LIÇÃO Nº 1 – DEUTERONÔMIO – O LIVRO DA ALIANÇA
ESBOÇO Nº 1
A)INTRODUÇÃO AO TRIMESTRE
Pela graça de Deus, estamos a terminar mais um ano letivo da Escola Bíblica Dominical, agradecendo ao Criador pela oportunidade de podermos continuar a meditar em Sua Palavra, prosseguindo a santificação sem a qual não veremos o Senhor, que não tarda vir, como demonstram, com eloquência, os sinais que estão se cumprindo claramente aos nossos olhos, entre os quais, o nítido desprezo que tem tido a Escola Dominical em nossas igrejas.
Depois de termos iniciado o ano estudando a difícil doutrina da Trindade, termos, depois, estudado os patriarcas, exemplos de fé para todos nós, e completado o estudo do livro de Atos dos Apóstolos, iniciado no terceiro trimestre do ano passado, encerraremos o ano com mais um trimestre bíblico, desta feita, estudando o livro de Deuteronômio.
É a vez primeira, desde o início do Portal Escola Dominical, em 2001, que dedicamos todo um trimestre ao estudo do quinto livro de Moisés, o último livro do Pentateuco, o livro de Deuteronômio, o livro da despedida do Legislador e Libertador de Israel.
Com efeito, Deuteronômio é um conjunto de três discursos que Moisés proferiu ao povo de Israel antes de sua morte, quando repete a lei aos israelitas e rememora a jornada de quarenta anos de peregrinação no deserto, que estava a terminar.
Nos limites da Terra Prometida, para a qual o líder não haveria de passar, no deserto, na planície defronte do mar de Sufe, entre Parã e Tofel, e Labã, e Hazerote, e Di-Zaabe (Dt.1:1), Moisés traz à memória dos israelitas toda a jornada de quarenta anos no deserto, o teor da lei e, ao final, profere um cântico, abençoa o povo e vai para o monte Nebo, onde morre e é sepultado em local até hoje ignorado pelo próprio Deus.
Por isso, o nome hebraico do livro é “Devarim” (ְּדָבִרים), cujo significado é “Palavras”, que é o primeiro vocábulo do texto, mostrando que o livro são “as palavras que Moisés falou a todo Israel”.
Também, por isso, os gregos, na Septuaginta (a primeira tradução das Escrituras, que foi a tradução para o grego), intitularam o livro de “Deuteronômio” (Δευτερονόμιον), ou seja, “segunda lei” ou “repetição da lei”, querendo, com isso, dizer que Moisés “repetiu” a lei ao povo, antes de morrer.
Bem se vê, pois, que o livro de Deuteronômio contém um caráter de lembrança, de reflexão sobre a lei e não é de se surpreender, portanto, que seja o livro do Pentateuco, ou seja, os cinco livros da lei, o que tenha a maior profundidade moral e espiritual, onde Moisés traz ao povo o sentido da lei, a sua razão de ser, que vai além das cerimônias e rituais, que, por exemplo, caracterizam a maior parte do livro de Levítico.
É em Deuteronômio, por exemplo, que se falará, pela vez primeira, da “circuncisão do coração” (Dt.30:6). A propósito, a palavra “coração” aparece por diversas vezes neste livro, a demonstrar que o Senhor queria do povo uma comunhão verdadeira, a partir do homem interior, e não a observância de um formalismo, de um ritualismo que se tornaria, como se verificaria entre os fariseus com grande eloquência nos dias de Jesus, uma hipocrisia religiosa.
Não é à toa, aliás, que, será em Deuteronômio, que se terá a mais direta profecia messiânica de Moisés, quando ele revela aos israelitas que, no dia mesmo da entrega da lei no monte Sinai, foi-lhe dito que haveria de vir um “profeta como Moisés”, que traria suas palavras ao povo que, ao contrário do que fizera com o libertador no Sinai, deveria ser ouvido (Dt.18:18,19).
As palavras proferidas por Moisés, portanto, são como que uma preparação para as palavras que seriam proferidas por este “profeta como Moisés”, o Messias, que haveria de cumprir a lei relembrada pelo líder que se despedia, lei que havia sido dada como remédio, como aio até que viesse o próprio Cristo (Gl.3:19).
Daí se entende esta maior profundidade moral e espiritual do livro de Deuteronômio e se deve rejeitar a interpretação da teologia liberal de que tal livro teria sido uma “produção literária posterior” de um tal “deuteronomista”, um conjunto de escribas que teria existido ou no reinado de Josias ou durante ou após o exílio da Babilônia e que teria procurado “dar sentido à destruição de Israel e ao exílio”, invenção de gente que não crê em Deus nem, naturalmente, nas Escrituras Sagradas.
O autor do livro de Deuteronômio foi Moisés, que não somente proferiu estes discursos, como, também, os reduziu a escrito, assim como toda a lei, deixando os registros junto a arca (Dt.31:9), autoria que é confirmada não só pelo próprio texto do livro, em que Moisés se utiliza, muitas vezes, da primeira pessoa, como também pelo próprio Jesus (Mt.19:7,8; Mc.10:3,4) e por Pedro (At.3:22) e Estêvão (At.7:37), e, estes dois últimos, em momentos em que estavam sendo tremendamente usados pelo Espírito Santo.
Eis o motivo pelo qual o trimestre tem como título “o Deus da aliança”, porquanto Moisés, em Deuteronômio, faz como que uma síntese da lei, que tinha sido a aliança firmada entre Deus e Israel, o “antigo concerto” (Ex.24:17; 34:10; Dt.4:13; 5:2; 29:1), que seria substituído pela “nova aliança” a ser estabelecida por Cristo Jesus (Jr.31:31-33; Mt.26:28; Mc.14:24; Lc.22:20; Rm.11:27; I Co.11:25; II Co.3:6; Hb.8:8-13; 12:24).
O subtítulo também explica o conteúdo do livro de Deuteronômio, pois, nesta “repetição da lei”, Moisés traz ao povo advertências, promessas e bênçãos.
A capa da revista do trimestre traz a imagens de três peças do tabernáculo (depois do templo):
o candelabro,
a mesa dos pães da proposição e a
arca da aliança, que se encontra separada pelo véu (Hb.9:2-5), querendo, com isso, lembrar da aliança feita entre Deus e Israel no monte Sinai, a aliança da lei, também chamada de “antiga aliança” e de “pacto sinaítico” ou “pacto mosaico”.
O livro de Deuteronômio é a lembrança desta aliança feita por três discursos de Moisés ao povo pouco antes de sua morte, motivo por que alguns denominam este livro de ser “o livro da aliança” ou “o livro do concerto” mencionado em II Rs.23:2.
É interessante notar que a ilustração faz alusão ao fato de que, após ter concluído seus discursos, Moisés tomou o livro da lei e o pôs precisamente neste local do lugar santo retratado na capa da revista (se bem que, na ilustração, falte o altar do incenso), junto ao véu que separava o lugar santo (onde ficavam o altar do incenso, ausente na ilustração, o candelabro e a mesa dos pães da proposição) e o lugar santíssimo (onde ficava a arca do concerto ou arca da aliança) (Dt.31:26).
O trimestre, como é um trimestre bíblico, ou seja, que estuda em especial um livro das Escrituras, pode ser dividido conforme o próprio livro que se está a estudar.
Assim, após uma lição introdutória sobre o livro de Deuteronômio, temos, então, o estudo do primeiro discurso de Moisés, que abarca Dt.1:6-3:29, em que o Legislador rememora a jornada no deserto (lição 2), mostra a fidelidade de Deus e a infidelidade de Israel (lição 3) e faz um chamado à obediência (lição 4).
O segundo bloco analisa o segundo discurso de Moisés, que abrange Dt.4:44 até 26:19, onde o líder que se despedia relembra a aliança firmada com Deus (lição 5), as bênçãos e maldições dela decorrentes (lições 6 e 7).
O terceiro bloco debruça-se sobre o terceiro discurso de Moisés, que está em Dt.27:1 até 30:20, dando-se ênfase ao exercício do livre-arbítrio para o cumprimento da lei (lição 8), bem como a sucessão de Moisés por Josué (lição 9).
O quarto bloco dedica-se às palavras finais de Moisés, analisando o seu último cântico (lição 10), a sua bênção aos israelitas (lição 11) e sua morte (lição 12).
Por fim, teremos uma lição conclusiva em que veremos o cumprimento de Deuteronômio em Cristo.
O comentarista deste trimestre é o pastor Osiel Gomes da Silva, pastor presidente das Assembleias de Deus em Tirirical/São Luís-MA, que há anos tem comentado as Lições Bíblicas.
Que, ao término deste trimestre, compreendendo a reflexão profunda feita por Moisés sobre a lei, entendamos que precisamos, mais até do que os israelitas, firmarmo-nos na nova aliança estabelecida pelo “profeta como Moisés”, pois, como disse o líder israelita, o Senhor requererá de cada um de nós o atendimento às palavras de Jesus.
B)LIÇÃO Nº 1 – DEUTERONÔMIO – O LIVRO DA ALIANÇA
INTRODUÇÃO
-Neste quarto e último trimestre de 2026, teremos mais um trimestre bíblico, em que estudaremos o livro de Deuteronômio, o quinto e último livro do Pentateuco.
-Em Deuteronômio, Moisés faz uma síntese da lei.
ILUSTRAÇÃO DA LIÇÃO
-A lição tem como ilustração duas tábuas de pedra sobre um monte. Estas duas tábuas simbolizam as duas tábuas da lei que o Senhor deu a Moisés, quando ele se encontrava no monte Sinai, tábuas que foram preparadas e escritas pelo próprio Deus (Ex.31:18), que eram o símbolo da aliança firmada entre Ele e Israel no monte Sinai (Ex.19:5-9).
-Estas tábuas, entretanto, foram quebradas logo em seguida por Moisés, diante da cena em que o líder viu o povo violar os dois primeiros mandamentos no episódio do bezerro de ouro (Ex.32:19).
-Após a intercessão de Moisés, este preparou novas tábuas, tendo o Senhor, então, novamente escrito as “dez palavras” nelas (Ex.34:1), tábuas que foram postas no interior da arca da aliança (Ex.40:20), que, por isso
mesmo, era chamada de “arca do testemunho” (Ex.25:22; 26:34; 30:26), pois as tábuas eram o “testemunho” de Deus para o povo (Ex.25:31).
-A ilustração, portanto, faz-nos lembrar que o livro de Deuteronômio é a recordação que Moisés faz ao povo, antes de morrer, da aliança que firmaram com Deus no monte Sinai, é a “memória do testemunho”.
I – A AUTORIA, A DATA E O PROPÓSITO DO LIVRO DE DEUTERONÔMIO
-Neste quarto e último trimestre de 2026, a Casa Publicadora das Assembleias de Deus, depois de nos ter dado a oportunidade, no primeiro trimestre, de estudarmos a Doutrina da Trindade; de, no segundo trimestre, feito-nos estudar a vida dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó e de, no terceiro trimestre, completarmos o estudo do livro de Atos dos Apóstolos, iniciado no terceiro trimestre de 2025, convida-nos, agora, a nos debruçar sobre um livro do Antigo Testamento, o livro de Deuteronômio.
-Temos, pois, mais um trimestre bíblico, agora de livro do Antigo Testamento, o último livro do Pentateuco, o derradeiro livro da lei, chamado de “Devarim” (ְּדָבִרים), isto é, “Palavras” pelos judeus, que dão os títulos dos livros a partir da primeira palavra do texto, “in casu”, “Estas são as palavras que Moisés falou a todo Israel…” (Dt.1:1), e, na Septuaginta, a primeira versão das Escrituras, sua tradução do hebraico para o grego, de “Deuteronômio” (Δευτερονόμιον), ou seja, “segunda lei” ou “repetição da lei”.
-O título hebraico, embora reproduza a primeira palavra do texto do livro, é já elucidativa a respeito do conteúdo deste rolo. Com efeito, trata-se das palavras proferidas por Moisés em três discursos, além da redução a escrito de seu último cântico e de sua bênção ao povo, antes de sua morte.
-São, pois, as palavras de despedida de Moisés, onde o líder faz uma profunda reflexão dos quarenta anos em que esteve à frente do povo, da jornada feita no deserto e, sobretudo, traz ao povo a memória do pacto celebrado com o Senhor no monte Sinai e a necessidade de Israel ser fiel e obediente a Deus se quisesse permanecer na Terra Prometida que haveria de ser conquistada logo após a sua morte.
-Como, certa feita, lembrou o príncipe dos pregadores britânicos, Charles Haddon Spurgeon (1834-1892), em sermão a respeito das palavras de Jesus em Jo.16:33, as últimas palavras de um homem antes de sua morte costumam ser as mais profundas e incisivas e é isto que notamos em Deuteronômio, discursos em que, à luz de todos os acontecimentos ocorridos com Israel após a sua saída do Egito, Moisés mostra o sentido da lei, dando ao povo uma profunda reflexão do significado de ter Israel se tornado o povo do Senhor entre todas as nações da Terra.
-Mas também o título dado pelos gregos ao livro revela toda esta profundidade do livro de Deuteronômio, pois, ao intitulá-lo de “segunda lei” ou “repetição da lei”, vemos aqui que o livro é uma rememoração da lei, da aliança feita entre Deus e Israel, e, portanto, não se tem uma mera repetição do que havia sido pactuado, mas, antes, uma síntese, isto é, um resumo que apresenta os pontos mais importantes de tudo quanto foi ordenado, onde o mais importante é enfatizado.
-Tanto assim é que, na relação dos 613 mandamentos da Torá trazida pelo rabino e filósofo judeu Maimônides (1138-1204), na sua obra “Mishneh Torah”, 202 dos mandamentos estão no livro de Deuteronômio, ou seja, 32,95% dos mandamentos, a mostrar, portanto, que não se tem mera repetição.
-Assim é que, em Deuteronômio, ao contrário do que ocorre em Levítico, não se tem minudências a respeito de rituais, cerimoniais, mas, antes, uma reflexão moral e espiritual a respeito dos mandamentos, bem como do significado do que é ser povo santo e reino sacerdotal, de ser a propriedade peculiar de Deus dentre os povos (Cf. Ex.19:5,6).
-Não é, por acaso, que, por diversas vezes, no livro de Deuteronômio, ter-se-á a palavra “coração”, que é a expressão bíblica a respeito do homem interior, da alma e do espírito, do “homem do lado de dentro”, como
costumava ensinar o saudoso pastor João Vicente Branco Júnior, grande ensinador na Assembleia de Deus – Ministério do Belém – sede em São Paulo/SP.
-Em Deuteronômio, vemos Moisés particularmente interessado em mostrar que o mais importante da lei era o juízo, a misericórdia e a fé, como haveria de dizer, séculos depois, o Senhor Jesus no Seu duro discurso contra os fariseus (Mt.23:23).
-A autoria do livro é de Moisés. Logo no início do livro, é dito que o livro são “as palavras que Moisés falou a todo o Israel, dalém do Jordão, no deserto, na planície defronte do mar de Sufe, entre Parã, e Tofel, e Labã, e Hazerote, e Di-Zaabe” (Dt.1:1).
-Temos aqui, portanto, o registro, feito pelo próprio Moisés, das palavras que proferiu quando o povo se encontrava em Cades-Barneia (Dt1:2; 3:29), a última parada do povo de Israel antes de atravessar o rio Jordão e iniciar a ocupação da terra de Canaã.
-Estas palavras foram inicialmente proferidas e, em seguida, escritas por Moisés, como diz Dt.1:3, no ano quadragésimo, no mês undécimo, no primeiro dia do mês, da jornada de Israel no deserto, após a sua saída no Egito.
-Era o término da peregrinação do povo de Israel no deserto e, também, o término do ministério de Moisés, porquanto o líder não haveria de entrar em Canaã, por causa da sua desobediência em Massá e Meribá (Nm.20:12,13; 27:12-14; Dt.3:23-27).
-Esta autoria de Moisés é demonstrada, ao longo do livro, pelo próprio líder, que, por vezes, apresenta-se como “autor participante”, ou seja, como alguém que faz parte da narrativa, que se apresenta como personagem dos acontecimentos relembrados ao povo, em passagens, como Dt.1:9; 3:23; 4:1; 9:9,26; 18:15; 31:12.
-Como se não bastasse estas indicações do próprio livro de Deuteronômio, a autoria de Moisés é confirmada pelo Senhor Jesus (Mt.19:7,8; Mc.10:3,4), por Pedro (At.3:22) e Estêvão (At.7:37), e, estes dois últimos, em momentos em que estavam sendo tremendamente usados pelo Espírito Santo.
-Mesmo assim, a chamada “crítica bíblica” e a sua filha predileta, a “teologia liberal” busca convencer-nos que o livro de Deuteronômio não é de autoria de Moisés, mas, sim, de um tal de “deuteronomista”, que seria um conjunto de escribas que, durante o reinado de Josias, ou durante ou após o exílio, teria “fabricado” o livro de Deuteronômio para justificar o fracasso de Israel e o exílio da Babilônia.
-Para esta gente, que não crê em Deus nem nas Escrituras Sagradas, somente isto explicaria a profundidade moral e espiritual do livro, que o distinguiria dos demais livros do Pentateuco.
-Entretanto, como já dissemos, facilmente compreensível o caráter diferenciado deste livro em relação aos demais livros de Moisés. É o livro em que o líder, inspirado pelo Espírito Santo, traz uma síntese da lei, mostra, com maior profundidade, o sentido da aliança firmada entre Deus e Israel, mostrando o “lado de dentro” da lei, a necessidade de se ter uma “circuncisão do coração” (Dt.30:6), a essência da aliança firmada no Sinai.
-Não nos esqueçamos de que a revelação de Deus é progressiva, e, aqui, em Deuteronômio, o profeta que tinha um diferencial em relação aos demais (Nm.12:6-8), traz um significado mais profundo a respeito da lei, lei, aliás, que foi, também em Deuteronômio, mostrada como um remédio, um paliativo que deveria aguardar a vinda do “profeta como Moisés” (Dt.18:18,19), também revelado no último livro da lei.
-Não há, pois, motivo algum para se acolher a tese da teologia liberal, que, ademais, é uma verdadeira demonstração de descrença na Bíblia Sagrada, pois se trata de uma posição que diz que o que está na Bíblia não é verdade, exatamente o contrário do que nos ensinou o Senhor Jesus, que disse que a Palavra é a verdade (Jo.17:17).
-Existe apenas uma discussão a respeito da parte do livro que narra a morte do próprio Moisés, que corresponde ao capítulo 34. Teria o próprio Moisés escrito a respeito de sua morte? A partir desta possibilidade, aliás, o grande escritor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) idealizou uma de suas principais obras, as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”.
-No entanto, desde os tempos antigos, tem-se entendido que esta parte final do livro de Deuteronômio foi escrita por Josué, o que deve ter realmente acontecido, já que os elogios constantes ao grande líder não são próprios de quem sempre foi manso e humilde desde quando foi chamado pelo Senhor para libertar e liderar Israel até Canaã.
-Ademais, sabemos que a “primeira onda de inspiração das Escrituras”, iniciada com Moisés, prosseguiu com Josué, que escreveu o livro de Josué, que conta a história da conquista de Canaã. Nada mais razoável que tenha iniciado sua atuação como autor bíblico complementando o último livro do Pentateuco.
-Conforme já foi dito, o livro de Deuteronômio é a última obra escrita por Moisés, no quadragésimo ano da peregrinação de Israel no deserto, no undécimo mês, a partir do primeiro dia do mês, o que faz com que o livro tenha sido escrito por volta de 1645 a.C, segundo Finis Jennings Dake (1902-1987), ou por volta de 1423 a.C., segundo Edward Reese e Frank R. Klassen.
-Como ensina Dake: “…O nome do livro significa a segunda lei, porque ele registra a repetição dos 10 mandamentos (cap.5). Ele contém os conselhos de Moisés para a partida de Israel em vista da entrada deles em Canaã; um sumário da peregrinação no deserto; muitas leis novas que precisavam ser acrescentadas àqueles dadas cerca de 40 anos antes; muitas advertências em vista da possibilidade do pecado; profecias relativas ao futuro de Israel e a aliança palestina (11:13-32; 27:1-30:20).…” (BÍBLIA DE ESTUDO DAKE, p.315).
-Vemos, portanto, que o livro de Deuteronômio tem como propósito trazer uma reflexão a respeito da aliança firmada entre Deus e Israel.
-Moisés, inspirado pelo Espírito Santo (cf. II Pe.1:21), faz estes discursos de despedida ao povo de Israel, visando, sobretudo, levá-los à reflexão do significado de serem a propriedade peculiar dentre os povos, o reino sacerdotal e povo santo (Ex.19:5,6).
-Assim, além de lembrar ao povo toda a caminhada que haviam feito no deserto, e que estava por terminar, fê-los meditar sobre o sentido de serem o povo de Deus, bem como o sentido da aliança que haviam firmado com o Senhor no monte Sinai.
-É interessante lembrarmos que Moisés estava a falar com a geração que tinha menos de vinte anos quando saiu do Egito, muitos deles, inclusive, haviam nascido no deserto, e, portanto, não tinham vívida a noção do momento em que o pacto foi firmado entre Deus e seus pais no monte Sinai.
-Quarenta anos depois da saída do Egito, não havia mais ninguém com mais de vinte anos que havia alcançado a libertação da escravidão, com exceção de Josué e de Calebe (Nm.23:63-65). Deste modo, extremamente oportuna a rememoração da aliança para aquela geração que estaria a entrar, dali a alguns dias, em Canaã e lá desenvolver a sua qualidade de reino sacerdotal e povo santo, de propriedade peculiar de Deus entre os povos.
-Os doutores da lei, os rabinos judeus, inclusive, entendem que esta geração a que Moisés havia se dirigiu no livro de Deuteronômio, eram, no momento da pactuação, quarenta anos antes da elaboração do livro, os “fiadores do pacto”, a garantia de que a lei seria observada para sempre.
OBS: Eis o entendimento constante da tradição judaica: “…”אותנו עורבים בנינו”
“Nossos filhos serão nossos fiadores.” ( Midrash Rabbah, Cântico dos Cânticos 1:3,1 )
PERGUNTA: De acordo com o Midrash , quando o povo judeu estava no Monte Sinai para receber a Torá , Hashem pediu uma garantia de que a guardariam.
Eles responderam: “Avoteinu orvim otanu” — “Nossos ancestrais serão nossos fiadores”. Como isso foi inaceitável, ofereceram: “Nevi’einu areivin lanu” — “Nossos profetas serão nossos fiadores”. Isso também Hashem não aceitou. Quando disseram: “Baneinu orvim otanu”
— “Nossos filhos serão nossos fiadores” — Hashem respondeu: “De fato, estes são bons fiadores. Por causa deles, eu a darei a vocês”.
Por que Hashem favoreceu as crianças em detrimento dos ancestrais e profetas?
RESPOSTA: Do ponto de vista homilético, o Midrash pode ser explicado da seguinte forma: Hashem queria que a
Torá fosse estudada diligentemente e observada meticulosamente ao longo da história, então Ele pediu aos judeus a garantia necessária.…” (BOGOLMISKY, Moshe. Perguntas e respostas sobre os fiadores. Disponível em: https://www.chabad.org/library/article_cdo/aid/2836026/jewish/The-Guarantors.htm Acesso em 15 jul. 2026).
-Partindo deste raciocínio, entende-se porque Moisés, antes de morrer, ter resolvido rememorar a lei à nova geração, para que ela não só assumisse a responsabilidade de observar a lei assim que entrasse na Terra Prometida, como também ensinasse seus filhos a observá-la, para que Israel permanecesse na terra que conquistaria e cumprisse o seu papel diante de Deus, até a chegada de Cristo (Dt.6:6-9; 11:18-21).
-“…Quando D’us estava por outorgar a Torá ao nosso povo, Ele nos perguntou: “Qual a garantia que vocês Me darão de que cumprirão o Meu convênio?” Ao que nós Lhe respondemos: “Oferecemos nossos Patriarcas – Avraham, Yitschac e Yaacov, assim como nossos Profetas” – mas eles não foram aceitos como fiança. Ofertamos então nossas crianças como garantia e imediatamente D’us as aceitou, pois Ele sabia que enquanto elas estudassem a Torá e observassem seus sagrados princípios, o compromisso seria sempre mantido pelo nosso povo.…” (CHABAD. Quem é o responsável? Disponível em: https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/607484/jewish/Quem-Responsvel.htm Acesso em 15 jul. 2026).
-Esta rememoração, ademais, não é mera repetição, mas um aprofundamento espiritual, a explicação do sentido da lei e do papel que deveria Israel desempenhar, uma vez conquistando Canaã, para cumprir o propósito divino de ser a propriedade peculiar de Deus entre os povos, o reino sacerdotal e o povo santo, até que viesse o “profeta como Moisés” (Dt.,18:15-18).
-Ao findar o seu ministério fazendo uma rememoração para fins de dar continuidade à aliança firmada no monte Sinai, Moisés como que antecipa o que faria também o “profeta como ele”, o Messias que, também, mandou que, não uma vez, na despedida antes da morte, como fez o Legislador, mas que, periodicamente, o povo de Deus lembrasse da “nova aliança” firmada no sangue de Cristo, por meio da celebração da ceia do Senhor (I Co.11:23-26), até porque Jesus ressuscitou.
-Esta relembrança periódica tem, também, o mesmo sentido dos discursos de despedida de Moisés: o aprofundamento espiritual, o aumento da comunhão com o Senhor, pois, assim como o Legislador fez Israel refletir sobre o que é ser povo de Deus e como deveria se comportar em Canaã, a ceia do Senhor também nos faz refletir o que é ser povo de Deus e como devemos nos comportar em nossa peregrinação terrena até que o Senhor venha.
-Neste ponto, aliás, vemos mais uma similaridade entre o livro de Deuteronômio e a ceia do Senhor, pois, enquanto Deuteronômio mostra como deveria ser a conduta de Israel até que viesse o “profeta como Moisés”, também a ceia do Senhor nos indica como deve ser a nossa conduta até que venha o Senhor para arrebatar a Sua Igreja.
-O último livro da lei aponta para o real significado da aliança firmada no Sinai, traz a aliança que deveria ser firmada nos montes Ebal e Gerizim (Dt.27), quando entrassem na Terra e aponta para a necessidade de fidelidade e obediência até que viesse o “profeta como Moisés”, que deveria ser ouvido (Dt.18:18,19).
-Não é à toa, aliás, que, quando Moisés e Elias aparecem com Jesus no monte da Transfiguração, as palavras do Pai tenham sido: “Este é o Meu Filho amado, em quem Me comprazo; escutai-O” (Mt.17:5 “in fine”). Exatamente o que é dito por Moisés ao povo, que disse que o povo deveria ouvir as palavras do profeta como ele, pois isto lhes seria requerido pelo próprio Senhor (Dt.18:18,19).
-De igual modo, a ceia do Senhor faz-nos lembrar o real significado da salvação na pessoa de Jesus Cristo, firmada na Sua morte no Calvário, e nos mostra como devemos viver aqui na Terra, onde estamos de passagem, fazendo-nos conscientes desta luta que há neste mundo entre nós e o maligno (e este seria, como ensina o pastor Severino Pedro da Silva, o real significado de Canaã para o cristão, pois os israelitas não tiveram um descanso em Canaã, cf. Hb.4:8,9), até que venhamos habitar na casa do Pai (Jo.14:1-3).
II – A ESTRUTURA DO LIVRO DE DEUTERONÔMIO
-Como temos visto, o livro de Deuteronômio foi o último livro escrito por Moisés, escrito pelo líder de Israel em pouquíssimo tempo, pouco antes de sua morte, quando proferiu discursos ao povo de Israel, relembrando-os da aliança firmada com o Senhor no monte Sinai, a aliança da lei.
-Nada mais natural, portanto, que o livro tenha, por estrutura, precisamente estes discursos de despedida, que são três.
-Após uma introdução, que dá conta da autoria, data e local onde estes discursos foram proferidos (Dt.1:1-5), temos o primeiro discurso (Dt.1:6-4:43).
-Neste primeiro discurso, Moisés faz uma recordação da peregrinação no deserto, a partir do momento em que, depois de terem ficado alguns meses no monte Sinai, o Senhor determinou que o povo iniciasse sua caminhada para Canaã, o que corresponde ao narrado no livro de Números, que, não por acaso, é chamado pelos israelitas de “Bamidbar” (ַּבִמְּדָבר), cujo significado é “no deserto”, ou seja, é a narrativa da peregrinação de Israel no deserto.
-A lembrança feita por Moisés, portanto, diz respeito à peregrinação no deserto propriamente dita, quando, então, o povo passa a ser efetivamente testado quanto aos mandamentos que lhe haviam sido entregues no monte Sinai e depois que já haviam construído e inaugurado o tabernáculo, onde se teria o relacionamento com Deus.
-Tratava-se do povo que, tendo falhado na fé até chegar ao Sinai; tendo falhado no momento mesmo da entrega da lei; tendo, depois de ter recebido a lei, violado os dois primeiros mandamentos no episódio do bezerro de ouro; tendo recebido o perdão do Senhor após a intercessão de Moisés, havia alegremente contribuído para a construção do tabernáculo e visto a manifestação da glória de Deus na sua inauguração e, então, dava início à sua jornada rumo à Terra Prometido.
-Este início do discurso de Moisés com a partida do Sinai mostra-nos como Deus realmente não Se lembra das iniquidades quando as perdoa, não levando em conta o que para trás ficou. Por isso, jamais aceitemos as sugestões provenientes do maligno que querem nos lançar em rosto o que o Senhor já perdoou, com o fim de nos causar desânimo ou sentimento de culpa.
-O segundo discurso (Dt.4:44 – 26:19), o mais longo do livro de Deuteronômio, é, propriamente, o momento em que Moisés repete a lei ao povo, expondo tanto os dez mandamentos, proferidos pelo Senhor no monte Sinai, como seus desdobramentos (Dt.4:44-11:32), quanto as leis cerimoniais (Dt.12:-16:17), como também das leis civis (Dt.16:18-18:22), leis criminais (Dt.19:1-21:9), leis sociais (Dt.21:10-26:19).
-Ao expor toda a legislação, trazendo um resumo dos mandamentos, Moisés não apenas repete o conteúdo deles, como adverte o povo que a lei existia para ser obedecida (Dt.6:1-3) e para ser ensinada às gerações seguintes (Dt.6:6-9; 11:18-21).
-Em seguida, Moisés trouxe à memória do povo os deslizes cometidos durante a peregrinação no deserto (Dt.9, 10), exortando-os a obedecer ao Senhor, bem como lembrando quais os benefícios decorrentes da obediência (Dt.11:13-32).
-Deus não trouxe à memória o que havia sido feito antes da partida do Sinai, mas não podia deixar de lembrar o que havia sido feito durante a peregrinação, até porque aquele auditório bem sabia que uma jornada, que duraria cerca de dois anos, demorou quarenta anos por causa da incredulidade, que impediu seus pais de entrarem em Canaã (Hb.3:8-19).
-Somente depois de mostrar a necessidade de obedecer à lei, Moisés repete os mandamentos relativos às leis cerimoniais, civis, criminais e sociais, mas, nesta repetição, revelou ao povo que, no dia mesmo da entrega da lei, o Senhor prometeu que mandaria um “profeta como Moisés”, a quem o povo deveria ouvir, ou seja, a estada do povo em Canaã estava condicionada não só à obediência e fidelidade, mas à chegada e oitiva daquele profeta.
-O exílio de Israel, portanto, deve-se exatamente à inobservância da lei, o que gerou o cativeiro da Babilônia e, depois, ante a rejeição do Messias, a diáspora a partir do ano 70, consolidada no ano 135 e que perdurou até 1948, estando hoje os israelitas a ocupar pequena parte da terra que lhe foi concedida.
-Em seguida, há uma interrupção nos discursos e Moisés determina aos israelitas como se daria a cerimônia do chamado “pacto de Ebal”, quando o povo se comprometeria perante Deus a observar a lei já na terra de Canaã, determinação seguida pela relação das bênçãos e maldições que viriam sobre Israel se ele obedecesse, ou não, ao Senhor na Terra Prometida (Dt.27:1-30:20).
-Moisés determina que o povo de Israel, quando entrasse em Canaã, deveria fazer um pacto nos montes Ebal e Gerizim de que obedeceriam ao Senhor e observariam a lei, sob pena de perderem a posse da Terra Prometida, o que foi, posteriormente, cumprido por Josué (Js.8:30-35).
-Tratava-se, portanto, do chamado “pacto de Ebal”, também conhecido como “pacto palestiniano” ou “aliança palestiniana”, que seria o compromisso de permanência de Israel em Canaã desde que obedecessem à lei.
-Por isso, logo em seguida a esta determinação, Moisés apresenta quais as bênçãos e as maldições que adviriam a Israel diante de sua obediência ou desobediência à lei, sendo que a última maldição seria, precisamente, o exílio (Dt.28:63-65).
-Após esta relação de bênçãos e maldições, tem início o terceiro discurso de Moisés (Dt.29:1-30:20), quando o líder chamou o povo e os convidou a se comprometerem a servir ao Senhor, tendo, inclusive, trazido a promessa que, mesmo diante do exílio, o povo de Israel se arrependeria dos seus pecados e seria trazido de volta para Canaã, quando teriam o seu coração circuncidado (Dt.30:1-10).
-Moisés, então, predisse o “novo concerto” que seria, posteriormente, apresentado pelo profeta Jeremias, precisamente quando o povo estava na iminência do exílio da Babilônia, a salvação do remanescente de Israel, que é, mais tarde, relembrada pelo apóstolo Paulo ao cuidar do plano divino para com os israelitas (Rm.11:1-32).
-Esta verdade bíblica, aliás, tem sido desconsiderada por muitos na atualidade, em especial pelos adeptos da chamada “teologia da substituição”, que, contra todas as Escrituras, defendem que a Igreja substituiu Israel e que não há mais nenhum plano de Deus em relação ao povo judeu.
-Não é o que nos ensinam as Escrituras. Pelo contrário, já Moisés dizia que a infidelidade de Israel para com a lei não representaria, em absoluto, o seu abandono por parte de Deus.
Israel haveria de se converter, ouvindo ao “profeta como Moisés”, mas isto somente se dará ao término da Grande Tribulação, pois, como afirmou o profeta Daniel, a remissão dos pecados de Israel haveria de ocorrer apenas setenta semanas de anos após a reedificação de Jerusalém e a última semana somente começaria a correr quando houvesse a reconstrução do templo (Dn.9:24-27).
-Estamos no intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semana da revelação dada a Daniel, o período entre a retirada do Messias e a vinda do príncipe do povo que destruiu o templo e o santuário, ou seja, do Anticristo, o governante do Império Romano restaurado.
-Em seguida, temos as palavras finais de Moisés (Dt.31-33). Após ter registrado os discursos proferidos e posto o livro da lei junto à arca do concerto (Dt.31:9), Moisés determinou que a lei fosse lida a cada sete anos para todo o povo, recebeu do Senhor o cântico que proferiu, após ter ido com Josué até o tabernáculo para a “transmissão de cargo”, cântico que foi reduzido a escrito, assim como a bênção que impetrou a todas as tribos de Israel, vindo após o próprio registro da morte de Moisés que, conforme já dissemos, provavelmente foi escrito por Josué.
-Segundo Finis Jennings Dake, Deuteronômio, o quinto livro da Bíblia, tem 34 capítulos, 959 versículos, 33 questões, 690 versículos de história, 230 versículos de profecias cumpridas, 37 versículos de profecias não cumpridas, 33 mensagens separadas de Deus, 591 ordens, 47 promessas e 497 predições.
-O livro de Deuteronômio, em sendo o quinto livro da Bíblia, está vinculado à letra “hey” (ה), cujo significado é “olhe”, “veja” e como a sua pronúncia corresponde a um suspiro, a um “sopro”, tem sido associada ao “poder criador de Deus”, ao “sopro divino”, à “revelação” e à “luz”, sendo a única letra que se repete no nome sagrado de Deus.
-Por isso, o livro de Deuteronômio é associado à “bênção da vida”, pois foi, por um sopro, que Deus fez o homem vivente e é, em Deuteronômio, que se ensinará que a bênção, que é a vida espiritual, vem da obediência aos mandamentos do Senhor, que a vida eterna depende fundamentalmente de darmos ouvidos à Palavra do Senhor, palavra que, já transmitida por Moisés a Israel, seria, posteriormente, cumprida e ratificada pelo Messias, em quem está a vida, vida que é a luz entre os homens (Jo.1:4).
-Estudar o livro de Deuteronômio, portanto, será estudar a maior profundidade espiritual da lei e notar como ela indica para Cristo e como podemos ter em Cristo a vida eterna.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12709-licao-1-deuteronomio-o-livro-da-alianca-i
