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LIÇÃO Nº 7 – OS PENSAMENTOS – A ARENA DA BATALHA NA VIDA CRISTÃ

INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo sobre a doutrina bíblica do homem, estudaremos sobre a racionalidade, faculdade da alma humana.

-A mente humana é o campo da batalha espiritual.

I – O QUE É A RAZÃO

-Na sequência do estudo sobre a doutrina bíblica do homem, analisaremos a racionalidade, uma das faculdades da alma humana.

-No Dicionário Teológico, pastor Claudionor Corrêa de Andrade define a razão como “Faculdade que tem o ser humano de julgar e ponderar ideias universais. Raciocínio, juízo. É a capacidade de se estabelecer relações lógicas.

A razão, quando corretamente empregada, não se contrapõe à Palavra de Deus. Pelo contrário: ajuda o homem a compreender melhor as belezas dos divinos mistérios (Rm 12.1,2).” (Razão. In: Dicionário Teológico, p.250).

-Ao criar o homem, Deus fê-lo com a capacidade do raciocínio, com a capacidade do pensamento.

-O homem foi feito um ser com condições de ter consciência de si mesmo e do que o cercava, inclusive da realidade da existência, da soberania e da companhia de Deus.

-Por isso, Deus afirmou que o homem poderia dominar a criação terrena (Gn.1:26,28), como também guardar e lavrar o jardim que havia sido formado no Éden para ser sua habitação (Gn.1:15).

-No entanto, a mais exuberante demonstração de que o homem era capaz de raciocinar, de pensar é encontrada no gesto divino em que o Senhor delegou ao homem o poder de dar nome aos animais do campo e às aves do céu, tarefa da qual o homem se desincumbiu muito bem (Gn.1:19). Com este gesto, Deus mostrou ao homem que ele tinha a capacidade de criação intelectual.

-Vemos, assim, que o homem tinha uma diferença em relação aos demais seres da Terra, esta capacidade de raciocínio, a razão, que tinha por objetivo fazer com que o homem dominasse a criação terrena, bem assim se relacionasse conscientemente com o seu Criador.

-Com base nestas evidências bíblicas, podemos afirmar, portanto, que o homem é um ser capaz de conhecer e de construir um conhecimento a partir de suas habilidades, habilidades estas dadas por Deus quando do ato da criação do ser humano. Não se pode, pois, entender senão como plenamente natural e querido por Deus o desenvolvimento intelectual do homem.

-Mesmo após o pecado, estas habilidades do homem não lhe foram tiradas, ainda que a natureza pecaminosa do homem, que o domina (Gn.4:7; Rm.7:16-19), faça com que todas as realizações do engenho humano tenham uma utilização que produza o que não é bom para o homem.

-Vemos, pois, a notícia do desenvolvimento tecnológico em plena civilização caimita (Gn.4:20,21) ou, então, da civilização da comunidade única pós-diluviana (Gn.11:3).

-Nesta capacidade de criação e de raciocínio, o homem, ao longo dos séculos, produziu algumas espécies de conhecimento, a saber:

a)conhecimento artístico – A arte é uma demonstração da capacidade criativa do homem em que se expressa a sensibilidade. O homem, através das obras de arte, extravasa os seus sentimentos e o produto da obra é feito para que as pessoas gostem ou não dele. As próprias Escrituras dão-nos conta de pessoas aquinhoadas pelo Senhor com esta habilidade artística, como é o caso de Bezalel e Aisamaque (Ex.31:1-6).

b)conhecimento científico – A ciência é uma demonstração da capacidade criativa do homem em que se expressa o raciocínio, a razão. O homem, através da atividade científica, consegue dar explicações sobre os fenômenos que o cercam e lhe permitem dominar a natureza.

As Escrituras descrevem a história humana como sendo a história do contínuo progresso científico (Dn.12:4 “in fine”), tendo sido o homem feito exatamente para investigar as coisas que o cercam (Ec.1:13).

c)conhecimento filosófico – A filosofia é uma demonstração da capacidade criativa do homem em que se expressa, também, o raciocínio, a razão.

O homem, através da atividade filosófica, consegue dar explicações globais a respeito do mundo e do universo, a partir da razão. A atividade filosófica é um meio válido para se descobrir a verdade, como se lê em Cl.2:8.

d)conhecimento teológico – A teologia é uma demonstração da capacidade criativa do homem em que se expressa, também, o raciocínio, a razão.

O homem, através do conhecimento teológico, consegue dar explicações a respeito do mundo e do universo, a partir da revelação divina, a partir das Escrituras Sagradas. Embora a justificação seja pela fé (Rm.5:1), nosso culto deve ser racional (Rm.12:1). A razão deve sempre ser um acessório que amplifica o alcance da fé.

-Vimos que as atividades de conhecimento exercidas pelo homem são todas elas dependentes da razão, ainda que o conhecimento artístico tenha a razão numa posição secundária, como verdadeira coadjutora da sensibilidade, que, nas artes, se sobressai como o principal atributo utilizado na produção da obra de arte.

-A razão, portanto, é um elemento que adquire no homem um papel importante, tendo sido, mesmo, nas palavras do filósofo grego Aristóteles, a grande diferença, a distinção essencial entre o homem e os demais seres que habitam a face da Terra.

-Cedo, pois, notadamente na tradição filosófica do Ocidente, a razão passou a ser enaltecida e entendida como o grande atributo do homem.

-Para os filósofos gregos Sócrates (470-399 a.C.) e Platão (428/7-348/7 a.C.), por exemplo, encontrava-se na razão a própria consciência do homem e a possibilidade de o homem atingir o pleno conhecimento e a felicidade se se guiasse apenas por este atributo, desprendendo-se do que consideravam ser a “ilusão deste mundo”.

-Com Aristóteles (384-322 a.C.), aluno de Platão, o homem encontrou na razão, como já dissemos, a sua própria essência, o seu caráter distintivo em relação aos demais seres.

Para os filósofos estoicos (At.17:18), a razão era o próprio fio condutor não só do homem, mas também de todo o universo, na medida em que consideravam que era o “logos” (como era chamada a razão) o próprio universo, de que o homem seria uma pequena partícula.

-No entanto, este elogio da razão humana cederia espaço, ante a evangelização do mundo, a uma postura de supremacia da fé. Com a pregação do Evangelho, que triunfou notadamente na área do Império Romano, a razão assumiu um papel auxiliar diante da fé, que era, como diziam as Escrituras, o instrumento pelo qual o homem alcançava a salvação.

-Uma das grandes discussões das primeiras gerações cristãs, principalmente após o início da evangelização dos gentios, foi a posição da Igreja diante da filosofia.

-O mundo greco-romano era impregnado da filosofia, tida, então, como a mais sublime das atividades intelectuais e a pregação do Evangelho, com a sua doutrina da salvação pela fé, punha em xeque os conceitos filosóficos então vigentes.

-Os primeiros a enfrentar a questão da filosofia diante da Palavra de Deus, que nada mais era senão a discussão do papel da razão ante a mensagem da salvação em Cristo Jesus, foram os chamados “apologetas cristãos”, ou seja, os servos de Deus que, tendo aceitado o evangelho entre as elites sociais e intelectuais de Roma e do seu Império, passaram a defender a fé cristã dos ataques que os intelectuais incrédulos começaram a fazer contra a nova doutrina.

-Destaca-se, nesta discussão, Justino (?-163 ou 167), que já era filósofo antes de se converter ao Cristianismo, foi o primeiro a mostrar que a filosofia não é contrária à doutrina cristã, mas que a revelação completa de Deus se deu somente por intermédio de Cristo, mas que a filosofia já tinha representado uma revelação parcial, a partir da razão, da verdade que se apresentaria completamente no Senhor.

-A partir desta linha, que teve em Clemente de Alexandria, um dos “pais da Igreja” (nome que designa os grandes nomes do Cristianismo depois dos apóstolos até o final da Idade Média, nos cinco primeiros séculos da história da Igreja), um dos grandes expoentes, que considerou que a filosofia tinha sido para os gentios o que foi a lei para os judeus, ou seja, como uma preparação para a revelação de Cristo por intermédio da pregação do Evangelho, cristalizou-se a ideia de que a fé tinha a razão como grande auxiliar no processo do conhecimento humano.

-Durante toda a Idade Média (476-1453), a fé sempre ocupou lugar de destaque na produção intelectual. A teologia passou a ser a grande mestra de todas as ciências e até mesmo da filosofia. Todo o conhecimento intelectual encontrava-se submetido à doutrina da Igreja, sendo inadmissível que toda e qualquer atividade científica, artística ou filosófica viesse a contrariar a sã doutrina.

-Entretanto, confundiu-se a sã doutrina, a Palavra de Deus com os dogmas e os preceitos que foram adotados, muitos deles ao arrepio da própria Bíblia Sagrada, pela cúpula da Igreja Romana, ao longo dos séculos da Idade Média.

-Passou-se, então, a exigir que toda atividade intelectual do homem fosse concorde com os preceitos e doutrinas de homens e de demônios que foram incorporados ao chamado “Magistério da Igreja”.

OBS: Aliás, até hoje, é preciso frisar, a Igreja Romana entende que duas são as fontes de revelação divina: as Escrituras e a tradição, entendida esta tradição como sendo, precisamente, o que passou a ser praticado pela Igreja Romana ao longo dos séculos, tenha ou não respaldo bíblico. Isto foi reafirmado no Concílio Vaticano II (1962-1965), como se vê deste trecho do documento Dei Verbum:

“…Portanto esta Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura de ambos os Testamentos são como o espelho em que a Igreja peregrinante na Terra contempla a Deus, de Quem tudo recebe, até que chegue a vê-l’O face a face como é (cf. I Jo.3,2)…” (Dei Verbum, n.7).

-Ora, como só a Palavra de Deus é a verdade (Jo.17:17), a partir do momento que se passou a dirigir e a orientar a atividade intelectual do homem, de forma impositiva e não raras vezes com o uso de violência física e moral (como aconteceu após a criação da Inquisição), para que se conformasse e concordasse com preceitos humanos e até de inspiração satânica, teve-se a porta aberta para a descoberta de elementos e de fenômenos que contrariavam os dogmas religiosos então estabelecidos.

-O contacto dos europeus com o Oriente, intensificado após a invasão dos árabes de regiões no Norte da África e da Península Ibérica (Portugal e Espanha), como também com a realização das Cruzadas, expedições militares patrocinadas pelo Papado para a “reconquista da Terra Santa” aos cristãos, depois da proibição da ida a cristãos ali pelos turcos seldjúcidas, muçulmanos radicais, que passaram a dominar a região, há o aumento da produção intelectual em desacordo com os preceitos da Igreja Romana.

-O resultado de todo este movimento foi o que os historiadores denominaram de “Renascimento” ou “Renascença”, um intenso movimento intelectual que, iniciado por volta do século XIII e XIV, na Europa, representou a dissociação entre o pensamento científico-artístico-filosófico e a Igreja Romana.

-A produção intelectual dissociou-se do controle doutrinário da Igreja Romana. Simultaneamente, dentro da própria Igreja, surgem aqueles que começam a contestar os dogmas, fazendo o confronto entre a dogmática existente e as Escrituras Sagradas. É o movimento conhecido como “Reforma Protestante”, que tem nas figuras de Martinho Lutero (1483-1546) e de João Calvino (1509-1564) as suas maiores expressões.

-A partir de então, a Igreja Romana perde, também, o monopólio de dizer qual é a doutrina verdadeira, havendo milhares de pessoas que se voltam para a autenticidade das Escrituras, que reencontram na Bíblia a única regra de fé e de prática.

-Na recusa do controle por parte da Igreja Romana, os pensadores do Renascimento quiseram tornar ao período anterior ao Cristianismo, ou seja, aos princípios que haviam norteado os pensadores do mundo greco- romano, daí até porque terem chamado este movimento de “renascimento”, ou seja, um novo nascimento, um ressurgimento da antiga cultura greco-romana.

-Não foi difícil, portanto, chegar-se à ideia de que não se poderia ter outro mecanismo de conhecimento a não ser a razão, deixando-se de lado a fé como elemento de conhecimento.

-Havia uma ânsia de libertação do jugo imprimido pelo controle estabelecido pela Igreja Romana e esta ânsia se concretizou numa tentativa de abandono das Escrituras como critério de verdade.

-A ciência e a filosofia, doravante, dedicar-se-iam apenas ao uso da razão, ao estabelecimento de um método que garantisse a verdade das conclusões racionais, sem que se recorresse à revelação divina.

-Este comportamento de privilégio à razão é que se denominou de “racionalismo”, postura que teve seu máximo esplendor na figura do filósofo francês René Descartes (1596-1650), que, em vários escritos, demonstrou que o homem era portador de “ideias inatas”, ou seja, ideias que tinha desde o nascimento e que lhe permitiam chegar à verdade, independentemente de qualquer revelação.

-Descartes, aliás, usando de uma antiga prova da existência de Deus que havia sido desenvolvida por Anselmo de Cantuária (ca.1033-1109), primeiro bispo da Inglaterra e um grande teólogo e filósofo, mostra que, a partir da razão, se poderia chegar à comprovação da existência de Deus e de Seu papel de garantidor de todo o conhecimento, sem que, para tanto, fosse sequer necessário recorrer às Sagradas Escrituras.

-Mais ou menos na mesma época, o cientista católico italiano Galileu Galilei (1564-1642) será condenado pela Igreja Romana por ter dito que a terra se movia, contrariando, assim, dogmas estabelecidos pela própria Igreja.

-O seu caso, que passou para a história como um marco na luta entre fé e ciência, serviu e tem servido até hoje para mostrar a prevalência da ciência diante da religião ou da fé.

-Entretanto, quando se leem os documentos do caso, vê-se, claramente, que nem Galileu tinha, na oportunidade, prova do que estava a afirmar (o que torna a sua teoria, do ponto-de-vista científico, imprestável, tanto que o movimento da Terra somente seria provado pouco mais tarde através de Isaac Newton- 1643- 1727),

como também a Igreja Romana se equivocara, seja porque não tinha respaldo bíblico o que elevara a nível de dogma, seja porque Galileu jamais renegou as Escrituras como fonte de verdade, mas, sim, questionou a manutenção de um dogma ante a presença de experimentos científicos comprovados que o desmentissem, aconselhando, então, que se deveria fazer a revisão da interpretação das Escrituras, pois reconhecia nelas a qualidade de verdade.

-O racionalismo, portanto, surge na Europa, a partir do século XIII e XIV, como uma reação aos dogmas da Igreja Romana, confundindo, assim, estes dogmas com a verdade da Palavra de Deus e proclamando uma independência entre ciência e filosofia, de um lado, e a fé e a teologia, de outro. Mais uma vez, o “mistério da injustiça” opera no sentido de desqualificar e desacreditar a Palavra de Deus.

-Este “racionalismo científico” é mais um ardil do inimigo que já havia sido muito bem descrito pelo apóstolo Paulo na carta aos romanos, onde aponta que a recusa de glorificação a Deus, resultante da crença da independência do homem em relação ao seu Criador, inclusive na capacidade de entendimento, a velha mentira satânica contada aos primeiros pais (Gn.3:4,5), tem como consequência o desvanecimento do discurso e o obscurecimento do coração insensato (Rm.1:21), gerando, em vez de sabedoria, loucura (Rm.1:22).

-Surge, então, a “falsamente chamada ciência”, cujos clamores vãos e profanos têm como único objetivo não perseguir a verdade, mediante o entendimento dado a Deus aos homens, mas, sim, opor-se à revelação divina contida nas Escrituras, fazendo o que deveria ser fonte de conhecimento tão somente um montão de mentiras e concepções que são somente jogos de palavras que não encontram guarida na realidade.

-A razão só pode atingir seu objetivo e contribuir para o real desenvolvimento do ser humano, permitindo-o cumprir o propósito estabelecido pelo Senhor, se estiver dirigida para a verdade. A razão foi exercida, pela vez primeira, pelo homem, sob a orientação divina, no ato de nomeação dos seres, e não será em rebeldia ao Criador que poderá ser eficazmente utilizada.

-Como afirma Tomás de Aquino (1225-1274): “…o intelecto separado é Deus mesmo, Criador da alma e só em quem ela acha a sua beatitude, como a seguir se mostrará. Por onde, dele é que a alma humana participa a luz intelectual, segundo aquilo da Escritura (Sl 4, 7): Gravada está, Senhor, sobre nós a luz do teu rosto.” (Suma Teológica I, q.79, art.4).

II – RAZÃO SOB A ORIENTAÇÃO DIVINA

-Como se pode perceber, portanto, a razão não pode se desenvolver corretamente se estiver apartada do Senhor.

-Por isso, quando o homem peca, seu raciocínio fica embrutecido e os pensamentos ficam todos voltados para o maligno, como diz o próprio Deus para Si mesmo em passagem que revelou a Moisés, logo após a adoração feita a Noé quando saiu da arca: “…Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice…” (Gn.8:21).

-Um dos pressupostos para podermos ser vitoriosos na batalha espiritual, é conseguirmos vencer a luta interna que existe entre a carne e o espírito em nosso interior.

-Neste ponto, encontra grande relevância a questão relacionada com o domínio da mente, pois o apóstolo Paulo disse, em II Co.4:4, que o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos para que lhes não

resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, a indicar, portanto, que existe um domínio do inimigo sobre os entendimentos dos homens que não alcançaram ainda a salvação.

-Como se isto fosse pouco, o Senhor Jesus, ao repreender a investida de Satanás através de Pedro, em Mt.16:22,23, afirmou que o diabo conhece as “coisas que são dos homens”, embora desconheça as “coisas que são de Deus”, a indicar, portanto, que o diabo tem condições de manipular a lógica humana, de dominar o ser humano por meio dela, que nada mais é que a “mente”.

-O apóstolo Paulo chama os salvos de “homens espirituais” e afirma que tais pessoas tudo discernem espiritualmente e de ninguém é discernido (I Co.3:15) e a característica destas pessoas é que elas possuem a mente de Cristo (I Co.3:16).

-De pronto, percebemos que o apóstolo afirma que ter a “mente de Cristo” é ser “espiritual” e isto nos remete, obviamente, ao ensino de Jesus a Nicodemos, onde é dito que para ver e entrar no reino de Deus é necessário antes “nascer de novo” e “nascer da água e do Espírito”, como também que há uma diferença entre os que são “nascidos da carne” e os “nascidos do Espírito” (Jo.3:3,5,6), nascidos estes que são como o vento, que assopra onde quer e ouvimos a sua voz, não sabendo donde vem nem para onde vai (Jo.3:8).

-Assim sendo, logo verificamos que, para ter a “mente de Cristo”, faz-se necessário nascer de novo, nascer do Espírito e, deste modo, temos já a lição de que, como afirma a 1ª edição da Declaração de Fé da CGADB, “…A salvação em Jesus Cristo não é um mero assentimento intelectual e, sim, um renascimento espiritual [I Pe.1:21] que se dá na vida do pecador arrependido [Ef.2:4-6; Cl.2:13]…” (DFAD 2.ed., VII.4, p.111).

-O salvo não é uma pessoa que se conduza pela lógica humana, por um raciocínio oriundo da própria racionalidade que Deus nos deu, mas, sim, alguém que está acessível à “lógica divina”, ao “raciocínio de Deus”, algo que está muito além do que podemos imaginar, pois os pensamentos e caminhos de Deus são muito mais altos que nossos pensamentos e caminhos (Is. 55:8,9),

razão pela qual o Senhor Jesus disse ao mestre de Israel Nicodemos que os “nascidos do Espírito” são como o vento, não temos condição de saber donde vem nem para onde vão, não porque sejam eles desorientados, mas porque a orientação que recebem é do Espírito Santo, que, como Pessoa Divina, está muito além da nossa capacidade intelectual.

-Por isso, é importante sabermos o que significa “mente” para então saber o que significa ter a mente de Cristo e, assim, verificarmos se quem domina a nossa mente é o Senhor Jesus ou, então, o inimigo de nossas almas.

-“Mente” é a palavra grega “nous” (νους), “…o intelecto, i.e., mente (divina ou humana, em pensamento, sentimento ou vontade); (consequentemente) significando: – mente, entendimento. Substantivo que significa a mente

(I) Como a sede das emoções e sentimentos, do modo de pensar e sentir, disposição, inclinação moral, equivalente ao coração (Rm.1:28; 12:2; I Co.1:10; Ef.4:17,23; Cl.2:18; I Tm.6:5; II Tm.3:8; Tt.’:15); firmeza ou presença de espírito (II Ts.2:2); indicando coração, razão, consciência, em oposição aos apetites carnais (Rm.7:23,25).

(II) Entendimento, intelecto (Lc.2:45; I Co.14:14,15; Fp.4:7; Ap.13:18). (III) Como metonímia, indicando o que está na mente, pensamento, conselho, propósito, opinião, de Deus ou Cristo (Rm.11:34; I Co.2:16); dos homens (Rm.14:5). (IV) Metaforicamente, sobre coisas: sentido, significado (Ap.17:9)” (Bíblia de Estudo Palavra Chave. Dicionário do Novo Testamento, verbete 3563, p.2313).

-No Antigo Testamento, a palavra “mente” na Versão Almeida Revista e Corrigida é a tradução de três palavras hebraicas. Em Is.26:3, temos a palavra “yetser” (יצר), “uma forma; (figurado) concepção (i.e. propósito): – estrutura, coisa formada, imaginação, mente, obra.

Substantivo masculino que significa forma, estrutura, propósito, imaginação. Um dos usos desta palavra era para referir-se a um recipiente de cerâmica moldado por um oleiro (i.e., aquilo que foi formado [Is.29:16]). Outro exemplo de um objeto formado era uma imagem gravada ou esculpida (Hc.2:18). O salmista disse que o homem foi formado do pó (Sl.103:14).

Esta palavra também tem a conotação de algo pensado na mente, como a iniquidade no coração das pessoas (Gn.6:5); ou algo entesourado ou guardado no coração (I Cr.29:18)” (Bíblia de Estudo Palavra Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 3336, p.1689).

-A outra palavra traduzida por “mente” é “kilyah” (כליה), “…um rim (como um órgão essencial); (figurado) a mente (como o “eu” interior): – rins, coração” (Bíblia de Estudo Palavra Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 3629, p.1706). É a palavra encontrada em Sl.7:9 e 26:2.

-Por fim, temos a palavra “shekvi” (שכוי), “observador, i.e., (concreto) a mente:— mente, meteoro. Substantivo masculino que significa aparição celestial ou fenômeno, a mente. Esta palavra é usada em Jó para denotar a mente que recebeu entendimento (Jó 38:36).

Numa pergunta retórica, o Senhor a empregou para designar a Sua soberania sobre tudo, inclusive sobre a vida de Seus servos. O significado exato deste vocábulo não está claro” (Bíblia de Estudo Palavra Chave, verbete 7907, p.1964). Esta palavra somente ocorre em Jó 38:36.

-Pelo que se verifica, portanto, do significado das palavras nas línguas originais das Escrituras, temos que a mente é a própria individualidade do ser humano, a sua alma, pois é a alma que tem como faculdades o intelecto ou entendimento, os sentimentos e emoções como também a vontade, o “eu” interior.

-Deus criou o homem como um ser racional, dotado de intelecto, tendo, inclusive, mandado que desse nome aos animais (Gn.2:19,20), como que fazendo o ser humano descobrir que ele era dotado de inteligência e que poderia criar palavras e, com seu intelecto, dominar os demais seres terrenos.

-Deus deu ao homem, também, a capacidade de sentir, ter emoções. Tratava-se de um ser sensível, pois fora feito à imagem e semelhança de Deus, Deus que é, também, um ser sensível, um ser dotado de sentimentos.

-Por fim, Deus deu ao homem a vontade, pois foi feito um ser moral, que tem, portanto, a capacidade de escolher entre o bem e o mal, de fazer escolhas.

III – O SIGNIFICADO DE TER E VIVER COM A MENTE DE CRISTO

-Ora, tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus e feito para viver em comunhão com o seu Criador, o homem deveria sempre formar uma unidade com o seu Senhor, agindo de acordo com Ele, a fim de que tivesse os pensamentos de Deus, os sentimentos de Deus e fizesse a vontade de Deus.

-No entanto, em virtude do pecado, o homem quis ter uma independência em relação a Deus, passando, então, a querer raciocinar, sentir e querer de modo alheio e independente ao Senhor, como se isto fosse possível.

-Na verdade, com a prática do pecado, o homem deixou de ter a “luz divina” que lhe dava o “entendimento”, pois, como tinha de ter uma unidade com relação a Deus, o homem não poderia ter o “pensamento divino”, senão por revelação de Deus, visto que os caminhos de Deus são mais altos que os nossos caminhos e os pensamentos de Deus mais altos que nossos pensamentos.

-Somente um contato com Deus, uma instrução divina podia fazer com o que homem seguisse os desígnios do Senhor. Por isso mesmo, o Senhor vinha toda viração do dia encontrar-se com o homem para lhe dar esta revelação e orientação indispensáveis para que o homem cumprisse o propósito a ele estabelecido pelo próprio Deus (Gn.3:8).

-Esta iniciativa divina para dar ao homem o devido aprimoramento é bem verificada no fato de que Deus trouxe a Adão os animais para que fossem eles nomeados (Gn.2:19), de forma que, sem a iniciativa divina, jamais Adão poderia ocupar o lugar a ele destinado, que era o de dominador sobre a criação terrena, dominação que se iniciava com a nominação dos demais seres.

-Sem a “iluminação divina”, o homem tornou-se cego espiritual. É o que nos diz o apóstolo Paulo em II Co.4:4, quando afirma que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”.

-No pecado, o homem não tem visão espiritual e, portanto, a sua “mente”, o seu “eu” interior passa a não ter a orientação divina, não consegue enxergar as realidades espirituais, não tem como alcançar os pensamentos, sentimentos e vontade divinos. “Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhumas” (I Jo.1:5b) e, portanto, quando há a separação entre Deus e o homem, não resta ao homem outra situação senão a de estar em trevas.

-Faz-se preciso, portanto, que haja esta “iluminação” para que o homem possa, novamente, enxergar as realidades espirituais, aquilo que é permanente, aquilo que realmente é importante e, para tanto, é mister que se tenha a “luz dos homens”, a “luz do mundo”, que é o Senhor Jesus Cristo (Jo.1:4; 8:12).

-Para se ter “a mente de Cristo”, portanto, torna-se necessário ter esta “iluminação”, iluminação que vem pelo Evangelho, pois é ele quem anuncia a “luz do mundo”, a “luz dos homens”. A Palavra de Deus, que é a fiel testemunha de Jesus (Jo.5:39) traz a devida “iluminação” para o homem, daí porque o salmista ter dito que a Palavra do Senhor é lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho (Sl.119:105).

-O Senhor manda a Sua Palavra e esta Palavra traz a “iluminação”, ou seja, passamos a enxergar a verdade, a ter noção da realidade da necessidade que temos de estar em comunhão com Deus, de termos amizade com Ele e de nos arrependermos, “mudarmos de mente”.

-A mensagem do Evangelho é a mensagem do arrependimento e arrependimento é “mudança de mente”, “mudança de modo de viver”, “mudança de mentalidade”, “mudança de atitudes”. O Evangelho é um convite para deixarmos a “mente cega” para termos a “mente iluminada”.

-Viver com a “mente de Cristo”, portanto, implica em renunciarmos a nós mesmos, reconhecermos que nada podemos saber ou entender se não tivermos a “iluminação divina”, é declararmos a nossa dependência de Deus, a nossa necessidade de somente fazermos aquilo que Ele quer, que Ele pensou e planejou para nós, aquilo que faz com que Ele Se agrade de nós.

-Foi exatamente por isso que o Senhor Jesus disse que são Seus discípulos tão somente aqueles que renunciam a si mesmos (Mt.16:24; Lc.14:33).

-Ter a “mente de Cristo” é ter os pensamentos de Cristo. A “mente” é o “intelecto” e, portanto, se temos a “mente de Cristo”, teremos de ter o “intelecto de Cristo”. Ora, os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos (Is.55:8,9) e, deste modo, não poderemos, com a “mente de Cristo”, tentar seguir a lógica humana para agirmos.

-Quando o Pai revelou a Pedro que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus vivo (Mt.16:16,17), o Senhor revelou o mistério da Igreja e começou a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a Jerusalém e padecer muito dos anciãos e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia (Mt.16:21).

-O mesmo Pedro que tivera a revelação do Pai procurou, então, dissuadir o Senhor Jesus deste itinerário de sofrimento, morte e ressurreição, tendo repreendido Jesus e dizendo que, de modo algum, aconteceria o que Jesus havia dito (Mt.16:22). Jesus, então, repreendeu Satanás, dizendo que o inimigo compreendia as coisas dos homens mas não as de Deus (Mt.16:23).

-Neste episódio, vemos que Pedro, apesar de ter tido uma revelação divina, não tinha a “mente de Cristo”, até porque ainda não era convertido (Lc.22:32), o que somente ocorreu quando do seu arrependimento após a tríplice negação (Mt.26:75; Lc.22:62).

-Quando o Senhor Jesus falou da necessidade que tinha de morrer pelos pecadores, Pedro passou a raciocinar com o seu intelecto, passou a se lembrar do imaginário judaico do Messias, imaginário até hoje existente, que somente vê o Filho de Davi, o Rei de Israel, mas não consegue vislumbrar o Servo Sofredor das profecias

messiânicas. Pedro passou a se utilizar da lógica humana e, como tal, não poderia o Messias ser alguém que seria morto por obra dos sacerdotes e dos escribas, precisamente aqueles que conheciam as Escrituras.

-Pedro viu não haver lógica nas afirmações de Jesus e, por isso, passou a repreendê-l’O. A palavra grega aqui é “epitimao” (επιτιμάω), cujo significado é “censurar ou admoestar”, palavra composta de “epi” e “timao” , ou seja, “avaliar sobre”.

-Quando passamos a avaliar sobre o que nos diz o Senhor Jesus, sobre o que Ele nos revela, estamos agindo segundo a lógica humana e este não é o comportamento que se espera do salvo. O salvo não tem que se sobrepor ao Senhor Jesus e, por conseguinte, às Escrituras, que são Suas fiéis testemunhas. Ele precisa tão somente crer, acreditar, não questionar o que está revelado pelo Senhor.

-Agir segundo a lógica humana, diz-nos claramente o Senhor Jesus, é se submeter ao maligno, é “dar lugar ao diabo” e isto não podemos fazer (Ef.4:27). O “nascido do Espírito” é como o vento, que assopra onde quer e não sabemos donde vem nem para onde vai, ou seja, não temos condições de querer entender a mente divina e, portanto, temos de nos submeter ao que é revelado, ao que nos é indicado pelo Senhor Jesus.

Diz um adágio popular que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. Ora, se até os sentimentos humanos não são completamente discerníveis pela nossa mente, por que querer entender o Senhor? Deus não é para ser compreendido, mas, sim, crido.

-O homem que procura compreender Deus é chamado, pelo apóstolo Paulo, de “homem natural” (I Co.2:14), que é o homem não salvo, o homem que não se entregou ainda a Cristo Jesus. Dentro da lógica humana, as coisas de Deus são “loucura” e jamais serão entendidas e/ou compreendidas. Salvação, repetimos, não é assentimento intelectual, mas um renascimento espiritual.

-Quem tem a mente de Cristo deve se guiar pela “lógica divina” e esta lógica é a Palavra de Deus, o que nela está contido. Nos dias hodiernos, de grande avanço científico e tecnológico, os homens se iludem com a sua capacidade intelectual e querem viver segundo estes ditames da ciência e da técnica.

O salvo, entretanto, não é alguém que haja desta maneira, pelo contrário é alguém que sabe que foi “iluminado” pela Palavra de Deus e que deve pensar segundo a mentalidade divina, segundo o que lhe foi revelado pelas Escrituras.

-É relevante que, em Jó 38:36, em Seu diálogo com Jó, onde o Senhor mostra ao Seu servo que não se pode querer compreender as coisas de Deus com a mente humana, tenha o Senhor indagado a Jó quem pusera a sabedoria no íntimo ou quem dera à mente o entendimento, utilizando-se aqui de uma palavra que, como já vimos supra, significa “meteoro, aparição”.

-Nesta indagação, o Senhor está a mostrar a Jó que o homem não tem como elaborar ou construir o que é pensado por Deus, mas que isto vem ao homem por uma revelação, por um “insight” divino, repentinamente, como um “meteoro”. Deus revela ao homem o que devemos saber e entender, revelação esta que se encontra nas Escrituras Sagradas. Deve ser ela a nossa única regra de fé e prática.

-Quando vamos a Is.26:3, o profeta nos diz que o Senhor conservará em paz aquele que cuja mente está firme n’Ele, porque ele confia n’Ele.

Tem-se aqui nitidamente a observação de que somente se pode ter a mente de Cristo se confiarmos n’Ele. A confiança é o elemento que nos faz ter a mente de Cristo. A confiança é que nos permite viver segundo o pensamento divino.

-Não são os raciocínios humanos que dão firmeza e estrutura para a vida do salvo, mas, sim, a confiança em Deus.

Quando cremos no Senhor, alcançaremos a força necessária para enfrentar as intempéries da vida, ainda que as atitudes pareçam ser “loucuras” para a mente humana. Como diz o profeta é Deus que edifica a forte cidade, com seus muros e antemuros (Is.26:1,2) e, portanto, não temos o que temer, pois É Ele a rocha eterna em que podemos confiar perpetuamente (Is.26:4).

-Quando cremos em Cristo e baseamos nossa vida n’Ele, pode acontecer o que acontecer à nossa volta, que não seremos abalados, continuaremos firmes, porque nossa casa não cai, firmada que está na rocha, que é Nosso Senhor e Salvador (Mt.7:24,25). Como diz o salmista: “Os que confiam no Senhor serão como monte Sião, que não se abala mas permanece para sempre” (Sl.125:1).

-Ter a mente de Cristo é ter os sentimentos de Cristo. Cristo apresenta-Se nas Escrituras como um ser sensível, dotado de sentimentos e o salvo, como imitador de Cristo, deve ter estes mesmos sentimentos.

-O apóstolo Paulo afirma que devemos ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus (Fp.2:5) e que sentimento era este? O sentimento de humildade, que fez com que Jesus Cristo Se humilhasse, deixando a Sua glória para Se fazer homem e, como homem, fazer-Se servo e ser obediente até a morte e morte de cruz (Fp.2:6-8).

-No contexto em que descreveu o “esvaziamento” de Cristo, Paulo está a incitar os crentes de Filipos a nada fazer por contenda ou por vanglória, mas por humildade, considerando os outros superiores a si mesmo e não atentando cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros (Fp.2:3,4).

-Ter a mente de Cristo é viver para os outros, é considerar os outros, entregar-se aos outros em obediência a Deus, a ponto, inclusive, de morrer pelos outros, de se fazer maldito para o bem dos outros, que foi o que Cristo fez por nós, sem o que não nos teria salvado.

-Ter a mente de Cristo é se deixar usar como instrumento nas mãos de Deus, mesmo que isto signifique sofrimento, tribulação e morte. Amar os outros, estar disposto a dar a sua vida pelos outros, querer bem aos outros, querer a salvação do nosso próximo.

-O salvo não pode jamais viver para si. Deve entender que a salvação que recebeu não foi obra sua, nem fruto dos seus méritos, mas um favor imerecido de Deus para ele e que deve também alcançar outras pessoas. Quando nos fechamos em nós mesmos, quando deixamos de evangelizar, quando retemos a salvação somente para nós, não estamos tendo o sentimento de Cristo Jesus e, por conseguinte, não temos a mente de Cristo.

-A salvação não é apenas para nós, mas também é para os outros. Jesus morreu por todos os homens (II Co.5:14,15; I Tm.2:4; 4:10; Tt.2:11) e, portanto, temos de levar a mensagem da salvação a todos (Mc.16:15). Jesus deixou a Sua glória para trazer esta mensagem à humanidade e nós devemos seguir-Lhe as pisadas (I Pe.2:21), também deixando a nossa “zona de conforto” para alcançar os que precisam de salvação.

-Daí porque ser uma característica da salvação a realização de boas obras, a prática da beneficência, até porque Deus é beneficente (Ex.15:13; 34:6; Nm.14:18; Rt.2:20; I Rs.3:6; II Cr.1:8; 6:14; Ed.7:28; 9:9; Ne.9:17,32; Jó 10:12; Jr.9:24; Jl.2:13).

-O Senhor requer de nós o amor à beneficência (Mq.6:8), como também informa que só é convertido aquele que guarda a beneficência e o juízo, esperando sempre em Deus (Os.6:4).

-Em o Novo Testamento, a palavra “beneficência”, na Versão Almeida Revista e Corrigida, aparece duas vezes e são duas palavras gregas distintas.

Em II Co.9:11, temos a palavra grega “haplotes” (απλότης), cujo significado é “generosidade, liberalidade, simplicidade, singularidade, simplicidade de coração, franqueza, integridade”. Teremos o sentimento de Cristo se formos sinceros, sem qualquer dissimulação, se realmente fizermos o bem querendo o bem-estar do outro, sem qualquer segunda intenção, com pureza de propósitos.

-A outra palavra é “eupoiia” (ευπιϊα), encontrada em Hb.13:16, que significa “boa ação, fazer o bem”. O escritor aos hebreus afirma que esta ação é um sacrifício agradável a Deus.

-É evidente que a “boa obra” não salva, mas o salvo tem de ser alguém que pratica “boas obras”, até porque tais “boas obras” são sinceras e motivadas única e exclusivamente pelo amor de Deus, o amor desinteressado, que visa única e exclusivamente o bem-estar do outro, a salvação do outro, a glória de Deus. ”…A Igreja tem

o papel de ser a luz do mundo, e essa luz resplandece por meio de nossas boas obras [Mt.5:14,16]…” (Declaração de Fé da CGADB, 1.ed., XI,5, p.123).

OBS: Como diz o capítulo XVI da Confissão de Fé de Westminster:

“…I. Boas obras são somente aquelas que Deus ordena em Sua santa palavra, não as que, sem autoridade dela, são aconselhadas pelos homens movidos de um zelo cego ou sob qualquer outro pretexto de boa intenção.(…)

II. Estas boas obras, feitas em obediência aos mandamentos de Deus, são o fruto e as evidências de uma fé viva e verdadeira; por elas os crentes manifestam a sua gratidão, robustecem a sua confiança, edificam os seus irmãos, adornam a profissão do Evangelho, tapam a boca aos adversários e glorificam a Deus, cuja feitura são, criados em Jesus Cristo para isso mesmo, a fim de que, tendo o seu fruto em santificação, tenham no fim a vida eterna. (…) VII.

As obras feitas pelos não regenerados, embora sejam, quanto à matéria, coisas que Deus ordena, e úteis tanto a si mesmos como aos outros, contudo, porque procedem de corações não purificados pela fé, não são feitas devidamente

– segundo a palavra;

-nem para um fim justo – a glória de Deus; são pecaminosas e não podem agradar a Deus, nem preparar o homem para receber a graça de Deus; não obstante, o negligenciá-las é ainda mais pecaminoso e ofensivo a Deus.…”

-Ter a mente de Cristo é ter a vontade de Cristo. A salvação implica na assunção da vontade do Senhor em detrimento de nossa vontade.

Quando o Senhor Jesus nos ensinou a orar, disse que deveríamos pedir que a vontade d’Ele se fizesse assim na terra como no céu (Mt.6:10). Jesus mesmo deu o exemplo, sacrificando a Sua vontade para fazer a vontade do Pai (Mt.26:42)

-Sendo assim, não podemos mais fazer o que queremos, mas, sim, o que o Senhor quer que nos façamos. O verdadeiro salvo vive as palavras proferidas por Davi: “Deleito-me em fazer a Tua vontade, ó Deus meu; sim, a Tua lei está dentro do meu coração” (Sl.40:8), palavras que são as do próprio Cristo, como nos dá conta o escritor aos hebreus em Hb.10:9.

-Em Pv.8:30,31, mostra-se como Jesus, aqui tipificado na Sabedoria, fez a vontade do Pai: sendo Seu aluno, folgando cada dia nas Suas delícias e achando as delícias do Filho com os filhos dos homens.

-Fazemos a vontade do Senhor quando somos Seus alunos, ou seja, quando somos Seus discípulos e, para tanto, faz-se mister que renunciemos a nós mesmos, tomemos a nossa cruz e sigamos ao Senhor (Mt.16:24; Mc.8:34; Lc.9:23). Fazer a vontade do Senhor é negar a nossa própria vontade, assumir a posição e a missão que Deus nos dá no corpo de Cristo e passar a seguir a orientação divina até o dia da glorificação.

-Fazemos a vontade do Senhor quando folgamos cada dia nas Suas delícias, ou seja, quando nos alegramos naquilo que Deus tem prazer, naquilo que Deus Se agrada. O salvo não é alguém que procura o prazer, que procura se satisfazer, mas alguém que se satisfaz e se realiza quando agrada ao Senhor, quando faz o que é agradável a Deus.

-O salvo é alguém que repete as palavras do poeta sacro traduzido/adaptado por Paulo Leivas Macalão: “Eis que estou no Senhor confiando, todo o meu ser a Jesus entreguei.

Todos prazeres eu tenho deixado, em Jesus Cristo meu gozo achei” (segunda estrofe do hino 70 da Harpa Cristã) ou, ainda, do poeta sacro Ernesto Wooton: “Acho prazer em Te seguir; descanso e paz me faz sentir; doce é a mim o Teu querer, gozo me traz Te obedecer” (segunda estrofe do hino 141 da Harpa Cristã).

-Este prazer é cotidiano, ou seja, é a cada dia. Deve haver uma constância no alegrar-se com o que Deus Se alegra. A todo instante, a todo momento, devemos ter prazer naquilo que agrada ao Senhor.

-Mas, além de ter prazer naquilo que agrada a Deus, devemos compartilhar este prazer com os filhos dos homens, ou seja, devemos fazer o que agrada a Deus em prol dos outros. Jesus disse que a Sua comida era fazer a vontade d’Aquele que O havia enviado e realizar a Sua obra (Jo.4:34). Ora, a Sua obra era pregar o Evangelho e proporcionar a salvação da humanidade morrendo em nosso lugar na cruz do Calvário (Jo.12:27).

-Nós fomos salvos para realizar a obra de Cristo sobre a face da terra (Jo.20:21) e, por isso, devemos sempre estar a pregar o Evangelho, primeiramente com a nossa vida, com o nosso testemunho e, quando houver oportunidade, com palavras. Faz-se preciso que comuniquemos aos “filhos dos homens” a mensagem da salvação e que tenhamos prazer em isto realizar.

-A vontade de Deus precisa ser aprendida por nós. Davi pede ao Senhor que o ensine a fazer a Sua vontade e que fosse guiado pelo Espírito Santo por terra plana (Sl.143:10).

Jesus mandou o Espírito Santo para nos guiar em toda a verdade (Jo.16:13), de modo que não temos o que recear com relação a fazer a vontade do Senhor, pois o Paráclito sempre nos orientará. O Espírito Santo continua guiando o Seu povo, como nos diz a parte final do item 4 da Declaração de Fé da CGADB. Como diz o poeta sacro Arthur Lakschevitz: “O meu guia e protetor é sempre o Senhor, que temerei.

E sempre será da minha vida o vigor, de quem mais recearei. Nos perigos e lutas da vida jamais perecerei. Pois o Senhor me guarda, por isso n’Ele eu confiarei” (primeira estrofe do hino 30 dos Coros Sacros).
-Para fazer a vontade do Senhor é preciso procurar a Deus a cada dia e ter prazer em querer saber os Seus caminhos, em se chegar a Ele (Is.58:2).

Ter a mente de Cristo é ter uma vida piedosa, é estar incessantemente buscando ao Senhor para saber o que Ele quer de nós, qual é a Sua vontade.

-O Senhor Jesus disse que as Suas ovelhas ouvem e conhecem a Sua voz (Jo.10:4,14,27), mas para que conheçamos a voz do Senhor torna-se absolutamente necessário que mantenhamos continuamente diálogo com Ele, a fim de nos familiarizarmos com a Sua voz, com o Seu falar.

-Tem-se, pois, que o salvo é alguém que está em constante comunicação com o Senhor, ou seja, medita dia e noite nas Escrituras, que é a Palavra de Deus, como também está constantemente orando, para falar com Deus. É alguém que tem momentos a sós com o Senhor, que desenvolve uma intimidade crescente, que é o que a Bíblia denomina de “conhecimento de Deus”, já que “conhecer” é “ter intimidade”.

-O salvo está constantemente buscando ao Senhor, reconhece a voz do Salvador por causa desta intimidade que tem com Ele e, por isso mesmo, não se deixa impressionar pelos ruídos e pelas interferências que o mundo, a carne e as hostes espirituais da maldade trazem para tentar obstruir esta sintonia, este contato que o salvo tem com o seu Senhor e Salvador.

-Por isso mesmo, o salvo é o “homem espiritual” de que fala o apóstolo Paulo, aquele que tudo discerne e de ninguém é discernido (I Co.2:15). É alguém que tem uma intimidade com o Espírito Santo, que põe no seu íntimo a sabedoria e, desse modo, faz com que o salvo possa ver as coisas sob a perspectiva divina e, mesmo sem entender completamente, faz o que Deus quer que seja feito.

-Assim como os profetas trouxeram a mensagem divina sem que a tivessem compreendido totalmente (Ez.37:3; Dn.12:4; I Pe.1:10-12), também nós devemos fazer o que Deus nos ordenar sem que o compreendamos plenamente, tendo prazer em fazer a vontade do Senhor, que Ele nos revela por Sua infinita graça e misericórdia, pois somente assim cumpriremos o propósito divino, que é sempre bom e nunca causará dano ou mal, pois como diz o nosso Deus, pela boca de Jeremias: “Porque Eu bem sei os pensamentos que penso de vós, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que esperais” (Jr.23:20).

-A salvação gera “uma nova criatura”, criatura esta é que espiritual, pois o salvo é “nascido do Espírito”. É o que, como já vimos, Paulo denomina de “homem espiritual”.

-Para ser “homem espiritual”, é preciso ter a mente de Cristo, ou seja, aqueles que têm a graça de receber a revelação divina da sabedoria divina, aquela que, embora oculta em mistério, Deus preparou para aqueles que O amam (I Co.2:7-9).

-O homem espiritual, portanto, é aquele que ama a Deus e amar a Deus nada mais é que guardar a Palavra do Senhor, fazer o que Ele manda (Jo.14:23,24; 15:14). Notamos a espiritualidade de um crente não pelo que ele recebeu da parte do Senhor, mas pelo modo como ele se relaciona com o Senhor. Ele é obediente à Palavra de Deus? Ele faz o que a Bíblia diz? Ele vive de acordo com as Escrituras? Se é assim, ele é um genuíno homem espiritual.

-O homem espiritual, por amar a Deus, tem comunhão com o Senhor e o Espírito Santo nele habita (Jo.14:17). O Espírito Santo, por habitar no homem espiritual, revela a ele as coisas de Deus, pois só o Espírito de Deus sabe as coisas de Deus (I Co.2:11).

Assim, o homem espiritual mergulha nas profundezas de Deus, tem o conhecimento de Deus e, tendo o conhecimento e a Palavra, tudo discerne, mesmo que tudo pareça loucura aos olhos do homem natural. O crente espiritual discerne bem tudo e de ninguém é discernido (I Co.2:15) e, por isso, seu comportamento é completamente diferente do dos demais seres humanos.

IV – ESTANDO PREPARADO CONTRA AS INVESTIDAS DO INIMIGO EM NOSSA MENTE

-O apóstolo Paulo, em Fp.4:8, apresenta uma “fórmula” para que o salvo possa se manter com a mente de Cristo enquanto aguarda a sua glorificação. Manda que o servo de Cristo pense em tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, em tudo que tiver alguma virtude ou algum louvor.

-O ser humano está a todo tempo pensando em algo, sua essência é a própria racionalidade, e estes pensamentos o levam a ter vontades, desejos e sentimentos.

É o intelecto quem acaba guiando as demais faculdades da alma e, por isso mesmo, precisamos ter a nossa mente voltada para as coisas de Deus, precisamos ter a mente de Cristo, como já demonstrado, para que não venhamos a ter a nossa mente ocupada com coisas que desagradam ao Senhor e que nos levarão a fracassar na batalha espiritual.

-Não é por outro motivo que o inimigo tem sempre procurado atacar a mente dos seres humanos, visando manter os incrédulos na cegueira espiritual, mas, também, buscando levar os salvos a abandonar a mente de Cristo e, assim, perder o discernimento espiritual e acabar sendo controlado por Satanás novamente.

-Um dos primeiros cuidados que devemos ter nesta questão é com os nossos olhos, pois eles são a entrada de tudo quanto irá se operar na nossa mente. Cristo chama os olhos de “candeia do corpo”, dizendo, ainda, que “se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!”(Mt.6:22,23).

-O patriarca Jó, de quem o próprio Deus dava testemunho de que se desviava do mal (Jó 1:8; 2:3), tinha como um dos segredos de sua integridade espiritual o cuidado que tinha com os olhos (Jó 31:1). A falta de cuidado com os olhos foi um dos fatores que levou Davi a pecar (II Sm.11:2).

-Vivemos dias em que os meios audiovisuais dominam a comunicação e, aproveitando-se disto, o inimigo tem buscado, de todas as formas, fazer com que as mentes sejam poluídas com o que não se encontra dentro dos parâmetros estabelecidos pelas Escrituras, como vemos em Fp.4:8.

-De forma particular, aliás, temos visto como a pornografia tem causado imensos males à moralidade, à família e à santidade de muitos que cristãos se dizem ser, com efeitos deletérios, pois tem gerado grandes sequelas mentais, pois o poder viciante da pornografia se equipara e até supera a muitas substâncias entorpecentes.

OBS: Veja o que diz o escritor e apologeta cristão norte-americano Josh MacDowell a respeito: “…“A pornografia está atrás deles [crianças e adolescentes – observação nossa]”, diz Josh. “Dos adolescentes que viram pornografia, entre 75% e 91% não estavam em momento algum atrás dela.

Pesquisadores mostram que 38% deles ficarão viciados” (…) a pornografia produz um questionamento sobre a autoridade das Escrituras, de Cristo, da Ressurreição, da Igreja e dos pais. A pornografia começa a entenebrecer a porta do cérebro para considerar as verdades da fé cristã.

Logo que você se envolve na pornografia, ela assume o controle dos seus pensamentos, de seus padrões morais e de sua vida. Você precisa entender: a pornografia simplesmente assume o controle da sua vida. A pornografia assume o controle dos seus relacionamentos — o modo como você vê as pessoas, as mulheres e as crianças. E como consequência, a pornografia não deixa espaço para sua caminhada com Cristo.

Não dá para você se envolver com a pornografia e ter uma caminhada saudável com Cristo…” (MORRIS, Shane. Pornografia é uma das maiores ameaças ao Cristianismo. Trad. de Júlio Severo. 22 nov. 2012. Disponível em: http://juliosevero.blogspot.com/2012/11/pornografia-e-uma-das-maiores- ameacas.html Acesso em 14 nov. 2018).

Ou, ainda, o que diz este outro artigo traduzido por Júlio Severo: “…Embora seja assombroso para muitos, os usuários de pornografia acabam pondo a religião, o casamento, o trabalho e as amizades em segundo lugar depois de seu desejo por pornografia.

Eles querem mudar, voltar à vida como era antes da pornografia, mas a maioria voltará e descerá muito mais. A Dra. Mary Anne Layden, diretora do Programa de Trauma Sexual e Psicopatologia do Centro de Terapia Cognitiva da Universidade da Pensilvânia, assemelha a pornografia ao crack. Num depoimento juramentado no Senado dos EUA em novembro de 2004, ela comentou:

“Esse material é potente, viciador e fica permanentemente implantado no cérebro”.…” (TRUEMAN, Patrick A. Epidemia de pornografia: estamos inundados de pornografia. Trad. de Júlio Severo. 27 nov. 2011. Disponível em: http://juliosevero.blogspot.com/2011/11/epidemia-de-pornografia-estamos.html Acesso em 14 nov. 2018).

-Não é à toa que o inimigo tem feito da mídia uma das suas principais cidadelas, pois, através dela, tem disseminado imoralidades, perversões e todo o tipo de coisa que mantém a mente das pessoas completamente alheia à santidade e às coisas que agradam a Deus e isto, a começar das crianças, que têm sido alvo de uma intensa campanha de erotização infantil, inclusive no sistema educacional, outro pilar desta investida satânica.

-Outra arma que tem sido utilizada pelo inimigo para ter vantagem no domínio das mentes humanas é a distração. Distração é, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “falta de concentração dos sentidos no que se passa à volta; desatenção”. Vem da palavra latina “distractio”, cujo significado é “divisão, separação, afastamento, desunião, venda ao retalho”.

-Vemos, pois, que a distração é uma ação pela qual se desvia a atenção de alguém, se separa alguém de algo ou de outrem. A distração nada mais é que uma atividade que procura fazer com que as pessoas não prestem atenção nas coisas divinas, não se concentrem em buscar, saber e realizar a vontade de Deus em seu dia-a-dia.

-Conta-se que Dom Bosco (1815-1888), padre católico romano, fundador da ordem dos salesianos, em um de seus conhecidos sonhos, sonhou com os jovens de sua igreja, que, enquanto a missa se desenvolvia, eram entretidos por uma série de demônios, que faziam com que a mente dos jovens, durante a celebração religiosa, ficasse ocupada com diversas atividades, como jogos, danças, comida, música e que somente se voltaram para a missa no momento solene da consagração, voltando, após isto, a novamente estarem alheios aos que se passava. Entendeu o padre que este sonho falava das distrações que os jovens estão expostos por sugestões demoníacas e que lhes retiram a capacidade de adoração.

-Este sonho deste sacerdote romanista está em consonância com as Escrituras e bem mostra uma das principais armas utilizadas pelo inimigo, máxime em nossos dias, que são dias de grande agitação, com múltiplas atividades, onde é muito fácil operar-se a desconcentração das coisas relacionadas com nossa vida espiritual.

-O ex-chefe da Igreja Romana, o Papa Bento XVI, bem descreveu esta realidade de nossos dias que vale a pena aqui transcrever:

“…O progresso técnico, nomeadamente no campo dos transportes e das comunicações, tornou a vida do homem mais confortável, mas também mais agitada, às vezes até desordenada. As cidades são quase sempre ruidosas: nelas raramente há silêncio, porque um barulho de fundo permanece sempre, nalgumas áreas até de noite. Além disso, nas últimas décadas o desenvolvimento dos mass media difundiu e amplificou um fenómeno que já se perfilava nos anos 60: a virtualidade, que corre o risco de dominar a realidade.

Cada vez mais, mesmo sem se dar conta, as pessoas vivem imersas numa dimensão virtual, por causa de mensagens audiovisuais que acompanham a sua vida, desde a manhã até à noite. Os mais jovens, que já nasceram nesta condição, parecem desejar encher com músicas e imagens cada momento vazio, como se tivessem medo de sentir, precisamente, este vazio.

Trata-se de uma tendência que sempre existiu, especialmente entre os jovens e nos contextos urbanos mais desenvolvidos, mas hoje ela alcançou um nível tal, que se chega a falar de mutação antropológica. Algumas pessoas já não são capazes de permanecer por muito tempo em silêncio e solidão.(…) retirando-se no silêncio e na solidão o homem, por assim dizer, «expõe-se» à realidade na sua nudez, expõe-se àquele aparente «vazio» ao qual me referia antes, para experimentar ao contrário a Plenitude, a presença de Deus, da Realidade mais real que existe, e que se encontra para além da dimensão sensível.…” (Homilia na celebração das Vésperas na Igreja da Cartuxa de Serra San Bruno. 9 out. 2011. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/benedict- xvi/pt/homilies/2011/documents/hf_ben-xvi_hom_20111009_vespri-serra-san-bruno.html Acesso em 14 nov. 2018).

-Tome-se, por exemplo, a questão do tempo gasto pelas pessoas, principalmente aqui no Brasil, nas redes sociais. Recente levantamento deu conta de que o brasileiro, em média, passa 3 horas e meia diárias nas redes sociais e, lamentavelmente, sabemos que os servos de Jesus Cristo não passam este tempo com atividades concernentes ao reino de Deus, não raras vezes com atividades que são, inclusive, nocivas à nossa vida espiritual.

OBS: “…Os dados são do relatório “2018 Global Digital”, da We Are Social e da Hootsuite, o Brasil está entre os três países do mundo no qual a população passa, em média, mais de 9 horas do dia navegando na Internet. E é um dos dois únicos países onde o tempo diário gasto nas redes sociais supera 3 horas e meia. Portanto, bem acima da média mundial nesses dois quesitos…( LUCA, Cristina. 5 fev. 2018. Disponível em: https://porta23.blogosfera.uol.com.br/2018/02/05/brasileiro-passa-mais-de-3-horas-e-meia-por-dia-em-redes-sociais/ Acesso em 14 nov. 2018).

-A situação está tão periclitante que, a exemplo do sonho de Dom Bosco, não são poucos os que estão completamente envolvidos com o telefone celular durante os cultos, completamente alheios ao que se passa, o que dá uma ideia do quanto se dedicam ao Senhor e à vida espiritual quando estão fora dos templos.

-Diante desta agitação imensa, desta ocupação da mente com coisas completamente alheias às coisas de Deus, não é difícil descobrir como a distração tem prejudicado a vida espiritual de muitos, de como o inimigo tem conseguido, com grande êxito, “separar” a mente dos salvos de Deus e o resultado disto é a consequente perda na batalha espiritual.

-A sabedoria popular, aliás, já adiantava este quadro ao dizer que “mente vazia é oficina do diabo”, a indicar que, quando nossas mentes estão vazias daquilo que se refere às coisas de Deus ou às coisas em que há alguma virtude ou algum louvor, para nos utilizarmos da expressão do apóstolo Paulo em Fp.4:8, nossa tendência é sermos seduzidos pelo inimigo e deixarmos de ter a capacidade de servi-l’O.

-Ao interpretar o seu próprio sonho, Dom Bosco disse que a distração tirava a capacidade de oração dos jovens que se tornavam, assim, vítimas do inimigo, suas presas fáceis. E temos de concordar com o entendimento daquele sacerdote romanista.

-Como vencer esta investida do inimigo? Como disse o ex-chefe da Igreja Romana, Bento XVI, é preciso haver uma “retirada para o silêncio e para a solidão”, ter um momento de intimidade com o Senhor, algo que Jesus nos ensinou a fazer, pois sempre O vemos tendo momentos a sós com o Seu Pai (Mc.1:35; Lc.5:16; 22:41), normalmente em oração. Ele próprio repreende os discípulos por não terem podido velar com Ele nem ao menos uma hora (Mt.26:40).

-Em meio à agitação de nossos dias, precisamos ter um momento de intimidade com o Senhor, dedicarmo- nos às coisas divinas, orando, meditando nas Escrituras, pensando nas coisas que são de cima. Assim fazendo, venceremos mais esta tentativa de conquista da nossa mente que é a distração.

-Temos de pensar nas coisas que são de cima e não nas que são da terra. Esta é uma das características de quem realmente foi salvo, que ressuscitou com Cristo: a busca das coisas que são de cima (Cl.3:1,2).

-Precisamos remir o tempo (Ef.5:16), aproveitando as oportunidades para nos dedicarmos ao reino de Deus e à sua justiça (Mt.6:33), o que deve ser prioritário em nossas vidas, até porque, já diziam os monges da abadia de Port Royal, grandes estudiosos da lógica, que “…as coisas infinitas, como a eternidade e a salvação, não podem igualadas por alguma vantagem temporal e, assim, jamais se deve pôr em balança com alguma das coisas do mundo…” (Lógica, p.391) (tradução nossa de texto em francês).

É, de pronto, contrário à razão querermos nos dedicar antes às coisas efêmeras e passageiras desta vida em detrimento do que é eterno e nos faz aproximar mais de Deus.

-Para tanto, precisamos ter a nossa mente firme em Deus, como diz o profeta Isaías, sempre olhando para Jesus, o autor e consumador da nossa fé (Hb.12:1), seguindo o Seu exemplo e querendo imitá-l’O a cada dia (I Co.11:1).

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11878-licao-7-os-pensamentos-a-arena-de-batalha-na-vida-crista-i

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