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LIÇÃO Nº 9 – A VONTADE – O QUE MOVE O SER HUMANO

INTRODUÇÃO

-Na continuidade do estudo sobre a doutrina bíblica do homem, analisaremos a vontade, faculdade da alma humana.

-A vontade é a prova da liberdade existente no homem. I – A VONTADE E A LIBERDADE DO HOMEM

-Na continuidade do estudo sobre a doutrina bíblica do homem, analisaremos a vontade, uma das faculdades da alma.

-O Dicionário Básico de Filosofia, de Hilton Japiassu (1934-2015) e Danilo Marcondes (1953- ) define vontade como “disposição para agir. Exercício da atividade pessoal e consciente que resulta de um desejo e se concretiza na intenção de se obter um fim ou propósito determinado”.

-Mário Ferreira dos Santos (1907-1968), em seu Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais, vontade “…para os platônicos é a faculdade que tende apenas para o verdadeiro bem. Esta definição não considera a moção psicológica, mas apenas a moral.

Também ao definir-se a vontade como a faculdade que tende para os objetos materiais, pois ela ora escolhe uns, ora escolhe outros, não se inclui aquela moção. Ela tende para a apreensão, pelo intelecto, dos bens que são apresentados através da cognição subjetiva.

É assim um grau mais perfeito do intelecto, pois sendo mais perfeito o seu objeto, é aquela, portanto, mais perfeita. O intelecto tem como objeto o ser enquanto tal, mas a vontade tende para o objeto enquanto apetecível…”.

-Watchman Nee (1903-1972) afirma que “…A vontade é a faculdade que permite ao homem tomar decisões.

Querer ou não querer, escolher ou não escolher são operações típicas da vontade. Ela é o “leme” que nos permite navegar pelo mar da vida. Podemos considerar a vontade nosso verdadeiro ego, pois é ela que realmente o representa.

A ação da vontade é nossa própria ação. Quando dizemos “eu quero, eu decido”, é a nossa vontade que está querendo ou decidindo.

Ela atua pelo homem inteiro. Nossas emoções expressam simplesmente o que sentimos. A mente diz apenas o que pensamos. A vontade, porém, comunica aquilo que queremos. Por isso, ela é o principal elemento do nosso ser.

É mais profunda do que a emoção e a mente. Desse modo, na busca do crescimento espiritual, não podemos negligenciar nossa vontade.…” (O homem espiritual. Trad. de Délcio de Oliveira Meireles, p.457).

-A vontade, portanto, apresenta-se como a manifestação da escolha entre um bem ou outro, uma decisão na realização de uma determinada atitude, a fim de que se alcance algo.

-Tem, portanto, o movimento em uma determinada direção, o que diferencia a vontade do intelecto.

Como ensina Tomás de Aquino (1225-1274), “…a vontade move o intelecto e todas as virtudes da alma (…) move todas as potências da alma para os atos próprios delas, excetuando as virtudes naturais da parte vegetativa, independentes do nosso arbítrio.…” (Suma Teológica I, q.82, art.4).

-Assim como a Bíblia é clara ao apontar que Deus é soberano e Senhor de todas as coisas, também é explícita ao mostrar que o homem foi criado com livre-arbítrio, ou seja, com liberdade de escolha, clareza tal que nenhum dos polemistas a respeito da salvação do homem, ao longo da história da humanidade, ousou discordar desta verdade bíblica, que é assumida por todas as correntes de pensamento, qual seja, a de que Deus criou o homem com livre-arbítrio, com liberdade de escolher entre o bem e o mal.

-Com efeito, ao verificarmos o texto sagrado, vemos em Gn.2:16,17, que Deus deu uma ordem ao homem no sentido de que ele comesse livremente de todas as árvores do jardim do Éden, com exceção da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que ele dela comesse, certamente morreria.

-Desta ordem divina, tiramos várias e importantíssimas conclusões, fundamentais para a compreensão da liberdade humana e de toda a celeuma em torno do processo da salvação.

-Em primeiro lugar, vemos que tudo começa com uma ordem divina ao homem: “E ordenou o Senhor Deus ao homem” (Gn.2:16a).

-Ora, vemos aqui, claramente, que Deus é, uma vez mais, reconhecido como o detentor do poder, como a fonte de toda a autoridade, como o Soberano.

-Deus deu uma ordem ao homem, ou seja, o homem se encontrava numa posição de submissão a Deus, deveria comportar-se como servo, é verdade, o principal servo, o “mordomo”, mas, indubitavelmente, como um ser inferior, como um ser sujeito ao seu Senhor e Criador.

-Esta circunstância faz com que a liberdade do homem seja, de pronto, reconhecida como algo que se encontra sob o senhorio de Deus, sob a autoridade divina.

-O livre-arbítrio, pois, será construído debaixo da soberania divina, jamais poderá ser entendida como uma faculdade do homem de se pôr ao lado ou acima de Deus.

-Tanto assim é que o próprio adversário, ao tentar Eva, fez questão de propor ao primeiro casal a ilusória possibilidade de saírem de debaixo da sujeição a Deus, numa prova contundente de que a soberania divina não foi em momento algum afetada pela concessão de liberdade ao homem (cf. Gn.3:4,5).

-A liberdade do homem, portanto, construiu-se debaixo da soberania divina, não havendo, pois, qualquer incompatibilidade, qualquer conflito entre o fato de Deus ser soberano e o homem, livre para escolher entre o bem e o mal.

-Esta dificuldade surge somente quando se identifica, equivocadamente, a liberdade com a “autonomia”, ou seja, quando se pensa que ao homem foi dado o direito de escolher as regras e as normas segundo as quais poderia viver.

-“Autonomia” é “…segundo Kant (1724-1804) [filósofo alemão, observação nossa], capacidade apresentada pela vontade humana de se autodeterminar segundo uma legislação moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou exógeno com uma influência subjugante, tal como uma paixão ou uma inclinação afetiva incoercível…” (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa) e, desde este filósofo, tem sido confundida com a ideia de liberdade.

-Todavia, as Sagradas Escrituras ensinam que a liberdade dada ao homem por Deus foi uma liberdade que Kant denominou de “heteronomia”, ou seja, “…sujeição da vontade humana a impulsos passionais, inclinações afetivas ou quaisquer outras determinações que não pertençam ao âmbito da legislação estabelecida pela consciência moral de maneira livre e autônoma…” (ibid.), ou seja, uma liberdade sujeita à vontade e às determinações de Deus.

-Em segundo lugar, o texto bíblico mostra que Deus fez o homem com liberdade para escolher entre o bem e o mal.

-É dito que o homem poderia comer livremente de todas as árvores do jardim e, se vermos bem o contexto, esta liberdade abrangia, inclusive, a possibilidade de comer da árvore proibida, pois, se assim não fosse, como Deus teria dito que o homem morreria no dia em que comesse da árvore da ciência do bem e do mal? Só o disse porque havia esta possibilidade.

-É esta liberdade de escolha, entre obedecer ou desobedecer à ordem divina, em que consiste o livre- arbítrio. Deus, em Sua soberania, quis criar o homem com a faculdade de escolher servir a Deus, ou não.

-Como diz o Talmude, o segundo livro sagrado do judaísmo: “…E o Rabino Hanina disse: Tudo está nas mãos do Céu, exceto o temor ao Céu.

O homem tem livre-arbítrio para servir a Deus ou não, como está escrito: “E agora, Israel, o que o Senhor teu Deus pede de ti, senão que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, que o ames e sirvas ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma?” (Deuteronômio 10:12).

O Senhor pede ao homem que realize essas coisas porque, em última análise, a escolha está em suas mãos.…” (Talmude da Babilônia. Berakhot 33b apud JACOBS, Joseph e BROYDÉ, Isaac. Livre-arbítrio. In: Jewish Encyclopedia. Disponível em: https://www.jewishencyclopedia.com/articles/6337-free-will Acesso em 24 ago. 2025) (traduzido em português pelo Google).

-A Declaração de Fé das Assembleias de Deus é bem claro a este respeito: “…O ser humano é parte da criação de Deus (…).

O ser humano foi criado (…) dotado por Deus de livre-arbítrio, ou seja, com liberdade de escolher entre o bem e o mal [Gn.2:16,17]. Mediante a graça, essa escolha continua mesmo depois da queda no Éden: ‘Se alguém quiser fazer a vontade d’Ele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se eu falo de mim mesmo’ (Jo.7:17).…” (DFAD, 2. ed., V.4, pp.84-5).

-A liberdade humana, o livre-arbítrio, portanto, é uma manifestação da vontade divina. Deus quis que o homem tivesse esta liberdade e, por isso, não cabe a nós querer estabelecer limites ou objeções ao Senhor por causa desta liberdade.

-Nesta liberdade, aliás, vemos mais um aspecto da “imagem e semelhança de Deus”, porquanto, por ser dotado
de livre-arbítrio tem o homem vontade, assim como o seu Criador o tem.

-Deus fez o homem com poder de servi-l’O ou não e, por isso, nós, simples seres humanos, não podemos querer obrigar os homens a servir a Deus.

Quem cerceia, pois, a liberdade de opção do homem em servir, ou não, a Deus, algo que, infelizmente, muitas vezes foi praticado em nome do Senhor, atenta, antes de mais nada, contra a própria ordem estabelecida por Deus, que foi quem criou o homem com esta faculdade.

-O fato de Deus ter criado o homem com esta liberdade, faz com que o homem tenha o livre-arbítrio na sua própria natureza, é uma das faculdades da alma.

-Assim como Deus é soberano por natureza e, por isso, não pode deixar de sê-l’O, também o homem é livre por natureza e não deixará de sê-lo, mesmo quando incorrer em pecado.

-Segundo a própria declaração divina, quando o homem comesse da árvore proibida, não deixaria de ter o livre-arbítrio, mas, sim, certamente morreria, ou seja, a consequência pela desobediência seria a separação

entre Deus e o homem, mas não a perda do seu livre-arbítrio, algo que faz parte da sua própria natureza, da sua própria essência.

-Em terceiro lugar, o texto bíblico mostra que a liberdade tem uma correspondência, qual seja, a responsabilidade.
-O homem poderia escolher entre o bem e o mal, mas, no dia em que desobedecesse a Deus, em que escolhesse
o mal, adviria uma penalidade, qual seja, a morte, a separação entre o homem e Deus (“certamente morrereis”).

-A contrapartida do poder dado ao homem para escolher entre o bem e o mal era a de que deveria responder diante de Deus pela escolha feita, arcando com as consequências de sua opção.

-Esta ideia de responsabilidade mostra, claramente, duas coisas, a saber:

a) não existe liberdade sem responsabilidade, ou seja, o homem não faz o que quer sem qualquer consequência, uma vez que a sua liberdade não é o direito de ditar as regras para si, mas de optar entre seguir, ou não, as regras estabelecidas por Deus. Liberdade não se confunde, pois, com libertinagem, como, infelizmente, tem sido propagandeado pelo mundo ao longo dos séculos e, muito intensamente, nos dias em que vivemos.

b) a liberdade humana não altera a soberania divina. O uso da liberdade pelo homem deverá ser objeto de prestação de contas diante de Deus, que é o soberano, a máxima autoridade. O plano da salvação, pois, não elide nem sequer diminui a soberania divina.

-Deus fez o homem com o poder de escolher entre o bem e o mal, sendo real a possibilidade da escolha do mal, só que, uma vez feita a escolha pelo mal, o homem sofrerá a penalidade da morte, ou seja, da separação de Deus, arcando com as consequências de sua opção. Ao criar o homem com liberdade, Deus também estabeleceu que o homem responderia diante d’Ele sobre o uso desta liberdade.

II – A CHAMADA DIVINA PARA A SALVAÇÃO – A COMPROVAÇÃO DO LIVRE-ARBÍTRIO

-Como sabemos da narrativa bíblica, o primeiro casal optou por desobedecer a Deus e, por causa disto, pecou.

-Naquele mesmo fatídico dia, o Senhor aplicou as normas que havia estabelecido e chamou o casal primordial à responsabilidade, tendo, então, determinado a separação entre Deus e a humanidade, mediante a expulsão do jardim do Éden, a incidência da morte física e da penosidade do trabalho, tornado, então, necessário à sobrevivência da humanidade, bem como a desigualdade fundada no gênero (Gn.3:8-19).

-No entanto, ali mesmo, enquanto responsabilizava o primeiro casal pelo pecado cometido, o Senhor, usando da Sua soberana vontade, revelou que, por amor, haveria de proporcionar um meio para que se restabelecesse a comunhão perdida por causa do pecado.

-Deus não era obrigado a isto, porquanto havia já dado a oportunidade para que o homem usasse corretamente da sua liberdade, mas, revelando Seu amor e Sua misericórdia, resolveu abrir uma oportunidade de restauração ao homem, prometendo que, da semente da mulher, viria alguém que tornaria a estabelecer uma comunhão, uma comunidade de vida entre Deus e os homens.

-É importante observar que Deus não “criou” o plano da salvação como um “plano B”, como uma resposta a um “acidente de percurso”, pois, presciente como é, o Senhor já sabia que o homem que criaria Lhe desobedeceria e, portanto, a notícia da salvação dada ao primeiro casal foi tão somente a revelação de algo que já havia planejado antes da fundação do mundo (Ef.1:4; I Pe.1:20; Ap.13:8), ou seja, o pecado cometido pelo primeiro casal não significou qualquer abalo à soberania divina, que, desde antes mesmo de criar o homem, já havia previsto um meio de salvação para este homem e, como diz o teólogo holandês Jacó Armínio

(1560-1609), Deus não só previu a criação, como também a queda do homem e resolveu salvar este homem pecador, prevendo, pois, um meio de salvação aos pecadores.

-Por isso, a salvação do homem é um plano de Deus, ou seja, deve a sua existência à vontade soberana do Senhor e, neste sentido, é algo que jamais poderia acontecer sem que Deus o quisesse.

-O homem só pode ser salvo porque Deus quis criar esta chance de salvação. A salvação do homem, portanto, nasceu em Deus e só n’Ele tem razão de ser.

-No entanto, a salvação tem de ser entendida sob o prisma da ordem estabelecida por Deus. O Senhor fez o homem com poder de escolher entre o bem e o mal e, deste modo, ao determinar que o homem pode ser salvo, esta Sua determinação está em consonância com o Seu propósito inicial, qual seja, o de dar o homem o poder de escolher entre aceitar, ou não, este plano divino.

-Ao determinar que haveria uma forma de o homem voltar a ter comunhão com Ele, o Senhor, que não muda nem tem sombra de variação (Tg.1:17 “in fine”), não elidiu a circunstância de que caberia ao homem optar por aceitar esta oferta de salvação, já que criou o homem com livre-arbítrio.

-A chamada divina para a salvação do homem, portanto, deve ser entendida como o convite que Deus faz ao homem para que aceite o Seu plano estabelecido para a restauração da comunhão com o Senhor.

-Deus ama o homem e quer que o homem se salve e, por isso, criou um plano, um meio para que o homem voltasse a ter comunhão com o Senhor. É este gesto divino de amor e de benevolência, que estende a Sua mão ao homem propondo o retorno de uma comunhão que é denominada de “chamada” ou “vocação” divina.

-Mas a quem Deus chama à salvação? A Bíblia responde-nos: “Deus quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (I Tm.2:4).

“Desejaria Eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? Diz o Senhor JEOVÁ: não desejo, antes, que se converta dos seus caminhos e viva?” (Ez.18:23). “Porque a graça de Deus se há manifestado, trazendo salvação a todos os homens” (Tt.2:11).

A chamada é universal, ou seja, chama a todos os homens para a salvação. Deus oferece uma real oportunidade de salvação a todos os homens, indistintamente.

-É aqui importante registrar que Deus noticia a salvação para o homem, chama-o à salvação, mas este atendimento ao chamado divino somente se dá por causa da graça de Deus.

-Ora, a graça é o favor imerecido de Deus. Deus quis salvar o homem e, por isso, embora o homem não mereça, oferece esta salvação e esta graça precede o próprio livre-arbítrio humano.

-Deus dá a notícia da salvação, chama o homem à salvação, sabendo que, se não tomar esta iniciativa e não criar condições para que o homem possa aceitar esta oferta, o homem jamais poderia ser salvo.

-O primeiro casal, ao ouvir a voz do Senhor no jardim, escondeu-se. Não tinha condições de se apresentar
diante de Deus, mas Deus toma a iniciativa de buscar o homem, dizendo: “Onde estás?” (Gn.3:9).

-Esta indagação divina era apenas a oportunidade para que o homem se apresentasse e esta apresentação só foi possível pela graça de Deus,

“…a graça de Deus não é nada mais que a disposição benevolente de Deus para com o ser humano, sua misericórdia posta em ação a favor do ser humano, exercendo-se de tal maneira que o ser humano possui agora uma possibilidade de ser salvo …” (Graça preveniente (ou graça preventiva ou graça salvadora). Disponível em: http://3re.metodista.org.br/conteudo.xhtml?c=55 Acesso em 24 fev. 2016).

-Mas, alguém poderá dizer que não são todos os homens que se salvam e o dizem com razão, visto que as
Escrituras assim o declaram, quando afirmam que “a fé não é de todos” (II Ts.3:2).

-No entanto, isto é apenas reflexo do fato de que o chamado para a salvação está inserido na ordem estabelecida por Deus de que os homens foram criados com livre-arbítrio, ou seja, de que a circunstância de que Deus decidiu, por Sua soberana vontade, dar uma oportunidade de salvação ao homem, não elide o fato de que, antes que o homem tivesse pecado, Deus o tivesse criado com o propósito de lhe permitir obedecer- Lhe ou não, de ser dotado com o livre-arbítrio.

-A chamada para a salvação parte de Deus e, portanto, tem de ser universal, pois o caráter divino é imparcial. Deus não faz acepção de pessoas (Dt.10:17; II Cr.19:7; Jó 34:19; Is.47:3; At.10:34; Ef.6:9; I Pe.1:17). Assim, sendo proveniente de Deus, a chamada é para todos os homens.

OBS: “…”A graça de Deus – diz Wesley – da qual nos vem a salvação, é gratuita em tudo e para todos. É gratuita a todos a quem é concedida. Não depende do poder ou mérito do ser humano, em nenhum grau, nem no todo, nem em parte.

Do mesmo modo ela não depende das boas obras ou da retidão daquele que recebe, de coisa alguma que tenha feito ou que seja.

Não depende dos seus esforços, dos seus sentimentos, bons desejos, bons propósitos ou intenções, pois todos estes fluem da graça gratuita de Deus; são apenas a corrente, não a fonte. São os frutos da graça gratuita e não a raiz. Não são a causa mas os efeitos da mesma.

Seja o que for de bom que haja no homem ou que seja feito por ele, é Deus o autor e que o faz. Assim é a sua graça gratuita em tudo, isto é, não depende de nenhum poder ou mérito no homem, mas somente em Deus, que nos deu gratuitamente o seu próprio Filho e “com Ele deu-nos gratuitamente todas as coisas”.

(…) Mas terá Deus distribuido a sua graça com todos os seres humanos? É aqui que Wesley se torna mais enfático. Nem mesmo as doutrinas católico-romanas provocaram-lhe tão grande ira quanto a propagada idéia ao seu tempo de que Deus havia escolhido uns quantos para a salvação, deixando a grande maioria perecer nos seus próprios pecados.

A chamada doutrina da reprovação, a de que Deus não apenas não se importa com milhões, mas deliberadamente os predestinou à perdição, enchia Wesley de horror, que a considerava uma terrível blasfêmia contra Deus, pois o considerava injusto, cruel e mentiroso.

A graça de Deus estava aberta a todos os homens e mulheres. Não apenas aberta a todos mas presente em todos. Wesley acreditava que a Graça Salvadora (ou Preventiva, como ele a chamava) estava em atuação no coração de todos os seres humanos, ao lado de sua consciência, a própria presença de Deus em ação, por sua misericórdia, procurando levar o ser humano ao arrependimento:

“Parece ser esta faculdade a que se referem usualmente aqueles que falam de consciência natural, expressão encontradiça amiúde em alguns dos nossos melhores autores, contudo não estritamente certa, pois, embora possa ser chamada natural, por achar-se em todos os homens, não é, todavia natural, propriamente falando-se, mas um don sobrenatural de Deus, acima de todos os seus dotes naturais”.…” (Graça preveniente. end. cit.).

-Mas Deus já sabe, de antemão, quem aceitará o Seu convite. Portanto, não teria chamado apenas àqueles que Lhe obedecerão? A resposta é negativa.

-Não resta dúvida de que Deus, por ser onisciente, sabe quais serão os que Lhe obedecerão, atenderão ao Seu convite, como também aqueles que o rejeitarão. Mas isto em nada tem que ver com a chamada para a salvação.

-Deus chama a todos, abre real oportunidade de salvação a toda criatura humana, mesmo sabendo que ela não Lhe obedecerá.

Deus chama a todo o homem, e chama verdadeiramente, pois é a própria verdade (Jr.10:10), porque quer que todos os homens se salvem, embora saiba que nem todos serão salvos. Sua natureza impõe que Ele chame a todos, mas a natureza que deu ao homem faz com que nem todos os homens atendam ao Seu chamado.

-É o que diz o pregador e teólogo norte-americana Charles Finney (1792-1875), um dos grandes nomes do Segundo Grande Avivamento ocorrido nos Estados Unidos, “in verbis”: “…Primeiramente Deus se aproxima do pecador e se move a favor deste; mas não é o pecador que se aproxima, ou que se move, ou que procura fazer com que Deus se mova.

Deus toma a primeira iniciativa e o pecador é quem se entrega. Deus chama e o pecador responde. O pecador jamais se aproximaria de Deus, se Deus não o houvesse atraído. Novamente: Deus chama de modo eficaz, porém não irresistível, antes que o pecador se entregue.

(…) ninguém de fato vem a Deus até que tenha sido efetivamente persuadido a fazê-lo; (…) Não há dúvida de que o pecador é totalmente não inclinado a obedecer até o exato momento em que é persuadido e induzido a render-se.

O ato de voltar-se, como temos visto, é um ato de espontânea vontade, porém a pessoa é induzida a voltar-se através da ação do Espírito Santo.

Todo aquele que verdadeiramente já se converteu sabe que a sua conversão não deve ser atribuída a si mesmo, em qualquer outro sentido, a não ser que essa pessoa apenas finalmente consentiu, por ter sido levada e persuadida pelo Espírito Santo.

A glória pertence a Deus pelo fato de o pecador possivelmente ter-se entregado, talvez, após uma longa resistência, e jamais depois que tenha sido tão convencido, de modo que tivesse ainda alguma escusa ou apologia a favor do pecado…” (Teologia sistemática, pp.563-4). O mesmo Finney, citando Fletcher, diz que “a graça antecede o livre-arbítrio” (op.cit., p.563).

-O homem, ao pecar, perdeu a imagem e semelhança de Deus, deixou de ter a justiça original, pois foi feito reto (Ec.7:29), e, por isso, agora tem uma natureza decaída, despida de virtudes morais, justiça, santidade e conhecimento de Deus.

-No entanto, a graça de Deus faz com que ele tenha ao menos a noção de que Deus existe e quer salvá-lo. “…A graça de Deus estava aberta a todos os homens e mulheres. Não apenas aberta a todos mas presente em todos.

Wesley acreditava que a Graça Salvadora (ou Preventiva, como ele a chamava) estava em atuação no coração de todos os seres humanos, ao lado de sua consciência, a própria presença de Deus em ação, por sua misericórdia, procurando levar o ser humano ao arrependimento:

“Parece ser esta faculdade a que se referem usualmente aqueles que falam de consciência natural, expressão encontradiça amiúde em alguns dos nossos melhores autores, contudo não estritamente certa, pois, embora possa ser chamada natural, por achar-se em todos os homens, não é, todavia natural, propriamente falando-se, mas um dom sobrenatural de Deus, acima de todos os seus dotes naturais”…” (Graça preveniente. end.cit.).

-Como afirma Finney: “…A depravação moral é a depravação do livre-arbítrio, não da faculdade em si, mas de sua livre ação…” (op.cit., p.270).

Ou seja: o homem não tem condições de descobrir que Deus quer salvá- lo, mas Deus, pela Sua graça, faz com que o homem tenha conhecimento disto, por meio da sua consciência (que é a “voz divina no interior do homem”) e da pregação do Evangelho, criando, assim, condições para que o homem atenda, ou não, ao chamado e isto em relação a todos os homens indistintamente.

-Como bem afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus: “…A corrupção do gênero humano atingiu o homem em toda a sua composição — corpo [Rm.8:10], alma [Rm.2:9] e espírito [II Co.7:1], conforme lemos em Isaías: ‘Toda cabeça está enferma, e todo o coração, fraco.

Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã’ (Is.15:6). Isso prejudicou todas as suas faculdades, quais sejam: intelecto [Is.1:3], emoção [Jr.17:9], vontade [Ef.4:18], consciência [I Tm.4:2; I Co.8:7], razão [Tt.1:15] e liberdade [Tt.3:3].

Portanto, o homem por si mesmo não consegue se voltar para Deus sem o auxílio da graça divina [Jo.6:44]. Apesar de tudo, a imagem de Deus no ser humano não foi aniquilada [Gn.9:6; Tg.3:9]; foi, no entanto, desfigurada a tal ponto que a sua restauração só é possível em Cristo [Ef.2:10].…” (DFAD, 2. ed., VI.6, pp.98-9).

III – A VONTADE E A SALVAÇÃO DO HOMEM

-Deus chama todos os homens à salvação. Trata-se de um chamado universal e real, pois o caráter de Deus exige que tal chamada seja extensiva a todos e, mais, que haja uma real oportunidade de salvação aos homens.

Mas, pode alguém perguntar, está o homem em condições de atender ao chamado de Deus? Tem o homem o poder de escolher entre o bem e o mal depois que pecou?

-Foi esta, principalmente, a questão que deu início à polêmica a respeito da salvação e do seu alcance, polêmica esta que tem se mantido ao longo da história da Igreja e que atinge, indistintamente, todos os segmentos da Cristandade, como os evangélicos ou protestantes e até mesmo os católicos romanos, até porque a polêmica se apresentou ainda nos primeiros séculos da Igreja, principalmente no século IV, quando foi objeto da controvérsia entre Agostinho, bispo de Hipona, e o monge britânico Pelágio.

-Depois, com a Reforma Protestante, foi o objeto da controvérsia entre Erasmo de Roterdã, o autor do “Textus Receptus”, texto que foi a base das traduções da Bíblia para as línguas europeias por parte dos reformadores, e Martinho Lutero, controvérsia, aliás, que se estendeu para as obras de Jacó Armínio, João Calvino e John Wesley bem assim o objeto da controvérsia no seio da própria Igreja Romana, entre os seguidores do bispo Cornelius Jansen e os jesuítas.

Ainda hoje, é o principal pomo de discórdia entre os segmentos evangélicos e o sinal distintivo entre a Igreja Romana e os chamados “veterocatólicos” (ou “católicos antigos”).

-O homem, ao pecar, é dominado pelo pecado. Assim o Senhor afirmou em seu diálogo com Caim (Gn.4:7), sendo confirmado pelas palavras de Cristo quando em um de seus debates com os judeus (Jo.8:34), bem assim descrito este estado pelo apóstolo Paulo na epístola aos romanos (Rm.7). Este domínio é de tal sorte que o homem não tem condições de atender, por si só, ao chamado divino para a salvação?

-Uma linha de pensamento que se iniciou com Agostinho, sendo seguida por Lutero, Calvino e Jansen, em que pesem suas variações de estudioso para estudioso, é no sentido de que o homem não tem condições de, por si só, desprender-se do domínio do pecado, que somente uma intervenção divina é capaz de fazer com que os homens atendam ao chamado para a salvação.

-O atendimento ao chamado para a salvação só seria possível àqueles que, de antemão, Deus tenha destinado à salvação, ou seja, Deus, em realidade, somente chamaria à salvação àqueles que, por Sua soberana vontade, quisesse que fossem salvos.

-Haveria, portanto, uma “predestinação incondicional”, ou seja, Deus, na Sua presciência, já teria escolhido quem seria salvo e quem não o seria, de modo que só os “predestinados” atenderiam ao chamado para a salvação e, assim, seriam salvos. Para tanto, entre outros textos, consideram que assim ensinou o apóstolo Paulo em Rm.8:29,30.

-Um entendimento desta natureza, em primeiro lugar, não considera que o chamado divino para a salvação seja universal, algo que ofenderia o caráter de Deus e que contraria frontalmente às diversas afirmações de que, para Deus, não há acepção de pessoas.

-Se, entretanto, como se costuma fazer, é dito que o chamado divino é universal mas que só tem condições de atendê-lo aqueles que Deus quiser, então se teria a situação absurda de que Deus não faria um chamado realmente universal, que não haveria sinceridade na universalidade de tal chamado, o que, também, seria evidente ofensa ao caráter divino.

-Mas, se não houvesse a questão relativa à chamada divina para a salvação, que, por si só, já desmerece esta doutrina da “predestinação incondicional”, tem-se que esta linha de pensamento parte de uma premissa, qual seja, a de que, ao pecar, o homem perde o seu livre-arbítrio. Será esta premissa verdadeira?

-Quando analisamos o diálogo de Deus com Caim, vemos que o Senhor diz, textualmente, que, se ele pecasse, o pecado o dominaria.

-Não resta dúvida de que o homem, quando peca, passa a ser escravo do pecado. Mas esta escravidão é tal que o homem perca o seu livre-arbítrio? Parece-nos que não.

-Quando Deus volta a falar com Caim, depois que este havia pecado, dá-lhe o sinal, a fim de impedir que ele fosse morto.

Por que Deus fez isto? Dirão alguns, porque Deus foi misericordioso, porque Deus quis demonstrar o Seu amor para com Caim. Mas, diante de tal resposta, poderíamos indagar: para que Deus mostrou o Seu amor para Caim? Só há uma resposta possível:

Deus mostrou Seu amor para Caim para que este pudesse atender o chamado à salvação. O “sinal de Caim” não tem qualquer sentido senão para concessão de uma nova oportunidade para a sua salvação, oportunidade, entretanto, que foi desperdiçada.

-De igual maneira, quando analisamos a questão relativa à geração do dilúvio, por que Deus deixou que Noé pregasse durante cem anos a respeito da justiça divina? Precisamente para que o povo pudesse ser chamado ao arrependimento, ser chamado à salvação. Também não deram ouvidos ao pregoeiro da justiça, mas isto não retira o fato de que foi dada uma chance de arrependimento, de que houve um chamado à salvação.

-Com respeito ao povo de Israel, então, é o próprio Moisés quem testemunha, ao findar de sua jornada, que se esteve diante de um povo obstinado (Dt.9:6), testemunho, aliás, que é reprodução do testemunho do próprio Deus (Ex.32:9; 33:3; Dt.9:13).

Porém, o fato de Deus ter considerado o povo obstinado não impediu que o Senhor atendesse ao clamor de Moisés e perdoasse o povo, depois do episódio do bezerro de ouro (Ex.34:9,10), dando-lhe uma nova oportunidade que, infelizmente, foi desperdiçada quando do retorno dos espias.

-Percebemos, portanto, que, mesmo após o pecado, Deus abriu oportunidade de arrependimento para os homens, prova de que o livre-arbítrio, ou seja, a liberdade para escolher deixar a vida de pecado e tornar a fazer o bem, é possível ao homem, mesmo estando sob o domínio do pecado.

Para tanto, será preciso que o homem creia na Palavra de Deus, confie na Sua promessa e, num gesto de fé, passe a viver de acordo com a vontade de Deus a partir de então.

-É preciso, porém, não incidir no erro doutrinário trazido por Pelágio (350-423), que ensinava que o homem, depois do pecado de Adão, não tinha uma natureza depravada, ou seja, os descendentes de Adão tinham igual condição para escolher entre o bem e o mal como Adão, que teria servido apenas de “exemplo” para os seus descendentes.

Entretanto, em Gn.5:3, é claríssimo que Sete, o primeiro homem a invocar o nome do Senhor (Gn.4:26), foi criado à imagem e semelhança de Adão, ou seja, teve uma natureza decaída, depravada, não podendo, portanto, ter livre escolha do bem, mas escolhendo necessariamente o mal, vez que, quando Adão pecou, todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm.3:23; 5:12).

-Esta depravação é total, toda a natureza do homem é pecaminosa, por isso é necessário que a graça de Deus se apresente ao homem para que ele possa não só ter conhecimento de que Deus quer salvá-lo, como também condições para poder atender a este chamado. Sem esta graça, jamais o homem poderia optar por receber a Cristo Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador.

-Também não podemos cometer o equívoco de João Cassiano (360-435), cuja doutrina foi chamada de “semipelagianismo”, segundo a qual, embora o homem não tenha mais a condição de Adão antes do pecado, não tendo capacidade de, por si só, escolher o bem e rejeitar o mal, teria, sim, a condição de estabelecer uma “boa vontade” para com Deus e, a partir desta “boa vontade” é que Deus dele Se aproximaria para lhe oferecer a salvação.

-O homem é mau (Mt.7:11), e, portanto, não pode ter qualquer “boa vontade” para com Deus. Deus é quem toma a iniciativa, é Ele que tem “boa vontade” para com os homens, que é precisamente a graça e é por causa desta “boa vontade” que o homem poderá atender ao chamado à salvação. Isto fica, aliás, bem claro quando os coros celestiais, ao celebrar o nascimento de Jesus Cristo, diz que estava ali demonstrada a “boa vontade para com os homens” (Lc.2:14).

-Assim como a chamada divina é fruto da soberania divina e só existiu porque Deus o quis, também o atendimento ao chamado da parte de Deus não depende de Deus, mas, sim, do homem.

-Deus não iria chamar todos os homens ao arrependimento, sabendo que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus (Rm.3:23), se todos os homens não pudessem, pela fé em Cristo Jesus, atender ao chamado.

Por isso, o apóstolo Paulo dirá que, com o coração se crê para a justiça e com a boca se faz confissão para a salvação (Rm.10:10). Todos os homens, sejam judeus ou gregos, que invocarem o nome do Senhor, ou seja, atenderem ao chamado divino, serão salvos (Rm.10:11,13).

-Quem atender ao chamado de Deus estará predestinado a ser conforme a imagem de Cristo, ou seja, o atendimento ao chamado de Deus é que nos torna participantes da natureza divina, que nos dá nova vida, que nos faz ser novas criaturas.

Aqueles que atendem ao chamado de Deus estão predestinados a terem a mesma imagem e semelhança do segundo Adão, a imagem sem qualquer distorção.

-Os filhos de Deus são diferentes dos demais homens, porque, ao atenderem ao chamado divino, nascem de novo, têm um caráter diferente, vivem de modo diverso do dos demais homens, porque passam a ser espelhos da glória de Deus, assim como é Cristo Jesus e, por isso, Jesus Se torna o primogênito entre muitos irmãos, pois passam estes homens a ser herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo. É este, pois, o real sentido de Rm.8:29.

-A “predestinação”, portanto, não é uma escolha prévia de Deus de quem será salvo e de quem será
condenado, pois isto não diz respeito ao exercício da soberana vontade divina, mas, sim, à aceitação, ou não,

da chamada divina, algo que Deus, por Sua soberana vontade, quis que ficasse a critério do homem, na liberdade do homem.

-A “predestinação” é, isto sim, o prévio estabelecimento das propriedades e das características que terá aquele que aceitar o chamado divino para a salvação. Assim, que atender ao chamado para a salvação, usando do seu livre-arbítrio, será justificado, ou seja, por ter aceitado a chamada divina para a salvação, passará a ser considerado inocente diante de Deus apesar de seus pecados; será, também, liberto do domínio do pecado,

ficando dele separado, ou seja, será santificado e, se assim permanecer até o fim da sua vida terrena, também alcançará a glorificação, ou seja, receberá, quando do arrebatamento da Igreja, um corpo glorioso, no qual ingressará na dimensão da glória divina, da qual não está mais destituído.

-Este é o destino que está traçado, de antemão, para todos quantos aceitarem o chamado divino, destino este que se encontra retratado em Rm.8:30. É a chamada “predestinação condicional”.

OBS: “…Para Wesley, verdadeira predestinação consiste no seguinte:

“1. Aquele que crê é salvo da culpa e do poder do pecado;

2. Aquele que persevera até o fim será salvo por toda a eternidade;

3. Aqueles que recebem o precioso dom da fé se tornam assim filhos de Deus; e já que são filhos de Deus, receberão o Espírito de santificação que os capacitará a andar como Cristo andou”.

(Azenilto G. BRITO. A verdade sobre a “predestinação”. http://www.google.com/search?q=cache:OEZLAosWaH8J:www.azenilto.com/parte-1- PREDESTINACAO.html+Wesley,+predestina%C3%A7%C3%A3o&hl=pt-BR Acesso em 27 dez. 2005).

-Mas, dirão alguns, como explicar a expressão do apóstolo, no início de Rm.8:29, “os que dantes conheceu”? Não haveria aí uma comprovação de que Deus só conhece aqueles que antes escolheu para serem chamados à salvação?

A resposta é negativa. O apóstolo fala a respeito da “presciência de Deus”, ou seja, do fato de que Deus tudo sabe de antemão, mas isto não significa que tenha desfeito o livre-arbítrio do homem ou não o leve em consideração na Sua presciência.

-Deus é onisciente e, por isso, tem conhecimento a respeito do destino de todos os homens, mas isto não O impediu de criar uma oportunidade de salvação a todos os homens.

Como diz Jacó Armínio, ao predestinar, o Senhor já considerou a condição dos homens como pecadores. A eleição divina, como diz Paulo em Ef.1:4, é feita “em Cristo Jesus”, ou seja, os que crerem em Cristo estão destinados previamente à salvação, oportunidade dada a todos os homens.

-A “predestinação”, ainda que estabelecida por Deus, é condicional, ou seja, depende da resposta que
o homem der ao chamado divino.

O homem é livre, mesmo estando sob o pecado, pode crer. O pecado não o impede de crer em Cristo Jesus, de crer no Evangelho e, portanto, se arrepender dos seus pecados. A pregação de

Jesus era dirigida a todos os israelitas, sem qualquer exceção:

“Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc.1:15). Jesus disse ter vindo para as ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt.15:24), não para as “ovelhas previamente escolhidas da casa de Israel”. Por isso, só foram destinados à justificação, à santificação e à glorificação aqueles que O receberam como Salvador, como nos dá conta o apóstolo João (Jo.1:11-13).

-E quem não aceita o chamado divino para a salvação? Está também “predestinado”? A resposta é afirmativa. Quem não aceita o chamado divino para a salvação, também tem seu destino previamente traçado pelo Senhor.

Todos que rejeitam a Cristo permanecerão no pecado, continuarão destituídos da glória de Deus e serão lançados na fornalha de fogo ou trevas exteriores, onde há pranto e ranger de dentes (Mt.8:12; 13:42,50; 22:13; 25:30; Lc.13:28).

-Aliás, é importante que se diga aqui, este lugar não foi, inicialmente, destinado aos homens, mas, sim, ao diabo e seus anjos (Mt.25:41), que é mais uma evidência de que o chamado de Deus é universal, dirigido a todos os homens e que não havia prévia escolha por parte do Senhor de quem iria se salvar, ou não, pois, caso contrário, o fogo eterno estaria preparado não só para o diabo e seus anjos, mas para o diabo, seus anjos e os predestinados à perdição.

-Foi dentro deste contexto que Jesus, no sermão do monte, disse haver dois caminhos e duas portas (Mt.7:13,14), imagem que ficou tão marcada na Igreja que os crentes se identificavam como sendo integrantes do Caminho (At.19:9,23; 22:4; 24:14,22), sendo, também, por esta figura que se inicia a “Didaché”, um dos mais antigos documentos cristãos pós-apostólicos conhecidos, onde se encontra uma verdadeira instrução a respeito do significado da fé cristã:

“Existem dois caminhos, entre os quais, há grande diferença, o que conduz à vida e o que leva à morte” (Didaché I, início. http://escrituras.tripod.com/Textos/Didache.htm Acesso em 22 dez. 2005) (tradução nossa de texto em espanhol).

Por que diria o Senhor que há dois caminhos e que devemos seguir o caminho que conduz à vida, se, na verdade, Deus teria escolhido apenas um caminho para cada ser humano, segundo os defensores da “predestinação incondicional”?

-O homem, mesmo tendo pecado, mesmo dominado pelo pecado, não perde a capacidade de se arrepender dos pecados, mediante a crença na Palavra de Deus, no Evangelho. Por meio da Palavra, o Espírito Santo convence o pecador e este, então, se arrepende, instante em que se converte e passa a ter uma nova vida, nasce de novo, ingressando, assim, no caminho que conduz à salvação.

-Esta manutenção do livre-arbítrio, mesmo diante do pecado, é o cerne das outras linhas de pensamento, uma radical, que acha que o pecado em nada alterou o livre-arbítrio, defendida por Pelágio, como já visto, e outra, moderada, que admite que o pecado escraviza o homem, mas que, nem por isso, foi de todo impedido de se arrepender, linha que encontra em Armínio e Wesley seus principais expoentes, ainda que com nuanças, e que é a linha oficialmente adotada pelas Assembleias de Deus, por ser a doutrina que encontra respaldo nas Escrituras e no caráter de Deus, lembrando que tudo se dá pela boa vontade divina, pela graça de Deus, o que contraria o que diz João Cassiano, que entendia que a boa vontade teria nascimento no homem e não em Deus.

OBS: Entre os judeus, esta sempre foi a posição adotada pelos rabinos. O maior filósofo judeu Maimônides sintetizou o pensamento judaico a respeito, que vale a pena aqui transcrever: “…Todo ser humano é senhor de suas ações, do que ele faz o do que deixa de fazer.

Se deseja enveredar pelo bom caminho e ser uma pessoa virtuosa, ele tem liberdade para fazê-lo, e se deseja enveredar pelo mau caminho e ser uma pessoa má, também é livre para fazê-lo…

O homem é o único ser da criação — e nenhum outro se assemelha a ele nisto — que pode por si mesmo e pelo seu próprio discernimento e por seu próprio pensamento diferenciar entre o bem e o mal…

Portanto, não dê ouvidos à conversa vã dos tolos que há entre os ateus, e dos obtusos que há entre os judeus que dizem que Deus determinou para o homem, antes dele nascer, se ele agirá correta ou malevolamente. Isto não é verdade.…” ( apud Nathan AUSUBEL. Livre arbítrio. In: A JUDAICA, v.6, p.513)

-É que vemos claramente na Declaração de Fé da CGADB, em sua primeira edição: “…Cremos que todos os homens e mulheres foram atingidos pelo pecado a tal ponto que, embora tenham sido feitos à imagem de Deus (I Co.11:7), não podem, por si mesmos, chegar a Deus. Não há nada que o homem natural possua ou pratique que lhe faça merecida a graça de Deus (Rm.5:18).

A Bíblia ensina: ‘Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus’ (Rm.3:11). A Bíblia qualifica essa condição espiritual como ‘mortos em pecado’ (Cl.2:13) e ‘mortos em ofensas’ (Ef.2:5).

A ideia de morte, aqui, é de separação, e não de aniquilamento (Tg.2:26; Rm.2:15). Deus derrama Sua graça, sem a qual o homem não pode entender as coisas espirituais (I Co.2:14), ou seja, foi Deus quem tomou a iniciativa da salvação, ‘do Senhor vem a salvação’ (Jn.2:9), agindo em favor das pessoas (Jo.1:12,13; Rm.9:16; I Jo.4:10,19).

Graça é um favor imerecido. É por meio da graça que Deus capacita o ser humano para que ele responda com fé ao chamado do evangelho:

‘Mas, se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça’ (Rm.11:6). Todavia, os seres humanos, influenciados pela graça que habilita a livre escolha, são livres para escolher: ‘Se alguém quiser fazer a vontade d’Ele, pela mesma doutrina, conhecerá se ela é de Deus ou se Eu falo de mim mesmo’ (Jo.7:17).

Deus proveu a salvação para todas as pessoas, mas essa salvação aplica-se somente àqueles que creem: ‘isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem’ (Rm.3:22). Nesse sentido, não há conflito entre a soberania de Deus e a liberdade humana.” (DFAD 1.ed., X,5, p.113).

-Admitir que o pecado tenha destruído o livre-arbítrio é um ataque à soberania divina, pois é admitir que o pecado é superior a Deus. Como pode o pecado destruir algo que foi feito por Deus? Impossível, pois Deus está sobre todos, inclusive sobre o pecado.

-Assim, a soberania divina somente é ressaltada pela doutrina da predestinação condicional e não, como advogam os seguidores da doutrina da predestinação incondicional, pela ideia contrária.

Os homens não se tornaram “robôs”, sem qualquer possibilidade de exercer a sua livre escolha, conquanto somente possam escolher pelo bem porque Deus lhes mandou a graça preveniente.

-Tanto assim é que podem os homens resistir a esta graça, ao contrário do que defendem os calvinistas, como dão exemplo diversas passagens das Escrituras, que apontam ter havido, por parte dos homens, a resistência ao Espírito Santo, como afirma o Artigo 4 da Remonstrância, “in verbis”:

“Esta graça de Deus é o princípio, o progresso e a consumação de todo o bem, tanto que nem mesmo um homem regenerado pode, por si mesmo, sem essa precedente ou preveniente, excitante, prosseguinte e cooperante graça, pensar, querer ou terminar qualquer bem, muito menos resistir a quaisquer tentações para o mal.

Por isso, todas as boas obras e boas ações que possam ser pensadas, devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Mas, em relação ao modo de operação dessa graça, ela não é irresistível, visto que está escrito sobre muitos que ‘resistiram ao Espírito Santo’ (Atos 7) e em muitos outros lugares”.

-Deus criou seres com livre-arbítrio para, através deles, mostrar a Sua soberania e, sobretudo, o Seu amor e, portanto, jamais a salvação iria abrir mão deste livre-arbítrio soberanamente concedido por Deus aos homens.

-Se o homem, pela graça divina, escolhe crer em Cristo, alcança a salvação e é resgatado do poder do pecado (At.26:18), nascendo de novo (Jo.3:3; I Pe.1:23), e este novo homem está livre da natureza do pecado, pois o velho homem, o homem pecador, fica crucificado com suas paixões e concupiscências (Gl.5:24).

-Este novo homem, liberto do poder do pecado, bem como não fazendo parte da natureza do pecado, tem uma vontade livre, como era a vontade do homem antes da queda, e esta vontade livre, por ter decidido obedecer a Deus, a chamada “obediência da fé” (Rm.1:5; 16:26), representa uma submissão voluntária ao Senhor.

-A vontade do homem salvo é livre, mas é uma abnegação, ou seja, o homem, uma vez alcançando a salvação em Cristo Jesus, por n’Ele crer como Senhor e Salvador, abre mão do seu “ego”, que, é, como vimos, a sua própria vontade, e, portanto, nega-se a si mesmo e passa a fazer a vontade de Deus.

-Não é, portanto, uma situação comparável à escravidão do pecado. No pecado, o homem faz o que não quer (Rm.7:16), porque está escravizado, vive satisfazendo os desejos do diabo (Jo.8:44), não consegue fazer o bem (Sl.14:1; 53:1). Não consegue dizer não ao pecado, peca mesmo sabendo que o pecado é errado e o levará à perdição.

-A situação do homem no estado pecaminoso, o velho homem (Rm.6:6; Ef.4:22; Cl.3:9), é similar ao do viciado que não consegue se libertar do vício, mesmo sabendo que o vício está a comprometer-lhe a própria existência.

-Com a salvação, o homem adquire a liberdade, pode dizer não ao pecado e sim a Deus. Está livre do poder do pecado e, portanto, não é mais escravo. Livremente, resolve, então, obedecer a Deus, resolvendo fazer a vontade do Senhor, e isto negando a si mesmo. É uma submissão voluntária, algo que nada mais é exercício legítimo da vontade, pois, como vimos, um dos significados de vontade é a busca do verdadeiro bem.

-Assim, não se trata de uma escravidão, agora em relação a Deus, mas, bem ao contrário, de uma submissão voluntária, amorosa ao Senhor, que, pode, inclusive, enquanto se estiver nesta vida terrena, ser abandonada, pois Jesus não acorrente ninguém para servi-l’O (Jo.6:66,67).

-Assim que cremos em Jesus, somos libertos do poder do pecado, somos separados da natureza do pecado, com a qual teremos de conviver até passarmos para a eternidade e ainda não estamos livres do corpo do pecado, entendido este, como ensina o pastor Severino Pedro da Silva (1946-2013),

“…nada mais que o poder do pecado a se expressar no corpo físico e moral.” (Corpo, alma e espírito, p.65) ou o que o pastor Bill Gillham (1927-2011), “…um poder para nos induzir ao pecado” (O poder do pecado não é a natureza pecaminosa. Disponível em: https://krowtracts.com/articles/power.html Acesso em 25 ago. 2025).

-Este corpo do pecado, assim como a natureza pecaminosa, desaparecerá quando da glorificação, quando, então, nunca mais estaremos passíveis de pecar. Como ensina Thomas Boston (1676-1732), o homem passa por quatro estados diferentes:

Homem Pré- Queda Homem Pós- Queda Homem Renascido Homem Glorificado capaz de pecar capaz de pecar capaz de pecar capaz de não pecar capaz de não pecar incapaz de não pecar capaz de não pecar incapaz de pecar

-A vontade, pois, com a salvação é restabelecida e deve ser exercida continuadamente como submissão voluntária, como abnegação, até o dia em que adentrarmos na eternidade e, com a glorificação, para sempre estaremos com o Senhor. Amém!

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/11916-licao-9-vontade-o-que-move-o-ser-humano-i

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