LIÇÃO Nº 8 – UMA IGREJA QUE ENFRENTA OS SEUS PROBLEMAS
A Igreja é imperfeita e deve enfrentar os problemas que se apresentam na direção do Espírito Santo.
INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da igreja em Jerusalém, estudaremos a questão do “ministério cotidiano”.
I – PROBLEMAS EXISTIAM NA IGREJA EM JERUSALÉM
-Ao longo deste trimestre, temos enfatizado a ideia de que a igreja retratada por Lucas no livro de Atos, principalmente a igreja em Jerusalém, não era uma igreja perfeita, embora seja o modelo a ser imitado por todas as igrejas locais, já que se trata do modelo que foi descrito por inspiração do Espírito Santo.
-No entanto, a igreja primitiva, a igreja em Jerusalém, não era perfeita, visto que formada por homens imperfeitos, assim como nós, ainda que revestidos do poder do Espírito Santo e que, em pouco tempo, “encheu Jerusalém da Palavra de Deus” (At.5:28).
-Já vimos, em lição anterior, como, entre os salvos, havia aqueles que se deixaram levar pelo diabo, como Ananias e Safira, e que foram duramente repreendidos pelo Senhor, a demonstrar o nível de santidade que havia entre os crentes, tanto que ninguém ousava se juntar a eles (At.5:13).
-Na presente lição, não é diferente. As Escrituras retratam-nos que, diante do crescimento da igreja, surgiu, no meio da igreja, uma murmuração dos gregos contra os hebreus, em virtude do desprezo que as viúvas dos primeiros eram submetidas pelo “ministério cotidiano” (At.6:1).
-Esta simples, clara e objetiva afirmação de Lucas mostra-nos, claramente, que a igreja em Jerusalém, apesar de ser um povo santo, separado dos demais judeus, que mantinha, pela santificação, um ambiente que constrangia os incrédulos a se aproximarem daquela comunidade, a não ser para alcançar a salvação, não era um grupo que estivesse alheio às vicissitudes existentes na sociedade de seu tempo.
-Assim como havia dito o Senhor Jesus, a Igreja, embora não fosse do mundo, estava no mundo (Jo.17:11,16) e, portanto, sofria as influências do ambiente onde se encontrava, ainda que não mais tivesse comunhão com ele.
-A propósito, o Senhor Jesus foi enfático ao dizer que jamais pediria que eles fossem tirados do mundo, mas tão somente que fossem livres do mal (Jo.17:15).
-Esta característica jamais pode ser perdida de vista por parte da igreja em todos os tempos. A sua santificação, a sua separação do mundo, a busca incessante de uma comunhão com Deus se, de um lado, impedirá que lobos vestidos de ovelhas se aproximem do povo (At.5:13) como também que pessoas que tenham caído da graça sejam, o quanto antes, manifestos a todo o povo (At.5:1-11);
de outro, jamais poderá fazer com que a igreja local se torne um “mosteiro”, um local inacessível aos pecadores e impermeável às influências e acontecimentos do mundo.
-Uma total separação e impermeabilização da sociedade será completa inversão do decidido pelo Senhor Jesus (Jo.17:11,16), pois terão se retirado do mundo por conta própria, negando, assim a qualidade que a Igreja deve ter de sal da terra e luz do mundo (Mt.5:13-16).
-Por isso, não se pode considerar como atitude correta o isolamento total do mundo, o chamado sectarismo, que chega mesmo, como vemos, por exemplo, entre os “amishes”, a construir comunidades completamente isoladas do mundo, vivendo num “universo paralelo”, o que é completa negação do propósito de Cristo para a salvação das almas.
-A igreja em Jerusalém crescia (At.5:14), crescimento que não era apenas numérico, quantitativo, mas, também, qualitativo, na medida em que havia evidente conversão por parte dos novos crentes e o poder de Deus se manifestava confirmando a Palavra pregada (At.5:12,15,16).
-O crescimento da Igreja, ao contrário do que atualmente se costuma dizer, não veio sem qualquer problema ou dificuldade.
Não só se intensificou a perseguição, assunto que se tratou na lição anterior, como também passaram a surgir novos problemas internos, além daqueles que já vimos no episódio de Ananias e Safira.
-Pelo que se pode inferir do texto de Atos, com o crescimento da Igreja, necessário foi que se criasse um serviço de assistência aos necessitados, a que se chamou “ministério cotidiano” (At.6:1) ou “distribuição diária de alimentos” (At.6:1 NVI).
-Os apóstolos nada mais faziam senão o que haviam aprendido com Jesus que, durante o Seu ministério, também cuidava dos pobres e necessitados, tendo uma “bolsa dos pobres” (Jo.12:6; 13:29), para os quais encaminhava os recursos financeiros que recebia (Lc.8:3).
-Desde o início da Igreja e, mais ainda, depois da instituição do costume de vida comunitária, com a venda de propriedades, tomava-se o cuidado de alimentar, diariamente, as viúvas, prática que não era novidade, vez que decorria da própria lei de Moisés (Ex.22:22; Dt.10:18; 14:29; 24:19-21; 26:12,13; 27:19).
-Naturalmente, esta prática era feita pelos apóstolos, eis que o preço das vendas das propriedades era depositado aos seus pés, mas, com o crescimento da igreja, natural que os apóstolos, que eram apenas doze (contando aí Matias), não pudessem, por si sós, dar conta de toda esta distribuição, valendo-se dos préstimos dos irmãos.
-No entanto, e aí vemos a influência do ambiente social, houve o favorecimento das viúvas hebreias, ou seja, daquelas que eram nascidas na Palestina, pois havia um certo preconceito dos “hebreus” com relação aos “gregos”, ou seja, os judeus nascidos na diáspora, ou seja, nas colônias judaicas existentes fora da Palestina.
-Estes “judeus gregos” eram vistos com certo menosprezo, já que eram descendentes de judeus que não tinham voltado para a Terra Prometida após o cativeiro da Babilônia e que, portanto, haviam preferido morar entre os gentios do que cumprir a vontade de Deus e habitar na terra que lhes havia sido dada em herança pelo Senhor.
-É evidente que Jesus não fizera qualquer distinção entre um e outro grupo de judeus, mas não devemos nos esquecer de que Seu ministério terreno se circunscreveu a Israel, nunca tendo saído dos limites da Terra Prometida (Mt.15:21-28; Mc.7:24-30), o que, certamente, servia de pretexto para os judeus hebreus em querer trasladar para a igreja este dado cultural da sociedade judaica.
-Talvez, aliás, tenha isto sido o motivo pelos quais judeus gregos tenham de ter manifestado a Felipe o desejo de quererem ver a Jesus e Felipe tenha, antes de levá-los a Jesus, ido consultar a André e depois, ambos, terem ido até Jesus, o que nos permite fazer uma dedução de que, por caminhos espontâneos, não teriam tido acesso ao Senhor diante do preconceito de Seus discípulos, todos eles “judeus hebreus” (Jo.12:20-22).
-Jesus recebeu os “judeus gregos”, demonstrando n~]ao fazer qualquer discriminação, tendo se dirigido a eles e dito que havia chegado a hora de Sua glorificação, proferindo o que se denominou de “discurso da rejeição”, onde mostra que os judeus O haviam rejeitado, mas que, assim mesmo, Ele haveria de entregar a Sua vida pela salvação da humanidade (Jo.12:23e-50).
-É muito interessante observar que, na inauguração da Igreja, no dia de Pentecoste do ano 29, o Evangelho é pregado tanto aos judeus ditos “hebreus” quanto para os “gregos”, tendo o Senhor escolhido precisamente a festa para que a pregação pudesse alcançar judeus de diversas nações (At.2:5-11).
-Outra questão que Lucas nos permite inferir do texto é que o fato de a igreja ser salva e ter uma vida comunitária isto não impediu que houvesse pobres e necessitados no meio dela.
-Este quadro trazido por Lucas mostra claramente que são mentirosas tanto a teologia da prosperidade, que diz que o salvo não passa por necessidades financeiras, quanto a própria teologia da libertação e os “socialistas cristãos”, que dizem que havia um “comunismo cristão” na igreja em Jerusalém.
-Se havia tal “comunismo”, o mesmo, ao contrário das teorias marxistas, não trouxe sequer autossuficiência para os integrantes da comunidade. Prosperidade material não é consequência da salvação e nem redistribuição de riquezas remove a pobreza. Eis o que aprendemos com estas sucintas afirmações de Lucas, inspiradas pelo Espírito Santo.
-Este favorecimento chegou ao conhecimento dos apóstolos quando já havia se tornado uma murmuração dos “judeus gregos” contra os “judeus hebreus”.
-Tal circunstância revela como não é boa prática a centralização na administração. O preço das propriedades que eram vendidas era depositado aos pés dos apóstolos (At.5:34) e, naturalmente, eram eles os que administravam a destinação do dinheiro para a satisfação das necessidades das viúvas.
-De pronto, aliás, já vimos que havia um costume de arrecadação de ofertas para a satisfação da necessidade dos irmãos, ou seja, uma coleta de valores, a demonstrar que, desde o início, havia contribuição financeira na igreja local, a desmentir, portanto, aqueles que entendem que esta prática não tem base bíblica.
-Razão assiste, pois, à Declaração de Fé das Assembleias de Deus quando, ao apresentar os elementos do culto, da liturgia, afirma: “…Ela [a liturgia, observação nossa] consiste em oração, louvor, leitura bíblica, exposição das Escrituras Sagradas ou testemunho e contribuição financeira, ou seja, ofertas e dízimos.…” (DFAD 2.ed. IX,8, p.146).
-Com o aumento do número de membros na igreja e, por conseguinte, dos necessitados, sendo apenas doze os apóstolos, evidentemente que não poderiam eles dar conta deste serviço e passaram a “terceirizar” o atendimento, trazendo, assim, uma impessoalidade no processo.
-O serviço de assistência social, como já se viu em lição anterior, na igreja não pode se dar mediante impessoalidade.
Deve ser fruto de uma interação, de uma verdadeira compaixão, de uma análise concreta de cada necessidade, não se trata apenas de se dar o alimento, mas de vivenciar a situação a fim de que se tenha uma ajuda integral, não só se cuidando do corpo, mas, também, da alma e do espírito.
-Havia um estado de comunhão entre os irmãos da igreja em Jerusalém, que começa pelo coração e pela alma (At.4:32) e era desta comunhão espiritual que brotava o desejo de ajuda material.
Era a abundante graça que existia entre os irmãos que os levava a ajudar os necessitados e a se despojarem de seus bens a ponto de vender as suas propriedades e depositar o preço aos pés dos apóstolos.
-Esta impessoalidade, ainda que mínima, que não se compara com as estruturas burocráticas que hoje existem e que tanto mal fazem às igrejas locais na atualidade, já foi suficiente para promover um distanciamento entre a liderança e a membresia.
-Como resultado deste distanciamento, a injustiça não foi observada pelos apóstolos e, como consequência pela sua permanência, gerou-se a murmuração, atitude que representa um extremo mal para o povo de Deus e que foi, inclusive, a responsável pelo fracasso espiritual da geração do êxodo em Israel.
II – O PROBLEMA DA MURMURAÇÃO
-Eufrosyne Katsberg (1900-1988) e Emílio Conde (1901-1971), autores do hino 302 da Harpa Cristã, iniciam este poema dizendo: “No mundo, murmura-se tanto, entre os cristãos dizem ser; em vez de louvores há pranto, fraqueza em lugar de poder.
Murmuram — assim no deserto, em Mara, Israel murmurou. Oh, não veem que Deus está perto, jamais Seu auxílio negou”.
-Neste poema, os poetas já identificam, de pronto, que a murmuração não é algo que se deveria encontrar em que os que se dizem cristãos, sendo uma demonstração de pranto, fraqueza, sensação injustificada e sem base de lonjura de Deus e descrença na ajuda divina.
-A palavra “murmurar” surge no texto sagrado relacionado com as reações que tiveram os israelitas em sua jornada pelo deserto.
Em Ex.15:24, temos a primeira “murmuração”, precisamente em Mara, como mencionado por Emílio Conde em seu poema, quando, após três dias de jornada no deserto, após terem atravessado o Mar Vermelho, ao encontrarem águas, elas eram impróprias para beber.
-A palavra aqui empregada é a palavra hebraica “lûn” (לון) ou “lin” (לץ), “…parar normalmente toda a noite); (por implicação) ficar permanentemente; donde (num mau sentido) ser obstinado (especialmente em palavras, queixar-se):— permanecer (a noite toda), continuar, habitar, suportar, resistir, passar a noite, ser deixado, ficar toda a noite, (fazer) alojar (-se, a noite toda, esta noite), (fazer) murmurar, ficar, demorar-se (a noite toda, aquela noite)…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Antigo Testamento, verbete 3885, p.1721).
-O que se percebe por esta palavra, que há uma “parada”, uma “permanência” e “durante toda a noite”. “Murmurar” é, pois, manter-se numa posição, num estado de escuridão, uma obstinação que foge à luz.
Ora, sabemos que “Deus é luz e não há n’Ele trevas nenhumas” (I Jo.1:5) e, portanto, a “murmuração” nada mais é que uma recusa a ir ao encontro de Deus, uma persistência em se manter distanciado do Senhor.
-Trata-se de uma atitude de quem, julgando ter o poder de decidir ou opinar sobre algo, de fazer uma apreciação independentemente de Deus ou da ação divina, entende que algo está errado e que precisa ser mudado pelo Senhor.
É um inconformismo com alguma atitude tomada por Deus, como se o Senhor não fosse o Ser Supremo, o Soberano, Aquele que é Todo-Poderoso.
-A murmuração, portanto, é resultado de uma insubmissão aos desígnios divinos, uma consideração de que algo está errado e tem de ser alterado por Deus, um inconformismo.
-A primeira manifestação de murmuração dos filhos de Israel foi uma contestação ao caminho determinado por Deus para ir a Canaã.
O texto sagrado é explícito em dizer que, aparentemente, o caminho mais fácil seria o “caminho da terra dos filisteus”, ou seja, a ida a Canaã na faixa litorânea do Mar Mediterrâneo, mas determinou que se tomasse o “caminho do deserto” (Ex.13:17,18).
-A murmuração do povo, porque não encontraram, em Mara, águas para beber depois de três dias de jornada, era uma consideração de que Deus os guiara pelo caminho errado, que não era certo o que Deus estava a fazer. É esta a verdadeira essência da murmuração – uma queixa diante de uma determinação divina.
-Ora, sabemos que dois não andam juntos se não estiverem de acordo (Am.3:3) e alguém que viva a murmurar, a sempre discordar do que Deus fez ou mandou, naturalmente não poderá andar junto com o Senhor e, como sabemos que quem não anda com o Senhor não chegará aos céus, já percebemos que a murmuração nos priva da vida eterna.
-A murmuração não é, pois, atitude própria de um filho de Deus, porquanto os filhos de Deus são guiados pelo Espírito Santo (Rm.8:14) e o Espírito nunca fala de Si mesmo, mas diz tudo o que tem ouvido e nos anuncia o que há de vir, glorificando a Cristo (Jo.16:13,14).
-Deste modo, evidentemente, quem é guiado pelo Espírito Santo jamais questiona ou se insurge contra uma determinação divina, pois o Espírito tão somente nos orienta a obedecer e a seguir o que Cristo nos diz.
-Toda e qualquer murmuração, portanto, é uma atitude que se faz fora da orientação do Espírito Santo, daí porque Emílio Conde ter dito que os murmuradores são sedizentes cristãos, mas, ao murmurarem, não estão a se comportar como tal.
-O nosso maior exemplo é o Senhor Jesus, que jamais murmurou, tendo, inclusive, nos momentos mais cruciantes de Sua paixão e morte, nem sequer aberto a Sua boca (At.8:32).
-Como podemos ser “cristãos”, ou seja, “parecidos com Cristo”, “pequenos cristos” murmurando?
Impossível.
-Mas a murmuração, também, é uma demonstração de pranto. O murmurador é alguém que vive “chorando as mágoas”, reclamando da situação, lamentando, queixando-se das circunstâncias.
-Ora, ainda que seja certo que, enquanto estivermos nesta peregrinação terrena, teremos aflições, dores e razões para chorar, o fato é que, uma vez alcançando a salvação, somos envolvidos pela “alegria da salvação” (Sl.51:12) e a qualidade do fruto do Espírito que se segue ao amor, derramado em nós pelo Espírito Santo (Rm.5:5) é, precisamente, o gozo, ou seja, a alegria (Gl.5:22).
-Esta alegria advinda da salvação não depende das circunstâncias, porque é resultado de nossa comunhão com Deus e nada nos separa do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm.8:35-39).
-Assim, quando se tem uma murmuração, fica evidente que a pessoa já não está mais a sentir a alegria da salvação, não mostra estar em comunhão com o Senhor, passando a se conduzir conforme as circunstâncias.
O resultado disto é a tristeza, o pranto, o desalento. Como diz o proverbista: “Até no riso terá dor o coração, e o fim da alegria é tristeza” (Pv.14:13).
-Mais um sinal de que o murmurador está afastado de Deus, está se distanciando de Cristo, Aquele que foi ungido “com óleo de alegria, mais do que a Seus companheiros” (Sl.45:6,7; Hb.1:9) e que, por isso mesmo, pode nos dar alegria, pois, como afirmou o grande compositor Johann Sebastian Bach (1685-1750) no título de uma de suas obras mais famosas: Jesus é a alegria dos homens.
-Quem está a murmurar, pois, está sem a companhia de Jesus, d’Ele se afastou.
-Também por isso é dito que a murmuração é uma demonstração de fraqueza espiritual. Se nos opomos
ao Senhor, se O questionamos na nossa queixa, evidentemente nos afastamos d’Aquele que é “nosso refúgio
e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl.46:1) e o resultado disto é evidente enfraquecimento espiritual do murmurador, pois ele se distancia do “Deus Forte” (Is.9:6).
-Pouco antes do episódio de Mara, Moisés, em seu cântico, que nada mais é que uma mensagem divina trazida ao povo, algo que veio diretamente da parte do Senhor, o líder de Israel afirmou:
“O Senhor é a minha força e o meu cântico; Ele me foi por salvação; este é o meu Deus; portanto, Lhe farei uma habitação; Ele é o Deus de meu pai; por isso, O exaltarei” (Ex.15:2).
-Percebe-se, portanto, que quem trilha no caminho da salvação não pode ser um murmurador, porque tem em Deus a sua força e o seu cântico, não podendo, pois, viver em pranto e tristeza, nem tampouco revelar uma fraqueza espiritual que é o que se mostra quando se murmura.
-Quando temos Deus como nossa força, nós não reclamamos d’Ele nem O questionamos, mas tão somente O exaltamos, como diz Moisés. Passamos a adorá-l’O, a ser a Sua habitação, porque Lhe obedecemos e Lhe fazemos a vontade.
-Mas, ainda vendo a feliz constatação do poema de Emílio Conde, observamos que a murmuração é, também, a sensação infundada de que Deus está longe.
-Esta sensação é infundada porque o Senhor está perto daqueles que O invocam em verdade (Sl.145:8), como também daqueles que têm o coração quebrantado e contrito (Sl.34:18).
Jesus prometeu estar conosco todos os dias até a consumação dos séculos (Mt.28:20) e o Espírito Santo está conosco e habita em nós (Jo.14:17), como também o Pai e o Filho fazem morada em nós (Jo.14:23).
-Como, então, entender que Deus está longe de nós, que está a nos desprezar e a nos desconsiderar, a ponto de d’Ele nos queixarmos, o que nada mais é senão murmuração?
-E, ainda que Deus estivesse longe (que não é o caso), não disse o Senhor que é tanto Deus de perto como Deus de longe (Jr.23:23)?
Assim, ainda que não O consigamos ver, temos de ter a convicção de que Ele está perto de nós e que devemos, em vez de murmurar, que é nada mais, nada menos, que nos distanciarmos d’Ele, buscarmos nos achegar mais ao Senhor, pois, como diz o salmista Asafe:
“Mas, para mim, bom é aproximar- me de Deus; pus a minha confiança no Senhor Deus, para anunciar todas as Tuas obras” (Sl.73:28).
-A murmuração é, ainda, uma demonstração de dúvida quanto à ajuda divina. Quem murmura não está a achar que Deus lhe virá em auxílio, antes se acha desemparado e abandonado pelo Senhor por causa da circunstância adversa em que está a passar.
-Foi o que ocorreu em Mara. Depois de três dias sem água, ao chegaram àquelas águas amargas, os filhos de Israel passaram a reclamar dizendo: “Que havemos de beber?” (Ex.15:24), não tendo sequer pedido a Moisés que intercedesse por eles a Deus, já que não pensaram em clamar ao Senhor.
-Nem se diga que o povo não tinha como clamar a Deus, pois ali estavam aqueles mesmos que, diante da dureza da servidão do Egito, haviam clamado ao Senhor e o seu clamor havia sido ouvido nos céus a ponto de o Senhor ter ido até o monte Horebe e chamado Moisés para que fosse libertar o povo (Ex.3:7-10).
-Por isso, bem diz o poeta que Deus “jamais Seu auxílio negou”, pois Ele é Aquele que está pronto para ajudar a todos quantos ninguém o faz, Como diz o salmista (que alguns entendem ser Salomão, outros ter sido um salmo feito por causa da subida ao trono de Salomão):
“Porque Ele livrará ao necessitado quando clamar, como também ao aflito e ao que não tem quem o ajude. Compadecer-se-á do pobre e do aflito e salvará a alma dos necessitados” (Sl.72:12,13).
-A propósito, foi bem isso que aconteceu com o sábio rei Salomão que, após ter se desviado espiritualmente, teve a benignidade do Senhor a seu favor (II Sm.7:14,15), como nos mostra o livro de Eclesiastes, escrito após a sua restauração espiritual.
-Notamos, assim, como u’a má prática administrativa, a centralização, fez com que o inimigo enfiasse uma cunha deletéria no meio da igreja em Jerusalém. Tomemos cuidado, amados irmãos.
-Formaram-se, pois, na igreja, dois partidos em virtude de um dado cultural, de um fator que existia na sociedade e que nada tinha que ver com a doutrina cristã ou o dia-a-dia da igreja local, partidarismo que, pela falta de acompanhamento por parte dos apóstolos, deu origem à murmuração.
-Precisamos estar atentos, máxime num mundo globalizado como é o nosso, para estes fatores externos à vida eclesiástica mas que acabam por interferir na vida cristã.
-São fatores que, embora tenham origem externa, que tem de ser imediatamente identificada, acabam por gerar problemas internos que, se não forem combatidos com a graça de Deus, podem gerar inúmeros problemas e transtornos na vida não só da igreja, mas de cada um de seus integrantes.
III – A SOLUÇÃO DO PROBLEMA
-O problema chegou aos ouvidos dos apóstolos como uma murmuração e os apóstolos, sabendo que a murmuração não pode se manter no meio do povo de Deus, convocou-se a igreja para resolver a questão (At.6:2).
-Muito se discute, hoje, sobre o governo ideal para a Igreja, assunto que, entendemos, propositadamente foi deixado vago pelo texto sagrado, visto que o governo é um dos pontos em que o Senhor deixou que houvesse multiformidade (Ef.3:10; I Pe.4:10).
-Afinal de contas, se reconhecemos que a soberania divina não impede que haja variadas formas de poder civil (Rm.13:1-7), por que, também, não reconhecermos que o mesmo se dá em relação ao chamado “poder eclesiástico”, até porque o dom referente a este ponto é apresentado, no texto sagrado, no plural (I Co.12:28)?
-No entanto, independentemente do governo que se adote na igreja local, o que se percebe é que os
governantes jamais podem abrir mão de ouvir “a multidão dos discípulos”, como fizeram os apóstolos.
-Vivemos em uma igreja que é, como diz o apóstolo Paulo, “um só corpo e um só Espírito, chamados em uma só esperança da vossa vocação, um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef.4:4-5).
-Assim, como na “multidão de conselheiros, há segurança” (Pv.11:14b) e os projetos se confirmam (Pv.15:22), por que se haverá de desprezar a audiência de pessoas lavadas e remidas pelo sangue do Cordeiro e que têm em si o Espírito Santo?
-Os apóstolos convocaram a multidão dos discípulos e levaram a ela o problema surgido e que era alvo de murmuração.
-Não se tratou de descobrir a origem da murmuração, nem tampouco de procurar negar a existência de favorecimento das viúvas hebreias.
A questão existia, não devia existir, mas, antes de procurar culpados, o importante era resolver o problema, para que ele não gerasse raízes de amargura e, com isso, ocasionasse a privação da graça de Deus, com perturbações e contaminações (Hb.12:15).
-Enfrentar o problema em comunidade e saná-lo, eis o que deve fazer a liderança quando houver murmuração.
-Evidentemente que não se está aqui a negligenciar a necessidade de disciplina daqueles que transgredirem a regra da Palavra de Deus, daqueles que pecaram, como já se estudou em lição anterior, mas não se deve confundir a solução do problema com a devida aplicação de sanções.
-Os apóstolos sabiam que tinham responsabilidade com o surgimento desta murmuração e, portanto, juntamente com a igreja, queriam resolver a questão, a fim de evitar que esta raiz de amargura surgida por más práticas administrativas levasse à privação da graça (Hb.12:15).
-Os apóstolos, então, observaram que todo o problema surgira do desvio de foco de seus ministérios.
-Não era razoável que eles, chamados para ministrar a Palavra e orar, ficassem, também, a cuidar do suprimento das necessidades materiais do povo.
-Reconheciam que a questão social era referente à Igreja, não eram, pois, os “santarrões” que ainda existem em nossos dias, que acham que a Igreja, por ser “espiritual”, não deve se envolver em questões relacionadas com as coisas materiais, máxime, com a injustiça social que, como consequência do pecado, agrava-se a cada dia em nosso mundo.
-No entanto, também sabiam que sua missão era a de ser “pescadores de homens” (Mt.4:19; Mc.1:17), de pregar o Evangelho a toda a criatura (Mc.16:15), de apascentar o rebanho do Senhor (Jo.21:15-17) e que não poderiam se dedicar as este trabalho material sem prejuízo de fazer aquilo para que haviam sido chamados pelo Senhor Jesus.
-Diante disto, não tinham senão uma solução a dar: designar outras pessoas que fizessem aquele “importante negócio”, que cuidassem do “ministério cotidiano”, trabalho que era, sim, da igreja mas não dos apóstolos.
-Reconheciam, assim, que toda a murmuração havia nascido de uma falta de vigilância por parte dos apóstolos que haviam assumido uma tarefa que não lhes incumbia e que já estava a prejudicar o desempenho daquilo para o que haviam sido chamados.
-Diante disto, resolveram que a Igreja deveria escolher, dentre os salvos, varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, que fossem constituídos pelos apóstolos sobre este assunto, considerado um “importante negócio” (At.6:3).
-Vemos, aqui, uma vez mais, a manifestação da “koinonia” na decisão tomada. Os apóstolos, guiados pelo
Espírito Santo, resolveram instituir o diaconato.
-Os diáconos seriam escolhidos pela igreja, mas constituídos pelos apóstolos.
-Os apóstolos, também, determinaram os requisitos para a escolha dos diáconos, que deveriam ser varões de boa reputação. Por isso, não há qualquer cabimento em se dizer que é possível a consagração de “diaconisas”, pois Atos é claro em considerar que um dos requisitos do diácono é ser “varão”, ou seja, do sexo masculino, como está claro em Gn.2:23.
OBS: Cabe aqui transcrever trecho da entrevista dada pelo saudoso pastor Antonio Gilberto (1927-2018) sobre o tema à rádio Voz da Alvorada: “…Um assunto polêmico, cujo debate já dura por décadas, é o ministério pastoral feminino. Hoje algumas Assembleias de Deus já reconhecem a ordenação de mulheres.
Existe respaldo bíblico-doutrinário para isso? Não, não e outra vez não! Não existe! Ordenação… Mulheres no Santo Ministério, tanto venham.
Inclusive muitas vezes elas fazem o trabalho melhor do que os homens. Mas ordenar para o Santo Ministério, não tem base nas Escrituras. E como é que isso está acontecendo? É a igreja a culpada e a igreja vai prestar conta disso.
A igreja que eu digo não é a igreja o prédio, os responsáveis vão prestar conta disso. Jesus nunca ordenou mulheres.
O apóstolo Paulo que é um paradigma, não separou, nunca ordenou mulheres. Agora, mulheres trabalharem no Santo Ministério, tanto venham. Cantoras, professoras de escola dominical e etc. Mas irmão Gilberto, e diaconisa?
Lá no livro de Romanos o apóstolo Paulo disse que aquela irmã era diaconisa na igreja de Cencreia. Onde está isso no original? Não existe! Sim, mas o comentário que eu li diz que era diaconisa. Conversa!
No grego está na forma masculina, ou seja, Paulo deixou aquela mulher ali provisoriamente, ou então o trabalho era novinho e não tinha homem nenhum para exercer o diaconato, ele disse vem cá “fulana” (Febe), faz o trabalho aqui, a obra de Deus não pode parar por causa de problema humano.
Está no masculino. Uma vez um pastor presidente de uma grande e renomada convenção, nós estávamos juntos em Goiânia ministrando, e ele no hotel conversando comigo, disse:
“estou agora na presidência, vou incentivar, irmão Gilberto, o diaconato das mulheres que está praticamente parado. O que o irmão diz?”
– Eu prefiro primeiro que o senhor que é o chefe, me dê alguma coisa. Ele disse: “eu me baseio lá em Rm 16, Febe, aquela irmã que era um tesouro na igreja de Cencreia (inclusive quando os irmãos forem a Grécia visitem as ruínas de Cencreia.
Eu fui lá visitar, só tem ruínas, e eu fiquei pensando onde é que ficaria aqui a casa dela, porque tudo indica que era uma mulher de muito dinheiro.
Paulo disse: “ela me hospedou muitas vezes, e hospedou a muitos”), que era diaconisa, a Bíblia em português diz: que serve ao Senhor na igreja de Cencreia, outra versão que eu tenho diz que ela servia como diaconisa”.
Eu me calei, e ele disse: “uma segunda passagem, irmão Gilberto, que eu tenho em mente é lá em Timóteo quando a Bíblia diz: e as mulheres…” Eu disse: Pastor, a passagem de Romanos no original está no masculino, pode pegar qualquer manuscrito bíblico.
Ou seja, ou o trabalho era novinho e não tinha homens habilitados, e o apóstolo Paulo um homem cheio do Espírito Santo, a obra de Deus não ia parar por causa de problema humano. Vem cá, Febe, exerce aqui enquanto não se prepara um homem, ou então não sei a razão, a Bíblia não explica, mas está no masculino.
“E lá em Timóteo?” Pode pegar o termo original que a oração no grego pára, e quando diz as mulheres, são as esposas dos obreiros. Ele parou, e parou até hoje. Voltando a pergunta, o que o irmão diz disso? É antibíblico.
E o que fazer? Quem estiver fazendo vai prestar conta a Deus. Mas infelizmente não é só ordenação de mulheres, é muita coisa que a igreja decide por ela. Eu podia fazer menção aqui, não vou, não há necessidade.
Para ninguém pensar que é só esse fato: São várias coisas que a igreja faz sem ter… Por exemplo, há igrejas que só separam (consagram) obreiros para o diaconato se forem casados, não estou criticando a igreja local, há igreja que só separa (consagra) casados, porque o escândalo está sendo grande de obreiros solteiros.
Enfim, a igreja que tomou a decisão, não é a Bíblia. …” (Mulheres ao ministério pastoral é antibíblico – disse o Pastor Antônio Gilberto. Disponível em: https://radiovozdaalvorada.com.br/novo/noticias/mulheres-ao-ministerio-pastoral-e- antibiblico-disse-o-pastor-antonio-gilberto Acesso em 14 maio 2025).
-Esta “boa reputação” não só o “bom testemunho”, mas, também, credibilidade para lidar com recursos financeiros (não nos esqueçamos do “trauma” existente com relação a Judas Iscariotes…), que fossem cheios do Espírito Santo e de sabedoria, ou seja, não só fossem revestidos do Espírito Santo, i.e., batizados com o Espírito Santo (por isso, sem qualquer fundamentação bíblica a consagração de “diáconos” que não sejam batizados com o Espírito Santo), assim como portadores de sabedoria, ou seja, pessoas que fossem bons administradores e que tivessem discernimento espiritual para bem orientar os recursos aos necessitados.
-A Declaração de Fé das Assembleias de Deus reproduz o texto bíblico ao tratar dos diáconos: “…São ‘varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria’ (At.6:3), que primeiramente foram provados antes de serem separados para o diaconato [I Tm.3:10] …” (DFAD 2. ed. X.10, p.162).
-Os discípulos acolheram a sugestão dos apóstolos e escolheram sete diáconos, cujos nomes, aliás, revelam que eram todos “judeus gregos”.
-Vejamos como Deus trabalha, amados irmãos: os “judeus hebreus”, que deviam ser maioria e que eram alvo das murmurações, escolheram sete “judeus gregos” para cuidar da distribuição diária de alimentos, tapando a boca não só dos murmuradores, mas do próprio inimigo que os incitava.
-Os apóstolos, então, impuseram as mãos sobre os escolhidos, constituindo-os como diáconos, prova de que a forma bíblica de consagração é a imposição de mãos e, assim, o problema foi sanado, a murmuração findou e o crescimento da Igreja continuou (At.6:7). Aleluia!
-Uma última observação é a de que, ao mesmo tempo em que os apóstolos sanaram o problema, com uma descentralização do serviço, também houve a busca de se evitar uma burocratização excessiva, trazendo um gigantismo na estrutura que viesse a trazer a impessoalidade que se procurava dissipar.
-É preciso evitar que se crie uma “máquina eclesiástica” que acabe por sufocar a ação do Espírito Santo na administração e governo da igreja local, o que o pastor José Gonçalves, comentarista deste trimestre, muito propriamente, num post em seu Facebook, em 2023, chamou de “institucionalismo, que fomentou disputas por espaço e poder, transformando algumas Convenções em verdadeiras Prefeituras” e que apontou como um dos fatores do declínio do avivamento pentecostal em nosso país.
-Os sete diáconos eram suficientes para servir às mesas e, com pessoalidade, agir com imparcialidade no ministério cotidiano. Se é necessário descentralizar e separar devidamente as funções de cada membro em particular do corpo de Cristo na igreja local, também se deve evitar uma burocratização que leve exatamente ao contrário do que se pretende, a impessoalidade e a parcialidade.
-A cultura brasileira, forjada pela raiz lusitana, tende à burocracia, à excessiva criação de órgãos, secções e repartições, que geram uma estrutura imensa e que, não raras vezes, provoca a ineficiência e a frustração dos objetivos perseguidos pelas instituições.
– Evitemos que isto ocorra (ou continue ocorrendo) em nossas igrejas locais, aprendendo com a igreja em Jerusalém, que nomeou tão somente sete diáconos, que lidavam diretamente com o assunto a eles cometido, com pessoalidade e imparcialidade. Que Deus nos ajude a cumprirmos o modelo bíblico.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11664-licao-8-uma-igreja-que-enfrenta-os-seus-problemas-i
