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LIÇÃO Nº 8 – EMOÇÕES E SENTIMENTOS: A BATALHA DO EQUILÍBRIO INTERIOR

INTRODUÇÃO

-A alma humana abrange os sentimentos e as emoções.

-A alma possui uma faculdade sensitiva.

I – A SENSIBILIDADE HUMANA

-Na continuidade do estudo da doutrina bíblica do homem, estudaremos uma de suas faculdades: a sensibilidade.

-O homem é a única criatura dotada de alma imaterial e esta alma imaterial é responsável pela individualização de cada ser humano e, nesta individualização, tem formada a sua personalidade, que é composta de três faculdades, a saber: a razão (ou intelecto), a sensibilidade e a vontade.

-Nas duas lições anteriores, abordamos a vontade e a razão, restando, pois, dissertarmos sobre a sensibilidade.

-A Bíblia Sagrada mostra-nos que o Senhor Deus é um ser que tem sensibilidade. Quando Moisés pediu para ver a Deus, embora o tenha visto apenas “pelas costas”, no instante mesmo em que o Senhor lhe aparece de modo especial, como que numa revelação que lhe dá o Criador, clama os chamados “treze atributos da misericórdia” (Yud Gimel Midot HaRachamim),

que revelam toda a sensibilidade, pois mostra que Deus é compassivo (ou seja, empático, capaz de sentir o que o outro está a sentir, notadamente o que o homem sente), gracioso (disposto a favorecer o outro incondicionalmente), tardio em irar-Se (ou seja, alguém que se indigna ante o mal), magnânimo em bondade (i.e., faz o bem como ninguém), beneficente (que faz o bem a outrem), perdoador da iniquidade (Ex.34:6,7).

-Ora, se o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, é evidente que tem de ser, também, uma pessoa sensível. E isto já notamos no início da história da humanidade. Quando o homem descobriu ser dotado de razão ao dar nome aos animais, tendo percebido que estava só, teve esta sensação da solidão (Gn.2:20).

-O homem teve o sentimento da solidão, sentimento que não era bom (Gn.2:18) e, como Deus não quer que o homem sofra, imediatamente lhe deu profundo sono e, quando despertou, Adão já não mais tinha este mau sentimento, pois o problema fora resolvido, com a criação da mulher.

-Nota-se, pois, que Deus criou o homem para que ele tivesse sensações, a saber, emoções e sentimentos, mas que, em comunhão com seu Criador, tais sentimentos e emoções sempre o levariam à felicidade, que, como ensina Mário Ferreira dos Santos (1907-1968),

“…implica a exclusão total de todos os males, a posse de todos os bens e a sua perpetuidade, quer subjetivamente (certeza dessa posse), quer objetivamente, a posse perfeita de fato.…” (Felicidade. In: Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p. 709), felicidade que, quanto à sensibilidade, confunde-se com o bem-estar, entendido este como “…a satisfação das necessidades meramente corpóreas do homem… (idem, p.711).

-De pronto, vemos que o homem não pode apenas se deixar guiar pela sensibilidade, que deve ser unida à razão e à vontade e, estas três faculdades devidamente governadas pelo espírito humano, para que se tenha a felicidade perfeita, a felicidade completa, que as Escrituras denominam de “bem-aventurança”.

-A sensibilidade humana inicia-se pela sensação, que é “…elemento mais simples da consciência. Ela é “a repercussão na consciência de uma impressão produzida no corpo”, mais acentuada nas regiões em que a inervação é mais rica, como são as dos órgãos dos sentidos. O fator exterior que a provoca é chamado de excitação. É um estado psicológico, em que se encontra o psiquismo ante um complexo processo de fatos mais elementares. Nela reconhecemos:

1) certa qualidade – pode ser auditiva, táctil, visual etc., certo caráter específico;

2) certa intensidade – mais intensa, menos intensa;

3) certo tom afetivo – agradável ou desagradável, em graus maiores ou menores. Duvidam os psicólogos das chamadas sensações indiferentes;

4) certo conteúdo representativo – é uma informação, mais ou menos nítida do mundo exterior.… (SANTOS, Mário Ferreira dos. Sensação. In: op.cit., p.1221).

-As sensações promovem as emoções, que, como diz o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, é a “reação orgânica de intensidade e duração variáveis, geralmente acompanhada de alterações respiratórias, circulatórias etc. e de grande excitação mental”.

Como diz o psicólogo americano Ernest Ropiequet Hilgard (1904-2001): “…a vida sem emoção seria insípida. Se não houvesse alegrias e tristezas, esperanças e decepções, vibrações ou triunfos na experiência humana, não haveria entusiasmo nem cor…’ (apud LOPES, Jamiel de Oliveira. Psicologia pastoral, p.33).

-Aliás, é o próprio pastor e psicólogo Jamiel de Oliveira Lopes quem afirma: “… A emoção é uma força construtiva e estimuladora da atividade humana. É a emoção que impele os seres humanos à atividade (…) (ibid.). E o faz com razão, já que a própria etimologia da palavra “emoção” vem do francês “émotion”, derivado de “émouvoir”, que significa “movimento, perturbação”.

-“…podem-se observar as seguintes diferenças entre eles: sensações são reações corporais, causadas por um estímulo. São, portanto, fenômenos puramente perceptuais. Os sentimentos são experiências subjetivas, acessíveis apenas à própria pessoa.

As emoções, por outro lado, são expressivas, observáveis pelos outros (DAMÁSIO, 2000). Outra diferença entre sentimentos e emoções, conforme apontado por Reeve (2006) e Bock, Furtado e Teixeira (2008) é a duração. Os sentimentos são mais duradouros, menos explosivos e não vêm acompanhados de reações orgânicas intensas. Já as emoções são fortes, passageiras e mutáveis. Portanto, o que emociona um indivíduo hoje, pode não emocioná-lo amanhã.…” (CÉZAR, Adieliton Tavares; PINHEIRO, Helena e VASCONCELOS, Jucá.

Diferenciando sensações, sentimentos e emoções: uma articulação com a abordagem gestáltica. IGT na Rede v.13 n.24 Rio de Janeiro 2016. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1807-25262016000100002 Acesso em 26 ago. 2025).

-Os psicólogos consideram que as primeiras emoções são o medo, a ira e o amor, chamada, por isso mesmo, de emoções primárias e que as demais emoções derivariam destas três primeiras.

-“…várias emoções do homem, tais como: ‘odiar’, ‘amar’, ‘desejar’ coisas boas ou más, ‘aspirar’, ‘sentir’ etc. são sempre reações exercidas por meio de sua alma e, concomitantemente, conhecidas através do corpo.…” (SILVA, Severino Pedro da. Corpo, alma e espírito, pp.71-2).

-Entre os autores da Idade Média, a emoção era denominada de “apetite irascível”, que se distinguia das inclinações, chamadas de “apetites concupiscentes”. Como ensina Mário Ferreira dos Santos, apetite é “…a

propensão dirigida para algo desejado, algo conveniente, adequado ao apetente. Desejo instintivo, que tem sua origem numa necessidade física.…” (Apetite. In: op.cit., p.125).

-Além das emoções, a sensibilidade também abrange os sentimentos. Num primeiro significado, “…O termo sentimento significa aptidão para sentir; disposição para se comover ou se impressionar; sensibilidade; disposição afetiva em relação a coisas de ordem moral ou intelectual, afeto, amor, tristeza, pesar, dor, prazer. Envolve afeições e desejos da alma. É o que faz do ser humano um ser emotivo e não insensível.…” (LOPES, Jamiel de Oliveira. op.cit., p.23).

Sentimento aqui poderia se confundir com a própria sensibilidade.

-Num segundo significado, “… O sentimento é a interpretação subjetiva e mental que fazemos dessa emoção, sendo uma experiência interna, mais duradoura e passível de ser escondida (…) Segundo o neurocientista António Damásio, o processo começa com a emoção, que é uma reação física. O cérebro, então, processa e interpreta essa emoção, e essa interpretação se torna o sentimento. Ou seja, o sentimento é o que fica “depois” da emoção, uma forma de elaborar e entender o que ocorreu.…” (IA do Google).

-Voltando ao episódio da nomeação dos animais por Adão, o sentimento de solidão teria sido o resultado da constatação, do processamento cerebral de Adão de que, ao contrário dos demais seres, não tinha ele alguém que estivesse diante dele, o que o fez se sentir só.

-O homem foi, então, criado para ter sensibilidade, para reagir às sensações decorrentes do mundo exterior, como também às próprias ações praticadas pelo seu próximo, o que o aproximava ainda mais de Deus.

-Sua sensibilidade era como que “calibrada” a cada dia, os sentimentos e emoções o faziam cada vez mais feliz, ainda mais que tinha sempre um encontro marcado com o seu Criador na viração do dia (Gn.3:8).

-No entanto, no dia da queda, o diabo conseguiu enganar o primeiro casal e este engano se deu na tentação de Eva. No processo da tentação, há um importante elemento, que Tiago, o irmão do Senhor, denomina de atração e engodo da própria concupiscência (Tg.1:14).

-Para entendermos o que diz o primeiro pastor da igreja em Jerusalém, devemos ver que a ideia de “atração” nos remete ao que já falamos sobre “apetite”. Após ter iniciado o diálogo com a mulher, a serpente a lança no campo da dúvida, fazendo-a descrer na Palavra de Deus, da qual Eva demonstrou não ter perfeito conhecimento, tanto que faz citação errada da ordem divina.

-Em seguida, já com sua fé abalada, a mulher é instigada pelo diabo em seu apetite, com a mentira de que seria igual a Deus, sabendo o bem e o mal, caso comesse do fruto proibido da árvore da ciência do bem e do mal.

-Ela passa a ver a árvore da ciência do bem e do mal como “boa para se comer”, porque há aqui um desejo de consumo daquele fruto. Tem-se aqui o surgimento de um “apetite concupiscente”, ou seja, de uma inclinação, pois a concupiscência é, como nos diz Mário Ferreira dos Santos, “…desordenada habitualidade do apetite humano dirigido ao ato contra a razão, que pode aumentar o poder executivo do ato ou não…” (Ato humano. In: op.cit., p.179).

-O desejo é, então, desviado da direção divina, da verdade e da obediência, tornando-se concupiscência e esta concupiscência, muito bem definida pelo pastor Claudionor Corrêa de Andrade (1955-2025) como “…apetite carnal exagerado e insaciável…” (Concupiscência. In: Dicionário Teológico, p.90), é concebida, dando à luz ao pecado (Tg.1:15).

-Enlaçada pela “concupiscência da carne” (I Jo.2:16), a mulher, então, deixou-se levar pela “concupiscência dos olhos”, pois entendeu que a árvore era “agradável aos olhos” (Gn.3:6).

-Aqui vemos que a visão é dos sentidos um dos que mais é utilizado na tentação, por ser o mais poderoso de todos eles no contato com o mundo exterior. Bem por isso o Senhor Jesus ensinou que devemos ter todo o cuidado com os nossos olhos, que chamou de “candeia do corpo”, pois se eles forem bons, todo o corpo terá luz, mas, se forem maus, o corpo será tenebroso (Mt.6:22,23).

-Jó, um homem de que Deus dava testemunho (Jó 1:8; 2:3), conhecia bem esta verdade espiritual, tanto que fez questão de fazer concerto com os seus olhos diante de Deus (Jó 31:1).

-Por fim, a mulher acabou por ser envolvida pela “soberba da vida” (I Jo.2:16), pois considerou que a árvore era também “desejável para dar entendimento” (Gn.3:6) e “…a concupiscência tem o cerne no orgulho e na altivez do espírito.…” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Concupiscência. In: op.cit., p.90).

-A tentação, portanto, opera sobre a sensibilidade para que, a partir daí, venha a comprometer as demais faculdades da alma, atingindo tanto a razão quanto a vontade.

-Notemos, aliás, que a maior sensibilidade da mulher em relação ao homem fez com que o diabo tentasse a mulher. Já o homem, mais voltado à racionalidade, não precisou sequer ser enganado para pecar, tendo decidido pecar após ser convencido da mentira pela própria mulher, que reverberou o engano satânico (Gn.3:6;
I Tm.2:14).

II – AS FACULDADES DA ALMA SÃO TRANSTORNADAS PELO PECADO

-Consoante já temos visto, a alma é a sede da personalidade humana, o que nos torna diferentes uns dos outros, o que nos faz indivíduos, pois “indivíduo” é aquele “organismo único, distinguível dos demais do grupo”, o que nos torna únicos, diferentes dos demais.

-Tanto assim é que Eva e Adão foram levados ao pecado de modo distinto: a mulher, mediante o desvio da sua sensibilidade; Adão, mediante o desvio de sua racionalidade.

-A alma foi criada para ter sede de Deus, porque somente na presença de Deus terá a sua plenitude, obterá o necessário complemento com o seu Criador (Sl.42:2).

-Como afirma Charles Haddon Spurgeon, o príncipe dos pregadores britânicos: “…2. “A minha alma.” Toda a minha natureza, todo o meu ser interior. “Tem sede.” O que é mais do que ter fome. A fome pode ser disfarçada, mas a sede é terrível, insaciável, clamorosa e mortal.

Ter a mais intensa apetência pelo mais alto bem! Esta é uma inquestionável característica da graça. “De Deus.” Não meramente sede do templo e dos cultos, mas da comunhão com o próprio Deus. Só os espirituais podem compreender este tipo de sede. “Do Deus vivo. ” Porque Ele vive e dá aos homens a água viva. Por isso, nós, com maior avidez, o desejamos.

Um Deus morto não passa de zombaria. Detestamos tal deidade monstruosa. Mas o Deus eterno, a fonte perene de vida, luz e amor, é o desejo de nossa alma. O que são ouro, honra, prazer, senão ídolos mortos? Que jamais bramemos por estes.…” (Os Tesouros de Davi, v.1. Trad. de Degmar Ribas Júnior e Luís Aron de Macedo, p. 902).

-A alma possui três faculdades: a racionalidade, a sensibilidade e a vontade. Nosso intelecto, nossos sentimentos e nossa vontade devem ser dirigidos a Deus, somente encontram o cumprimento de seus propósitos se estiverem unidos ao Senhor.

-Devemos pensar nas coisas que são de cima, nas coisas espirituais (Cl.3:1,2), naquilo que é agradável a Deus, a saber, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso devemos pensar (Fp.4:8).

-Devemos ter o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus (Fp.2:5), o sentimento de altruísmo e humildade que O fez Se humanizar e ser obediente até à morte, e morte de cruz, para que pudéssemos alcançar a salvação.

-Este sentimento é mostrado pelo apóstolo Paulo, nessa passagem bíblica, como sentimento de conforto em Cristo, consolação de amor, entranháveis afetos e compaixões (Fp.2:1), que tem, inclusive, a capacidade de gerar a alegria no próximo e a construir uma unidade com o outro (Fp.2:2).

-O sentimento altruísta é advindo da comunhão com Deus, é a demonstração do amor ao próximo e do amor de Deus, pois é o sentimento do Senhor em relação à humanidade.

-Por fim, devemos fazer a vontade de Deus. O Senhor dotou o ser humano com o livre-arbítrio precisamente para que ele voluntariamente se submeta aos desígnios divinos.

-Esta dinâmica alterou-se profundamente com a queda do homem. Com ela, o ser humano passou a ser escravo do pecado (Jo.8:34) e há uma desordem total na alma humana.

-O pecado lança o homem nas trevas espirituais, faz com que perca a visão espiritual e deixe de ver as coisas de cima, de ter a verdadeira noção da eternidade (II Co.4:4).

-O intelecto não mais leva em consideração o eterno e há um obscurecimento que o faz contemplar tão somente as coisas desta vida (Rm.1:21-23).

-O raciocínio humano dominado pela natureza pecaminosa não vislumbra as realidades eternas, tem seu horizonte tão somente nesta vida terrena, que não é vista como passageira mas como algo supostamente permanente.

-Esta situação é bem definida pelo profeta Isaías: “Mas eis aqui gozo e alegria; matam-se vacas e degolam- se ovelhas; come-se carne, e bebe-se vinho, e diz-se: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (Is.22:13).

-Tal mentalidade é a que permitem surgir doutrinas e práticas como o ateísmo, que nega a existência de Deus; o materialismo, que nega a existência do que não seja material, que não crê num “sobrenatural”; o humanismo, que enxerga o homem como o centro de todas as coisas; o hedonismo, que defende que se deve buscar o máximo prazer nas coisas desta vida, já que não existe algo além desta existência sobre a face da Terra.

-É esta a mentalidade mostrada pelo apóstolo Paulo ao mencionar a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça e que dá, inclusive, a origem à idolatria (Rm.1:18-23).

-Em virtude desta mentalidade, a Bíblia Sagrada chama o homem sob o domínio do pecado de “louco” (Rm.1:22), mesma expressão que é utilizada ao longo de todo o livro de Provérbios para designar aqueles que não temem a Deus, que não desejam servi-l’O.

-No estado pecaminoso, o homem também tem deturpada sua sensibilidade. A sensibilidade que, conforme já visto, envolve os sentimentos e as emoções.

-Os sentimentos e emoções são chamados de “paixões” (At,.14:15), “afetos” (II Co.6:12; Fp.2:1) nas Escrituras, Escrituras estas que nos revelam que, no pecado, a sensibilidade se encontra completamente deturpada, com o domínio da carne, ou seja, da natureza pecaminosa.

-Temos, então, a prevalência da “concupiscência”, ou seja, dos desejos incontrolados que levam o homem a uma série de práticas abomináveis e contrárias à vontade do Senhor.

-“…A concupiscência é condenada energicamente pela Bíblia (I Jo.2:15-17). É tida como algo efêmero, passageiro e tremendamente prejudicial à vida piedosa.…” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Concupiscência. In: op.cit., p.90).

-O sentimento passa a ser egoísta. O individualismo predomina, como nos dá conta o apóstolo Paulo em II Tm.3:1-5, que confirma, nos últimos tempos, os tempos em que estamos a viver, o que já dissera em Rm.1:28- 32.

-O homem separado de Deus por causa do pecado é entregue às concupiscências do seu coração, à imundícia, à desonra de seus próprios corpos, à sensualidade, a um sentimento perverso que os leva a fazer coisas que não convém.

-A consequência disto é a escravidão do ser humano. Ele passa a ser escravo do pecado, não tem liberdade para dizer não ao pecado, vivendo na sua prática dia após dia, sem condições de se livrar “do corpo desta morte” (Rm.7:24).

-Tendo acreditado na mentira satânica de que, pecando, “seria como Deus sabendo o bem e o mal” (Gn.3:5), o homem passa, na verdade, a não fazer o que quer, mais sim ao que manda a sua natureza pecaminosa (Rm.7:11,19,20).

-Em vez de ser “totalmente livre de Deus”, como prometera o pai da mentira, passa, isto sim, a fazer os desejos do diabo (Jo.8:44), tornando-se um verdadeiro “filho do diabo” (I Jo.3:8-10), sendo um praticante de injustiça e alguém que não ama a Deus nem ao próximo.

-Este, pois, é o triste quadro da alma humana sem a salvação: um intelecto que não enxerga as coisas espirituais, que lhes são invisíveis, embora sejam as eternas e permanentes; uma sensibilidade deturpada que o leva a ter paixões infames e sentimentos perversos e uma vontade dominada pelo diabo, a cujos desejos sempre satisfaz.

-Trata-se de uma alma que desagrada a Deus e que, em verdade, Lhe declara guerra, que está sempre em conflito com o seu Criador, uma alma que está a perecer na sequidão do maligno.

-Jesus, porém, chama o homem à salvação. Apresenta-se como Aquele que pode saciar esta sede de Deus que tem a alma humana. Convida o homem a vir até Ele para que d’Ele beba, dando-lhe água viva (Jo.4:10,14; 7:37; Ap.22:17).

-Quando o homem ouve a pregação do Evangelho, crê em Jesus e alcança a salvação, esta situação de conflito da alma com Deus desaparece e se estabelece a paz com Deus (Rm.5:1) e a paz de Deus (Rm.1:7; Fp.4:7; Cl.3:15).

III – A DETURPAÇÃO DA SENSIBILIDADE PELO PECADO

-A sensibilidade humana é profundamente deturpada pelo pecado. Paulo, ao descrever “a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça” (Rm.1:18), diz que os homens foram abandonados às “paixões infames” (Rm.1:26), a um “sentimento perverso” (Rm.1:28), lembrando, mais adiante, na mesma carta, que quem está na carne, ou seja, dominado pela natureza pecaminosa, vivíamos sob a operação das “paixões dos pecados” (Rm.7:5)

-Aos tessalonicenses, Paulo diz que as pessoas que não conhecem a Deus, os gentios, vivem na “paixão de concupiscência” (I Ts.4:5) e, aos gálatas, diz que a carne se constitui em “paixões e concupiscências” que são crucificadas com Cristo quando de nossa redenção (Gl.5:24).

-A Timóteo, Paulo diz que, nos últimos tempos, que seriam trabalhosos, havia homens “sem afeto natural” (II Tm.3:3), homens que também seriam “amantes de si mesmos” (II Tm.3:2), anunciando um egoísmo que também irá denunciar aos coríntios, ao dizer que estavam eles estreitados nos seus próprios afetos (II Co.6:12).

-Paulo diz que os homens no pecado não só foram “entenebrecidos no entendimento” (Ef.4:18), como também “perderam todo o sentimento” (Ef.4:19), o que nos faz lembrar da expressão dita pelo profeta Ezequiel de que o Senhor, ao salvar o homem, haveria de trocar “o coração de pedra” por um “coração de carne” (Ez.11:19; 36:26), demonstrando como a sensibilidade humana é ferida de morte pelo pecado.
-Tiago mostra que o homem no pecado, sob o domínio do mal, porta “amarga inveja e sentimento faccioso” (Tg.3:14).

-A utilização da palavra “paixão” para descrever esta sensibilidade contaminada pelo pecado pode levar alguns a considerarem que o apóstolo Paulo estaria a adotar a filosofia estoica, na qual, certamente, foi formado (Tarso, sua terra natal, era um dos centros de estudos dos estoicos), havendo, mesmo, uma linha de pensamento que vê na teologia paulina uma influência estoica e o estoicismo tem, entre suas doutrinas, o de entender que as paixões devem ser evitadas, são um elemento perturbador para a condução correta do ser humano por meio da razão.

-No entanto, tal não se dá, porque o apóstolo ao falar das paixões em Rm.1:28, faz questão de ressaltar que são as “paixões infames”, ou seja, as paixões desonrosas, vis, indignas (a palavra grega “atimia” – ἀτιμία), a nos mostrar que não defendia a ausência de emoções ou que se deveria seguir somente pela razão com desprezo ao emocional.

-A “paixão infame”, portanto, é aquela que se dá fora da direção divina, em contrário à vontade do Senhor, ou seja, “a paixão de concupiscência” (I Ts.4:5), aquela promovida pelo desejo incontrolado nascido da tentação e que é algo encontradiço no mundo (I Jo.2:15), mundo que está no maligno (I Jo.5:19), a “paixão do pecado” (Rm.7:5).

-Em todas estas passagens, a palavra em foco é “pathos” (πάθος) [em Rm.7:5 e Gl.5:24 temos a derivada “pathema” – πάθημα], cujo significado é “…propriamente sofrimento (“emoção”), i.e., (sujeito) uma paixão (especialmente concupiscência): — (desenfreada) sentimento, desejo.…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 3806, p.2333).

-Esta ideia de que a sensibilidade não é um mal em si se reforça na utilização da expressão “sujeito às mesmas paixões”, que encontramos tanto em At.14:15 como Tg.5:17, que é a palavra grega “homoiopatheis” (ὁμοιοπαθεῖς), onde tanto Paulo e Barnabé quanto Tiago mostram que tanto salvos quanto inconversos possuem as mesmas emoções, os mesmos sentimentos, sendo que o que diferencia é o fato de a sensibilidade estar submetida ao poder e natureza pecaminosos entre os que não servem a Cristo e estar debaixo do controle divino após a salvação.

-O mesmo se dá quando falam as Escrituras a respeito de “sentimento”. O “sentimento perverso” mencionado em Rm.1:28, foi traduzido como “modo de pensar reprovável” pela Nova Almeida Atualizada (NAA), já que a palavra “sentimento” é a palavra grega “nous” (νοῦς), cujo significado é “…o intelecto, i.e., mente (divina ou humana, em pensamento, sentimento ou vontade); consequentemente significando:— mente, entendimento…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 3563, p.2313).

-Estaríamos aqui, pois, mais propriamente falando da razão e não do sentimento, ainda que o sentimento, conforme visto supra, seja a interpretação subjetiva de uma emoção, ou seja, uma emoção processada pelo intelecto.

-De qualquer maneira, aqui também não se recrimina o sentimento, mas, sim, aquele sentimento que é perverso, e a palavra grega aqui é “adokimos” (ἀδόκιμός), cujo significado é “…desaprovado, i.e., rejeitado (por implicação) indigno (no sentido literal ou moral):— marginal, rejeitado, réprobo…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 96, p.2038).

-Aqui se tem, uma vez mais, a ideia de um sentimento nascido em contrariedade à vontade divina, em desobediência ao Senhor, como um ato de rebeldia.

-A palavra “sentimento” também se encontra em Fp.2:5; 2:20 e I Pe.3:8, todos apontando um sentimento vinculado a Jesus Cristo e proveniente dos salvos, estando em foco aqui a palavra grega “phronesis” (φρονησις) e palavras derivadas, cujo significado é “ação ou atividade mental, i.e., discernimento moral ou intelectual:— prudência, sabedoria” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 5428, p.2452), sendo que o verbo correspondente “phroneo” (φρονέω), cujo significado é “…exercitar a mente, i.e., alimentar ou ter um sentimento ou opinião, consequentemente, estar (mentalmente) disposto (mais ou menos fervorosamente em certa direção) …” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 5426, p.2452).

-A NAA traduziu “sentimento” como “modo de pensar” em Fp.2:5 e em I Pe.3:8, mas, como já vimos, o sentimento é uma emoção processada pela mente, de modo que se pode entender que se está a falar da sensibilidade e não do entendimento nas referidas passagens.

-Em Ef.4:19, Paulo diz que os gentios, ou seja, os incrédulos, “perderam todo o sentimento” e, para tanto, faz uso do verbo “apalgeo” (ἀπαλγέω), cujo significado é “afastar-se de sentir uma dor forte”, ou seja, “tornar-se insensível”, “…tornar-se apático:— ultrapassar a insensibilidade” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 524, p.2076).

-Há aqui a ideia de que a sensibilidade é sufocada pelo pecado, a pessoa deixa de ter emoções ou sentimentos voltados para o bem, para a vontade do Senhor, não só não tendo mais qualquer sentimento em relação a Deus como também ao próximo, pensando estar voltado para seu próprio bem-estar, num egoísmo e individualismo que, entretanto, leva-o, na verdade, à própria destruição, pois, no descontrole de seus desejos, na insaciabilidade e desenfreada busca pelo prazer, acaba, mesmo, por destruir-se, como temos visto sobejamente entre aqueles que se entregam ao prazer e a suas vaidades e que acabam cedo encontrando um triste fim.

-É o mesmo sentido da expressão “sem afeto natural”, uma das qualidades que o apóstolo Paulo dá aos homens maus que surgiriam nos tempos trabalhosos dos últimos dias (que são os nossos dias, os dias finais da dispensação da graça) em II Tm.3:3.

Temos aqui a palavra grega “astorgoi” ( ἄστοργοι), cujo significado é “…sem amor familiar (…) desprovido de afeição natural, desumano…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 794, p.2099).

-Este egoísmo é denunciado pelo apóstolo dos gentios em sua segunda carta aos coríntios, quando salienta que eles, ao contrário dele, estavam “estreitados em seus próprios afetos”, e, aqui, a palavra “afeto” é a palavra grega “splanchnon” (σπλάγχνον), cujo significado é “…um intestino (plural); (figurado) piedade ou simpatia, solidariedade:— entranhas, afeto interior, + graça, misericórdia” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 4698, p.2400).

-Isto faz-nos lembrar da “filáucia”, que é o amor próprio, a vaidade, o egoísmo, a jactância. Como ensina o pastor Claudionor Corrêa de Andrade (1955-2025):

“…Tal afeto é combatido pelas Sagradas Escrituras que, em todos os seus livros, ensina o altruísmo. A filáucia, aliás, foi o pecado que levou o querubim ungido (Satanás) à ruína. A filáucia contraria todas as virtudes teológicas, pois têm estas como base o amor sacrificial e altruísta (Jo 15.12).…” (Filáucia. In: Dicionário Teológico, p.159).

-Quando falamos em afeto, devemos observar que “…Com afeto designamos cada mudança de potencial na sensibilidade que é provocada por um motivo exterior.

É ligada sempre a uma tendência, sem entretanto confundir-se com ela. (Mudança de disposição não significa evidentemente uma modificação na estrutura natural da sensibilidade, mas uma determinação intrínseca, análoga ao que na região cognoscitiva, se nomeia com o termo escolástico intencional). Pela definição dada os afetos pertencem aos sentimentos, formando entre eles uma categoria própria ao lado das tendências afetivas.…” (SANTOS, Mário Ferreira dos. Afeto. In: Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, p.73).

-Em Tg.3:14, fala-se do “sentimento faccioso”, que é a palavra grega “eritheia” (ἐριθεία), cujo significado é “…a rigor, intriga, i.e., (consequentemente) facção:— contenda, contencioso, luta, disputa.…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento verbete 2052, p.2211). A NAA traduz a palavra como “sentimento de rivalidade”.

-Temos aqui mais uma demonstração de um sentimento desviado da direção divina, porquanto a rivalidade, a contenda, a disputa é algo que é próprio da natureza pecaminosa (Gl.5:20,21), pois os que causam divisão não têm o Espírito Santo (Jd.19).

IV – A SENSIBILIDADE SUBMETIDA AO CONTROLE DO ESPÍRITO

-No estado pecaminoso, o homem torna-se uma “pedra bruta”. Seu “coração de pedra” é incapaz de sentir, de ter afeição a Deus ou ao próximo, inexiste a empatia e a compaixão, passando o homem a viver supostamente em função de si mesmo, “olhando para o seu próprio umbigo”, buscando saciar os seus instintos, que se transformam em desejos incontrolados.

-Sim, no estado pecaminoso, o homem reage às suas sensações sem qualquer controle, porquanto a natureza pecaminosa o leva a querer contentar a sua concupiscência, que é o desejo descontrolado, levando-a a uma busca incessante por mais e mais prazeres e sensações, que acabam por destruí-lo tanto física quanto emocionalmente.

-O sentimento, que é a interpretação subjetiva de emoções, o processamento mental destas emoções, é aprisionado pela carne e, desta maneira, tem seu direcionamento, que deveria ser o de agradar a Deus e fazer bem ao próximo, encaminhado para o próprio “eu”, mas não para seu bem, porquanto bem algum há quando se dá o afastamento de Deus.

-O sentimento é dirigido para a separação entre o homem e Deus, ou seja, para a morte, e o resultado disto é o desvirtuamento completo do ser humano em sua sensibilidade, levando-o a situações de total transtorno e desequilíbrio, com o desenvolvimento de toda espécie de problemas e distúrbios psicológicos, tais como a ansiedade, depressão, pesar, ideação paranoide, delírios, alucinações, neuroses, psicoses e disposições psíquicas anormais.

-Uma das demonstrações de que estamos a viver o “princípio das dores” (Mt.24:8), as vésperas do pior período da história humana, que será a Grande Tribulação, é o fato de que hoje são as doenças mentais as que mais proliferam no planeta, tanto que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a depressão como “o mal do século XXI”.

-A salvação em Cristo Jesus, porém, altera profundamente esta circunstância. O novo homem, nascido de novo, passa a ter o mesmo sentimento de seu Salvador e tal sentimento é o de não se voltar a si mesmo, mas sim a Deus e ao próximo.

-Jesus, sendo Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-Se a Si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz (Fp.2:5-8).

-Este mesmo sentimento existe agora no salvo, que passa a reagir às sensações e emoções sempre na perspectiva de se negar a si mesmo, de não buscar o próprio interesse, mas, sim, o de agradar a Deus e ao próximo, querendo bem ao seu semelhante e não se estreitando em seu próprio afeto, mas demonstrando empatia e compaixão, querendo que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

-Por isso, o salvo em Cristo Jesus faz o bem sem medir esforços para fazê-lo, sem olhar a quem o faz, tendo afeto, compaixão e empatia nos seus relacionamentos interpessoais e se cuidando para que possa ter condições de poder glorificar a Deus diante dos homens.

-Isto se torna possível porque, com a salvação, há a consequente “reativação” do espírito humano, que passa a governar o corpo e a alma, ou seja, passa a governar a nossa sensibilidade também, e, como agora entramos em comunhão com o Espírito Santo, Este derrama em nós o amor de Deus (Rm.5:5).

-Este amor é desinteressado, não busca seus próprios interesses (I Co.13:4,5) e, deste modo, o foco deixa de ser o “eu”, mas passa a ser o “outro”, tanto Deus quanto o próximo.

-Este governo do espírito, também, faz com que haja o controle das emoções e sentimentos. O “apetite desordenado” (Cl.3:5), próprio de quem está no estado pecaminoso, é controlado, não havendo mais a prevalência da concupiscência.

-Entra aqui uma das qualidades do fruto do Espírito, qual seja, a temperança.

-Em o Novo Testamento, a palavra “temperança” é o termo grego “enkrateia” (ἐγκράτεια), que, literalmente, é o “governo interior”, ou seja, o “domínio próprio”, vocábulo que se encontra por três vezes nas Escrituras, na Versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), a saber: At.24:25, Gl.5:22 e II Pe.1:6.

-O adjetivo “temperante” está presente em Tt.1:8 e “temperada” em Cl.4:6. Mas não são apenas nestas passagens que temos a ideia de temperança, que presente está em outros textos em o Novo Testamento.

-Dizem os lexicógrafos que a temperança é “a qualidade ou virtude de quem é moderado, comedido”, “o poder ou virtude pela qual o homem pode refrear os apetites desordenados”.

-Verificamos, então, que a temperança é o domínio que alguém tem sobre si mesmo, sobre os seus apetites. A ideia de temperança vem de proporção, de sobriedade, de moderação.

-O homem no pecado não tem condição de dominar a si próprio, mas quem o domina é a natureza pecaminosa que nele está, de modo que Paulo afirma que o pecador não consegue fazer o bem que quer, mas o mal que não quer é que é feito (Rm.7:19), de tal sorte que o homem não passa de um instrumento do pecado que nele habita (Rm.7:20) e, por isso, é chamado por Jesus de servo do pecado (Jo.8:34).

O domínio de si próprio exige, antes de mais nada, que o homem possa se libertar do domínio do pecado e isto só é possível mediante a salvação na pessoa de Cristo Jesus (Jo.8:36).

-Somente pode ter temperança, ou seja, domínio próprio, portanto, quem alcança a salvação em Cristo Jesus, porquanto não é possível que alguém possa dominar a si mesmo enquanto for dominado pelo pecado, enquanto for servo do pecado.

É por este motivo que não é correta a consideração da temperança como uma virtude humana e natural, como entendem sejam os filósofos, sejam os próprios teólogos católico-romanos, pois é indispensável que, para que alguém tenha temperança, seja, antes de mais nada, liberto do pecado por intermédio de Jesus Cristo.

OBS: Interessante notar que, mesmo entre os filósofos, a ideia de temperança está vinculada a de liberdade. Sêneca, um dos maiores filósofos romanos, contemporâneo do apóstolo Paulo, afirmou que “a primeira vítima da falta de temperança é a própria liberdade” e Demófilo disse que “não é livre quem não tenha obtido domínio sobre si mesmo”.

-Esta é, aliás, a grande diferença entre o “homem carnal”, descrito pelo apóstolo Paulo em Rm.7 e o “homem espiritual”, em Rm.8. O primeiro é dominado pelo pecado, incapaz de controlar seus sentimentos e emoções,

como também a sua vontade. Faz o que é errado, mesmo sabendo que está a errar e a se condenar praticando o pecado.

-O homem espiritual, porém, tem condição de agradar a Deus, dizer não ao pecado e controlar seus sentimentos e emoções, direcionando-os segundo a vontade do Senhor.

-Há de se salientar, também, a existência dos “crentes carnais”, ou, como denomina Watchman Nee, os “crentes anímicos”, que são aqueles que, embora tenham abandonado o pecado, ainda permitem que o “eu” continue:

“…O andar pelo Espírito Santo não é só não cometer pecado mas também não permitir que continue o eu. O Espírito Santo pode manifestar seu poder somente naqueles que vivem por Ele.

Quem anda com sua força natural não pode esperar dar testemunho das poderosas realidades do Espírito Santo (…). Os que são anímicos desfrutam de algumas experiências espirituais. Mas essas são mistas,
entretanto, com a mistura do anímico com o espiritual.

Esses crentes estão familiarizados com o perfil de um andar espiritual, porque o Espírito Santo os guiou para fazê-lo. Mas, devido aos muitos obstáculos, com frequência revertem à energia natural para que lhes proporcione a força para sua vida, esperando cumprir os santos requerimentos de Deus por meio de sua carne. Estes seguem seus desejos e ideias e procuram o prazer dos sentidos e a sabedoria mental.

Embora possam ser espirituais em conhecimento, no tocante à realidade dos fatos são anímicos. O Espírito Santo reside de modo genuíno em seu espírito e lhes concedeu a experiência de vencer o pecado por meio da operação da cruz. Mas não recebeu deles a permissão de dirigir suas vidas.…” (NEE, Watchman. op.cit., p.124).

-É por isso que o apóstolo Paulo se dirige a estes cristãos como “meninos em Cristo” (I Co.3:1), que ainda não alcançaram a maturidade espiritual, porquanto, em função de ainda não se terem deixado dominar plenamente pelo Espírito Santo, ou seja, pelo espírito humano que nos leva a ter comunhão com o Consolador, tais pessoas ainda andam segundo os homens (I Co.3:3).

– Quando, porém, aniquilamo-nos a nós mesmos e passamos a ter o mesmo sentimento de Cristo Jesus, passamos a ser homens espirituais e nossa sensibilidade é devidamente controlada pelo Espírito Santo e, por conseguinte, teremos sensações, emoções e sentimentos dirigidos pelo Senhor e faremos o bem a nós mesmos e ao próximo. Que Deus nos permita chegar a tal patamar.

 Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11909-licao-8-emocoes-e-sentimentos-a-batalha-do-equilibrio-interior-i

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