesus em todos os seus pormenores.
-Todas as Escrituras hebraicas são cristocêntricas, falam de Cristo, d’Ele testificam (Lc.24:44; Jo.5:39). Por isso, os apóstolos, que somente tinham acesso aos escritos do Antigo Testamento, podiam pregar a Cristo com estes escritos. Assim, também nesta terceira promulgação da lei divina, vemos Jesus como o Verbo, o contacto entre Deus e os homens.
-A quarta promulgação da lei divina é a própria encarnação do Senhor Jesus. “E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (Jo.1:14a).
-Esta encarnação foi a revelação completa de Deus aos homens (Hb.1:1). O Verbo encarnado era “Deus conosco”, a companhia da própria glória (Jo.1:14) e da majestade divinas (II Pe.1:16).
-O Verbo encarnado é a “expressa imagem da pessoa de Deus” (Hb.1:3), mais precisamente da “imagem da pessoa do Pai”, já que, como disse a Filipe, quem vem a Cristo, vê o Pai (Jo.14:9).
-O Verbo encarnado mostra a completa unidade entre Deus e o homem, a unidade, já presente antes que o homem pecasse (Cf. Gn.2:19-21), mas que, em Cristo, atinge um nível nunca antes alcançado, pois, sendo, desde a eternidade, um com o Pai, mantém esta unidade após a encarnação (Jo.17:11) e é esta unidade que Sua obra salvífica veio instituir entre Deus e a humanidade (Jo.17:21-23).
-A quinta promulgação da lei divina, a expressão da vontade de Deus ao homem, são as próprias Escrituras (Rm.15:4), a Bíblia Sagrada, completada que foi pelo Novo Testamento, que se combinam perfeitamente com o Antigo Testamento, sendo seu fiel complemento.
-São por elas que temos conhecimento de Deus, são por elas que alcançamos a fé salvadora (Rm.10:17). São elas que têm sido utilizadas pelo Espírito Santo para a glorificação do Verbo (Jo.16:13,14) até o dia glorioso da Sua vinda.
-A sexta promulgação da lei divina é a Palavra no coração dos homens que aceitam a Cristo como seu único e suficiente Senhor e Salvador (Hb.8:10).
-Quem crê no Senhor, recebe-O em seu coração (Jo.14:23), de modo que não mais vive, mas, sim, Cristo vive nele (Gl.2:20).
-Por isso, quando o salvo se apresenta ao mundo, mostra a Jesus Cristo, tendo sido o motivo pelo qual os antioquitas chamaram os salvos de “cristãos”, ou seja, “parecidos com Cristo”, “semelhantes a Cristo”, ou, ainda “pertencentes a Cristo”.
-“…levando nós de Cristo o nome de cristãos, não podemos Ignorar os imensos beneficias de que Ele nos cumulou, máxime a bondade com que, pela luz da fé, nos fez conhecer todos estes mistérios.
Convém, pois, e força é repeti-lo, que nós – com maior obrigação que os outros mortais – para sempre façamos entrega e consagração de n6s mesmos a Nosso Senhor e Redentor, na qualidade de escravos totalmente Seus.…” (Catecismo Romano. Trad. Frei Leopoldo Martins O.F.M. Petrópolis/RJ: Vozes, 1951. 1ª Parte: Do Símbolo dos Apóstolos. 2º Artigo, §§ 10-12, p.113).
-Nossa natureza nova é a do Verbo e, por isso, mesmo em nossa carne, refletimos a glória de Deus encontrada no Verbo (II Co.3:18).
-A sétima promulgação da lei divina, que completa a revelação de Deus por meio do Verbo, e unicamente por Ele, é a vida de cada salvo (II Co.3:2,3). Quando aceitamos a Cristo, temos transformada nossa natureza e passamos a produzir o fruto do Espírito (Jo.15:16).
-Somos tão somente varas da videira verdadeira (Jo.15:4). Em virtude disto, nossas obras revelam o Filho, de tal sorte que, quando os homens veem nossas obras, veem o Filho e glorificam ao Pai que está nos céus (Mt.5:16).
-A vida santa de cada crente autêntico e verdadeiro é mais uma forma de comunicação que se faz com Deus, por meio do Verbo, este tesouro que se encontra em vasos de barro (II Co.4:7).
-Por isso, não podemos crer que pessoas que só querem aparecer, correm atrás de fama e reconhecimento sejam verdadeiras testemunhas de Jesus. Não, não e não! A testemunha de Jesus é uma prova de que o Verbo continua a fazer a comunicação, a dar o devido acesso a Deus (Hb.10:19,20).
-Esta condição de Cristo como o Verbo de Deus é a própria essência desta Pessoa divina, tanto que, na batalha do Armagedom, será como a Palavra de Deus que o Senhor Se identificará ao descer para salvar Israel e derrotar o Anticristo (Ap.19:13).
-“Palavra de Deus” na Versão Almeida Revista e Corrigida, mas que, no original, nada mais é que “logos tou theou” (“λόγος του θεου”). Como Logos é que Cristo voltará em glória para instituir Seu reino milenial e ser reconhecido como o Messias pelo povo judeu.
-Quando tomamos consciência de que Jesus é o Verbo Divino, vemos que não há outro meio para nos reconciliarmos com Deus, que não há outro caminho, que só em Cristo está a verdade, só n’Ele temos vida, que não há como ir ao Pai a não ser por Ele (Jo.14:6). Temos tido esta consciência? Que este trimestre possa no-la dar.
III – O VERBO É VIDA E LUZ AOS HOMENS
-Na descrição feita por João na introdução do evangelho, o “discípulo amado” também nos mostra que, no Verbo, estava a vida e “a vida era a luz dos homens” (Jo.1:4).
-Quando o Verbo Se fez carne, diz o apóstolo, “ali estava a luz verdadeira, que alumia todo o homem que vem ao mundo” (Jo.1:9).
-O Verbo, portanto, não só é o Criador de todas as coisas, mas a própria fonte de vida, entendida aqui não somente a vida física, mas, principalmente, a vida espiritual, a comunhão com Deus, pois, como se sabe, vida significa união, comunhão, enquanto morte é separação.
-O Verbo é o meio pelo qual se liga a Deus, pelo qual se tem vida, sendo essa a função precípua do Filho, como teremos oportunidade de estudar na próxima lição.
-O Verbo é a fonte da vida, a própria vida, vida esta que é a “luz dos homens”. Jesus é vida, como Ele próprio
diria durante Seu ministério (Jo.14:6).
-Jesus veio nos trazer vida e vida com abundância (Jo.10:10) e somente em Seu nome poderemos ter vida (Jo.20:31). Uma vida que, como advém do “Logos”, que é eterno, é uma vida igualmente eterna, a promessa que Ele nos deu (Jo.6:40; 10:28; I Jo.2:25; 5:11).
-Quando João diz que Jesus é a luz, uma vez mais nos remete ao texto da criação em Gênesis. Lá vemos que
a primeira palavra divina foi “Haja luz” (Gn.1:3).
-Assim, ao mencionar que Jesus é a luz, de pronto observamos que se reproduz, novamente, que Jesus é apresentado como sendo o princípio criador, Aquele que estendeu a luminosidade divina à criação e, por isso, é a própria Luz, como, a propósito, disse de Si mesmo, mais de uma vez (Jo.8:12; 12:46). Ao dizer que Jesus é a luz, João, também, reforça a ideia da divindade de Jesus, visto que “Deus é luz” (I Jo.1:5).
-Como o Verbo é a luz, faz com que o homem veja (Mt.6:22.24), permite ao homem que enxergue, que tenha condições de conhecer a realidade do seu Criador.
-Mais uma vez, percebemos que Jesus é o meio pelo qual o homem tem acesso a Deus, pois é necessário que se possa ter luz para ver a Deus, para conhecê-l’O, para distingui-l’O, como, aliás, deixou claro o apóstolo Paulo em seu discurso perante os mestres da filosofia grega no Areópago em Atenas (At.17:27).
-Sem a luz, não se pode ver a Deus e Jesus é, precisamente, a luz dos homens, o único meio pelo qual a humanidade pode distinguir e ver claramente quem é Deus e qual é o propósito do seu Criador em relação à sua criatura.
Quando a luz surge, tudo ilumina e, se enxergamos e resolvemos nos pôr debaixo desta luz, somos transformados, passando a produzir boas obras (Jo.3:19-21).
-Entretanto, muitos preferem continuar nas trevas, não aceitam a luz, não a compreendem, continuam a praticar o mal (Jo.1:5).
-O Verbo é luz para todos os homens, o que nos mostra a universalidade desta luz. Não há outro meio, em qualquer época ou lugar, pelo qual os homens podem ver a Deus. Somente por meio do Verbo isto é possível, a única luz, luz que veio para toda a humanidade.
-É interessante observar que, mesmo os rabinos judeus concordam que a luz mencionada em Is.60:3, luz para todas as nações, é uma referência ao Messias, a demonstrar, portanto, o caráter universal da missão do Verbo Divino.
-O Verbo, diz-nos o apóstolo João, também deve ser testificado, como havia sido testificado por João, não o apóstolo, mas o último profeta da dispensação da lei, o João Batista (Jo.1:6-8).
-Assim, embora Ele próprio Se tenha revelado de múltiplas formas, inclusive pela Sua encarnação, tinha de ser testificado pelos homens.
-Não é por outra razão que o Senhor Jesus disse que nós éramos a luz do mundo (Mt.5:14-16) e que o apóstolo Paulo tenha dito que devemos ser irrepreensíveis e sinceros, inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, resplandecendo como astros no mundo (Fp.2:15). Temos de refletir a luz, porque somos testemunhas desta luz.
OBS: “…Assim como João Batista, não somos a fonte da luz de Deus; simplesmente refletimos essa luz. Jesus Cristo é a Luz verdadeira. Ele nos ajuda a enxergar o caminho para Deus e nos mostra como andar nesse caminho. (…).
A palavra ‘testemunha’ indica o nosso papel como refletores da luz de Cristo. Nunca somos apresentados como a luz para os outros, mas estamos sempre indicando a Cristo, a verdadeira Luz.” (BÍBLIA DE ESTUDO APLICAÇÃO PESSOAL, com. Jo.1:8, p.1413).
-Mas, esta luz não é apenas a luz dos homens e luz que deve ser testificada pelos homens aos homens, mas é também “a luz verdadeira que alumia todo homem que vem ao mundo”. O Verbo é a luz verdadeira, pois Ele mesmo é a verdade (Jo.14:6). A iluminação, portanto, só pode ser feita pela Bíblia Sagrada, a Sua Palavra, que é a verdade (Jo.17:17).
-Não é, portanto, sem razão que o próprio Jesus, em Seu sermão escatológico, faz questão de alertar Seus discípulos a respeito dos “falsos cristos”, dizendo para que não corramos para lá ou para cá em busca deles, pois o Verbo é “a luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao mundo”.
É o Verbo que ilumina, não os homens que correm ao encontro d’Ele para ser iluminado, pois Ele Se encontra sempre no mesmo lugar, o lugar da Sua Palavra que não passa e que permanece para sempre (Mt.24:35; I Pe.1:25).
-Nos dias em que vivemos, muitos correm atrás desta “luz verdadeira” de um lado para outro. Estatísticas estimam em cerca de 500.000 (quinhentos mil) o número de “crentes flutuantes”, que vão de igreja em igreja, de denominação em denominação, buscando servir a Deus e isto só na região metropolitana de São Paulo. Não saiam atrás da luz verdadeira, porque é ela que alumia a todo homem.
-Devemos não correr de um lado para outro, mas buscar a “luz que alumia a todo o homem”. Onde está esta
luz? No deserto? No interior da casa? Nos sinais e prodígios? Não, não e não!
-A verdadeira luz Se encontra no Verbo e o Verbo é testificado pela Palavra de Deus. “O mandamento do Senhor ilumina os olhos” (Sl.19:8 “in fine”); “Lâmpada para os meus pés é a Tua palavra e luz para o meu caminho’ (Sl.119:105); “A exposição das Tuas palavras dá luz” (Sl.119:130a); “Porque estes mandamentos são lâmpada, este ensino é luz” (Pv.6:23a).
-“A luz verdadeira” está nas Escrituras Sagradas. Por que, então, sermos negligentes no seu estudo, na sua meditação? “Deixa penetrar a luz! Deixa penetrar a luz! Que a formosa luz de Deus fulgure em ti e serás feliz assim” (refrão do hino 96 da Harpa Cristã, de autoria de José Rodrigues).
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12110-licao-6-o-filho-como-o-verbo-de-deus-i
