LIÇÃO Nº 12 – O EVANGELHO CHEGA AO CORAÇÃO DO IMPÉRIO
INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, analisaremos a primeira estada de Paulo em Roma.
-Paulo dinamizou a evangelização na igreja de Roma. I – A EVANGELIZAÇÃO DE ROMA
-Como é sabido, a vinda de Cristo a este mundo se deu em plena “pax romana”, ou seja, Jesus veio ao mundo na plenitude dos tempos (Gl.4:4), plenitude esta que, em termos políticos, era, também, o período em que se estava no início do apogeu do domínio romano sobre a Europa e o Oriente Médio (mais precisamente o chamado Crescente Fértil), iniciado com a vitória de Otávio sobre Marco Antônio e sua proclamação como primeiro imperador romano, em 14 a.C., ou seja, dez anos antes do nascimento de Jesus.
-Este domínio de Roma, sem quaisquer adversários e sem divisões internas entre os romanos, foi o clima propício estabelecido pelo próprio Deus para que se iniciasse a pregação do evangelho. Esta “pax romana” foi, portanto, um dos principais fatores que permitiu que a primeira geração da igreja pudesse, em pouco mais de quarenta anos, evangelizar todo o Império Romano.
-Portanto, não é difícil entender que, desde o início da pregação do Evangelho, já houvesse crentes em Roma, pois, afinal de contas, sendo a capital do mundo, o centro do Império, certamente alguém que tivesse crido em Jesus fatalmente iria morar ou passar por Roma e, ante o ardor e o fervor da igreja primitiva (cf. At.8:4; 11:20), não deixaria de pregar o evangelho e ganhar almas para o Senhor nestas idas, vindas ou estabelecimentos na capital de César.
-Não devemos nos esquecer, ainda, que, no dia de Pentecostes, marco inicial da evangelização do mundo, converteram-se quase três mil pessoas (At.2:41), muitas das quais pessoas que habitavam fora da Palestina, os chamados “judeus da diáspora” (At.2:6-11), entre os quais “forasteiros romanos” (At.2:10),
a indicar que, seguramente, o evangelho chegou a Roma logo no limiar da pregação do Evangelho, o que explica a expressão do apóstolo Paulo na epístola aos romanos de que “há muitos anos” desejava ir a Roma (Rm.15:23), expressão que dá conta de que a igreja era ali antiga quando escreveu a carta, o que se deu, ao término de sua terceira viagem missionária, por volta do ano 56 ou 57, quando estava para viajar para Jerusalém levando as ofertas para os crentes pobres de Jerusalém e da Judeia (Rm.15:25-28).
-Estes primeiros crentes de Roma seriam judeus (como, aliás, todos os que se converteram no dia de Pentecostes) e, por isso, há quem se insurja contra a tese de que a igreja em Roma tenha se formado a partir do dia de Pentecostes, alegando que, quando Paulo chegou a Roma, já prisioneiro, anos depois de ter escrito
a epístola (cf. At.28:14), os irmãos que o receberam eram gentios, vez que a comunidade judaica se mostrava absolutamente ignorante a respeito do Evangelho (At.28:21-24).
-Esta insurgência, no entanto, não merece acolhida, senão por outros, por dois motivos principais, a saber:
a)o texto bíblico diz que Paulo foi recebido por irmãos em Roma, não distinguindo se eram gentios ou judeus, não havendo porque achar que se tratavam apenas de gentios. Pelo contrário, a própria epístola dá conta de que a igreja em Roma era formada tanto por judeus quanto por gentios (Rm.4:1; 7:1).
b)o texto bíblico não diz que a comunidade judaica ignorava o Evangelho, mas, antes, que o conhecia, inclusive a “má fama” dos cristãos, tidos como uma “seita” (At.28:22). O que eles ignoravam eram as acusações que os membros do Sinédrio tinham contra Paulo (cf. At.28:21).
-Na verdade, existe um esforço para desqualificar as poucas indicações bíblicas a respeito da origem da igreja em Roma com a finalidade de dar crédito à versão de que a igreja teria sido fundada por Pedro, que teria sido o seu primeiro líder, teoria sem qualquer base bíblica mas que é fundamental para a doutrina do Papado e para a ideia de supremacia da Igreja Católica Apostólica Romana.
-A igreja em Roma, porém, não começou com Pedro, mas por missionários anônimos, muito provavelmente convertidos no dia de Pentecostes, cuja fé era conhecida de todos e a quem Paulo desejava muito conhecer e com quem resolveu manter um contacto epistolar quando se preparava para subir a Jerusalém, onde seria preso e, posteriormente, mandado para Roma, alguns anos depois.
-É oportuno verificar que havia judeus em Roma em grande quantidade desde a dominação romana sobre a Palestina, o que ocorreu no outono de 63 a.C., quando Pompeu, governante romano, pôs fim ao período curto de independência dos judeus sob o reinado dos Macabeus, levando muitos judeus como escravos para Roma, inclusive alguns membros da família real judaica de então.
OBS: “ …Pompeu deixou a Scauro o governo da baixa Síria, até o Eufrates e as fronteiras do Egito, dirigiu-se para a Cilícia com duas legiões e foi a Roma, rapidamente, levando consigo Aristóbulo, prisioneiro, seus dois filhos e suas duas filhas; o mais velho chamava-se Alexandre e o mais novo, Antígono. O mais velho, porém, Alexandre, conseguiu escapar e o mais novo, Antígono, chegou a Roma com suas irmãs.…” (JOSEFO. Flávio Antiguidades Judaicas XIV, 8, 578. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso. Rio de Janeiro: CPAD, 1991, v.2, p.65).
-Tratava-se de uma igreja formada tanto por judeus quanto por gentios, pois, ao escrever sua carta, Paulo demonstra claramente que a igreja tinha pessoas de ambas as nacionalidades, pois, embora se dirija precipuamente aos gentios (Rm.1:5,6), não deixa de mostrar que, na igreja, havia judeus (Rm.4:1; 7:1).
-Aliás, isto é confirmado pela própria história, pois Suetônio (69-125), grande historiador romano e autor de “A Vida dos Doze Césares”, narra a expulsão dos judeus de Roma por ordem do imperador Cláudio, dizendo que tal se deu por causa de conflitos por causa de um certo “Cresto”, que alguns acham ser disputas ocorridas dentro da colônia judaica por causa da pregação do Evangelho, expulsão relatada em At.18:2 e ocorrida em 49 d.C.
-Priscila e Áquila eram judeus que haviam expulsos e tudo indica que já eram convertidos quando se encontraram com Paulo em Corinto, pois não há registro de que Paulo lhes tenha pregado o Evangelho e Paulo não iria conviver com eles se já não fossem convertidos.
-A expulsão dos judeus de Roma (medida que, segundo se sabe, teve eficácia curta e logo foi contornada) e a vinda de gentios convertidos para a capital do mundo explicam a maioria gentílica que se estabeleceu na igreja romana e que existia ao tempo em que Paulo escreveu sua epístola, inclusive explica a grande quantidade de pessoas conhecidas do apóstolo e que ele saúda ao término da carta (Rm.16).
-A propósito, a menção de tantos colaboradores e pessoas conhecidas e a omissão do nome de Pedro mostram, claramente, que, pelo menos, ao tempo da redação da epístola, Pedro não se encontrava em Roma, pois injustificável seria tal omissão.
-A versão alardeada pela Igreja Católica Apostólica Romana é a de que a igreja em Roma teria sido fundada por Pedro, cerca de 42 d.C., quando teria iniciado um ministério de 20 a 25 anos à frente da igreja.
-Como prova disso, justifica-se que “Babilônia” mencionada em I Pe.5:13 seria, na verdade, uma forma alegórica de referência a Roma, o que seria repetido por João no Apocalipse.
-Contudo, nada há que confirme tal versão, a não ser escritos dos chamados “pais da igreja”, que atestariam a tradição de que Pedro e Paulo teriam sido martirizados em Roma, durante o reinado de Nero, o que, friamente, somente atestaria que Pedro e Paulo estavam em Roma a este tempo (o que, com relação a Paulo, há evidências bíblicas), mas não que Pedro tenha fundado ou presidido a igreja em Roma, o que é demonstrado pela própria epístola aos romanos, onde há total silêncio a respeito deste fato.
OBS: Esta tradição é acolhida por Eusébio de Cesareia, em sua História Eclesiástica, “in verbis”:
“…Ora, Pedro menciona Marcos em sua primeira epístola, que teria composto na mesma cidade de Roma, coisa que, segundo dizem, ele mesmo indica, referindo-se à cidade metaforicamente como Babilônia, com as palavras: ‘a eleita na Babilônia vos saúde e também Marcos, meu filho’ (1 Pe 5.13).…” (História eclesiástica, 2.XV, p.62).
Agora, o próprio Eusébio é claro ao dizer que “o primeiro a presidir a igreja em Roma”, o que se deu apenas após o martírio de Paulo e de Pedro, teria sido Lino:
“…Após martírio de Paulo e Pedro, Lino foi o primeiro a receber o episcopado de Roma. Paulo o menciona em sua epístola escrita de Roma a Timóteo, na saudação no final da epístola, dizendo:’Êubulo, Prudente, Lino e Cláudia te saúdam’…” (op.cit., 3.II, p.79).
-Não resta dúvida que, por se encontrar na capital do Império e pela própria passagem de Paulo ali, a igreja em Roma teve um notório crescimento e uma influência crescente sobre a comunidade cristã, notadamente no Ocidente, influência e importância que só aumentaram com a concessão de liberdade de culto aos cristãos, já no século IV, por parte do imperador Constantino que, com grande habilidade, conseguiu cooptar os líderes cristãos.
-Tendo mudado a capital do Império para Constantinopla, Constantino praticamente entregou o governo de Roma e das regiões próximas à liderança cristã e isto foi o princípio da formação da Igreja Católica Apostólica Romana, uma estrutura político-administrativa construída sob o pretexto da fé cristã, estrutura esta que se sobrepôs ao próprio Império Romano e que, com a queda do Império no Ocidente, em 476, se tornou uma organização que assumiu o poder político e que foi a principal responsável pela cristianização dos bárbaros e a construção da “Cristandade” no Ocidente.
-Para justificar a sua supremacia político-administrativa sobre o mundo, a Igreja Católica Apostólica Romana se disse “universal” (é isto que quer dizer “católica” em grego), bem como firmada sobre o fundamento dos apóstolos (“apostólica”) e como era “romana”, precisou criar a ideia de que foi fundada por um apóstolo, Pedro e, mais do que isto, que este apóstolo recebera de Cristo o primado, a primazia, a supremacia sobre os demais, o que justificaria a pretensão católico-romana de ser o “corpo visível de Cristo” e de seu chefe ser o “vigário de Cristo”, a “cabeça visível da Igreja”.
-É por isso que podemos afirmar, com toda a certeza, que a igreja em Roma para a qual Paulo escreveu esta carta, nada tem que ver com esta estrutura que persiste até hoje, com a Igreja Católica Apostólica Romana, estrutura que, certamente, fez subsistir o sistema gentílico de rebeldia contra Deus e que existirá até que a besta e o falso profeta aparecerem, quando, então, o sistema gentílico passará a seu comando, no instante derradeiro antes da salvação de Israel e do estabelecimento do reino milenial de Cristo.
II – PAULO EM ROMA
-Terminado o inverno, retomou-se a viagem para Roma. Como o navio havia sido perdido, necessário foi que se arrumasse uma outra embarcação para o prosseguimento da viagem e se teve um outro navio de Alexandria, que invernara na ilha de Malta, que tinha por insígnia Castor e Pólux, que significa “gêmeos”. Era o terceiro navio utilizado durante a viagem (At.28:11).
-O navio foi até Siracusa, cidade da ilha da Sicília, a maior ilha do Mar Mediterrâneo, que fica ao sul da Itália, onde ficaram três dias, de onde, navegando ao longo da costa, chegaram até Régio, atual Reggio Calabria, já no sul da Itália no dia seguinte e , com vento sul favorável, dois dias depois, chegaram a Puteóli,
onde encontraram alguns irmãos, que pediram que ficassem com eles durante sete dias e, só então, foram para Roma.
-Percebemos, nesta narrativa de Lucas, e aqui aproveitamos para observar que os estudiosos entendem ser o texto desta viagem de Paulo a mais minudente demonstração de como eram feitas as navegações no primeiro século, que a evangelização na Itália não era muito expressiva, pois Paulo só encontrou cristãos em Puteóli, que ficava a 240 km de distância de Roma, ou seja, a igreja em Roma não tinha grande consciência missionária e era este um dos fatores que o Senhor Jesus queria alterar com a ida do apóstolo para lá.
-A chegada a Roma não poderia ter sido melhor. Paulo foi recepcionado por irmãos na praça de Ápio e em Três Vendas, e o apóstolo, ao perceber que os crentes romanos os aguardavam e o recebiam de bom ânimo, deu graças a Deus e tomou ânimo (At.28:15).
-Interessante esta afirmação de Lucas. O homem que havia animado, e com o dom espiritual da fé, 216 pessoas que tinham perdido a esperança de viver, o homem que havia empreendido curas em Malta, agora estava desanimado, desânimo que lhe sobreviera durante uma viagem extremamente tranquila como foi a de Malta até a Itália.
-Isto apenas nos mostra que somos todos seres humanos, que não podemos nos considerar “supercrentes”, que, por termos a salvação na pessoa de Jesus Cristo e estarmos em comunhão com Ele, estamos acima do bem e do mal, temos a invencibilidade e nada pode nos afetar.
-O que pode ter desanimado o apóstolo? O texto sagrado não nos diz e, portanto, qualquer comentário será mera especulação, mas não devemos nos esquecer que Paulo estava sendo levado para julgamento e o Senhor nada dissera sobre qual seria o resultado do processo, e o julgador era nada mais, nada menos que o impiedoso imperador romano Nero.
-Ainda que o apóstolo estivesse disposto a morrer pelo nome do Senhor Jesus (At.21:13), a perspectiva da morte não é algo que seja recebido com tranquilidade pelo ser humano que, ademais, não foi feito para morrer. O próprio Senhor Jesus angustiou-Se com tal sensação (Mt.26:37; Mc.14:34; Lc.22:44; Jo.12:27). Que diremos pois a respeito do apóstolo?
-Como se não bastasse isso, o próprio desgaste de toda a viagem era inegável. Somos humanos e o apóstolo, mesmo tendo sido avisado de tudo o que ocorreria, participou evidentemente de toda a tensão, tensão que aumentou sobremaneira com a aparição do anjo e a responsabilidade que se lhe deu sobre todas aquelas pessoas, pois Paulo mesmo disse que isto lhe causava opressão (II Co.11:28).
-Por fim, como sua pretensão, se vivo se mantivesse, era ir para a Espanha (Rm.15:28), enviado pela igreja em Roma, deve ter notado quão precária era a evangelização na Itália, e, assim, visto que não havia a consciência missionária que supunha tivesse a igreja da capital do Império, o que talvez o tenha desanimado ou até ter gerado nele a ideia de que talvez esta parte do plano não fosse da vontade do Senhor, o que, inclusive, aumentaria a perspectiva da morte.
-Vemos, pois, como é importante a recepção numa igreja local. O simples gesto de alguém se dispor a receber um irmão traz gratidão a Deus e ânimo para os servos do Senhor.
-É muito triste vermos como muitos não dão valor a este departamento da igreja, que é fundamental, máxime nos dias em que vivemos, em que o inimigo de nossas almas está pronto a agir quando um irmão é mal recebido no seio da igreja local, pois a má recepção é um instrumento poderoso que se põe a serviço do diabo para desanimar o crente recém-chegado, como também aquele que ainda não recebeu a Cristo e que se introduz em nossa comunidade.
-Paulo perdeu todo o receio, toda a sua ansiedade ao ser bem recebido pelos irmãos em Roma, já que, mesmo que fosse morrer, passaria os momentos de seu julgamento com a companhia dos irmãos; a receptividade favorável permitiria que ele pudesse contar com a ajuda dos crentes de Roma para seus propósitos missionários na Espanha, caso conseguisse a absolvição.
-O centurião entregou os presos ao general dos exércitos. Como Deus é maravilhoso! Ao ter mantido a vida de todos os prisioneiros, que os soldados queriam matar quando o navio havia encalhado de vez perto de Malta, com o propósito de poupar a vida de Paulo, o Senhor honrou o centurião que, apesar de todos os problemas, não perdeu prisioneiro algum, podendo entregá-los todos, cumprindo, assim, o seu dever.
-Sempre que fazemos o que é da vontade do Senhor, sempre que confiamos n’Ele, o Senhor nos honra, pois escrito está: “…diz o Senhor Longe de mim tal coisa, porque aos que me honram honrarei, porém os que me desprezam serão envilecidos” (I Sm.2:30 “in fine”).
-Foi permitido a Paulo que morasse em uma casa à parte, com um soldado que o guardava, ao contrário dos demais presos, que foram entregues ao general dos exércitos (At.28:16).
-Paulo era cidadão romano e, portanto, tinha privilégios em relação aos demais prisioneiros. Recebeu, então, o que hoje chamaríamos de “ prisão domiciliar”, embora tenha tido de arcar com o aluguel da casa, já que, como não era morador de Roma, não tinha ali propriedade (At.28:30).
-Aqui vemos como foi preciosa a contribuição que a igreja em Filipos não cessou de lhe mandar, pois, como não podia trabalhar, o apóstolo necessitava da ajuda dos irmãos até para poder pagar o aluguel e se manter na prisão domiciliar (Fp.4:10-19).
-Será que temos esta mesma consciência com relação aos missionários que são enviados pelas igrejas locais a que pertencemos para também, a exemplo dos filipenses, contribuirmos para que eles possam ter condições mínimas de sobrevivência para realizar a obra para a qual foram chamados pelo Senhor Jesus? Pensemos nisto!
-Assim que instalado, sem perda de tempo, três dias depois de sua chegada, o apóstolo convocou os principais dos judeus (At.28:17).
-O gesto do apóstolo denota toda a sua coragem. O normal seria esquivar-se se de encontrar com a liderança dos judeus em Roma, já que, certamente, teriam sido eles obtido informações falsas de Jerusalém a seu respeito.
-No entanto, o apóstolo tinha consciência de seu dever de pregar o Evangelho (I Co.9:16) e a necessidade de mostrar a sua inocência aos judeus de Roma e, como tinha uma consciência sem ofensa para com Deus e os homens (At.23:1; 24:16), tomou a iniciativa de se encontrar com os principais dos judeus.
-A vida de acordo com a vontade de Deus, o cultivo da comunhão com o Senhor é um fator que confere ao crente autoridade espiritual e que lhe permite ser transparente e corajoso, algo que, notadamente nos dias em que vivemos, é um enorme diferencial a favor da pregação do Evangelho.
-Os principais dos judeus atenderam ao chamado do apóstolo, que, então, contou o que lhe havia acontecido, dizendo nada ter feito contra o povo ou contra os ritos paternos, mas que tinha sido preso e entregue nas mãos dos romanos, romanos que não tinham encontrado nada contra ele, mas o haviam trazido já que apelara ele a César.
-Após ter contado a sua situação, o apóstolo disse que o motivo da sua prisão era porque ele estava preso pela “esperança de Israel”, expressão que mostrava que voltaria a invocar a doutrina da ressurreição para, a partir daí, pregar o Evangelho.
-O incansável apóstolo sabia muito bem porque estava em Roma e, por isso, cumpria a vontade do Senhor, testificando de Cristo na capital do Império (At.28:17-22).
-Paulo, então, ficou sabendo que a comunidade judaica de Roma não havia sido informada de coisa alguma a seu respeito. Este é mais um sinal que nos mostra que Paulo foi absolvido desta primeira prisão, pois as próprias autoridades judaicas sentiram, quando Paulo apelou para César, de que não havia como obter condenação, tanto que não tiveram qualquer preocupação de ter o apoio dos principais dos judeus na capital do Império.
-Esta circunstância é ainda mais importante quando o historiador Flávio Josefo (37/8-100) conta-nos que, naquela época, havia muita atuação dos judeus em Roma, seja porque o próprio rei Agripa estava restaurando o reino que tinha sido de seu bisavô Herodes, o Grande, por ter sido um frequentador da corte romana, seja porque a própria substituição de Félix como governador tinha sido resultado do que hoje podemos denominar de “lobby” na cúpula do governo romano.
-Apesar de os principais dos judeus terem dito que nada lhes tinha sido comunicado a respeito de Paulo, não deixaram de reportar que tinham tido conhecimento a respeito da “seita dos nazarenos” e mostraram suas reservas contra “a seita” (At.28:20-22).
-A atitude dos principais dos judeus é digna de reconhecimento. Nada haviam recebido de Jerusalém contra Paulo, mas admitiram que tinham preconceito contra a doutrina por ele pregada, pois em todo o lugar se falava contra ela. Apesar disto, não se posicionaram contra ela, como era até de se esperar, já que todos diziam que se tratava de uma “seita”, de um ensinamento errado, de contrariedade à lei de Moisés.
-Em nossos dias, muitos se deixam levar por aquilo que “todos estão dizendo”. Raciocinam que se “todos falam contra algo”, é porque, realmente, aquilo de que estão a falar está errado, não presta e não deve ser seguido, esquecidos, porém, que temos um grande controle de informações na atualidade e que a manipulação é muito fácil.
-Tivemos um exemplo disso na pandemia do COVID-19, onde, de uma hora para outra, “verdades absolutas, inquestionáveis” passaram a ser veiculadas em todos os meios de comunicação e, com base nelas, tomadas decisões pelos governos de todo o mundo, sendo considerados “negacionistas”, “agentes de desinformação” e “genocidas” quem ousasse questionar o que estava sendo dito e divulgado, ainda que fossem pessoas que estivessem em posições relevantes na sociedade e no mundo.
-Cinco anos depois de tudo isto, está sendo cada vez mais demonstrado, por investigações e pesquisas científicas, que muitas daquelas “verdades” eram mentiras, manipulações, que serviram apenas para testar modelos de controle social e enriquecer a indústria farmacêutica.
-Precisamos tomar muito cuidado com isto, pois o mesmo tem acontecido em todos os segmentos da vida em sociedade e, em especial, na disseminação de doutrinas e ensinamentos que contradizem as Escrituras mas que têm sido admitidos e adotados por muitos que cristãos se dizem ser e que, assim, além de prejudicar a salvação das almas, estão eles mesmos se credenciando à perdição eterna. Tomemos cuidado, amados irmãos!
-Os principais dos judeus em Roma não agiram deste modo. Em vez de acreditarem no que todos falavam, preferiram ouvir Paulo, para que, então, ouvindo o principal defensor da seita dos nazarenos (At.24:5), tomarem as suas próprias conclusões sobre a doutrina cristã. Dispuseram-se, pois, a ouvir o apóstolo a respeito (At.28:22).
-Esta disposição para ouvir antes de tomar qualquer decisão é um ato de sabedoria (Pv.18:13; Ec.5:1; Tg.1:19), de modo que quem serve a Deus é, antes de tudo, um bom ouvinte. Temos agido assim?
-O apóstolo, então, marcou um dia para lhes pregar a Palavra, tendo, então, declarado com bom testemunho o reino de Deus (At.28:23).
-Paulo estava diante dos principais dos judeus que, certamente, eram homens versados nas Escrituras, doutores da lei, como ele próprio o era. No entanto, vemos que a sua pregação não se baseou na sua erudição, nas discussões doutrinárias tão próprias dos sábios de Israel, como nos dá conta, por exemplo, o Talmude, o segundo livro sagrado do judaísmo, que é, no fundo, uma coletânea das discussões dos doutores a respeito da “tradição dos anciãos” (Mt.15:2; Mc.7:5).
-Tanto assim é que tanto Estêvão quanto o próprio Paulo, quando iam às sinagogas pregar o Evangelho, é dito que disputavam com os judeus, ou seja, a pregação se dava a partir de discussões com base nos textos das Escrituras, onde os discípulos buscavam mostrar que Jesus era o Cristo (At.6:9,10; 9:20,22; 17:2; 19:8).
-Entretanto, em Roma, Paulo tomou outra estratégia, talvez até porque, como não estava na sinagoga, não podendo, pois, ter acesso às Escrituras, quis não disputar, mas declaram com bom testemunho o reino de Deus (At.28:23).
-A palavra grega em foco aqui é “diamarturomai” (διαμαρτύρομαι), cujo significado é “… atestar ou protestar zelosamente ou (por implicação) de forma exortativa (…). Testificar de forma detalhada, prestar testemunho, pleno e completo (…). Além disso, testificar por completo, i.e., declarar na sua totalidade, ensinar de forma diligente, reforçar…” (Bíblia de Estudo Palavras-Chave. Dicionário do Novo Testamento, verbete 1263, p.2144).
-Percebe-se, pois, que, Paulo, aproveitando o tempo que tinha, já que estava preso e os principais dos judeus haviam reservado este dia para ouvi-lo, fez uma ampla exposição a respeito do Evangelho, da salvação em Jesus e como era Ele o Messias, o Salvador do mundo.
-Paulo não fez apenas uma exposição doutrinária, mas buscava persuadi-los à fé em Jesus, tanto pela lei de Moisés, quanto pelos profetas, desde pela manhã até a tarde.
-Paulo estava a pregar o Evangelho, queria que os judeus se convertessem, pois era sempre o seu objetivo: “… Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns” (I Co.9:22 “in fine”).
-Qual é o nosso objetivo quando ministramos a Palavra de Deus? Demonstrar erudição? Angariar a simpatia do auditório? Impressionar certas pessoas para que obtenhamos delas vantagens? Ou levar as pessoas a Cristo? Pensemos nisto!
-Alguns creram no que foi dito, mas outros, não. É sempre assim, nem todos creem no Evangelho e o próprio Paulo havia dito isto ao escrever a carta que enviara à igreja em Roma: “Mas nem todos obedecem ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem creu na pregação?” (Rm.10:16).
-Esta realidade já fora dita pelo Senhor Jesus aos discípulos quando eles ainda estavam “estagiando” durante o Seu ministério terreno. Situações haveria em que ninguém iria aceitar a mensagem (Mt.10:14,15; Lc.10:10-12).
-As cidades em que Jesus mais pregou foram as que mais rejeitaram a Sua mensagem, a saber, Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt.11:21,23; Lc.10:13,15). Nazaré, a cidade em que Jesus foi criado e viveu mais tempo, foi a que teve a maior incredulidade (Mt.13:57,58; Mc.6:4-6; Lc.4:28-30).
-Houve, então, discordância entre os principais dos judeus de Roma, tendo se despedido de Paulo que, então, lhes lembrou da palavra do profeta Isaías que dissera a respeito da dureza de seus corações em aceitar o Evangelho, dizendo-lhes que a salvação seria dada aos gentios, diante de sua rejeição (At.28:23-29).
-Paulo, em Roma, agia como sempre havia feito. Pregara primeiro aos judeus para só então, depois, ir ao encontro dos gentios.
-A comunidade judaica de Roma entrou em grande contenda por causa das palavras que lhe foram ditas, mas, mesmo assim, não aceitou a Cristo. Confirmava-se a dureza de cerviz a Israel e a abertura da oportunidade aos gentios, como o próprio Paulo escrevera aos crentes romanos em sua epístola (Rm.11).
-Diante da rejeição dos judeus, Paulo voltou-se para os gentios, pregando-lhes durante dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara e recebia tantos quantos iam vê-lo. Pregava o reino de Deus e ensinava com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum (At.28:29-31).
-Apesar de ter nítida restrição à sua liberdade de locomoção, o apóstolo foi incansável na evangelização, começando pelos soldados que vinha fazer a sua escolta, pertencentes a um grupo de elite do exército romano, a guarda pretoriana (Fp.1:13).
-“…Os guardas romanos faziam turnos (geralmente de cerca de 4 horas), então vários soldados diferentes guardaram Paulo ao longo dos dois anos. Estima-se que, com rotações diárias, ele tenha tido contato com dezenas ou até centenas de soldados diferentes, o que ajudou a espalhar o evangelho entre a guarda pretoriana (como menciona em Filipenses 1:13).
Não eram vários soldados ao mesmo tempo vigiando-o na casa, mas um de cada vez, acorrentado a ele. Resumo: 1 soldado por turno era o padrão da prisão domiciliar de Paulo em Roma.…” (Grok. Pesquisa: quantos soldados romanos guardavam Paulo? 08 maio 2026. Disponível em: https://x.com/i/grok?conversation=2052760146640527723 Acesso em 08 maio 2026).
-“…Dois soldados por turno: Geralmente, dois soldados da elite pretoriana eram algemados a ele (um em cada mão), revezando-se em turnos, possivelmente três ou quatro vezes ao dia, para cobrir as 24 horas.
A Guarda Pretoriana: A guarda como um todo era composta por cerca de 16.000 soldados de elite em Roma. Paulo mencionou que “toda a guarda pretoriana” conheceu o evangelho devido à sua prisão.…” (IA do Google. Quantos soldados guardavam por dia Paulo na prisão. Disponível em: https://share.google/aimode/r8XvOFiq6UQiuiMWt Acesso em 08 maio 2026)
-Como se percebe, a inteligência artificial dá diferentes respostas sobre quantos soldados guardavam Paulo, mas, durante todo o tempo da prisão, vemos que vários soldados (seis ou doze por dia) o fizeram e eram todos evangelizados pelo apóstolo, que deste modo, ganhou muitos soldados da guarda pretoriana para Cristo.
-Como se isto fosse pouco, as pessoas tinham pleno acesso ao apóstolo, de modo que pôde evangelizar muitas pessoas bem como ensinar muitos crentes durante aquele biênio.
-O fato é que este esforço evangelizador do apóstolo contagiou os crentes de Roma, que, vendo o exemplo de Paulo que, mesmo preso, não cessava de pregar o Evangelho, passaram também a evangelizar (Fp.1:14), havendo mesmo quem o fizesse por inveja de Paulo ou mesmo querendo prejudicar o apóstolo, crendo que, com isto, complicariam a sua situação judicial (Fp.1:15-18).
-Este despertamento da consciência missionária que Paulo gerou na igreja de Roma era providencial pois seria fundamental para que, uma vez absolvido, se executasse o plano do apóstolo de ser enviado pela igreja de Roma para a Espanha.
-Enquanto esteve em Roma, Paulo não só testificou de Cristo em sua residência alugada, como também escreveu cartas para as igrejas locais que havia fundado.
-As chamadas “cartas da prisão” foram redigidas pelo apóstolo quando se encontrava em Roma, dando continuidade a seu ministério epistolar.
-Em todas estas cartas, o apóstolo informa a sua condição de preso, a saber: Filipenses (Fp.1:12-13), Colossenses (Cl.1:24), Efésios (Ef.3:1; 4:1; 6:20) e Filemom (Fm.1).
-Paulo mostrou, deste modo, que, enquanto aguardava seu julgamento por César, não só evangelizava a todos quantos podia, como também atendia ao seu cuidado por todas as igrejas (II Co.11:28), escrevendo cartas a algumas dessas igrejas, inclusive uma que não foi sequer aberta por ele mas por um cooperador seu, como é o caso da igreja em Colossos.
-Ficamos a saber, também, que não se limitou a escrever estas quatro cartas, pois há notícia de ter ele escrito outras cartas também, que não foram inspiradas pelo Espírito Santo, mas que revelam o seu cuidado para com as igrejas, o que faz parte de seu ministério apostólico (Cl.4:16).
-Assim terminou a narrativa de Lucas em Atos dos Apóstolos: o apóstolo Paulo foi mantido em prisão domiciliar por dois anos, pregando o Evangelho sem qualquer impedimento.
-Por isso, entendem muitos que, nesta ocasião, após os dois anos de prisão domiciliar em Roma, Paulo foi absolvido e pôde, então, realizar a sua desejada viagem missionária à Espanha, enviado pela igreja de Roma. O texto de II Tm.4:16,17 é a base para tal raciocínio.
-Da Espanha, teria, então, retornado a Ásia Menor, mais precisamente a Trôade, onde teria sido denunciado por um ferreiro chamado Alexandre (II Tm.4:13,14) e mandado, então, a Roma, onde foi martirizado na primeira grande perseguição romana contra a Igreja, a perseguição de Nero, quando, então, preso mais uma vez, acabou condenado à morte, como prenunciou na sua última carta, II Timóteo (II Tm.4:6).
-O apóstolo, assim, incansavelmente, até os últimos dias de sua vida, dedicou-se a evangelizar os gentios, pregando o reino de Deus e ensinando as coisas pertencentes ao Senhor Jesus. Por isso, ao terminar seu labor, pôde dizer que havia combatido o bom combate, acabado a carreira e guardado a fé, restando-lhe tão somente aguardar o recebimento da coroa da justiça que tanto ele quanto os que amam a vinda do Senhor Jesus receberão naquele dia (II Tm.4:7,8).
-O livro de Atos não tem um “amém”, porque a Igreja continua seguindo o exemplo dos apóstolos, pregando o reino de Deus e ensinando as coisas pertencentes ao Senhor Jesus, aguardando o dia em que o Senhor voltará para arrebatar a Sua Igreja.
– Que cada um esteja agindo desta mesma maneira, levando a mensagem de Jerusalém até os confins da Terra, apesar de todas as perseguições e tribulações, para que possamos nos encontrar com o Senhor nos ares e receber d’Ele o Seu galardão no Tribunal de Cristo. Somos dos tais?
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12677-licao-12-o-evangelho-chega-ao-coracao-do-imperio-i
