LIÇÃO Nº 3 – A IMPACIÊNCIA NA ESPERA DO CUMPRIMENTO DA PROMESSA
INTRODUÇÃO
– Na sequência do estudo do legado dos patriarcas, veremos a impaciência que prejudicou a jornada de fé de Abrão.
– Abrão não aguardou o momento de Deus.
I – A CONFIRMAÇÃO DAS PROMESSAS DE DEUS A ABRÃO
– Sem dúvida, perplexos ficaram os povos da terra de Canaã com a demonstração de poderio e de humildade do patriarca que, vencedor de uma grande guerra, mantém-se submisso a seu único Deus, cujo nome é exaltado através de Melquisedeque, bem como rejeita a oferta de riquezas efetuada pelo rei de Sodoma.
De maneira surpreendente, volta para sua habitação, rejeitando a fama, as riquezas deste mundo ou qualquer posição social elevada.
– O capítulo 15 do livro do Gênesis começa, então, com mais uma manifestação divina na vida de Abrão. Afirma o texto que, “depois destas coisas, veio a palavra do Senhor em visão”.
– Como é importante estarmos em comunhão com o Senhor, sabermos que Deus tem observado cada gesto nosso e que, ao rejeitarmos o mundo e o que ele oferece, o Senhor está sempre disposto a mostrar o Seu agrado com nossa busca contínua de santificação.
OBS: “…Esta generosidade de Abraão foi tão agradável aos olhos de Deus que Ele afirmou que ela não ficaria sem recompensa; pelo que Abraão respondeu: ‘
E como, Senhor, vossos benefícios me poderia dar alegria, pois que não deixarei a ninguém, depois de mim, que deles possa gozar e possuí-los? ‘. Ele então ainda não tinha filhos.
Deus prometeu-lhe que daria um filho e que a sua posteridade seria tão grande, que igualaria o número das estrelas.
Ordenou-lhe em seguida que lhe oferecesse um sacrifício e eis a ordem que ele observou. Tomou uma novilha de três anos, uma cabra e um carneiro da mesma idade, que ele cortou em pedaços e uma rola e uma pomba que ofereceu inteiras, sem partir.
Antes de erguer o altar, quando as aves adejavam em torno das vítimas, para se alimentar de seu sangue, ele ouviu uma voz do céu que predisse que seus descendentes sofreriam durante quatrocentos anos grande perseguição no Egito, mas que triunfariam enfim sobre seus inimigos, venceriam os cananeus e se tornariam senhores de seu país.…”.( JOSEFO, Antiguidades Judaicas I. 10.28. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso. História dos Hebreus, v.1, p.33).
– Deus inicia Sua fala com a expressão “Não temas”. Esta expressão é uma segurança para a vida do cristão. Reproduzida por 365 vezes na Bíblia Sagrada (uma para cada dia do ano), é a expressão divina de garantia aos fiéis, àqueles que confiam no Senhor, é a certeza de que vale a pena esperar em Deus e confiar em Suas promessas.
Abrão poderia estar se perguntando o que seria de sua vida dali para a frente. Apesar da conquista militar, tinha observado que não era assim que Deus lhe daria aquela terra que a sua semente havia sido prometida e, muito mais do que isto, que semente era esta que até o momento não havia surgido, sendo sua mulher estéril e ele já avançado em dias ? Todavia, diante destas interrogações, Deus simplesmente diz ao
patriarca; “não temas”. Séculos e milênios mais tarde, a um grupo de discípulos apavorados, que se sentiam sós e perdidos no meio do mar, Jesus repete a mesma expressão: “sou eu, não temais” (Mt.14:27). Da mesma forma, quando estamos atemorizados, sem direção, abalados no rumo que tem tomado nossas vidas apesar das promessas do Senhor, a voz de Deus vem ao nosso encontro e nos repete : “não temas”.
OBS: Como dizem os poetas sacros Erik Janson e F. da Silva: “Solta o cabo da nau, toma os remos na mão e navega com fé em Jesus e então tu verás que bonança se faz, pois com Ele seguro serás.”(estribilho do hino 467 da Harpa Cristã).
– Não temer, não ter medo é confiar em Deus, é crer que as Suas promessas se realizarão apesar de todas as circunstâncias contrárias, apesar de tudo o que está à nossa volta não confirmar em coisa alguma o que Deus tem prometido para nossas vidas se nos mantivermos fiéis.
– Não temer era, para Abrão, ter a convicção que, apesar de não ter se tornado senhor de Canaã, mesmo após aquela estupenda vitória militar, aquela terra seria dada à sua semente, apesar de ele não ter nem um filho sequer, e mais, não ter a mínima possibilidade humana de o ter já que sua mulher era estéril.
OBS: Como afirma este outro hino sacro traduzido/adaptado pelo pastor Paulo Leivas Macalão (1903-1982): “Terra e céus ardendo, os montes ‘stão tremendo, mas nas promessas crendo, Deus sempre as vai cumprir.” (estribilho do hino 377 da Harpa Cristã).
– Mas Deus não se limita a pedir a Abrão para que não temesse, mas afirma ao patriarca que Ele era “o seu escudo, o seu grandíssimo galardão”(Gn.15:1). Deus é o nosso escudo, ou seja, é a nossa garantia, a nossa defesa, a nossa retaguarda.
– O escudo é uma arma de defesa, sendo a própria fé assim simbolizada (Ef.6:16). Por mais vezes nas Escrituras, Deus assim Se apresenta para o Seu povo. Não temos o que temer, Deus é o nosso escudo.
– Além de escudo, Deus Se apresenta a Abrão como o “seu grandíssimo galardão”. Quando tudo parecia ter sido perdido, como tudo demonstrava que Abrão havia perdido uma grande oportunidade de se tornar um poderoso senhor da Terra Prometida, Deus lhe mostra que o servo do Senhor deve ter como único prêmio, como único galardão o próprio Deus.
– Será que temos caminhado buscando este prêmio, que é o próprio Deus? Será que temos o mesmo sentimento que tinha o apóstolo Paulo, que tinha como alvo de sua vida o prêmio da soberana vocação (Fp.3:12-16). O que o irmão tem buscado? Qual prêmio tem escolhido? Livremo-nos do prêmio da injustiça – II Pe.2:15.
– Após declarações tão firmes e preciosas, Abrão revela estar em uma grande intimidade com Deus, a ponto de lhe revelar as suas incertezas e agruras.
– Como homens, somos levados a pensar no futuro e a verificar que as circunstâncias presentes não são possíveis de confirmar as promessas divinas. Nestes momentos, devemos ir ao encontro do Senhor e manifestar-lhe todos os nossos temores, todas as nossas angústias.
– Como diz o apóstolo Pedro, devemos lançar toda a nossa ansiedade sobre o Senhor, porque Ele tem cuidado de nós (I Pe.5:7). Ao invés de darmos guarida a estes temores e de desfalecermos na fé, devemos buscar no Senhor a confirmação de Suas promessas. A vida de comunhão permite-nos tal intimidade. Cheguemo-nos com confiança ao trono da graça, pois. (Hb.10:19-23).
OBS: A oração do crente deve ser uma sincera conversa com o seu Senhor, não algo mecânico, automático, hipócrita muitas vezes. Conta-se que, certa feita, uma criança não quis orar para deitar-se e seu pai a obrigou a fazê-lo.
A criança tinha tido um dia de muitas lutas e tribulações. Coagida pelo pai, ajoelhou-se e orou ao Senhor, dizendo-Lhe que só o estava fazendo porque seu pai a estava obrigando, mas que estava chateada com o Senhor diante de tantos problemas naquele dia.
Enquanto orava, seu pai, que a ouvia à distância, escondido por detrás da porta, começou a chorar, porque percebeu que seu filho tinha muito mais liberdade e intimidade com Deus do que ele próprio, que, há muito, realizava uma oração automática, sem vida, uma verdadeira reza.
Entremos com confiança no trono da graça e sejamos íntimos e sinceros com nosso Senhor, pois Ele conhece nossa estrutura e sabe que somos pó.
– Para Abrão, não havia como confirmar-se a promessa de Deus, já que não tinha filhos nem força para efetuar uma conquista militar que lhe trouxesse supremacia na Terra Prometida, já que “perdida a oportunidade” após a vitória sobre os reis mesopotâmicos.
– Contudo, não era assim que as coisas se dariam e Deus não deixou Abrão perplexo ou duvidoso. Antes, como verdadeiro escudo do patriarca, mostrou-lhe o que haveria de acontecer e, muito mais do que isto, confirmou as promessas de um modo indiscutível. Tenhamos a convicção que, para os Seus servos, o Senhor sempre revelará o que ocorrerá (Am.3:7; Jo.15:15).
– Deus revela aos Seus servos o que ocorrerá, mas nem sempre como ocorrerá. Nunca nos esqueçamos que Deus é o Senhor e Soberano, de forma que não tem qualquer obrigação para conosco em nos dar pormenores de como tudo se dará.
– Por Seu grande amor e por Sua fidelidade, Deus revela aos Seus servos o que acontecerá, mas num ambiente de comunhão e de intimidade que tem para com os Seus servos.
Não existe, portanto, qualquer respaldo bíblico para condutas que tem sido apregoadas ultimamente no meio da igreja, como a de determinação da forma como Deus deve agir, por conta da Sua fidelidade, ou, mesmo, uma obsessão de muitos que buscam em profetas, profetisas ou outros irmãos abençoados com os dons espirituais uma confirmação, um caminho para seguir.
Deus orienta também por intermédio desses vasos mencionados, mas o crente não é alguém que deva estar correndo de um lado para outro, como ovelha desgarrada sem pastor, mas, muito pelo contrário, deve ser alguém que tenha discernimento espiritual, que busque em Deus a resposta para seus temores e que aguarde a manifestação do Senhor no seu lugar, pois Deus é o nosso escudo e está pronto a atender ao nosso clamor, pois, como ovelhas Suas, conhecemos a Sua voz (Jo.10:11-16).
– Deus, então, diz a Abrão que seu servo Eliezer não seria o seu herdeiro, como ele imaginava, muito provavelmente depois da separação de Ló, mas, sim, alguém que saísse de suas entranhas.
– Deus disse o que faria, mas não disse como e, como demonstração de Sua fidelidade e compromisso, pediu a Abrão que fosse ver o céu e que visse as estrelas e tentasse contá-las, o que era, evidentemente, impossível.
– Assim, disse o Senhor, seria a descendência de Abrão e o patriarca creu nas palavras do Senhor e, por isso, foi justificado diante de Deus.
– Este trecho do livro do Gênesis reveste-se de fundamental importância na compreensão do relacionamento entre Deus e o homem, pois, será o episódio básico para a compreensão pelo apóstolo Paulo da justificação pela fé, a única forma pela qual o homem alcança a comunhão verdadeira e perene com o Senhor, na epístola que escreveu aos Romanos. De igual modo, este texto paulino será a base da Reforma Protestante de Lutero no século XV.
– Crer em Deus é, como se vê, resultado de se olhar para o céu. Crer em Deus é seguir a direção e a orientação divinas, independentemente do que esteja à sua volta.
– Com efeito, o fato de Abrão ter olhado para o céu e ter ouvido a voz do Senhor, não havia alterado, de imediato, coisa alguma na sua vida, mas isto não foi obstáculo para que o patriarca cresse, acreditasse nas palavras do Senhor.
– Será que temos tido o mesmo comportamento nas nossas vidas ou será que esperamos que as circunstâncias mudem para que passemos a dar crédito a Deus? Dar crédito a alguém é confiar neste alguém. Como um comerciante dá crédito a um freguês se não lhe vende fiado?
Como um banco dá crédito a um cliente, se não lhe empresta dinheiro? Como podemos dizer que damos a crédito a Jesus, se não passamos a fazer o que Ele nos manda enquanto não muda algo em nossa vida?
– Cuidado com aqueles que confundem confiança em Deus, fé em Deus, com submissão divina aos nossos caprichos, com operações imediatas da divindade, porque o salmista disse que “o Seu nome é já”, citando, erroneamente, o Sl.68:4.
OBS: Aliás, esta interpretação dada ao Sl.68:4 de que “o Senhor é já” é completamente equivocada, porque, na verdade, o texto bíblico é “o Senhor é JÁ”, pois a palavra “JÁ” aí é o hebraico “Yah”, uma forma poética do nome de Deus, tanto que, para evitar esta estapafúrdia interpretação, a 4ª edição da Versão Almeida Revista e Corrigida passou a traduzir o texto como “o seu nome é JEOVÁ”.
– Para que sejamos justificados diante de Deus, temos de ter fé em Deus e fé não é barganha, fé não é ver para crer, mas crer sem ver. Aliás, foi por isso que o escritor aos Hebreus definiu fé como o “firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que não se veem”(Hb.11:1).
– Abrão, ao ouvir, mais uma vez, a promessa de Deus de que a terra de Canaã seria dada à sua descendência, pede a Deus mais uma prova e Deus, então, determina que Abrão ofereça um sacrifício, determinando o modo que isto deveria ser feito.
– A apresentação do sacrifício por Deus a Abrão deve ser considerada sob alguns aspectos.
Em primeiro lugar, porque Abrão estava acostumado, pela sua formação cultural e pela sua própria forma de servir a Deus, com a oferta de sacrifícios, de holocaustos ao Senhor.
Isto nos mostra que Deus não violenta a cultura dos homens para Se revelar a eles, circunstância que deve estar presente nos membros de Sua igreja, porquanto Deus nos manda pregar o evangelho a todos, mas não de uma só forma. Aliás, as Escrituras revelam que a graça de Deus é multiforme (I Pe.4:10).
– Em segundo lugar, o sacrifício nos mostra que sempre as bênçãos de Deus exigem um esforço da parte do homem, não um esforço que seja necessário para que a vontade soberana de Deus se faça, mas, sim, um esforço, um trabalho humano que confirme e demonstre, por obras, a fé que se diz ter em Deus.
– O apóstolo Tiago já nos ensinou que a fé sem obras é morta (Tg.2:20,21). Assim, embora tenha crido verdadeiramente, Abrão deveria prová-lo por gestos concretos, assim como Deus o faria na experiência que faria o patriarca passar.
– Em terceiro lugar, a experiência sobrenatural que se desenvolveria revela que a intimidade com Deus nos leva a uma dimensão espiritual diferenciada, a operações que estão além da compreensão humana, mas que são consequências de uma vida de intimidade com Deus.
– Muitos são hoje os que estão a buscar uma vida com Deus repleta de experiências sobrenaturais e de manifestações do Espírito, mas que se esquecem que isto é consequência de uma vida de comunhão com Deus e não causa disto.
– É por causa deste experiencialismo sem fundamento que muitos não veem diferença entre o esoterismo típico da Nova Era e certas condutas levadas a efeito por pessoas que, dizendo-se evangélicas, não têm, na vida, a real transformação do Evangelho.
– Deus mandou que os animais, com exceção das aves, fossem partidos, o que, para a cultura da época, significava a assunção de um compromisso, de um pacto que se tornava obrigatório, irrevogável e irretratável.
Partir os animais, derramar o seu sangue, significava que as pessoas envolvidas naquele compromisso, caso não cumprissem o acordado, poderiam também ser mortos, ter seu sangue derramado por causa da infidelidade. Era a chamada “aliança de sangue”.
OBS: “… Esta aliança é conhecida na literatura rabínica como Berit Ben Habetarim ( Aliança entre as Partes Cortadas)…
Esta era uma das maneiras de Berit (pacto ou aliança) que se fazia naqueles tempos: degolavam-se animais (principalmente um bezerro), dividiam-se em duas partes, colocando-se uma parte em frente da outra, e os contratantes passavam entre os pedaços (Jeremias 34:18-20) e pronunciavam esta frase : ‘que a Divindade corte em pedaços como a estes animais, os violadores deste pacto’.
Daí as expressões Carot Berit, ‘foedus ferire’, em latim, que significa: imolar uma vítima para concluir um tratado, Bo baBerit – entrar na Aliança ( Jeremias 34:10), Abor baBerit – passar pela Aliança (Deuteronômio 39:2),. Amod baBerit – parar na Aliança (2 Reis 23). (TORÁ: a lei de Moisés. Trad. de Meir Matzliah Melamed, com. Gn.15:9 e 10, p.36).
– Deus mostrava, desta maneira, a Abrão o caráter imutável deu Seu compromisso com o patriarca e que o patriarca, também, deveria cuidar para cumprir os mandamentos divinos.
– Feito o que Deus ordenou, com a partição dos animais, menos das aves, o que significava um gesto de compromisso, vê-se que Deus não surgiu de imediato.
– Pelo contrário, Abrão teve de ficar um tempo que as Escrituras não nos informam, esperando a manifestação divina, que não saberia como se daria.
– Nesta espera, as aves de rapina surgiram, querendo, logicamente, apossar-se das carnes dos animais. Estas aves de rapina representam as adversidades, as hostes espirituais da maldade que sempre tentarão impedir que mantenhamos nosso compromisso com Deus. No mundo, disse Jesus, teremos aflições, mas devemos ter bom ânimo, pois o Senhor venceu o mundo (Jo.16:33).
– Uma vida com Deus sem lutas nem dificuldades é impossível. Deus promete estar presente, cumpre Suas promessas, mas as dificuldades sempre virão.
Ao anunciar a igreja, Jesus não Se referiu ao seu futuro glorioso, à vida eterna, mas apenas disse que “as portas do inferno não prevaleceriam contra ela” (Mt.16:18), deixando-nos bem claro que o que sempre haverá na história da Igreja na face da terra é o embate entre ela e as forças do mal, mas que há uma garantia da parte de Deus de que o mal não prevalecerá.
– Ao dizer que, “graças a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo”( I Co.15:57), o apóstolo Paulo apenas nos está afirmando que sempre haverá lutas na vida do cristão, enquanto estivermos no mundo, pois não há vitória sem que tenha havido luta.
– Abrão, porém, foi constante, mantendo-se diante do altar, embora Deus, aparentemente, nada estivesse fazendo. Esforçou-se para que as aves não tomassem as carnes do sacrifício.
– Trabalhou, lutou, batalhou para que as coisas ficassem do jeito que Deus lhe havia mandado ficar, ainda que nada tivesse acontecido até então. Este deve ser o comportamento do servo sincero do Senhor. Manter as coisas da forma como determinado por Deus, ainda que lhe advenham lutas, dificuldades e oposições.
– É necessário que sempre estejamos na vontade do Senhor, fazendo as coisas como Deus determinou, pois, só assim, teremos vitória.
– O importante que devemos observar nesta passagem é que, pondo-se o sol, um profundo sono caiu sobre Abrão. Abrão lutou contra as aves de rapina durante todo o dia, lembrando-nos de que o sol na terra de Canaã é escaldante, mas, ao se pôr o sol, caiu-lhe um profundo sono.
– Isto comprova que Deus sempre está no controle de tudo e que até o momento determinado, Deus irá permitir que demonstremos a Ele e a todos os demais homens, a nossa fidelidade e o nosso compromisso. É necessário que assim se faça porque somente pelas nossas boas obras, os homens glorificarão a Deus que está nos céus (Mt.5:16).
– Outra lição que aprendemos aqui é a constância de Abrão. Abrão resistiu e ficou enxotando as aves até que caiu profundo sono sobre ele. Ele foi perseverante, constante e a fidelidade importa nesta perseverança e constância. Daí porque se dizer que só o perseverante alcançará a salvação (Mt.24:13) e que devemos ser firmes e constantes na obra do Senhor (I Co.15:58).
OBS: “…Pela primeira vez nas Escrituras, a fé e a justiça estão mencionadas juntas.
(1) No AT, a fé tinha um duplo aspecto:
(a) ‘confiança em’ ou ‘dependência de’ , e
(b) ‘lealdade a’ ou ‘fidelidade’.
O termo ‘crer’ aqui, (hb. ‘aman) significa perseverar confiando e crendo, evidenciando isso mediante uma fidelidade obediente. Era esse o tipo de fé que Abrão tinha. Era um homem dedicado a Deus, sempre confiante, obediente e submisso.
(2) Deus viu a fé sincera de Abrão expressa naquela atitude e lhe imputou por justiça. O termo ‘justiça’ significa estar num relacionamento correto com Deus e com Sua vontade (Gn.6,9; Jó 12.14ss.).
Além disso, Deus fez um concerto com Abrão, mediante o qual Deus tornou-Se o seu escudo e galardão (Gn.15.1).
Abrão ia ter muitos descendentes (v.5) e também a promessa da terra…No novo concerto, a bênção de Deus e o relacionamento certo com Ele também são concedidos mediante a fé.
Aqui está uma verdade fundamental no NT…Abrão é, pois, o ‘pai de todos os que creem’ (Rm.4:11). (BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, com. Gn.15.6, p.54-5).
– Deus, então, manifesta-Se de uma forma toda especial, avisando o patriarca que a semente de Abrão seria peregrina e que seriam afligidos por quatrocentos anos, mas que Deus julgaria a gente que afligiria a semente de Abrão e que sairia este povo escolhido com grande fazenda e que a quarta geração ocuparia Canaã, quando a medida da injustiça dos amorreus estivesse completa (Gn.15:13-16).
– Nestas declarações de Deus a Abrão, há preciosíssimas lições para todos os servos do Senhor.
– Em primeiro lugar, como já dissemos supra, que Deus está, sempre, no controle de tudo. Todo o poder pertence a Deus (Sl.62:11).
– Em segundo lugar, que há um tempo determinado por Deus para todo o propósito debaixo do céu (Ec.3:1). As promessas de Deus não falham, mas tudo vem a seu tempo e o tempo determinado por Deus e não, pelo homem. Até a máxima manifestação do amor de Deus, ou seja, a vinda de Seu Filho ao mundo ocorreu no momento certo (Gl.4:4).
– Em terceiro lugar, mais uma vez, Deus demonstra que a bênção de Deus não significa imunidade a dificuldades, aflições ou tribulações.
– Deus confirmou Sua promessa respondendo com fogo, que passou pelo meio das metades daqueles animais, o que significava o compromisso de Deus no cumprimento de Seu concerto, bem como no fato de que a terra de Canaã seria entregue integralmente à semente de Abrão, que substituiria os povos que habitavam ali, cuja maldade e injustiça ainda não estavam completas, mas que perderiam a terra por causa de sua injustiça no intervalo de quatrocentos anos. Tudo se daria na quarta geração e, lembremo-nos, Abrão não tinha sequer um filho.
OBS: “Numa cena dramática, Deus humilhou-Se em aceitar o papel do aliado inferior deste concerto. Na antiga aliança de suserania hitita, um governante fantoche, o parceiro inferior, passava entre aquelas metades ainda sangrando dos animais sacrificados, fazendo um voto de lealdade ao seu aliado superior: ‘Queiram os deuses agir comigo (e mesmo com maior rigor) da forma como fiz com estes animais se eu não cumprir com os termos desta aliança!’ Ver Jr. 34:8-22.
Aqui o SENHOR, de forma voluntária, fez-Se menor que Abrão para o estabelecimento do concerto. Este ato dramático prefigura o dom precioso de Seu próprio Filho, que concordou em morrer numa cruz degradante por toda a humanidade.
Um forno de fumaça e uma tocha de fogo: uma figura de linguagem na qual um substantivo modifica o outro, de tal forma que não dois, mas um único fogo brilhante, o próprio Shekinah, passou por aquelas metades.
O SENHOR foi o parceiro que fez a promessa; o juramento de Deus foi unilateral, incondicional, sem requisitos exigidos da parte de Abrão neste poderoso concerto. Abrão simplesmente creu. O concerto abrâmico constitui o modelo do AT para o novo concerto em Jesus Cristo.” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE, p.23-3, com. Gn.15.17).
— Deus revela, aqui, que estava observando cuidadosamente tudo o que se passava entre os moradores de Canaã, a todos os povos que ali habitavam e a impiedade reinante, que aparentemente era impune, não estava tão impune assim.
– Deste modo, devemos estar bem cientes de que nada fica à margem do conhecimento de Deus e que deveremos prestar contas de tudo no momento certo. Há um memorial diante de Deus (Ml.3:16) e todas as coisas estão nuas e patentes diante do Senhor (Hb.4:13).
– Discute-se, muito, a respeito deste período de quatrocentos anos mencionado por Deus na visão a Abrão, tendo em vista que Israel não ficou quatrocentos anos no Egito, mas somente 210 anos.
– Tem-se entendido que o prazo de quatrocentos anos deve ser contado a partir do nascimento de Isaque, pois é aí que começa a peregrinação da semente de Abrão. Em Ex.12:40,41 e Gl.3:17, vemos que o período exato é de 430 anos.
OBS: ” … Na realidade, os israelitas permaneceram como escravos no Egito somente 210 anos, porém os sofrimentos dos 400 anos previstos para a família hebreia começaram desde o nascimento de Isaac, com suas peregrinações entre os povos…” (TORÁ: a lei de Moisés. Trad. de Meir Matzliah Melamed, com. Gn.15:13, p.36).
– As dimensões da terra que Deus prometeu a Abrão nesta visão constituem-se, hoje em dia, nas fronteiras defendidas pelos judeus mais ortodoxos e cuja posição é um dos grandes obstáculos para a obtenção de um acordo entre árabes e judeus na definição das fronteiras de um Estado judeu e de um Estado árabe na terra de Canaã.
Esquecem-se, porém, estes judeus que os israelitas descumpriram a ordem de conquista de toda esta terra e que, por causa disto, jamais a possuíram por completo (Jz.2:1-4).
OBS: Enquanto estes radicais israelitas ficam defendendo o seu “Grande Israel”, os muçulmanos não se cansam de citar versos do Corão que indicam que Israel fracassou na sua aliança com Deus e que, por isso, foram definitivamente expulsos da Palestina, apontando como prova desta perda de direitos por desobediência a destruição do templo de Jerusalém:
“… Glorificado seja Aquele que, durante a noite, transportou o Seu servo, tirando-o da Sagrada Mesquita (em Makka) e levando-o à Mesquita de Alacsa (em Jerusalém), cujo recinto bendizemos, para mostrar-lhe alguns dos Nossos sinais. Sabei que Ele é Oniouvinte, o Onividente.
E concedemos o Livro a Moisés, (Livro esse) que transformamos em orientação para os israelitas, (dizendo-lhes): Não adoteis, além de Mim, outro guardião! Ó geração daqueles que embarcamos com Noé! Sabei que ele foi um servo agradecido!
E lançamos, no Livro, um vaticínio aos israelitas: causareis corrupção duas vezes na terra e vos tornareis muito arrogantes. E quanto se cumpriu a primeira, enviamos contra eles servos Nossos poderosos, que adentraram seus lares e foi cumprida a (Nossa) cominação.
Logo vos concedemos a vitória sobre eles, e vos agraciamos com bens e filhos, e vos tornamos mais numerosos. Se praticardes o bem, este reverter-se-á em vosso próprio benefício; se praticardes o mal, será em prejuízo vosso.
E quando se cumpriu a (Nossa) Segunda cominação, permitimos (aos vossos inimigos0 afligir-vos e invadir o Templo, tal como haviam invadido da primeira vez, e arrasar totalmente com tudo quanto havíeis conquistado.
Pode ser que o vosso Senhor tenha misericórdia de vós; porém, se reincidirdes (no erro), Nós reincidiremos (no castigo) e faremos do inferno um cárcere para os incrédulos.” (17:1-8).
Vemos, mais uma vez, como uma interpretação errônea das Escrituras e um escrito não inspirado são suficientes para que o adversário lance a discórdia e provoque tantas mortes e tristezas.
II – ABRAÃO E SARA FRAQUEJAM QUANTO AO PLANO DIVINO ORIGINAL
– Em mais uma demonstração de imparcialidade, que é uma característica denotadora do caráter divino da Bíblia Sagrada, a Palavra aponta-nos novo deslize na vida espiritual de Abrão.
– Quando tudo parece indicar que Abrão já atingiu o ápice da sua vida espiritual, a ponto de o próprio Deus assumir um solene compromisso de cumprir a Sua promessa de fazer do patriarca o pai de uma nação, eis que Abrão não cumpre a sua parte e tem um deslize na sua vida espiritual que traz consequências até o dia de hoje.
– Abrão tenta “ajudar a Deus”, obter, por meios humanos, a promessa de Deus. A iniciativa causou problemas e transtornos que perduram há milênios, numa clara demonstração que a vida de fé não tolera medidas carnais, resultantes do intelecto humano.
– É importante, desde o início, estarmos cientes que a atitude de Sarai de dar uma escrava a Abrão para que ela tivesse filhos dela era um comportamento cultural comum e normal entre os povos da Mesopotâmia, de onde Abrão e Sarai haviam vindo.
– Assim, após resistir longos anos, Abrão e Sarai, por impaciência, curvavam-se a um costume de seu povo, mas totalmente fora da direção de Deus. Assim, social, cultural e juridicamente, a atitude de Sarai era válida e o filho de Agar seria legítimo filho de Abrão.
OBS: “…No Antigo Oriente, uma legislação permitia que a esposa estéril cedesse ao marido uma escrava para a procriação; o filho nascido da escrava era reconhecido como legítimo. Recorrendo a esse artifício legal, Abrão está querendo facilitar a realização da promessa; mas não é isso que Deus quer.
Ismael, filho da escrava, é abençoado, mas não é através dele que Javé realizará a promessa. Deus faz um grande projeto para o homem, contudo, muitas vezes, o homem acha impossível realizá-lo e recorre a subterfúgios, traindo o desafio contido na promessa e que está dentro da aspiração humana.” (BÍBLIA SAGRADA. Edição Pastoral, com. a Gn.16:1,16, p.28).
– Após ter firmado um pacto com Deus e de ter renovadas as esperanças nas promessas de Deus, Abrão volta ao cotidiano, ao dia-a-dia de sua vida de peregrinação.
– Assim ocorre com cada um de nós, que servimos a Deus: recebemos promessas e desfrutamos de experiências indescritíveis com o Senhor, mas temos de retomar o nosso dia-a-dia, a nossa rotina, já que “estamos no mundo”(Jo.17:11).
– Embora nossa vida tenha como propósito primeiro agradar a Deus e fazer com que os homens possam glorificar a Deus (Mt.5:16), ela é composta de atos que nos igualam a todos os demais homens, pois também necessitamos obter o nosso sustento e desenvolver nossas relações sociais.
É, neste instante, que jamais podemos perder de vista as promessas de Deus e a noção de que o Senhor está no controle de todas as coisas, como Soberano do universo.
– A primeira demonstração que a Palavra de Deus dá-nos para mais este fracasso de Abrão na vida espiritual é a circunstância de que Sarai não gerava filhos a Abrão. Diz o texto de Gn.16:1: “Ora, Sarai, mulher de Abrão, não lhe gerava filhos”.
– A constatação pelo casal desta situação foi a porta de entrada para o fracasso espiritual. Com efeito, esta conclusão estava baseada numa perspectiva de total incredulidade e de desesperança em Deus.
– Chegava-se à conclusão de que jamais Abrão poderia ter filhos, como Deus prometera, por intermédio de sua mulher, pois ela era estéril e não lhe poderia gerar filhos e dez anos já haviam passado desde que se iniciaria a peregrinação em Canaã (Gn.16:3).
– Este é um grande perigo, o perigo de descrermos da Palavra do Senhor. Jamais um homem será vencido pelas tentações se confiar na Palavra de Deus.
A partir do momento que deixamos de dar crédito ao que Deus disse, começam a surgir, entre nós, as dúvidas, as descrenças, as desesperanças, a noção de demora no cumprimento das promessas de Deus.
– Como disse o saudoso compositor Alceu Pires (1942-2025): “A demora vem quando o “eu” encontra no coração lugar”.
Atrás de uma expressão como esta está uma sensação de autossuficiência, de independência de Deus, que é, como já dissemos, a porta de entrada para o fracasso espiritual do homem, tanto que foi o sentimento que o diabo fez nascer em Eva (Gn.3:5).
– Uma das grandes dificuldades para que o ser humano possa entender o agir de Deus encontra-se, precisamente, no aspecto tempo. Com efeito, o tempo é uma dimensão que somente existe para nós, homens, pois fomos submetidos a ele após o pecado de nossos pais.
– Como consequência do pecado, o homem foi levado à temporalidade de seu corpo (Gn.3:19) e, portanto, agimos e pensamos levando em conta o tempo.
Entretanto, Deus é um “eterno presente”, como costumava ensinar o saudoso pastor Severino Pedro da Silva (1946-2013) e, assim, não podemos submeter as ações de Deus ao fator tempo.
– O sábio Salomão já ensinou, dizendo que “tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ec.3:1). Jamais devemos nos esquecer que o tempo não existe para Deus e que tudo faz no tempo certo.
– A própria demonstração máxima do amor de Deus, que foi a vinda de Seu Filho, deu-se no tempo certo, nem antes, nem depois (Gl.4:4). Daí porque devemos repudiar o dito popular “Deus tarda, mas não falha”. Como diz outro verso do compositor Alceu Pires: “Deus não tarda e te responderá”.
OBS: “…A propósito, não poderá haver dois Universos? Este, relativo aos Mega Bang, Hiper Bang e Big Bang, que ainda não existia, e o outro totalmente absoluto, onde está o Trono de Deus?
Um dos cientistas deste grupo que citamos fez menção a este Universo, o qual não deve ter tido nem princípio, nem deverá ter fim.
Nós nos referimos à sua origem absolutamente eterna, onde sua fronteira interna é igual à nossa fronteira externa…”(CARVALHO, Ailton Muniz de CARVALHO. Deus e a história bíblica dos seis períodos da criação. 4. ed., p.66).
– A confiança em Deus exige estrita obediência à Palavra do Senhor. Ao verificarmos a solução tomada por Abrão e Sarai, há inobservância da Palavra do Senhor.
– Deus havia prometido fazer de Abrão uma grande nação (Gn.12:2), nação que surgiria de alguém que saísse das entranhas do patriarca (Gn.15:4), definindo, portanto, que não seria por meio de servos que a promessa de Deus se cumpriria, como pensara o patriarca.
– A solução de Sarai, portanto, contrariava, frontalmente, as promessas de Deus. O servo do Senhor não pode se deixar levar pelas circunstâncias desta vida, ainda que, aparentemente, mais sensatas e seguras que as prometidas pelo Senhor. Jamais devemos nos guiar pela aparência (Mc.12:14: Jo.7:24).
OBS: ” …O deslize de Abrão danificou a sua perfeição espiritual? Sim! Todo gesto fora da vontade de Deus gera atitude de imperfeição.
Entretanto, tais falhas podem não chegar a afetar o plano de Deus na vida do homem. Perfeito é algo sem defeito, omissão e completo; tão bom que é impossível melhorar; sem qualquer tipo de mácula, desagrado ou falha, autêntico, impecável, exato.
O homem, enquanto estiver neste corpo físico, estará sujeito a falhas e imperfeições. Queria o Senhor que Abrão refletisse sua atitude em ter tomado uma serva para si e dela gerar um filho, e que isso não era o perfeito plano de Deus, pois ele foi escolhido para fazer parte da linhagem do Messias e não deveria ser com sangue de estrangeiro.
Era preciso continuar esperando mesmo quando não havia mais esperança diante das impossibilidades físicas. Precisou aprender que quando as coisas são impossíveis aos homens, não as são para Deus.
A busca de um servo para ser herdeiro e depois o herdeiro com uma estrangeira estava fora do plano de Deus para sua vida.
O Senhor queria o melhor para Abrão e quer o melhor para todos os homens. Esperar até que a bênção chegue é demonstração de confiança em Deus…” (SILVA, Osmar José da. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade, v.3, p.60-1).
– A solução tomada por Abrão e Sarai pareceu ser excelente e ter dado resultado, pois Agar engravidou e deu à luz um filho para Abrão, mas as consequências desta solução fizeram-se sentir antes mesmo do nascimento de Ismael.
– Logo surgiu a disputa entre Sarai e Agar, que levaram à expulsão de Agar ainda grávida da casa do patriarca, ainda que tivesse sido, posteriormente, acolhida de volta.
Depois, houve o desentendimento entre Ismael e Isaque, com a expulsão definitiva de Agar e de Ismael da casa de Abrão e o início de uma luta fratricida entre seus descendentes que perdura até hoje nos conflitos entre judeus e árabes na Terra Prometida.
A suposta solução perfeita e exitosa redundou num motivo de mortes diárias ao longo de mais de quatro milênios.
– O segredo para a vitória está em cumprir rigorosamente a Palavra do Senhor. Jesus, mesmo, afirmou que somente há dois caminhos: um deles é estreito, ou seja, um que não comporta flexibilidade, que não comporta alargamento de interpretação, que não admite relativismo, que é o caminho da Palavra de Deus.
– Ao vermos o ministério de Jesus Cristo, verificamos que tudo foi cumprido rigorosamente pelo Senhor (Jo.17:4), tanto que, mesmo na cruz, para que houvesse cumprimento cabal, o Senhor chegou a externar a Sua sede (Jo.19:28). É este mesmo rigor que se espera dos servos do Senhor.
– Um dos sinais dos últimos dias é, precisamente, a inobservância da Palavra de Deus. Têm surgido muitos falsos mestres que não têm demonstrado qualquer compromisso com a sã doutrina, construindo teorias, sistemas, catecismos, doutrinas e pensamentos que satisfaçam suas concupiscências (I Tm.4:1,2; II Pe.2:1-3,18-22; Jd.4).
Devemos ser humildes para aprender de Jesus e olharmos o Seu exemplo, bem como seguir o conselho do profeta: “este é o caminho, andai nele.” (Is.30:21).
– A partir do momento que se descarta a intervenção divina, que se deixa de crer na possibilidade de Deus cumprir as Suas promessas, surge o intelecto humano, a lógica humana.
– Por isso, ao lado da esterilidade de Sarai, do que já se considerou ser uma demora no cumprimento da promessa divina, exsurge a “solução humana”: ” ele tinha uma serva egípcia, cujo nome era Agar”.
– Nunca busquemos fazer prevalecer nossa experiência, nosso pensamento, nossa lógica ao invés da Palavra do Senhor. Isaías diz-nos com total razão que os nossos pensamentos e os nossos caminhos são muitíssimo inferiores aos caminhos e pensamentos de Deus (Is.55:9).
– A “solução Agar” tinha vários inconvenientes, a saber:
a) Agar não era nascida na casa de Abrão – Quando fora lutar para libertar Ló, Abrão somente empregara os servos que eram nascidos na sua casa, ou seja, para que houvesse sucesso, Abrão somente poderia contar com quem tivesse as mesmas crenças, os mesmos valores, a mesma formação, o mesmo Deus.
Agar não era nascida em sua casa e, portanto, jamais poderia ser o instrumento para a obtenção do herdeiro prometido por Deus. De igual forma, muitos hoje buscam obter a promessa de Deus através de elementos estranhos à casa de Deus, de pessoas não comprometidas com a Palavra do Senhor.
b) Agar era vestígio de um período de desvio espiritual – Tudo indica que Agar fora incorporada à casa de Abrão durante o tempo em que este peregrinara no Egito, que foi, como já vimos, um período de desvio espiritual, de fracasso na vida de Abrão.
Jamais alguém que se acrescera à casa de Deus num período em que não havia direção de Deus poderia se transformar num instrumento de bênção espiritual.
Agar simboliza as consequências dos nossos fracassos, consequências que perduram em nossas vidas e que devemos neutralizar e não exaltar.
Assim como o homem velho, que a Bíblia denomina de “carne”, que ainda existe em nós, que não fomos, ainda, libertos do corpo do pecado (o que ocorrerá apenas com a glorificação, último estágio da salvação), deve ser mantido crucificado em nossas vidas, Abrão não poderia exaltar Agar como fez sem que disso adviesse prejuízo espiritual (Gl.2:20; 6:14).
c) Agar subverteria a ordem natural das coisas – Agar era uma serva, enquanto Sarai era a senhora da casa.
A solução Agar trazia uma subversão na ordem, pois a serva seria exaltada, passando a ocupar uma posição de disputa e de enfrentamento com a dona da casa, o que geraria contenda e dissabores, como acabou acontecendo.
As soluções humanas são, em si, subversivas, pois representam uma rebeldia de homem contra Deus, pois nada mais são que demonstrações de uma independência, de uma autossuficiência humana, uma atitude da criatura contra a soberania do seu Criador.
d) Agar era consequência da incredulidade e da desesperança em Deus – Sarai foi peremptória: “eis que o Senhor me tem impedido de gerar”.
Nesta sentença, revela-se o total descarte de qualquer intervenção divina na questão. Sarai decreta e sentencia que Deus não lhe dará filhos, apesar de todas as promessas feitas a Abrão.
Graças a esta sentença indevida e totalmente equivocada é que foi possível criar-se a solução Agar. Quando verificarmos decisões e atitudes que nos são sugeridas, devemos observar se, por detrás delas, não está uma demonstração de incredulidade e de desesperança em Deus.
e) Agar era uma solução feita com base na lógica humana e não na direção do Espírito – Como mostra o apóstolo Paulo (Gl.4:21-31), Agar simboliza o concerto feito com base nas ações humanas, o concerto que seria firmado, posteriormente, no monte Sinai, segundo o qual o esforço humano seria primordial para estabelecimento da comunhão com Deus e que, por causa disso, até, redundaria em fracasso, pois não há sequer um homem justo na face da Terra.
Não podemos confiar em nossos esforços, que são totalmente incapazes de nos trazer a redenção (Rm.3:10; Sl.14:1-3; Sl.49:8). O crente não anda segundo a carne, mas segundo o Espírito (Rm.8:1-17).
OBS: ” …O NT fala do filho de Agar como sendo o produto do esforço humano – ‘segundo a carne’ e não ‘segundo o Espírito’ (Gl.4.29).
Segundo a carne equivale ao planejamento puramente carnal, humano, natural. Noutras palavras, nunca se deve tentar cumprir o propósito de Deus usando métodos que não são segundo o Espírito, mas esperando com paciência no Senhor e orando com fervor…” (BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL, nota a Gn.16.2, p.55).
“…Evite tentar cumprir as promessas de Deus pelas suas forças. Tal atitude sempre tem consequências e produz resultados indesejáveis…” (BÍBLIA DE ESTUDO PLENITUDE. Verdade em ação no livro de Gênesis, item 4, p.63).
f) A solução Agar fez com que caísse mais um período de silêncio divino na casa de Abrão, pois somente encontraremos Deus falando com Abrão, novamente, quando este estiver com noventa e nove anos de idade (Gn.17:1). A desobediência traz, inevitavelmente, o afastamento entre Deus e o homem.
OBS: “…Quando nasceu o menino de Agar, Abrão tinha 86 anos e Sarai, sua verdadeira mulher, 77. Por causa da trapalhada do casal, Deus interrompeu sua comunicação com a Terra, e obviamente com Abrão, durante treze anos… ” (CARVALHO, Ailton Muniz de. A genealogia dos alienígenas, p.55).
– Além do aspecto de formação do próprio povo de Deus, vemos, neste episódio, que o povo deveria iniciar-se com uma família, ou seja, a família, uma vez mais, é mostrada na Bíblia Sagrada como a base do povo que Deus quer constituir para louvá-l’O e adorá-l’O.
– A formação da família exige, em primeiro lugar, a direção e orientação de Deus. Os planos de Abrão e Sarai estavam fora da direção e orientação do Senhor e, embora tivesse havido consenso entre eles, o resultado foi a contenda, a disputa e a intolerância na convivência do lar.
– Não basta, portanto, que haja acordo entre marido e mulher, mas é fundamental que haja submissão de ambos à vontade divina. É por isso que é dito que a união numa família salva é um “cordão de três dobras” (Ec.4:12), ou seja, não basta haver marido e mulher, mas o Senhor deve reinar sobre a união conjugal.
– Muito se discute quem deve ser o chefe do casal. O direito de família estabeleceu, até 1988, que a chefia do lar competia ao marido, baseando-se estas normas em dispositivos bíblicos que haviam sido assimilados pela Igreja Romana na legislação canônica.
– Hoje, inclusive no Código Civil, aboliu-se a figura do chefe de família, diante da igualdade entre homens e mulheres.
Entretanto, para os crentes, não há dúvida alguma: o chefe da família só pode ser Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que é a cabeça do varão (I Co.11:3).
– Ainda dentro deste aspecto familiar, o episódio que ora estamos estudando bem demonstra que uma família não pode subsistir se não houver unidade de fé, ou seja, se não houver compartilhamento das mesmas crenças, das mesmas esperanças, dos mesmos propósitos, dos mesmos valores.
– Ao ser inserida num ambiente de intimidade do lar, Agar, que não fora nascida na casa de Abrão, efetivamente não demonstrou ter o mesmo fim e a mesma fé do patriarca, tanto assim que acabou sendo expulsa da casa de Abrão e, no momento de desespero, Deus nem sequer ouviu o seu clamor, mas, sim, o do menino Ismael, este, sim, que havia nascido na casa de Abrão e tivera uma formação diferente da de sua mãe (Gn.21:14-21).
– Não se pode formar um lar verdadeiramente cristão se tivermos a inserção de pessoas descompromissadas com a Palavra de Deus, com a fé em Jesus, o chamado “jugo desigual”.
– Por isso, devemos aqueles que querem ter uma vida espiritual equilibrada e frutífera, pedir a orientação do Senhor no momento de constituírem seus lares, jamais permitindo que haja “jugo desigual”, que não se confunde com nome de igreja, com nome de ministério ou algo similar, mas com o verdadeiro e sincero compromisso do pretendente a cônjuge com a Palavra de Deus.
– Agar vivia dentro da casa de Abrão, desfrutava da confiança de Sarai, era íntima do casal, mas não se tratava de alguém que fosse compromissada com o Senhor de Abrão.
Quando o(a) querido(a) irmã(o) estiver escolhendo um cônjuge, não se esqueça deste exemplo que a Palavra de Deus nos traz.
– Surgida a contenda, logo a beleza aparente do plano engendrado por Abrão e Sarai desmoronou. Agar ensoberbeceu-se por estar grávida e passou a assumir uma posição que não era a sua. Sarai, por sua vez, sentiu-se ameaçada, insegura, porque havia colocado em xeque a sua própria autoridade no lar.
– O exercício da autoridade é algo que deve ser feito com muito cuidado. Com efeito, diz-nos a Bíblia que a autoridade sempre é constituída por Deus (Rm.13:1), máxime quando decorre da vontade operativa de Deus, como ocorria no caso de Sarai e de Abrão.
– Ora, se assim é, quando a autoridade é exercida fora da direção e orientação de Deus, as consequências são funestas para a autoridade, pois Deus não Se deixa escarnecer (Gl.6:7).
– Exaltando indevidamente Agar, Sarai viu-se ameaçada em sua própria autoridade, porque a autoridade havia sido mal exercida.
Abrão, que havia aquiescido com sua mulher, também ficou sem qualquer autoridade, delegando a Sarai uma decisão que deveria ter sido sua e, como consequência, Sarai tomou uma deliberação totalmente irracional, má e desumana, expulsando uma mulher grávida de filho de seu marido, deixando-a à própria sorte.
– Da exaltação indevida à crueldade na perseguição e expulsão: este é, normalmente, o procedimento daqueles que detêm autoridade mas a exercem fora da direção de Deus (mormente entre os escolhidos…)
– Entretanto, como dissemos, Deus não Se deixa escarnecer. Ante uma situação tão iníqua e contrária à Sua vontade, o Senhor intervém e faz com que Agar retorne para a casa de Abrão.
Esta intervenção divina revela, sobretudo, que o único compromisso que Deus tem é com a Sua Palavra, pois Ele vela sobre ela para a cumprir (Jr.1:12).
– Agar estava grávida e seu filho era descendência de Abrão e, portanto, Deus tinha o compromisso de zelar para que este filho nascesse e sobrevivesse, bem como que fosse educado na doutrina de Seu amigo.
Por isso, Deus revogou a determinação de Sarai, como também removeu a soberba de Agar. Determinou à serva que se humilhasse perante a sua senhora e tornou sem efeito a ordem de Sarai de expulsão do lar.
Vemos aqui a soberania de Deus e a impossibilidade de se impedir a operação divina (Is.43:13). Esta é uma garantia que o crente tem e que deve estar sempre em nossa mente.
– A humilhação de Agar revela-nos, ademais, que, sem humildade, jamais teremos permanência na casa do Senhor. Para permanecermos em comunhão com o Senhor, necessário se faz que aprendamos de Jesus, que é humilde e manso de coração (Mt.11:29).
– A soberba foi o pecado primeiro do universo, praticado pelo nosso adversário (Ez.28:17; Is.14:12-14) e um dos elementos de que se compõe o mundo que jaz no maligno (I Jo.2:16). Que Deus nos guarde, pois, da soberba e que possamos, aprendendo de Jesus e de sua humildade, perseverar na casa do Pai até aquele grande dia.
– Lição importante foi dada pelo Senhor ao determinar o nome da criança. Deus disse a Agar que a criança deveria se chamar “Ismael”, que quer dizer “Deus está ouvindo”(Gn.16:11).
– Com este nome, Deus demonstra que estava observando, durante todo o tempo, o estratagema engendrado por Abrão e por Sarai. O nosso Deus não é um Deus que seja surdo ou seja mudo, embora, às vezes, pareça que Ele não nos ouve ou que não fale, diante do silêncio que O caracteriza em certos momentos de nossa vida.
– Enquanto Agar denomina o Senhor de “Deus da vista”, numa clara confissão de que Deus a tudo estava vendo (Gn.16:13), o próprio Senhor determina que a criança seja chamada Ismael, para comprovação de que Deus tudo está ouvindo.
Quando temos a certeza de que Deus está vendo e ouvindo todas as coisas, de forma convicta e sincera, nossas ações não se moldam segundo a carne, segundo a lógica, segundo os costumes ou as convenções humanas, mas se desenvolve por fé.
OBS: “…Ela (Agar, observação nossa) obedeceu, pediu perdão à sua senhora, e o obteve, e pouco tempo depois teve um filho que foi chamado Ismael, isto é, atendido, para mostrar que Deus tinha atendido às orações de sua mãe. ” (Flávio JOSEFO. História dos hebreus. Trad. de Vicente
Pedroso, v.1, p.33).
” O nome ‘Ismael’ significa ‘Deus ouve’ e significa que Deus viu o modo injusto de Abrão e Sarai tratarem Agar, e que também agiu a respeito disso. Aquele nome dado antecipadamente foi um julgamento sobre Abrão, e revela que Deus abomina toda e qualquer injustiça entre os seus.
Que Deus castigará quem cometer injustiça contra os fiéis da igreja, não deixa dúvida o NT ” (BÍBLIA DE ESTUDO PENTECOSTAL,
nota a Gn. 16.11, p. 56).
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12296-licao-3-a-impaciencia-na-espera-do-cumprimento-da-promessa-i-2
