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LIÇÃO Nº 12 – QUANDO DEUS SE REVELA AO HOMEM

Nas Suas perguntas a Jó, Deus mostra a todo ser humano que é soberano e não deve satisfação a pessoa alguma.

INTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo do livro de Jó, hoje apreciaremos o “interrogatório” de Deus a Jó.

– Nas suas perguntas a Jó, Deus mostra a todo ser humano que é soberano e não deve satisfação a pessoa alguma.

I – DEUS APARECE A JÓ

– Jó ansiava por ter uma conversa com o Todo-Poderoso, para expor-lhe suas razões e queixas. Entretanto, ao se defrontar com o Senhor, notou a sua insignificância ante a majestade do Senhor e compreendeu quem é o verdadeiro Soberano sobre a Terra e que não devemos questionar a Deus, mas tão somente obedecer-Lhe e confiar em Seus propósitos.

– Eliú havia terminado seus longos discursos, praticamente repetindo os ensinamentos dos outros dois amigos, embora tivesse caminhado além em alguns pontos, mostrando que o sofrimento pode ter um lado benéfico, que o homem pode não compreender.

Após este discurso, o debate é interrompido e Deus Se apresenta para o patriarca Jó, trazendo mais perguntas do que respostas, a fim de mostrar ao patriarca qual deve ser a posição do homem diante dos propósitos divinos.

– Após os longos discursos de Eliú, antes que Jó pudesse oferecer alguma resposta (se é que iria oferecer alguma), o debate é interrompido pelo Senhor que, de dentro de um redemoinho, inicia um diálogo direto com o patriarca.

– Era o final do silêncio de Deus de que o patriarca tanto reclamara durante a discussão com seus amigos, mas Deus, em vez de respostas, traria perguntas ao patriarca, que apenas teriam o condão de demonstrar a pequenez do homem e a necessidade de estarmos na nossa humilde posição de servos do Senhor.

– Diz o texto sagrado que Deus respondeu a Jó de um redemoinho. O original hebraico para redemoinho é “searah”, que significa “tempestade acompanhada por ventos fortes”, palavra encontrada em II Rs.2:1,11, ao descrever o fenômeno que separou Elias de Eliseu, ou em Is.40:24.

Vemos, então, que Deus Se manifestou em uma tempestade (Cf. Jó 40:6), o que, talvez, tenha feito o patriarca lembrar-se da última funesta tempestade, na qual seus filhos haviam sido mortos (Cf. Jó 1:19).

– O surgimento da tempestade deve ter causado apreensão a Jó, até porque considerava todo o seu infortúnio como uma tempestade (Cf. Jó 9:17), mas, ao contrário do que se poderia esperar, este tufão seria o início da

vitória. Às vezes, também, as circunstâncias da vida estão tão turbulentas que, já em prova e queixosos, ao notarmos a aproximação de mais um furacão, de mais uma tempestade, podemos tender para o desespero, mas, não desanimemos, pois, em meio a este redemoinho, o Senhor pode estar nos trazendo a Sua solução.

– Alguns estudiosos da Bíblia entendem que esta tempestade não tenha sido literal, mas uma manifestação teofânica, uma experiência mística que o patriarca Jó tenha tido, a exemplo da experiência relatada pelo profeta Daniel (Dn.10:7), procurando basear-se, para tanto, em Jó 42:5,6.

– De qualquer modo, tenha ou não havido manifestação física de uma tempestade, o importante é que Deus cessou o Seu silêncio e Se dispôs a dialogar com o patriarca. Estavam desmentidos, com fatos, os argumentos deístas dos amigos de Jó: Deus interessa-Se, sim, pelo ser humano e vem em Seu auxílio.

– Deus Se apresenta ao patriarca, sem Se identificar, sem dizer Seu nome. Esta circunstância é a demonstração de que Jó conhecia a voz do Senhor (como admitirá ao término da inquirição em Jó 42:5), motivo pelo qual o Senhor não precisava Se identificar. Assim são os homens fiéis a Deus, conhecem a voz do seu Senhor (Jo.10:14,16). Querido(a) irmão(ã), tem ouvido a voz do Senhor? É capaz de reconhecê-la?

– Deus inicia seu discurso com uma pergunta: “quem é este que escurece o conselho com palavras sem conhecimento?” (Jó 38:2).

Em outras palavras, quem é que quer ter o direito de dizer o que Deus deve ou não fazer? Quem é aquele que está indignado por causa de seu sofrimento e se sente um injustiçado? Quem é aquele que quer que Deus lhe dê satisfação, lhe preste contas do que está fazendo na sua vida?

Será que o Senhor também não nos está fazendo esta mesma indagação? Será que temos nos colocado no nosso devido lugar de servos, de pessoas dispostas a obedecer e a fazer o que o Senhor nos manda?

Ou será que estamos, como Jó, que, apesar de ser o homem mais excelente na terra no seu tempo (como é a Igreja do Senhor na atualidade), não deixou de ser homem e, como tal, não tinha o direito de querer questionar Deus ou querer que Ele lhe prestasse contas do que estava fazendo em sua vida?

Deus mostrará a Jó que, apesar de sua excelência e de ser, efetivamente, uma pessoa inocente, não tinha o direito de querer demandar com Deus, de arguir-Lhe num tribunal, como tinha desejado (Cf. Jó 7:20,21; 10:2-22; 13:3,14-28; 23:1-17).

– Deus, desde o início, já afirma que tudo o que Jó falou, em termos de queixa, era fruto da ignorância, da falta de conhecimento a respeito de Deus. Disse o Senhor que Jó estava escurecendo o conselho com “palavras sem conhecimento” (Jó 38:2). Esta afirmação divina será objeto, ao término da inquirição, de reconhecimento e confissão por parte do patriarca (Jó 42:3-6).

– A falta de conhecimento do Senhor é a razão de ser de toda a nossa fraqueza espiritual. Daí porque o profeta Oseias ter recomendado que devamos conhecer e prosseguir em conhecer ao Senhor (Os.6:3), bem como o apóstolo Pedro ter, em sua última epístola, deixado à igreja o conselho para que cresçamos na graça e no conhecimento do Senhor (II Pe.3:18). Só o conhecimento do Senhor pode impedir-nos de termos fracassos espirituais (Ef.4:14).

– Deus, em seguida, determina que Jó se prepare para a arguição (Jó 38:3), pois, como homem, não é ele quem dará as regras, mas, sim, o Senhor.

Deus, apesar de Seu amor infinito, Sua bondade e misericórdia, é, também, a verdade (Jr.10:10) e, como tal, não podia senão estabelecer as coisas como elas são realmente, ou seja, que quem dá as ordens é Deus e não o homem. Ele é o Senhor, nós, Seus servos. Daí porque Deus pergunta e não responde, como queria o patriarca.

– “Cinge teus lombos” significa “esteja preparado”, pois, nos tempos de Jó, era preciso cingir as vestes, ou seja, amarrá-las junto ao corpo, para permitir a locomoção sem maiores problemas para o exercício das mais diversas atividades. Vemos, portanto, que Deus não deseja que o homem entre em contacto com Ele de forma despreparada e descuidada.

– Não tem respaldo bíblico o pensamento comodista, segundo o qual o homem, para ser usado por Deus, nada deve fazer de sua parte, colocando-se, simplesmente, como alguém à disposição do Senhor. Em toda a Palavra do Senhor, vemos que o Senhor deseja que nós nos preparemos para melhor Lhe servirmos.

– Mesmo quando vai demonstrar a pequenez do homem e repelir uma postura até certo ponto arrogante do patriarca Jó, Deus faz questão de que ele esteja preparado, devidamente pronto para ter um diálogo com o Senhor.

Que aprendamos esta lição e busquemos aproveitar todas as oportunidades que Deus nos dá para que nos preparemos mais e melhor para servir a Jesus.

II – AS PERGUNTAS DE DEUS

– Deus, já que é questionado por Jó do motivo pelo qual estaria o patriarca sofrendo, apesar de ser inocente, resolve indagar-lhe a respeito da própria criação, pois era esta a primeira revelação divina para o homem.

– Se Jó se achava no direito de questionar o Criador, deveria, pelo menos, mostrar que tinha pleno conhecimento a respeito da criação. É a criação a primeira revelação de Deus aos homens (Rm.1:20). Portanto, para quem se dizia com direito a exigir respostas de Deus, deveria, no mínimo, poder explicar a obra da criação, a primeira revelação de Deus ao homem.

– Na inquirição, Deus apresenta mais de setenta perguntas que são deixadas sem resposta, numa clara demonstração de que o homem está infinitamente aquém de poder querer entender e discernir os desígnios e propósitos do Senhor.

Não é esta a nossa função, mas, sim, confiarmos no Senhor e entregarmos nossos caminho a Ele, sabendo que Ele tudo fará e que este tudo sempre promoverá o nosso benefício (Sl.37:5; Rm.8:28).

– As primeiras indagações do Senhor dizem respeito à criação. Pergunta o Senhor a Jó se ele estava presente quando da criação do mundo e, portanto, poderia saber quando e como o mundo foi criado (Jó 38:4).

– Alguns têm distorcido o presente versículo querendo dizer que Jó já pré-existia quando da criação do mundo, algo que deve ser repelido, pois os homens não são almas pré-existentes que encarnam, como defendem as pessoas que interpretam erroneamente Jó 38:4.

– Aqui, Deus faz uma pergunta, demonstrando, bem ao contrário desta interpretação errônea que mencionamos, que o homem é um ser finito, que surge bem depois do início da Criação e que, portanto, não pode querer discernir a mente divina.

– Deus é eterno, mas o homem, sua existência, perto da de Deus, é como a da flor da erva (I Pe.1:24; Is.40:6). Precisamos ter em mente a fragilidade de nossa existência e que a vida eterna é algo garantido apenas pelo amor de Deus (Cf. Jo.3:16), a fim de que sejamos menos “cheios de direitos” para com o Senhor.

OBS: Esta reflexão a que Deus induziu Jó é recomendada por um pensamento judaico constante do Pirke Avot, o tratado ético do Talmude,

pensamento que nos diz: ” Acaviá bem Mahalalel diz: Reflete sobre três coisas, e não te deixarás dominar pela tentação do pecado: lembra-te de onde vieste, para onde vais e ante quem haverá de prestar contas. De onde vieste ? De uma gota fétida. Para onde vais ?

A um lugar de pó, de vermes e de teredos. Ante quem irás prestar contas ? Perante o Rei dos reis, o Santíssimo, bendito seja.”(Pirke Avot 3,1).

– Deus indaga a Jó se pode dizer quem pôs as medidas, as bases ou os fundamentos da criação, quando o homem ainda não existia, mas já existiam os anjos (Jó 38:5-7), seres superiores aos homens (Cf.Sl.8:4,5).

Como, então, querer discernir os pensamentos divinos em relação ao homem, se nem mesmo é possível haver discernimento com respeito à criação seja dos seres inanimados, inferiores ao próprio homem, seja dos seres celestiais, superiores ao homem?

– Deus indaga a Jó sobre a criação dos mares e oceanos, do dia e da noite, dos fenômenos metereológicos (Jó 38:8-30), coisas que, naturalmente, no tempo de Jó, não tinham a menor explicação e que, mesmo em os nossos dias, com todo o desenvolvimento científico-tecnológico, não estão totalmente respondidas.

– Deus não só criou todas as coisas, mas faz questão de dizer ao patriarca que está no controle de tudo isto, o que confirma o erro doutrinário contido no deísmo dos amigos de Jó. Era o dia-a-dia, o cotidiano do patriarca que não poderia ser por ele discernido.

– Deus demonstra que Jó, apesar de sua excelência, estava querendo “saber demais”, não tinha consciência do tamanho da sua ignorância frente às coisas mais simples e corriqueiras de sua vida.

– Não era só sobre o propósito divino para sua vida, em meio àquele sofrimento, que Jó ignorava, mas, como homem, era alguém que não tinha condições, enquanto tal, sem que Deus o revelasse, de saber coisa alguma a respeito do mundo que o cerca.

– É interessante observar que, apesar de todo o desenvolvimento de nossa ciência, cada vez mais se chega à conclusão que as teorias científicas não são hipóteses imutáveis e verdades inquestionáveis, pois se verifica, apesar de todo o progresso e até em relação a ele, que o homem, por si só, não tem condições de chegar a verdades absolutas. Como a Bíblia já tem afirmado há milênios, só Deus é a verdade (Jr.10:10).

OBS: “…Cada conclusão científica representa a interpretação mais razoável de todas as provas disponíveis – mas amanhã podem aparecer outras.

Por conseguinte, a ciência não tem verdades absolutas. Verdade absoluta é aquela que se manterá verdadeira em todos os tempos, lugares ou circunstâncias.

Toda verdade científica é tentativa, sujeita a revisão à luz de nova evidência. Algumas conclusões científicas (por exemplo, que a Terra é um esferóide, ou que os impulsos inatos são condicionados culturalmente) baseiam-se em uma massa tão grande e coerente de evidência, que os cientistas duvidam que jamais venham a ser derrubadas por nova evidência.

E, no entanto, o método científico exige que todas as conclusões permaneçam abertas a reexame toda vez que se constata que a nova evidência as contesta.…”(HORTON, Paul B. e HUNT, Chester L. Sociologia, p.7).

– Após falar da criação do nosso planeta, Deus dirige a atenção do patriarca para o Universo, para as estrelas e constelações. A astronomia sempre foi outro ponto que sempre intrigou os homens, pois, como afirma a Palavra de Deus, “o firmamento anuncia a obra das mãos do Senhor” (Sl.19:1).

– A contemplação do céu estrelado, a consciência de que nosso planeta, apesar de toda a sua grandeza, é apenas uma ínfima e insignificantíssima parcela de todo o Universo, é uma prova evidente da nossa pequenez diante do Criador.

E, embora muitas das coisas a respeito do Universo tenham sido desvendadas desde Jó até nossos dias, continuam sem resposta as indagações do Senhor ao patriarca a este respeito (Jó 38:32,33).

Aliás, como demonstrou o pastor Ailton Muniz de Carvalho, em seu polêmico livro “Deus e a história bíblica dos seis períodos da criação”, a narrativa bíblica da criação permanece incólume às mais avançadas teorias científicas a respeito da origem do Universo.

– Deus também recorre à meteorologia para demonstrar a Sua grandeza ao patriarca (Jó 38:28-30,34,35,37,38) . Trata-se, também, de um capítulo que causava muita intriga e admiração nos dias de Jó e na antiguidade, pois os fenômenos meteorológicos eram a mais próxima manifestação natural vivenciada pelo homem.

– Aqui, também, apesar de todo o enorme progresso científico e tecnológico, continuamos a ver o homem ainda refém das calamidades meteorológicas, com razoável capacidade de previsão e até de intervenção na natureza, mas muito longe de poder controlar o tempo.

Fenômenos como o “efeito estufa”, o “El Niño” ou “La Niña” nada mais são que a confissão do homem de que não tem o controle do tempo, algo que, desde os dias do patriarca Jó, a Palavra afirma estar única e exclusivamente nas mãos do Senhor. Aliás, “verdades incontestáveis” alardeadas nas últimas décadas, como o “aquecimento global”, revelaram-se farsas e manipulações.

– Não bastasse isto, Deus pergunta a Jó se ele tem conhecimento a respeito dos fenômenos que envolvem os animais, seja em relação à sua geração, à sua alimentação, enfim, à sua sobrevivência (Jó 38:39-39:6,13-17,26-30).

– Vemos aqui, claramente, que é Deus quem sustenta toda a criação animal e de forma participante e não, como defendem os deístas, de um modo distante, após a criação de leis naturais, que passam a fazer o trabalho por si mesmas, sem qualquer interferência divina.

– Aliás, a história de muitos desequilíbrios ecológicos, que não conseguem ser explicados, bem como a sobrevivência de espécies animais em meio a profundas e grandes transformações do meio-ambiente revelam a veracidade da intervenção divina na criação e sustento dos animais.

O homem não tem qualquer controle sobre estes fenômenos e a ideia do preservacionismo, aliás, é a confissão de que cabe ao homem tão somente deixar de interferir, pois o que foi por Deus criado é perfeito e bastante para se manter (mas não por ter em si alguma virtude por si só, como defendem alguns ecologistas, que como que fizeram renascer o culto idolátrico da deusa grega Gaia, mas pela presença constante do Senhor no sustento do que criou).

OBS: Dentre as muitas revelações interessantíssimas que nos advêm do discurso divino, podemos aqui apontar a que envolve a informação de

que Deus dotou a águia de poderosa visão, como se verifica em Jó 38:27-30. Eis o que nos diz a respeito o escritor Charles Swidoll:

“… Quando penso em visão, tenho em mente a capacidade de ver acima e além da maioria. Mais uma vez eu me lembro da águia, que possui oito vezes mais células visuais por centímetro cúbico do que o ser humano. Tal fato se traduz por habilidades espantosas.

Por exemplo, voado à altura de 200 metros, a águia consegue detectar um objeto do tamanho de uma moedinha, movendo-se na grama de 15 cm de altura.

A águia pode enxergar um peixe de oito centímetros saltando num lago a oito quilômetros de distância. As pessoas que têm a visão de uma águia conseguem enxergar o que a maioria não vê.…” (SWINDOLL, Charles R. Como viver acima da mediocridade : levando a sério o seu compromisso com a excelência, p.76).

– Mesmo no tocante a sua força e inteligência, que o permite dominar sobre os animais, para o que, aliás, foi criado por Deus (Cf. Gn.1:26,28), por causa do pecado e da sua atual condição, o homem tem dificuldade até para dominar certos animais, inclusive animais domesticáveis, como o boi selvagem (que a versão Almeida Revista e Corrigida denomina de “unicórnio”) e o cavalo, que dirá para entender Deus, que é muitíssimo superior (Jó 39:9-12; 19-25).

– Vemos aqui que o homem está aquém até da posição originariamente colocada na ordem do universo, em virtude do pecado, motivo pelo qual não pode sequer arvorar posições que, efetivamente, não lhe foram atribuídas. Será que temos esta consciência ou estavam proferindo palavras sem qualquer conhecimento, como as “determinações”, “declarações” e “decretos” que muitos têm, atrevidamente, emitido ao Senhor?

OBS: Sobre o animal que a versão Almeida Revista e Corrigida traduz por “unicórnio” em Jó 39:9,10, denominação que pode confundir o leitor com a figura mitológica grega do cavalo encantado com um único chifre, veja o que nos fala R.N. Champlin:

“…O animal em questão provavelmente é o remu, o búfalo acádico ou asiático. Esse animal era muito forte, mas usava sua força para comer e lutar, não para ajudar o homem em sua labuta. O boi selvagem era um animal que encontrava alimento com facilidade, mas levava uma vida difícil.

Intérpretes mais antigos viam aqui o rinoceronte, mas essa interpretação atualmente é rejeitada. Nenhum rinoceronte poderia ser ligado a um arado para puxá-lo e trabalhar no campo, conforme o texto sagrado supõe que pudesse suceder ao animal em questão.

Imagine-se pôr um rinoceronte em um celeiro, para compartilhar a vida com o gado domesticado.” (R.N. CHAMPLIN. O Antigo Testamento Interpretado, v.3, p.2025).

– Em seguida, após fazer este “passeio” pela criação, Deus dirige a Jó uma nova questão: “Porventura o contender contra o Todo-Poderoso é ensinar? Quem assim argui a Deus, responda a estas coisas” (Jó 40:2).

– Como se pode observar, portanto, o propósito de Deus ao fazer todas estas perguntas era o de provar a Jó que, para que ele ocupasse a posição de alguém que tinha direito de ter uma prestação de contas de Deus sobre o que lhe estava acontecendo, como o patriarca havia pedido insistentemente em suas lamentações, deveria ser alguém que tivesse conhecimento, ou seja, para que alguém pudesse contender, discutir, debater com o Senhor, deveria ser alguém que pudesse discernir os caminhos de Deus, alguém que tivesse condições de fazê-lo.

– Jó, entretanto, apesar de sua excelência, não estava em condições de querer perquirir a Deus ou de que Deus pudesse prestar-lhe contas. Muito pelo contrário, nós, como seres humanos, devemos não querer ser ensinadores ou mestres do Senhor, mas, antes disto, sermos seus alunos, seus discípulos, seus aprendizes.

Jesus, mesmo, disse que devemos “aprender d’Ele”(Mt.11:29) e não é por outro motivo que Lucas sintetiza o ministério do Senhor como sendo um ministério de obras e de ensinos (At.1:1). O verdadeiro ensino jamais se dá em disputa, queixa, reclamação ou indignação diante dos desígnios divinos, mas, sempre, quando estamos a Seus pés.

– Deus dá, então, oportunidade para que o patriarca replique, mas Jó, ao contrário das vezes em que se defrontara com seus amigos, não tem palavras, como veremos infra.

– Ante o silêncio de Jó, Deus prossegue a Sua inquirição, tornando a apontar a falácia de Jó em querer ter argumentos diante de um colóquio com o Senhor. Diz o Senhor a Jó: “tens braço como Deus ou podes trovejar com voz como a Sua?” (Jó 40:9). Quem somos nós para querermos determinar o que Deus deve fazer?

OBS: Costumamos comparar a conduta de muitos crentes com o processo legislativo brasileiro. Desde 1988, o Presidente da República, pela nossa Constituição, tem dois modos de fazer valer a sua vontade através de leis.

A primeira é através do encaminhamento de um projeto de lei ao Congresso Nacional, onde a sua iniciativa é submetida à aprovação dos parlamentares. O projeto, então, é discutido e votado, podendo, ou não, ser aprovado. Se aprovado, vira lei.

A segunda, por intermédio de medida provisória com força de lei, em que a medida já passa a valer imediatamente após a publicação e o Congresso deverá, no prazo máximo de 120 dias, aprovar ou não a medida que, entretanto, já está valendo.

Em caso de rejeição, a medida valeu até ser rejeitada pelo Congresso. Muitos crentes, a exemplo do Presidente, fazem a sua vontade logo, de pronto, como se fosse uma medida provisória e, depois, querem que Deus as aprove ou, então, regule as consequências dos seus atos, assim como o Congresso tem de regular as relações ocorridas durante o tempo em que a medida provisória vigorou.

Entretanto, ao contrário do Presidente da República, não temos, diante de Deus, o direito de fazer valer a nossa vontade sem a prévia aprovação de Deus. A estes crentes “medida provisória”, temos apenas a dizer o que Deus disse a Jó: tens braço como Deus ou podes trovejar com voz como a Sua ?

– Deus afirma a Jó que, se ele pudesse assumir alguma posição de divindade, que o fizesse e que se encarregasse de fazer justiça sobre a face da terra (Jó 40:10-14).

No entanto, nem mesmo tinha condição de dominar o beemote (animal identificado como sendo o hipopótamo) (Jó 40:15-24), muito menos o temível leviatã (animal identificado, por alguns, como sendo o crocodilo ou uma espécie de crocodilo e, para outros, como sendo nome genérico para monstros marinhos, animais marinhos de grande porte) (Jó 41:1-34). Se não tem domínio sequer sobre a natureza, que o próprio Deus estabeleceu que dominasse, como quereria o homem entender os propósitos morais e espirituais do Senhor?

III – O SILÊNCIO DE JÓ

– Jó teve a oportunidade de falar no meio do discurso divino. Deus deu-lhe a palavra, como podemos observar em Jó 40:2. Deus sempre confere oportunidade para que o homem fale, mesmo quando se encontra em situações altamente embaraçosas e desmoralizantes.

– Quando da queda, Deus permitiu que o homem desse a sua versão sobre os fatos (Gn.3:10-13), como também Caim (Gn.4:9-16). Faz, aqui, o mesmo em relação a Jó.

– É por estas atitudes que os juristas costumam dizer que o direito de defesa é sagrado, porquanto foi criado pelo próprio Deus, conforme nos mostram as Escrituras.

Ora, se Deus, que é Deus, jamais deixa de reconhecer ao homem dignidade para que possa fazer uso da palavra, mesmo quando esteja em situação de extrema desvantagem, quando esteja errado, porque haveremos nós, meros homens, de subtrair ao nosso semelhante este direito?

– O direito de defesa, de dar a sua versão é um direito criado pelo próprio Deus e, se somos o povo santo, o povo de Deus, não poderemos jamais cercear ou querer, de algum modo, ignorar este direito.

OBS: Foi com preocupação que, quando da mudança do Código Civil, que determinou que, nos estatutos das associações (entre as quais se incluem as igrejas), fosse garantido o direito de defesa dos associados, vimos a manifestação de diversas pessoas achando que isto era uma indevida intromissão do Estado na vida interna das igrejas.

Ora, se o Estado está apenas aplicando um princípio bíblico, como podemos admitir que, até agora, igrejas não estejam aplicando este princípio e que, quando forçadas a fazê-lo, indignam-se ?

– Já diante da primeira bateria de perguntas do Senhor, relativas à criação, o patriarca fica sem palavras, atônito, sem ter o que responder. Afirma tão somente que é vil e que deveria, simplesmente, calar-se.

– Reconhece que falou em demasia antes e que nada tinha, pois, a dizer (Jó 40:4,5). Era um importante passo: o do reconhecimento de sua pequenez, de sua condição de inferioridade diante de Deus. Entretanto, era, ainda, um passo insuficiente.

– Com efeito, não bastava Jó dizer que havia falado demais ou que era vil, mas se fazia necessário entender que havia falado palavras sem conhecimento, que a assunção de uma posição além da que Deus lhe concedeu era uma loucura, era algo que não poderia mais se repetir.

– Calar-se e reconhecer-se pequeno era algo insubsistente, pois o que Deus queria é que Jó reconhecesse que falara como um doido, assim como dissera a respeito de sua mulher tempos atrás.

Daí porque ter o Senhor, após esta declaração, continuado a inquirir o patriarca, desafiando-o, inclusive, a assumir uma posição de excelência e de majestade, a posição que se irrogara ao tentar debater com Deus o porquê de seu sofrimento.

– Após a exposição divina sobre a falta de domínio do homem sobre a própria criação, através dos exemplos do beemote e do leviatã, Jó não mais resistiu à inquirição, que não tinha outro propósito senão o de fazer com que Jó se submetesse inteiramente, sem qualquer reserva, ao Senhor.

– Jó, finalmente, admite que os planos de Deus são soberanos e não são da conta de quem quer que seja (Jó 42:2).

Reconhece que não cabe ao homem inquirir o porquê das coisas que ocorre em sua vida por determinação ou permissão do Senhor. Admite que falou do que não entendia, de coisas que, por suas maravilhas, não poderia compreender (Jó 42:3).

– Ao invés de uma contenda, de uma discussão, de uma tomada de satisfação, Jó coloca-se na posição de um mero e simples aprendiz, de um discípulo, pronto a aprender do seu mestre (Jó 42:4).

Reconhece que, se antes tinha uma comunhão real com o Senhor, era uma comunhão incompleta, não total, mas que, agora, com a prova a que havia sido submetido, não apenas de ouvir, mas por experiência própria, poderia conhecer mais e melhor o Senhor (Jó 42:5).

– Jó afasta-se de seus direitos, de defender os seus direitos, reconhecendo que não era perfeito diante do Senhor, que, embora fosse inocente, havia mantido algo fora do controle do Senhor na sua vida, arvorando-se numa posição de excelência e de majestade que, efetivamente, não possuía.

– Desaparece, então, aquela pontinha de autossuficiência, aquele sentimento de que o mundo começava a girar em torno de si, e o patriarca reconhece que não pode, jamais, passar da condição de aprendiz do Senhor e de que não tem condição alguma de querer lhe ditar regras ou formas de agir.

– O patriarca rejeitou a sua conduta anterior, abominou-a e se arrependeu diante de Deus (Jó 42:6). Não havia pecado na vida de Jó, mas Jó não fizera coisas convenientes, colocando-se numa posição acima da que o Senhor lhe concedera.

– Sem que houvesse qualquer resposta às muitas indagações de Jó, o patriarca curva-se ao Senhor e demonstra uma atitude de fé, pois, seja porque fosse, seja o que fosse, desistira de querer explicações do Senhor, contentando-se apenas em ter melhorado os seus caminhos para com Deus.

– Pouco agora lhe importava a miséria, a doença e o sofrimento. A graça do Senhor lhe era bastante. Esta resignação do patriarca foi fundamental para que o Senhor lhe mudasse o cativeiro, mas, observemos, foi anterior a esta mudança e, o que é mais importante, independente dela.

– Com Suas perguntas sem respostas, Deus conseguiu o intento de Seu coração: mudar o interior de Jó e retirar todo caminho mau que estava obstaculando o aperfeiçoamento espiritual do patriarca.

– É exatamente este processo que o salmista pede a Deus no Sl.139:23,24 e que o apóstolo dá-nos ciência em Rm.5:1-5. Será que estamos dispostos a nos submeter a este processo? Será que, a exemplo do patriarca Jó, alcançaremos a vitória mediante a rendição do grande obstáculo à nossa fé, a saber, nós mesmos?

Que Deus nos guarde e que possamos vencer a nós mesmos e, assim, alcançarmos, naquele dia, a Terra Prometida!

OBS: Sempre nos lembramos de interessante lição do saudoso pastor Severino Pedro da Silva, segundo a qual, o grande inimigo que temos na

vida é o próprio “eu”, como se vê na relação dos adversários de Israel em Canaã: cananEUs, hetEUs, hevEUs, perizEUs, girgasEUs, amorrEUs e jebusEUs (Js.3:10).

Ev. Caramuru Afonso Francisco

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