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LIÇÃO Nº 11 – ENTRE TEMPESTADES E PROMESSAS

INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, analisaremos a viagem de Paulo de Cesareia a Roma.

-A viagem de Paulo a Roma é uma figura da vida cristã.

I – PAULO É EMBARCADO PARA ROMA

-Paulo havia apelado para César, fazendo uso de seu direito, como cidadão romano, de ser julgado diretamente pelo imperador. Fê-lo porque sabia que o Senhor Jesus queria que ele d’Ele testificasse em Roma (At.23:11).

-Depois de ter ouvido o apóstolo juntamente com o rei Agripa, o governador da Judeia Pórcio Festo elaborou a documentação necessária que deveria ser encaminhada juntamente com o apóstolo para Roma, para que o Imperador pudesse julgá-lo, contendo as acusações que tinham sido feitas pelos judeus contra Paulo.

-Entendemos que a documentação feita era por si só já fraca do ponto de vista jurídico, seja porque, após a defesa de Paulo perante Festo e Agripa, o próprio rei entendeu que Paulo era inocente, seja pelo fato de que o próprio Festo havia entendido que as questões eram sobretudo religiosas e, portanto, não teria Paulo praticado qualquer crime contra o governo romano (At.25:18-20).

-Paulo, então, deveria ser encaminhado para Roma e Paulo foi entregue, com outros presos, ao centurião Júlio, sendo embarcado, juntamente com alguns cooperadores seus, que se mantinham em companhia do apóstolo desde a sua prisão, entre os quais estava o próprio Lucas, que mencionou que também os acompanhava Aristarco, macedônio de Tessalônica.

-Este navio levou-os até Sidom, onde o centurião permitiu que Paulo se encontrasse ver amigos para que cuidassem do apóstolo, mantendo o tratamento brando determinado a Paulo, por ser cidadão romano (At.24:23; 27:3).

-Nesta nossa reflexão, trataremos da viagem de Paulo como uma figura da vida cristã, da nossa peregrinação terrena (I Pe.1:17). Há instantes em nossa vida em que, apesar das aflições que sempre existirão neste mundo (Jo.16:33), desfrutamos de momentos agradáveis, como os que Paulo teve em Sidom, em que encontrou amigos que, inclusive, cuidaram dele.

-No entanto, assim como Paulo teve de deixar Sidom, também estes momentos são passageiros em nossas vidas, não podendo nos iludir. Assim aconteceu também com o povo de Israel que, no início de sua jornada, desfrutaram de uma curta permanência em Elim, um oásis no deserto, com setenta palmeira e água abundante (Ex.15:27), mas, depois, tiveram que partir dali para o deserto de Sim, onde padeceram fome (Ex.16:1-3).

-Tomemos muito cuidado com a pregação de um falso evangelho que diz que, quando cremos em Jesus, passamos a ter somente bons momentos sobre a face da Terra, desde que mantenhamos comunhão com o Senhor. Segundo este falso ensino, a vida com Cristo é isenta de quaisquer males. Isto simplesmente não é verdade!

-Paulo estava injustamente preso há praticamente três anos e estava sendo mandado para ser julgado em Roma porque esta era a vontade do Senhor e os momentos agradáveis vividos no início da viagem seriam brevemente superados por tribulações.

-Aliás, o próprio Espírito Santo havia dito ao apóstolo, antes de ele chegar a Jerusalém, que sofreria prisões e tribulações (At.20:23), numa clara demonstração de que é mentiroso que quem é fiel a Deus nunca passa por problemas nesta vida.

-É o chamado “evangelho antropocêntrico”, assim definido pelo pastor Ciro Sanches Zibordi: “…Provações e tribulações? Nem pensar! No evangelho antropocêntrico não há espaço para o sofrimento.

O crente, como homem de fé, deve decretar, determinar, “profetizar”, exigir a saúde física e as bênçãos materiais! É como se qualquer declaração de fé fosse uma profecia. “Somos a boca de Deus na terra” — dizem os triunfalistas.

As palavras humanas são “mágicas” e têm um poder sobrenatural para abençoar e amaldiçoar. Enfim, o homem é produto de suas próprias palavras.…” (ZIBORDI, Ciro Sanches. Evangelhos que Paulo jamais pregaria. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p.48).

-Deixando Sidom, começaram os problemas na viagem. O navio teve de navegar abaixo de Chipre porque os ventos eram contrários (At.27:4). Surgiam obstáculos para a navegação, os ventos contrários.

-Nem sempre os ventos são favoráveis. Há momentos na vida em que os ventos são contrários. “…Os marinheiros devem fazer o possível, quando não podem fazer como querem, e usar ao máximo o vento disponível, em qualquer direção em que ele esteja; assim todos nós devemos fazer em nossa passagem pelo oceano deste mundo.

Quando os ventos são contrários, nós devemos continuar seguindo em frente da maneira que pudermos.…” (HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Atos a Apocalipse. Edição completa. Trad. de Luiz Aron, Valdemar Kroker e Haroldo Janzen. Rio de Janeiro; CPAD, 2006, p.286).

-Como os ventos eram contrários, o navio foi obrigado a atravessar o mar ao longo da Cilícia e da Panfília, chegando a Mirra, na Lícia. Ali, o centurião achou um navio de Alexandria que navegava para a Itália e embarcou Paulo e sua comitiva nele (At.27:5,6).

-Mudaram de navio, mas a dificuldade não desapareceu. Os ventos contrários permaneceram e, por causa disso, a navegação foi vagarosa, conseguindo o navio chegar somente até Cnido, pois o vento não permitia que o navio fosse adiante. Contornaram, então a ilha de Creta, junto de Salmona e, costenado-a dificilmente, chegaram a um lugar chamado Bons Portos, perto da cidade de Laseia (At.27:7,8).

-O apóstolo poderia questionar tanta dificuldade, já que sabia, claramente, que a vontade do Senhor era de que fosse para Roma. Se Deus queria que Paulo fosse para Roma, por que tanta dificuldade na navegação para lá? Por que, mesmo mudando de navio, havia dificuldades tanto para passar por Chipre quanto por Creta, as duas principais ilhas do mar Mediterrâneo na região?

-Isto, por vezes, também acontece em nossas vidas. Sabemos qual o rumo a tomar, o que fazer, o Senhor confirma que este norte é a Sua direção, mas, mesmo assim, surgem os ventos contrários, sobrevêm dificuldades que nos impedem de chegar ao destino pretendido, passamos a ter de fazer rodeios, tomar trajetos imprevistos.

-Por causa destes ventos contrários, a nevagação torna-se vagarosa, surgem limites que não conseguimos transpor e aí a nossa fé é posta à prova e, então, percebemos se confiamos mesmo em Deus ou se somos apenas impressionados pelas circunstâncias favoráveis existentes num determinado instante.

-A vida espiritual tem de começar pela fé em Jesus (Rm.5:1), mas esta fé precisa crescer como o grão de mostarda, que, sendo a menor das sementes, produz a maior das hortaliças (Lc.17:6; Mc.4:31,32).

-O que faz esta fé crescer? A provação, pois, a prova da fé produz paciência (Tg.1:3) e se acha em louvor, honra e glória na revelação de Jesus Cristo, quando é provada pelo fogo (I Pe.1:7). A fé precisa ser firme e tal firmeza necessita de tribulações para se instalar (Rm.5:2-5).

-A navegação tornou-se perigosa e, diante destas circunstâncias, Paulo, que também era profeta, disse a todos que a navegação seria incômoda e com muito dano, tanto para o navio quanto para a carga, mas as palavras do apóstolo foram desconsideradas pelo centurião, que cria mais no piloto do que no que dizia Paulo (At.27:10,11).

-Não se pode censurar o centurião por este comportamento. Entre o piloto, profissional do ramo e o apóstolo, que era um preso e que não tinha qualquer histórico de navegador, evidentemente que a lógica determina que seja acolhido o entendimento do piloto e não de Paulo.

-Entretanto, é exatamente isto que não podemos fazer em nossa vida cristã. Temos de ser guiados pelo Espírito Santo (Jo.16:13), não pela lógica humana, somo shomens espirituais, não homens naturais (I Co.2:14-16).

-O centurião era um homem natural e, portanto, não iria se guiar pelo que disse o apóstolo, mas, sim, pela experiência profissional do píloto.

-Bons Portos não era um porto cômodo para invernar e, por isso, o piloto resolveu levar o navio dali para Fenice, um porto de Creta, a fim de poder passar o inverno ali e inicia a viagem que Paulo recomendara que não se fizesse, pois se perderiam o navio e a carga (At.27:12).

-É interessante notar que há situações em que o Senhor adverte o que ocorrerá, mas deixa ao homem o livre-arbítrio para atender, ou não, à advertência. Há momentos em que Deus deixa ao homem a opção, embora jamais o Senhor perca o controle.

Paulo iria para Roma de qualqauer jeito, pois era esta a vontade de Deus, mas poderia ter ido sem a perda do navio e da carga se seus conselhos tivessem sido ouvidos pelo centurião.

-Iniciando a viagem, o vento sul soprava brandamente e pareceu que se atingiria o quanto se desejava. Houve, pois, a impressão de que o piloto estava certo e Paulo, equivocado.

Costevam Creta de perto, mas, não muito depois, veio um pé de vento, chamado euroaquilão e o navio foi arrebatado e não podia navegar contra o vento e, dando mão de tudo, o piloto deixou que o navio fosse à toa, ou seja, perdeu o comando da embarcação (At.27:13-15).

-Em nossa vida, também temos “vento sul brando”, que é um ilusório sucesso decorrente de nossas atitudes tomadas fora ou contra a direção do Espírito Santo.

-Nem sempre ações contrárias à direção divina demonstram, desde logo, que levarão ao fracasso e à ruína. Por vezes, talvez na maior parte das vezes, parecerá que o caminho tomado, que está de acordo com a lógica humana, é o mais acertado e que se está no rumo certo, apesar das advertências contrárias dos servos do Senhor, que, via de regra, a exemplo do apóstolo, têm suas considerações completamente desprezadas, quando não são alvo de zombaria.

-Salomão bem o diz: “Há caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele são os caminhos da morte” (Pv.14:12; 16:25).

-O que parecia estar indo muito bem, de repente, enquanto costeavam Creta de perto, veio um pé de vento chamado euroaquilão, que mudou tudo.

-“… (1) Surgiu contra eles um pé de vento, que não era somente contrário a eles e vinha diretamente em seu rosto, de maneira que eles não puderam seguir em frente, mas um vento violento que levantava as ondas, como aquele que foi enviado para perseguir Jonas, embora Paulo seguisse a Deus e continuasse em seu dever, e não fosse como Jonas que fugiu de Deus e de seu dever.

Os marinheiros chamavam esse vento de Euroaquilão, um vento nordeste, que talvez naqueles mares fosse visto como especialmente perigoso e perturbador.

Era um tipo de redemoinho, porque se diz que o navio foi arrebatado por ele (v. 15). Foi Deus que mandou que esse vento surgisse, procurando trazer glória para si mesmo e reputação para Paulo a partir desse fato; ventos tempestuosos são tirados de seus tesouros (SI 135.7), o vento tempestuoso que executa sua palavra (SI 148.8).

(2) O navio foi extremamente sacudido por uma veemente tempestade (v. 18); foi lançado como uma bola de uma onda para outra; seus passageiros (como traz a elegante descrição, SI 107.26,27) sobem aos céus, descem aos abismos, e a sua, alma se derrete em angústias. Andam e cambaleiam como ébrios, e esvai-se-lhes toda a sua sabedoria.

O navio possivelmente não podia navegar contra o vento, não podia ir contra o vento; e por isso eles desceram suas velas, que em uma tempestade como essa lhes trariam mais perigo e não ajudariam em nada, e assim o barco ficou a deriva: Não indo para onde queriam, mas para onde era impelido pelas ondas tempestuosas – Non quo voluit, sed quo rapit impetus undae. Ovid. Trist.

É provável que eles estivessem muito próximos do porto de Fenice quando essa tempestade surgiu, e embora eles devessem naquele momento estar em um porto calmo e fosse agradável para eles esse pensamento, de invernar ali, eis que repentinamente, eles se veem nessa dificuldade.

Que nós, portanto, sempre nos alegremos com tremor, e jamais esperemos uma segurança perfeita, nem uma segurança perpétua, até que cheguemos ao céu…” (HENRY, Matthew. Op. cit., p.287).

-Quantos euroaquilões não aparecem ao longo de nossa jornada para os céus? Quantos pés de vento inesperado alteram, de uma hora para outra, a nossa trajetória, surpreendendo-nos e não nos permitindo tomar qualquer atitude, pois as circunstâncias simplesmente não o permitem e, assim, devemos, como diz uma canção popular, “deixar a vida nos levar”.

-Depois de ter se deixado levar o navio à toa, quando o navio correu abaixo de uma pequena ilha chamada Cauda, pôde apenas ganhar o batel, ou seja, conseguir içar ou garantir a segurança do pequeno bote de salvamento durante uma tempestade, evitando-se, assim, a sua perda (At.27:16).

. Sobreveio, então, uma veemente tempestade, o que obrigou a tripulação a aliviar o navio, ou seja, diminuir o peso da embarcação, jogando carga ao mar. Começava-se, então, a cumprir o que fora predito por Paulo, que dissera que a carga se perderia (At.,27:17).

-A tempestade continuou e, ao terceiro dia, não só a tripulação, mas todos os que estavam no barco foram chamados para lançar ao mar a própria armação do navio, ou seja, todos os equipamentos e materiais necessários para a navegação, prova de que toda a carga já havia lançada ao mar a esta altura. Da armação, somente os mantimentos não foram lançados, pelo que se depreende da continuidade do texto.

-As tempestades da vida podem fazer com que, também, venhamos a ter perdas materiais, que nosso patrimônio seja atingido, como também as conquistas auferidas ao longo de nossa história.

Jó é um exemplo disto, ainda que no caso desse patriarca, por se ter tido uma ação de Satanás, cuja crueldade é ímpar, a perda não se tenha dado progressivamente, como ocorreu na viagem de Paulo, mas tenha tudo ocorrido num só dia, inclusive a perda dos filhos (Jó 1:12-22).

-Logo em seguida, Jó haveria, ainda, de perder a sua saúde e a compreensão de sua mulher (Jó 2:6-10).

-Em todas estas perdas, as Escrituras mostram que Jó não blasfemou, como Satanás achou que faria, mas adorou ao Senhor e, mesmo sem entender o porquê de tudo aquilo, compreendeu que tudo quanto possuímos

neste mundo é dado por Deus, que o poder tirar quando o quiser, bem como que tudo é passageiro e, ao reconhecer isto, foi dito que não pecou, mantendo a sua fidelidade a Deus.

-Paulo também nada disse nem se desesperou com a situação. Como preso e passageiro que era, tão somente fez como os demais, lançando ao mar seja a carga, seja a armação do navio, nem sequer lançando em rosto a desconsideração de sua opinião. Estava nas mãos do Senhor e esperando em Deus, sabendo que chegaria a Roma, pois assim Jesus havia dito.

-Temos tido também este comportamento em meio às tempestades da vida? Temos esperado em Deus? Temos aguardado o cumprimento do Seu plano anunciado a nós apesar dos imprevistos e das surpresas desagradáveis que nos sobrevêm? Pensemos nisto!

-A situação só piorou. Mesmo depois de se lançar ao mar toda a carga e a armação do navio, a tempestade não cessou e, durante muitos dias, não aparecia nem sol nem estrelas, tendo, então, fugido para todos os tripulantes e passageiros fugido a esperança de salvação (At.27:20).

-Em nossas vidas, também, chega o momento da escuridão, da falta de qualquer perspectiva, o momento, como se diz, em que “não se enxerga luz no fim do túnel”.

-É o momento crucial de prova da nossa fé, o instante em que veremos se andamos por fé ou por vista (II Co.5:7).

-Notemos no texto bíblico que o próprio Lucas, o médico amado, perdeu a esperança de se salvar, dava a morte como certa, justo ele que havia, juntamente com Paulo, ouvido as profecias e tido ciência de que era desejo do Senhor Jesus de que Paulo fosse até Roma.

-Uma fé robusta, uma fé que produz firmeza, faz com que tenhamos a esperança da glória de Deus (Rm.5:2). A tribulação produz paciência; a paciência, a experiência e a experiência, a esperança, e a esperança não traz confusão (Rm.5:3,4), esperança que é a âncora da alma segura e firme (Hb.6:19).

-Esta esperança permite-nos ver a luz mesmo quando somente há trevas. Por isso, quem espera em Deus penetra no interior do véu, no santo dos santos, ingressa no ambiente celestial e, deste modo, não se deixa abalar pelas circunstâncias totalmente adversas que estão ao seu redor (Hb.6:19,20; 10:19-23).

-Por isso, Jó, mesmo sofrendo como estava e, ainda mais, sendo caluniado pelos seus supostos amigos, podia dizer que sabia que seu Redentor vivia e que por fim se levantaria sobre a Terra e, depois de consumida a sua pele, ainda em sua carne ele veria a Deus, vê-l’O-ia por ele mesmo e seus olhos, e não outros, o veriam e, por isso, o seu coração se consumia dentro dele (Jó 19:25-28).

-Quando a sua própria mulher aconselhava Jó a amaldiçoar a Deus e morrer, quando os seus supostos amigos apontavam as desgraças que sofrera como provas de pecados nunca cometidos, o patriarca dizia que sabia que seu Deus vivia, que era seu Redentor, portanto que o livraria, e que ele ainda O veria. Isto é esperança, isto é ver apenas de se estar em meio a uma escuridão, num beco sem saída, num túnel cuja luz não se vislumbra.

-Todos os tripulantes e passageiros daquele navio estavam desesperados, tinham perdido a esperança de salvar-se. Nem sequer mais se alimentavam. A perda da fome era a prova de que todos já tinham como certa a morte, estavam num estado de depressão.

-Todos menos um: o apóstolo Paulo!

-Em meio àquela terrível situação, o apóstolo não se esquecera do que lhe dissera o Senhor Jesus, ou seja, que ele iria testificar de Cristo em Roma. Assim, acontecesse o que acontecesse, Paulo chegaria a Roma, mesmo havendo dias em que nem sequer se viam o sol ou as estrelas numa tempestade interminável.

-O apóstolo sabia disto, como também que se perderia não só a carga mas o próprio navio. Diante daquela situação e vendo que até os seus companheiros estavam abalados, o apóstolo fez a única coisa que lhe cabia: orar.

-Na primeira carta que o apóstolo escrevera, aos tessalonicenses, para uma igreja que estava sendo grandemente perseguida pelos judeus, o apóstolo já dissera que se devia orar sem cessar (I Ts.5:17).

-Paulo, então, durante toda esta tempestade, não deixava de orar e, numa noite, recebeu a companhia de um anjo que reiterou a promessa de que iria testificar de Jesus em Roma e que, por isso, o Senhor dava a ele, Paulo, todos quantos navegavam com ele (At.27:23).

-Temos aqui mais uma ação sobrenatural, desta feita, a companhia e o diálogo com um anjo, que, a exemplo do que ocorrera com o Senhor Jesus (Lc.22:43), foi mandado para vir confortar o apóstolo.

-Teria Paulo fraquejado na fé e por isso o anjo veio falar-lhe? Não nos parece que tenha sido este o caso. Paulo bem sabia que o navio e a carga se perderiam, mas, ao notar o desespero de todos os que estavam com ele no navio, inclusive dos integrantes de sua comitiva, intercedeu por eles, pediu o livramento deles, já que sobre isto o Senhor nada havia revelado.

-Paulo, então, logo pela manhã, dirigiu-se a todos os que estavam no navio e, se pondo em pé no meio deles, lembrou que havia dito que tudo isto ira acontecer e que teria sido razoável ouvi-lo, pois se teria evitado o incômodo e perdição que presenciavam.

-No entanto, o apóstolo disse que havia recebido a companhia de um anjo e o Deus a quem ele era e a quem servia havia prometido que todos iriam se salvar, porque era da vontade do Senhor que o apóstolo se apresentasse a César, por isso, deveriam todos ter bom ânimo, pois assim iria acontecer, mas, antes de irem a Roma, deveriam dar numa ilha (At.27:21-26).

-O conselho de Paulo à tripulação e passageiros do navio era para que tivessem bom ânimo e cressem na mensagem de Deus, repetindo, assim, o que já havia sido ensinado pelo Senhor Jesus, ao terminar as Suas últimas instruções: “Tenho-vos dito isto para que em Mim tenhais paz; no mundo, tereis aflições, mas tende bom ânimo; Eu venci o mundo” (Jo.16:33).

-Paulo admoestou a que todos tivessem bom ânimo, cressem na mensagem divina, de que ninguém perderia a sua vida, que todos iriam se salvar, embora o navio iria se perder, como perdida já tinha sido toda a carga e armação (At.27:22).
-Na décima quarta noite, os marinheiros suspeitaram que estavam se aproximando de alguma terra, o que se confirmou com o lançamento do prumo, tendo, então, com receio de dar em alguns rochedos, lançaram da popa por quatro âncoras, desejando que viesse o dia (At.27:28,29).

-Os marinheiros, verificando que havia terra próxima, resolveram fugir do navio, utilizando-se do batel, que, lembremos, havia sido poupado logo no início da tempestade, tendo, então, Paulo, ao notar esta intenção, ido falar com o centurião e os soldados de que, se os marinheiros fugissem, não haveria salvação das pessoas no navio (At.27:30,31).

-Paulo havia dito que o navio se perderia, mas ninguém morreria e que deveriam dar numa ilha. Os marinheiros, em vez de, ao notar que uma terra estava próxima, alegrarem-se com a perspectiva de que todos seriam salvos, como dissera o apóstolo, resolveram fugir do navio e cuidar da própria vida, salvarem-se e deixar os passageiros do navio à mercê.

-Paulo havia orado intercedendo pelas pessoas, pois tinha promessa apenas de que iria ele para Roma e, por demonstrar amor ao próximo, conseguira que o Senhor lhes desse as pessoas, garantiu-lhes a vida para o Seu servo.

-Os marinheiros, pessoas deste mundo, demonstraram todo seu egoísmo, o pensamento apenas em si, o que é típico na conduta das pessoas que não têm salvação. Entre os incrédulos, o que existem são homens amantes de si mesmos, sem afeto natural, sem amor para com os bons e traidores (II Tm.3:1-4).

-Paulo estava atento, vigilante, pois recebera a responsabilidade da parte do Senhor de cuidar de todos os embarcados no navio. A mensagem era de que Deus tinha dado todos quantos navegavam com ele.

-Paulo tinha consciência da sua responsabilidade, já que as pessoas lhe haviam sido dadas. Deveria tomar as providências para que todos se salvassem e a atitude dos marinheiros ia contra esta possibilidade.

-Paulo, então, conta ao centurião e aos soldados o que estava acontecendo e, desta vez, o centurião deu ouvidos a Paulo, impedindo que a tripulação fugisse usando o batel, que, então, foi descartado, pois foram cortados os cabos, sendo o batel, então, lançado ao mar.

-Este episódio faz-nos meditar sobre a grande responsabilidade que algumas pessoas têm com relação à vida de outrem, em especial, três grupos de pessoas, os pastores, os pais e as autoridades.

-O escritor aos hebreus (que entendemos seja o próprio Paulo) ensina que os pastores darão conta das almas que lhe são confiadas (Hb.13:17). Será que os pastores têm tido o mesmo cuidado que o apóstolo teve ao lhe serem confiadas as vidas dos que estavam no navio?

-O mesmo vemos em relação aos pais, pois os filhos são herança do Senhor (Sl.127:3), são flechas na mão do valente (Sl.127:4), que devem encher a sua aljava (Sl.127:5), pais que têm o dever ensinar a Palavra de Deus aos filhos (Sl.78:1-8). Têm tido os pais este senso de responsabilidade?

-Verifiquemos, ainda, que, além da paternidade biológica, existe a paternidade na fé (I Tm.1:2), que, embora possa abrange o pastorado, a ele não se circunscreve. Somos responsáveis por aqueles que levamos a Cristo, para ajudá-los não só a amadurecer espiritualmente, em toda a sua peregrinação terrena, para que, juntamente conosco cheguem às mansões celestiais. Temos cumprido este nosso dever?

-Com os governantes, não é diferente. Elas são constituídas por Deus para que a sociedade viva de acordo com a vontade do Senhor, providenciando para o mal seja castigado e o bem, louvado.

-Quando a autoridade não o faz, contribuindo para que o grupo pelo qual é responsável seja um lugar onde o mal triunfa e, por conseguinte, o povo suspire (Pv.29:2), certamente há por parte desta autoridade uma conta a pagar diante de Deus.

-Por isso, aliás, o Talmude, o segundo livro sagrado do judaísmo, afirma: “Aquele que influencia as massas para que se tornem meritórias não serão causa de pecado; mas aquele que leva as massas a pecar não receberá a oportunidade de se arrepender.

Moisés foi meritório e influenciou as massas a serem meritórias também, por isso o mérito das massas lhe foi creditado, como foi dito: ‘Ele cumpriu a justiça de Deus e Suas leis, junto com Israel’ (Dt.33:21).

Jeroboão, filho de Nebate, pecou e influenciou as massas a pecar, então o pecado das massas lhe é imputado, como foi dito: ‘Pelos pecados de Jeroboão, que ele cometeu e que influenciou Israel a cometer.’ (I Rs.15:30).” (Pirkei Avot 5:18).

-Não é à toa que o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), em sua Divina Comédia, pôs os maus governantes, os chamados “barratores”, envolvidos em corrupção, suborno e tráfico de influência no “oitavo círculo do inferno”, conhecido como “bolsas malignas” (Malebolge”), ou seja, o penúltimo dos nove círculos do inferno, para nos ilustrar a gravidade da falta de cumprimento de tal dever.

-O que se percebe, portanto, que quando o Senhor dá poder a alguém sobre pessoas (e aqui nos lembramos do filósofo grego Aristóteles que considera que havia três tipos de poder: o poder doméstico, exercido pelos pais; o poder despótico, exercido pelo senhor em relação ao escravo, diríamos hoje o poder econômico e o poder político, exercido pelos governantes), aquele que o recebeu assume uma responsabilidade diante de Deus, pois tal poder é uma mordomia, é um serviço e não, como se entende no mundo pecaminoso, tão somente um instrumento de domínio e autoexaltação (Mt.20:25; Mc.10:43).

-Jesus, aliás, bem explicou isto aos discípulos, dizendo que tinha vindo ao mundo para servir e não para ser servido (Mt.20:28; Mc.10:45) e assim devem agir os Seus seguidores (Mt.20:26; Mc.10:44).

-Outra lição que temos é a de que a responsabilidade decorrente do ministério é uma responsabilidade sobre pessoas, as pessoas são mais importantes do que as coisas, até porque os homens são a coroa da criação terrena (Gn.1:1>26-28; Sl.8:4-8), feito que foi à imagem e semelhança de Deus.

-Lamentavelmente, a cegueira espiritual trazida pelo pecado faz com que valorizemos mais as coisas do que as pessoas, o que gera uma total inversão de valores. Paulo bem sabia disto e sua viagem a Roma é um retrato que a Bíblia nos dá de que o Senhor quer que valorizemos as pessoas e não as coisas.

-A inversão dos valores faz com que valorizemos e até adoremos as coisas, a começar pelo dinheiro. O amor ao dinheiro é a raiz de toda espécie de males (I Tm.6:10) e a avareza é idolatria (Cl.3:5).

-Bem diz o jornalista católico Allan dos Santos: “A alma avarenta vive permanentemente faminta porque tenta alimentar-se de coisas finitas para preencher um vazio infinito. A avareza é um problema teológico antes de ser econômico.

O centro da questão não é riqueza ou pobreza material, mas a direção do amor humano. Quando o amor perde sua ordem correta, o homem começa a servir às coisas que deveria apenas usar e usa as que deveria amar: é nesse momento nasce a avareza” (@AllandosSantos. 7 maio 2026. Disponível em: https://twitter.com/allanconta5/status/2052235307282583927 Acesso em 09 maio 2026).

-O diabo também quer as pessoas, quer que elas morram espiritualmente e fiquem eternamente com ele no lago de fogo e enxofre. A evangelização é uma batalha por pessoas e devemos lutar para resgatá-las do poder de Satanás a Deus, a fim de que recebam a remissão dos pecados e sorte entre os santificados pela fé em Jesus, como o próprio Cristo determinou a Paulo (At.26:18).

-Já nos dias de Abrão, vemos como o inimigo quer as pessoas e busca nos iludir para que busquemos as coisas. O rei de Sodoma, figura do diabo, propôs a Abrão que ficasse com as coisas e lhes desse as pessoas, o que foi prontamente recusado pelo patriarca, que havia arriscado sua vida para libertar os moradores das cidades da planície que havia sido levados cativos pelo rei Quedorlaomer e seus aliados (Gn.14:21-23).

-Por fim, vemos que o batel, que havia sido habilmente poupado no início da tempestade, teve de ser desprezado para que pudesse haver a salvação.

-O batel simboliza aquilo que o poeta sacro Almeida Sobrinho denomina, no hino 18 da Harpa Cristã, “meios de salvar-se” inventados pelo homem, que busca propiciar seu Criador com ofertas e obras mortas, sacrifícios sem valor.

-O batel, além de não, no limite, poder salvar a todos, somente os marinheiros, e quiçá nem todos, poderiam nele embarcar, provavelmente não resistiria às ondas e levaria todos à morte, na ilusão de que haveria salvação.

-Assim são as religiões e filosofias humanas que acham que podem dar ao homem a vida e felicidade eternas, mas que tão somente conduzem à perdição, pois só Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo.3:16).

-Hoje, infelizmente, muitos estão tentando embarcar no batel, na falsa ideia de que “todos os caminhos levam a Deus”, de que “todos somos irmãos” e que a “fraternidade universal”, o “diálogo inter-religioso” trará paz e felicidade aos homens. Fujamos disto!

-Chegando o dia, Paulo, uma vez mais, dirige-se aos embarcados, exortando-os a que comessem alguma coisa, porque já era o décimo quarto dia de tempestade e as pessoas permaneciam sem comer, não tinham se animado com a mensagem que o apóstolo havia trazido da parte de Deus, nada provando (At.27:33).

-Paulo não desanimou ao ver que a sua mensagem alvissareira que havia dado no dia anterior não tinha gerado efeito algum. Além de os marinheiros terem querido fugir do navio, ao notarem que havia terra próxima, ninguém, nem mesmo os seus companheiros, haviam se animado a comer, mantinham-se desesperançados e deprimidos.

-Apesar de ter notado que ninguém havia crido em sua mensagem, o apóstolo não desistiu, mas, uma vez mais, insistiu nas suas palavras, voltou a exortar todos, convidando-os a se alimentar e a crer no que havia dito.

-A perseverança é uma característica que deve acompanhar o servo de Deus, notadamente quando se está a pregar o Evangelho.

Não se pode, em absoluto, desistir, mesmo diante da aparente incredulidade dos ouvintes. Nosso dever é evangelizar, que ouçam, quer deixem de ouvir, como disse o Senhor a Ezequiel (Ez.2:5,7; 3:11).

-O apóstolo, mais uma vez, garante a todos que nada de mal lhes aconteceria, que todos seriam salvos, sendo ainda mais enfático, dizendo que nem um cabelo cairia da cabeça de qualquer deles e que, para sua saúde, deviam se alimentar (At.27:33,34).

-Demonstrando crer naquilo que falava, Paulo dá o exemplo e começa a se alimentar e vemos aqui uma manifestação do dom espiritual da fé, porque revela uma fé extraordinária, porque, em meio a uma total situação adversa e diante de tanto desânimo, Paulo começa a se alimentar, com total confiança de que se salvaria daquela situação, não só ele mas todos quantos estavam embarcados no navio.

-O dom espiritual da fé é uma demonstração extraordinária de fé, acima do normal, que leva muitos outros a também exercerem fé, que leva todos a acreditar naquilo que o Senhor disse.

-Foi o que aconteceu. O apóstolo, ao começar a se alimentar, despertou confiança em todos os embarcados que, de desesperançados e deprimidos, tomam bom ânimo e todos passaram igualmente a comer, todos os 216 embarcados.

-Refeitos todos após a alimentação, lançaram o trigo ao mar para aliviar o navio, ou seja, desfizeram-se dos mantimentos, prova de que haviam crido na mensagem divina, pois sabiam que o navio iria se perder mas que eles seriam salvos (At.27:38).

-Depois deste ato de fé, sendo já dia, perceberam que estavam chegando a uma terra, que não foi reconhecida, mas viram uma enseada que tinha praia e se consultaram sobre se nela deveriam encalhar o navio.

Levantaram as âncoras, deixaram o navio ir ao mar, largando também as amarras do leme e, alçando a vela maior ao vento, dirigiram-se para a praia. Dando, porém, num lugar de dois mares, encalharam ali o navio e, fixa a proa, ficou imóvel, mas a popa abria-se com a força das ondas (At.27:39-41).

-A ideia dos soldados foi que matassem os presos para que nenhum deles escapasse, mas o centurião, querendo salvar a Paulo, lhes estornou o intento e mandou que os que pudessem nadar, se lançassem primeiro ao mar e se salvassem na terra e os demais, uns em tábuas e outros em coisas do navio, chegassem até a praia e, assim aconteceu, tendo todos se salvado. A profecia de Paulo se cumpria (At.27:42-44).

-Este episódio é a figura de que não se poderá ter salvação fora de Jesus Cristo, fora da Igreja. Se os marinheiros fugissem ou os presos fossem mortos, rompendo-se aquele conjunto de 216 pessoas que tinha sido dado nas mãos de Paulo, não haveria salvação, o grupo não conseguiria se manter vivo.

-Bem por isso a Igreja é comparada a um corpo, onde todos os órgãos precisam se manter nele para terem vida. Quando um integrante do corpo é posto para fora dele morre inevitavelmente, pois só há vida dentro do corpo.

-Os salvos, assim que recebem a vida interna, são inseridos pelo Espírito Santo no corpo (I Co.12:13) e, se dele saírem, morrerão.

-O navio representa, pois, a Igreja, fora da qual não há salvação. Entretanto, ao contrário do que entendem os romanistas, a Igreja não se confunde com as estruturas institucionais, que são aqui figuradas pelo próprio navio.

-O navio, a carga e a armação se perderam, ficaram apenas pedaços de madeira que ficaram no mar, mas as pessoas, estas sim se salvaram. O corpo de Cristo não é a estrutura, não é a instituição, mas o conjunto das vidas que foram resgatadas pelo sangue de Cristo. Pensemos nisto!

II – PAULO EM MALTA

-A ilha que Paulo dissera onde os 216 embarcados iriam dar, que não foi reconhecida quando avistada, diz-nos Lucas, é a ilha de Malta, hoje um país da Europa e sempre foi um território predominantemente cristão, sendo, na atualidade, o mais religioso dos países europeus (At.28:1).

-Lucas chama os seus habitantes de “bárbaros”, ou seja, estrangeiros, que não eram gregos ou romanos. “…Eles são chamados de bárbaros, porque na língua e nos costumes não se conformavam nem aos gregos nem aos romanos, que viam a todos (muito supersticiosamente) exceto a si mesmos como bárbaros, ainda que de outro modo os outros fossem bastante civilizados, e talvez em alguns casos mais civilizados do que eles. Esses bárbaros, embora sejam chamados assim, eram cheios de humanidade…” (HENRY, Matthew. op.cit., p.295)

-Assim que os náufragos chegaram à praia, foram bem recebidos pelos moradores, que trataram de todos com humanidade (At.28:2).

-Neste bom tratamento, resolveram acender uma fogueira para que os náufragos pudessem se aquecer, até porque fazia frio e chovia (lembremos que estava chegando o inverno e eles haviam tido de nadar até chegar à praia).

-Paulo, ainda dentro do contexto de que era responsável pelo bem-estar de todos por determinação divina, fez questão de ajuntar uma quantidade de vides e jogá-las no fogo, para manter a fogueira acesa, acabou sendo mordido por uma víbora, que deveria estar entre as vides colhidas, que, diante do calor, quis escapar (At.28:3).

-Ao ser mordido pela cobra, os habitantes de Malta, já tendo sabido que Paulo era um prisioneiro que estava sendo levado para ser julgado em Roma, começaram a comentar que o juízo divino estava sobre o apóstolo, pois, tendo escapado do naufrágio, agora era mordido por uma serpente (que, diante da reação dos habitantes, deveria ser uma espécie venenosa), a revelar que se tratava de um homicida e que, portanto, a Justiça não deixava viver.

-Temos aqui um exemplo típico de um julgamento temerário, baseado no preconceito, em crendice e que não se preocupa com os fatos, algo muito comum em nossos dias, em que a comunicação em tempo real, a velocidade das informações faz com que as pessoas não parem para refletir e verificar as notícias que lhes são fornecidas.

-O fato de ter escapado da morte no mar e, logo em seguida, ter sido mordido por uma cobra venenosa fez com que os malteses considerassem que a “justiça divina” queria a morte de Paulo a todo custo e que, por isso mesmo, Paulo era um homicida, pois, se deveria morrer, era porque havia matado alguém.

-Se os malteses tinham a ideia da lei da semeadura (Os.8:7; Gl.6:7) ou mesmo praticavam a lei de talião (Ex.23:23-25), princípios jurídicos que remontam ao próprio estabelecimento do governo humano quando da formação da comunidade única pós-diluviana (Gn.9:5,6), o fato é que não poderiam considerar Paulo como homicida com base no escape do naufrágio e na mordida da serpente.

-Hoje em dia não são poucas as pessoas que fazem associações que levam a conclusões sem qualquer respaldo nos acontecimentos, o que tem contribuído para a disseminação de mentiras que têm prejudicado a muitos.

-Não podem os servos de Deus comportar-se desta maneira, mas devem, sempre, averiguar bem os fatos para que não se cometam injustiças. Quem não investiga é o ímpio, jamais o justo (Sl.10:4).

-Lembremos como a lei de Moisés era rigorosa no exame da lepra, símbolo do pecado e da reprovação divina, como deveria o sacerdote minuciosamente observar a pessoa para poder declará-la leprosa (Lv.13).

-Paulo, ao ser mordido pela cobra, sacudiu-a no fogo, não padecendo mal algum. Os bárbaros achavam que Paulo ia inchar ou cair morto de repente, mas, vendo que nada lhe havia acontecido, passaram a achar que, em vez de um homicida, Paulo era um deus (At.28:5,6).

-Vejam como é o julgamento temerário e baseado em preconceitos e não em fatos. Aquele que tinham, minutos antes, considerado um condenado pelos deuses, agora era tido como um deus.

-Vemos aqui que se cumpre em Paulo o que o Senhor Jesus falara aos discípulos no “segundo estágio da evangelização”, quando mandou setenta a pregar o Evangelho entre os judeus, quando prometeu que pisariam serpentes e escorpiões e toda a força do inimigo e nada lhes faria dano algum (Lc.10:19) ou que pegariam nas serpentes (Mc.16:18).

-Esta promessa é tanto literal quanto espiritual. Os crentes têm a promessa de que não serão atingidos por vicissitudes relacionadas a venenos enquanto estiverem realizando a obra de Deus, como também prevalecerão sobre todas as investidas de Satanás, inclusive no campo espiritual, que procurem impedir a pregação do Evangelho.

-Ambas as conclusões eram falsas e fruto de um julgamento segundo a aparência, não segundo a reta justiça, o que deve ser evitado pelos discípulos de Jesus Cristo (Jo.7:24).

-Quantos homicidas e quantos deuses temos feito surgir por causa de nossos julgamentos precipitados? Pensemos nisto!

-Entretanto, tudo não passava de uma permissão divina para que o apóstolo pudesse realizar a obra de Deus naquele lugar.

-A opinião dos bárbaros era de que Paulo era um deus e, por causa desta conclusão equivocada, abriu-se a porta para que o apóstolo pudesse pregar o Evangelho em Malta.

-Próximo do lugar onde estavam os náufragos, havia umas herdades pertencentes ao principal da ilha, Públio, que, inclusive, hospedou a todos durante três dias (At.28:7).

-O pai de Públio estava doente, acometido de disenteria e Paulo, ao saber disto, quis vê-lo, pôs as mãos sobre ele e o curou. Com esta cura divina, muitos outros enfermos da ilha foram até o apóstolo e ele curou e sarou a todos.

-Com esta cura divina, Paulo, então, pôde, naturalmente, pregar o Evangelho e ganhar muitas almas para Jesus naquele lugar, onde, aliás, passaram o inverno.

-Em Bragança/PA, foi também através de uma cura divina que o missionário pioneiro Daniel Berg (1884-1963) pôde dar início a uma igreja local.

-Lamentavelmente, em nossos dias, estão a rarear as curas divinas nas ações de evangelização, apesar de termos cada vez mais pessoas doentes e total falta de assistência de saúde por parte do Poder Público, uma enorme janela de oportunidade que se abre à Igreja para a propagação do Evangelho e que tem sido quase que totalmente negligenciada. Despertemos, amados irmãos!

-Graças a esta ação, os malteses distinguiram os náufragos com muitas honras e proveram o necessário para que eles pudessem continuar a viagem até Roma (At.27:10).

-Este episódio bíblico na ilha de Malta inspirou a criação de uma ordem religiosa católica, a Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, conhecida como Ordem de Malta, em 1099, que existe até hoje e que é uma organização internacional humanitária, que mantém hospitais e casas de reabilitação em todo o mundo.

-Esta estada de Paulo em Malta por três meses (At.28:11) traz, como se vê, até hoje resultados benéficos tanto para Malta quanto para o mundo. Como é bom obedecer a Deus e n’Ele confiar e esperar!

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12657-licao-11-entre-tempestades-e-promessas-i

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