LIÇÃO Nº 9 – JACÓ E ESAÚ, IRMÃOS EM CONFLITO
Jacó: o homem espiritual; Esaú, o homem natural.
INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo do legado dos patriarcas, iniciaremos o estudo do terceiro patriarca, Jacó.
-O conflito entre Jacó e Esaú fala-nos do conflito entre o homem espiritual e o homem natural.
I – O NASCIMENTO DE ESAÚ E JACÓ
-Na continuidade do estudo do trimestre, passaremos a estudar a vida do terceiro patriarca, Jacó, cujo nome depois seria mudado para Israel.
-A porção do livro de Gênesis que os estudiosos costumam denominar de “ciclo de Jacó”, abrange Gn.28:10 até 36:43, porção em que a personagem central passa a ser, precisamente, o terceiro patriarca.
-Isaque orou instantemente por vinte anos para que Deus abrisse a madre de sua mulher Rebeca, que era estéril (Gn.25:20,21,26) e Deus ouviu a sua oração.
-Rebeca engravidou e logo notou que havia gêmeos em seu ventre, que lutavam entre si (Gn.25:22), tendo, então, o Senhor, em resposta à oração de Rebeca, dito que havia duas nações no seu ventre e que o maior serviria o menor (Gn.25:23).
-Portanto, antes mesmo do seu nascimento, Jacó já fora escolhido por Deus para ser o herdeiro da promessa de Abraão (Ml.1:2; Rm.9:13).
-Deus usou da Sua soberania para escolher Jacó para ser o terceiro patriarca. Tal escolha, porém, não significa, em absoluto, que haja uma predestinação incondicional, que Deus seleciona previamente quem será salvo e quem não o será.
-Aqui, a escolha dizia respeito à formação da nação de onde viria o Salvador e, como a nação era formada diretamente por Deus, tinha Ele o pleno direito de escolher quem quisesse, sem que isto representasse parcialidade ou injustiça.
-Já a ideia da predestinação incondicional é incompatível com a assertiva bíblica de que Deus não faz acepção de pessoas (Dt.10:17; At.10:34), algo que é inerente ao próprio caráter do Senhor.
-Deus havia escolhido Abrão para dele fazer uma nação de onde viesse o Salvador e, consoante já tivemos ocasião de estudar, o texto bíblico não diz porque Abrão foi o eleito.
-De igual modo, não diz porque, querendo que Rebeca tivesse gêmeos, entre eles escolheu o menor e não o maior para herdar a promessa dada a Abraão.
-Tais fatos apenas corroboram a soberania divina, que se está diante do “Deus Todo-Poderoso”, como será a forma peculiar com que o Senhor Se revelará aos patriarcas (Ex.6:3).
-Esta escolha é soberana, porquanto decorre única e exclusivamente de Sua condição de Senhor de todas as coisas (Sl.24:1), mas também demonstra que tudo é feito dentro do norte estabelecido por Deus, qual seja, o de proporcionar a salvação de todos os homens.
-A vontade de Deus é que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade (I Tm.2:5). Assim, o fato de ter escolhido Jacó e não Esaú para que fosse o herdeiro da promessa em absoluto pode ser interpretado como uma prévia escolha de Esaú para perdição, como se entende dentro da doutrina da predestinação incondicional.
-Tanto Deus não escolheu previamente alguns para a perdição que, no episódio da torre de Babel, poupou a todos os homens, embora todos tivessem se rebelado contra ele.
-Tivesse o Senhor previamente selecionado alguns para a perdição, teria poupado só alguns, mas, não, poupa a todos e vai formar uma nova nação, onde pudesse nascer o Salvador, para que a salvação pudesse alcançar a “todas as famílias da Terra” (Gn.12:3).
-A soberania divina é demonstrada, no episódio da torre de Babel, porque Deus confunde as línguas e faz com que todos os homens se espalhem sobre a face da Terra, apesar da resistência unânime contra esta determinação, que era a própria razão de ser da construção da torre.
-Para tanto, valhamo-nos aqui da narrativa feita por Flávio Josefo a respeito:
“…Deus ordenou que mandassem colônias a outros lugares, a fim de que, multiplicando-se e estendendo-se, pudessem cultivar mais terras, colher frutos em maior abundância e evitar as desinteligências que de outro modo poderiam ser suscitadas entre eles.
Mas esses homens rudes e indóceis não obedeceram e foram castigados pelo seu pecado, com os males que lhes sucederam. Deus vendo que seu número crescia sempre, ordenou-lhes segunda vez que formassem outras colônias.
Mas esses ingratos que se haviam esquecidos de que eram devedores de todos os seus bens a Ele, e os atribuíam a si mesmos, continuar a desobedecer-Lhe e acrescentaram à sua desobediência, a impiedade de imaginar que era cilada que se lhes armava, a fim de que, estando divididos, pudesse Deus mais facilmente perdê-los.
Ninrode, neto de Cão, um dos filhos de Noé, foi quem os levou a desprezar a Deus, desta maneira. Ao mesmo tempo valente e corajoso, ele os persuadiu que deviam unicamente ao seu valor, e não a Deus, toda a sua boa fortuna.
E como ele aspirava ao governo e queria levá-los a escolhê-lo para seu chefe e deixar a Deus, ofereceu-se para protegê-los contra Ele (se Ele ameaçasse a terra com outro dilúvio), construindo uma torre para esse fim, tão alta que não somente as águas não poderiam chegar-lhe ao cimo, mas que ainda ele vingaria a morte de seus antepassados.
O povo insensato deixou-se dominar por essa estulta persuasão, de que lhe seria vergonhoso ceder a Deus e começou a trabalhar nessa obra, com ardor incrível.
A multidão e a atividade dos operários fez com que a torre em pouco tempo se elevasse a altura acima de toda e qualquer expectativa, mas sua debilidade fazia com que parecesse menos alta do que era de fato. Construíram-na com tijolos, cimentando-a com betume, para torná-la mais forte.
Deus, irado com essa loucura, não quis no entanto exterminá-los, como havia feito aos seus predecessores, cujo exemplo, porém, lhes havia sido de todo inútil, mas pôs divisão entre eles, fazendo com que a única língua que falavam se multiplicasse num instante, de tal modo que não mais se entendiam; essa confusão fez que se desse ao lugar onde se havia construído a torre, o nome de Babilônia, pois Babel em hebreu significa confusão.…” (Antiguidades Judaicas I.4.16. In: História dos hebreus. Trad. de Vicente Pedroso, v.1, p.29).
-Confundindo suas línguas e os espalhando sobre a face da Terra, Deus cumpre, assim, o Seu desígnio (Gn.9:1) que a comunidade única pós-diluviana insistia em não atender (Gn.11:4), mas o faz de tal modo que mantém a possibilidade de todos os homens terem a oportunidade de se salvarem.
-Mesmo estando em estado de rebeldia, as nações surgidas da confusão das línguas não perderam a noção de Deus nem tampouco a demonstração da Sua vontade.
-Ainda que logo tenha surgido e proliferado a idolatria, consequência direta da recusa da glorificação a Deus (Rm.1:21-23), o fato é que existiram homens que mantiveram viva a devida glorificação ao Senhor, como se verifica no texto bíblico, seja na menção a Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo (Gn.14:18-20), contemporâneo de Abraão, seja na vida de Jó e seus amigos, que os cronologistas bíblicos Edward Reese e Frank Klassen consideram terem sido também contemporâneos do patriarca, tendo os episódios narrados no livro de Jó ocorrido quando Abraão havia nascido.
-Como se isto não bastasse, era mister que um dos gêmeos fosse o escolhido, pois a formação da nação exigia a existência de um patriarca, pois ainda não se tinha ultrapassado a dimensão familiar, e o fato de o Senhor ter escolhido o menor ao maior apenas reafirmava que se tratava de uma nação que estava sendo formada por Deus e que, portanto, como Deus não é Deus de confusão (I Co.14:33), certos fatos deveriam ocorrer para não deixar qualquer margem de dúvida quanto à direta intervenção divina nesta formação, como, aliás, já se verificara na própria esterilidade seja de Sara, seja de Rebeca.
-No nascimento, Esaú nasceu primeiro, tendo sido chamado Esaú porque era cabeludo, pois “Esaú” significa “peludo” (Gn.25:25). sendo também chamado Edom, porque era ruivo, já que “Edom” significa “vermelho” (Gn.25:25).
-O caçula foi chamado de “Jacó”, porque nasceu segurando no calcanhar de seu irmão (Gn.25:26).
-Recebeu o nome de “Jacó”, que significa “suplantador” ou “aquele que segura pelo calcanhar” ou, ainda, “Deus protege”.
-‘Suplantar” tem vários significados, entre os quais, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “fazer (alguém) perder um favor, um emprego etc., tomando-lhe o lugar; conseguir vantagem sobre (outrem ou si mesmo); sobrepujar(-se), superar(-se); vencer (um obstáculo ou dificuldade); superar”.
-Isaque e Rebeca, portanto, já sabiam de antemão que Jacó era o escolhido para dar seguimento à formação da grande nação prometida a Abraão e na qual seriam benditas todas as famílias da terra (Gn.12:1-3).
-As circunstâncias do nascimento que levaram, inclusive, à concessão dos nomes aos filhos gêmeos, também já mostravam que Jacó ocuparia o lugar que, por direito, seria de seu irmão primogênito. Senão vejamos.
-Esaú ou Edom recebeu seu nome por causa de suas características físicas, biológicas. Era ruivo e peludo. Identifica-se apenas pelos seus dotes naturais, era preso ao natural, ao físico, algo que não tinha qualquer relação com quem tinha, como era o caso de Isaque e Rebeca, uma promessa sobrenatural, algo espiritual, já que buscavam a pátria celestial (Hb.11:14-16).
-Jacó recebeu este nome porque nasceu segurando a calcanhar de seu irmão. Neste gesto, foi tido como “suplantador”.
-Ao segurar o calcanhar do seu irmão, Jacó parecia querer ocupar o lugar de primogênito, embora estivesse em segundo lugar no ventre de sua mãe, ou seja, não era alguém que se conformasse com o natural, que queria, ao contrário, alterar tal condição, o que, aliás, foi o que acabou por ocorrer.
-Ao segurar o calcanhar do seu irmão, Jacó pretendia conseguir vantagem sobre Esaú, passando a ser o primogênito, não tendo tido êxito naquela oportunidade, mas o faria, mais tarde, quando conseguiu negociar a primogenitura, adquirindo-a com um prato de lentilhas.
-Ao segurar o calcanhar de seu irmão, Jacó procurava sobrepujar-se, superar-se, vencer as circunstâncias adversas no momento do parto, que o punham como o filho caçula, para que pudesse ser o primogênito.
-Ao longo da sua vida, Jacó iria, mesmo, demonstrar esta sua característica de tentar superar as dificuldades a fim de alcançar os seus objetivos, como trabalhar mais sete anos para ser marido de Raquel; tomar as providências para conseguir ter maior remuneração pelo seu serviço mesmo diante das sucessivas mudanças de salário por parte de seu tio e sogro Labão; criar condições para aplacar a ira de Esaú antes de eles se encontrarem e assim por diante.
II – JACÓ E ESAÚ NA CASA DE ISAQUE E REBECA
-Apesar destas circunstâncias que confirmavam a mensagem divina revelada antes mesmo do nascimento dos filhos gêmeos, Isaque e Rebeca, infelizmente, esqueceram-se de tal afirmação divina e se deixaram inclinar por suas predileções pessoais.
-Isaque preferia Esaú, porque seu comportamento lhe agradava, assim como Rebeca preferia Jacó também por causa da conduta de seu filho caçula.
-A simpatia, a congruência de gostos e interesses falaram mais alto do que a revelação divina. O casal, esquecidos de que eram herdeiros de promessa divina, de que buscavam a pátria celestial, passaram a criar seus filhos conforme as suas predileções, segundo o seu agrado, num comportamento completamente estranho a quem quer agradar a Deus.
-Como ensina o apóstolo Paulo, quem pretende agradar ao Senhor não pode querer agradar aos homens (Gl.1:10).
-Abraão, ao longo de sua vida com Deus, foi cada vez mais agradando ao Senhor e desagradando a si mesmo.
-No início, vai ao Egito para fugir da fome e cria uma história com sua mulher, para não ter problemas com os egípcios por causa da beleza de Sara, o que redundou num grande fracasso e vergonha, com sua expulsão no Egito.
-Em seguida, volta atrás na sua decisão de levar Ló com ele, ao verificar que a contenda surgida entre os seus pastores e os de seu sobrinho era um indicativo de que isto não agradava a Deus, separando-se de Ló.
-Após a guerra em que libertou Ló e os habitantes das cidades das planícies, nem pensa em ter alguma vantagem material com o conflito, como lhe seria de direito, precisamente por entender que não era do agrado de Deus tomar para si algo de Sodoma, embora isto lhe fosse mais agradável humanamente falando.
-Ao querer agradar a mulher e dar “ajuda a Deus”, Abraão criou problema que perdura até hoje, mas, quando a mesma Sara quis que Agar e Ismael fossem despedidos, mesmo desagradado, cumpriu a ordem divina de atendimento ao pedido da mulher.
-Na prova suprema, que foi o sacrifício de Isaque, demonstrou ter atingido o ápice da fé exatamente em resolver agradar a Deus num gesto que não fazia o menor sentido ante as mesmas promessas do Senhor, revelando, no gesto da entrega de Isaque, que tinha renunciado plenamente ao seu “eu” e assumido uma postura de total agrado a Deus.
-Isaque, naquele mesmo episódio, demonstrou igual posição de renúncia da vontade própria, aceitando ser sacrificado por ser esta a vontade de Deus.
-Deste modo, não havia mesmo como Isaque e Rebeca, ante tantos exemplos e episódios, retrocederem a ponto de buscar o próprio agrado e desconsiderar a vontade divina.
-Esta atitude acabou levando à própria destruição do lar do segundo patriarca, como vimos na lição anterior.
-O fato é que, num certo dia, quando Esaú voltava do campo, cansado, Jacó estava preparando um guisado vermelho.
-Esaú, então, pediu o guisado a Jacó e este, ardilosamente, resolveu vendê-lo, trocando o prato de lentilhas pela primogenitura de Esaú.
-Esta atitude de Jacó mostra como ele valorizava e almejava a bênção da primogenitura. Era algo que tinha sempre em mente: como herdar a promessa dada a Abraão e a seu pai Isaque?
-Certamente, sua mãe Rebeca, que tinha predileção por Jacó, não cansava de dizer ao filho que era ele o escolhido de Deus para dar continuidade à promessa e isto ainda mais estimulava o desejo de Jacó em obter esta promessa.
-Como sempre tinha isto em mente, surgida uma oportunidade em que seu irmão Esaú estava em situação de fragilidade e precisava de uma atitude de Jacó para satisfazer uma necessidade, aproveitou o momento para tentar negociar a primogenitura com o guisado que Esaú queria comer.
-Cumpre aqui observar que o que temos sempre em nossa mente revela qual é o nosso objetivo de vida, qual é a nossa própria condição espiritual. Daí porque haver uma verdadeira batalha pelo domínio da mente de cada ser humano, pois o que tivermos na mente terá um papel importantíssimo em nossa vida espiritual.
-Não é por outro motivo que o apóstolo Paulo diz que os salvos devem transformar-se pela renovação do entendimento, não se conformando com este mundo, para que possam experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm.12:2).
-“… A expressão ‘mentalidade transformada’, tão conhecida a partir da carta de Paulo aos Romanos, permanece atual e necessária em tempos de ansiedade, desinformação e desgaste emocional.
O apóstolo Paulo orienta os cristãos a não assumirem automaticamente os padrões do mundo, mas a permitirem que Deus renove suas formas de pensar. Em linguagem contemporânea, trata-se de uma convocação à saúde integral: espiritual, emocional e relacional.
A fé cristã sempre reconheceu que a transformação espiritual não acontece pela simples troca de comportamentos, mas por meio de uma mudança profunda interior.
A.W. Tozer afirmava que ‘o que vem à mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante sobre nós’, lembrando que nossa vida de Deus molda emoções, escolhas e relacionamentos. John Stott ressaltava que a conversão cristã envolve ‘mudar o modo de pensar para mudar o modo de viver’…” (MAGALHÃES, Jimmy. Mentalidade transformada. Jornal AD BelémSP, ano III, nº 29, fev. 2026, p.11).
-Enquanto Jacó tinha sempre em mente como se apropriar da promessa dada a seu avô Abraão e a seu pai Isaque, Esaú, que a possuía, não a valorizava, não se importava com ela.
Sua mente era voltada única e exclusivamente para as coisas desta vida, para o natural, para as “coisas terrenas”, o que o inseria, sem sombra de dúvida, no grupo dos chamados “inimigos da cruz de Cristo” mencionados por Paulo na epístola aos filipenses (Fp.3:18,19).
-Diante de uma proposta tão atrevida como a de seu irmão Jacó, que, para lhe dar o guisado, exigiu dele o direito da primogenitura, o que era um rotundo absurdo, Esaú, diante de sua mentalidade, desprezou a bênção espiritual que tinha, vendeu-a em troca de um prato de lentilhas.
-No texto bíblico, vemos como Esaú desprezava, por completo, as coisas espirituais, pois, ao receber a proposta de Jacó, diz que estava “a ponto de morrer e para que me servirá logo a primogenitura?” (Gn.25:32).
-Com esta declaração, Esaú mostra, por primeiro, que se guiava única e exclusivamente visando satisfazer as suas necessidades materiais, tinha uma vida condicionada ao terreno, ao comer, beber e vestir, que é a mentalidade dos gentios, ou seja, daqueles que não creem em Deus (Mt.6:31,32), daqueles que são espiritualmente cegos (II Co.4:4), que estão mortos em seus delitos e pecados (Ef.2:1) que não nasceram de novo, e que não conseguem ver o reino de Deus (Jo.3:3).
-Ao assim agir, Esaú demonstra, com isso, que era uma pessoa profana (Hb.12:16), ou seja, que desprezava as bênçãos espirituais, sendo mais guiado pelo instinto, pela carnalidade (Gn.25:30-34).
-Pergunta-se, pois: teria Jacó efetivamente adquirido a primogenitura com a aceitação da proposta por Esaú e a entrega do guisado para que ele matasse a sua fome?
-A resposta é desenganadamente negativa. A promessa era de Deus e, portanto, não poderia ser negociada por seres humanos. Não se pode vender o que não é seu.
Esaú tinha direito à promessa divina por ser o primogênito de Isaque, mas não deixava de ser uma bênção espiritual e, como tal, que é de Deus e não do homem.
-Já salientamos que Deus é soberano e, portanto, não há como achar que um negócio firmado entre homens possa submeter ao Senhor.
-No entanto, ao desprezar a promessa divina a ponto de trocá-la por um prato de lentilhas, Esaú perdeu a promessa, porquanto a rejeitou, a desvalorizou, disse “não” ao Senhor. Demonstrou que não queria a pátria celestial, que preferia as “coisas terrenas”, não queria fazer a vontade de Deus.
-Ao rejeitar voluntária e peremptoriamente a Deus, foi pelo Senhor rejeitado e, depois, quando quis recuperá-la, não teve êxito em seu intento, já que não se arrependeu (Hb.12:16,17).
-Jacó demonstrava, assim, ser realmente um “suplantador”, pois conseguira obter para si a bênção que, por direito, pertencia a Esaú, tomando-lhe o lugar.
-No entanto, é preciso observar que Jacó dava valor à bênção da primogenitura, à promessa divina de constituição de uma nação que faria benditas todas as famílias da terra, enquanto Esaú simplesmente desprezava esta bênção espiritual, sendo pessoa presa às coisas desta vida, sendo pessoa que não tinha qualquer consideração pela eternidade, pelo relacionamento com Deus.
-Jacó, portanto, desde o início de sua vida, mostrava-se apto para ser um patriarca, porque dava valor às coisas espirituais, porque, como diz o escritor aos hebreus, não tinha como alvo este mundo terreno, mas, sim, a cidade celestial, a vida eterna com Deus (Hb.11:9,10,13-16).
-Neste sentido, aliás, temos aqui o outro significado de “suplantador”, ou seja, “aquele que se supera”, aquele que quer ir além da posição onde se encontra. Na Sua presciência, Deus amou Jacó precisamente por causa do valor que Jacó dava ao relacionamento com o Senhor.
-Vemos, pois, já neste primeiro episódio a envolver os dois irmãos, quando já dotados de consciência, que há uma incompatibilidade entre ambos.
-Um é voltado para as promessas divinas, para a pátria celestial, para o relacionamento com Deus, é o homem espiritual, cujo sentido na vida é o de realizar o quanto lhe está reservado pelo Senhor, o que Deus quer que ele faça; enquanto o outro só pensa no aqui e no agora, não vê sentido na vida a não na satisfação dos instintos, na sobrevivência, esquecendo-se completamente de que há um “mundo-do-além”.
-De um lado, o homem espiritual, que se preocupa em agradar a Deus, cumprir os Seus planos em sua existência sobre a face da Terra, que sabe ser passageira; de outro, aqueles que restringem sua existência ao tempo vivido aqui, a mentalidade muito bem sintetizada pelo profeta Isaías: “Mas eis aqui gozo e alegria;
matam-se vacas e degolam-se ovelhas; come-se carne, e bebe-se vinho, e diz-se: Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos” (Is.22:13).
-Esta despreocupação de Esaú para com as coisas espirituais, mesmo sendo, na qualidade de primogênito, o legítimo herdeiro delas, reflete-se no total descaso com que também tratou a bênção da primogenitura ao formar família, pois, quando fez quarenta anos de idade, casou-se com duas mulheres heteias (Gn.26:34).
-Este gesto mostrava como ele pouco se importava com a promessa divina, pois sabia claramente que, nesta qualidade, não poderia se aparentar com os habitantes da terra de Canaã e, ainda mais, não observou a monogamia, vindo a se casar com duas mulheres, o que, efetivamente, não correspondia à vontade divina nem ao comportamento adotado seja por Abraão, seja por Isaque.
-Revelava, assim, Esaú que, além de profano, era também fornicário, ou seja, pessoa que não tinha contenção no instinto sexual, ou seja, alguém que vivia sob o domínio das paixões e concupiscências da carne (Cf. Gl.5:24).
-Esta oposição de comportamentos entre os dois irmãos também prefiguram o conflito interno que existe em todo o salvo na pessoa de Cristo Jesus.
-Quando cremos em Jesus Cristo, tornamo-nos uma nova criatura (II Co.5:17), nascemos de novo (Jo.3:3), mas este novo homem tem de conviver com o homem que até então existia, o “velho homem” (Rm.6:6; Ef.4:22; Cl.3:9).
-Este “velho homem” é o “homem natural” (I Co.2:14), o “homem carnal”, “vendido sob o pecado” (Rm.7:14), que é bem tipificado por Esaú, o homem que não consegue realizar o bem, vive na prática do pecado e que não muda sua mentalidade, porque não se arrepende (Hb.12:17; II Co.7:10).
-Este “velho homem” não é eliminado quando cremos em Jesus, mas é tão somente crucificado (Gl.5:24), razão pela qual deve ser mantido sob controle, e isto fazemos quando andamos em Espírito, a fim de não cumprirmos a concupiscência da carne (Gl.5:16).
-Jacó, por sua vez, simboliza este “novo homem”, o “homem espiritual”, que “busca primeiro o reino de Deus e a sua justiça” (Mt.6:33; Lc.12:31), que entende que, neste mundo, estamos em busca da pátria celestial, e, por conseguinte, das coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus, pensar nas coisas que são de cima e não nas que são da terra (Cl.3:1,2).
-Assim como Jacó, o “homem espiritual” tem de progredir, crescer espiritualmente, o que se faz por meio da santificação, da contínua aproximação a Deus (Sl.73:28; Tg.4:8; Ap.22:11).
III – JACÓ E ESAÚ NA BÊNÇÃO DE ISAQUE
-Quando Isaque adoeceu e achou que iria morrer, mesmo sabendo que Jacó era o escolhido de Deus, quis dar a sua bênção para Esaú e, por isso, mandou que seu primogênito lhe preparasse uma caça.
-Rebeca, sabendo disto, resolveu enganar o seu marido, a fim de que a bênção fosse dada a Jacó e instigou seu filho a participar deste engodo.
-Vemos aqui como as predileções de Isaque e de Rebeca desconsideravam, por completo, a vontade de Deus e chegaram ao ponto de tentarem eles fazer as suas próprias vontades, como se o Senhor não fosse soberano.
-Tendo adoecido e, de algum modo, sentido que poderia morrer, Isaque tenta impor-se a Deus e transferir a promessa para o seu predileto, mesmo sabendo que o Senhor não o havia escolhido.
-Muitos homens de Deus têm agido da mesma maneira ao longo dos séculos. Samuel constituiu seus filhos como juízes sem que este fosse o desígnio divino e o resultado disto foi trágico, com o povo querendo e instituindo uma monarquia (I Sm.8:1-5), o que foi um grande pecado (I Sm.12:17-19).
-E o que dizer de tantos que têm transformado o ministério em assunto familiar e instituído uma hereditariedade quando não mais estamos no tempo do sacerdócio levítico? Que Deus nos guarde!
-Mas Rebeca não tem coisa alguma a dever neste quesito de desconsideração da vontade divina. Ao ter conhecimento do que Isaque planejara., em vez de recordar ao marido o que Deus lhes revelara antes do nascimento dos filhos, como o que estava a querer não era a vontade do Senhor mas, sim, a sua própria vontade, arquiteta uma fraude e nela envolve o seu filho Jacó.
-Rebeca, então, prepara um guisado saboroso, ao gosto de seu marido, manda Jacó vestir-se com uma roupa de Esaú, cobriu as mãos e o pescoço lisos de Jacó com as peles dos cabritos, para fazer Jacó peludo e o manda ir ao encontro de seu pai.
-Jacó, mediante engano, obteve a bênção de seu pai (Gn.27:1-29). Por mais de uma vez, mente a Isaque que, por não estar a enxergar bem, não podia distinguir se se tratava de Esaú ou de Jacó, mas que resistiu para dar a bênção, já que Jacó não pôde esconder a sua voz do pai.
-Entretanto, como Isaque o apalpou e sentiu que era peludo e como cheirou as vestes, que eram de Esaú, acabou por impetrar a bênção, transferindo a bênção de Abraão para quem achava ser Isaque.
-Só foi Jacó sair do quarto, Esaú chegou com a caça e preparou o animal e o levou a seu pai, quando, então, soube que Jacó lhe havia “tomado” a bênção.
-Esaú, então, notou o mal que havia feito ao desprezar a primogenitura, mas já era tarde demais. Chorou, pediu ao pai que o abençoasse, mas Isaque disse que há havia abençoado Jacó e não poderia revogar a bênção.
-Quando Esaú soube que Jacó lhe havia tomado a bênção, prometeu matá-lo assim que Isaque descesse à sepultura (Gn.27:41).
-Temos aqui mais uma demonstração de que Esaú tinha uma mentalidade ímpia, não sendo, aliás, por outro motivo, que os rabinos judeus costumam considerá-lo como “o perverso” (rasha), pois desejou a morte do irmão e prometeu matá-lo.
Era, portanto, um “homicida” e todo homicida não ter permanente nele a vida eterna (I Jo.3:15), um filho do diabo, que é homicida desde o princípio (Jo.8:44).
-Rebeca, sabendo disso, contou-o a Isaque, que, então, chamou Jacó e o mandou ir a Padã-Arã, na casa dos parentes de Rebeca, para que lá se casasse com alguém da parentela, a fim de manter a higidez da linhagem de Abraão, já que Jacó recebera a bênção da promessa, bem como para que escapasse da fúria de Esaú (Gn.27:42-28:6).
-O que se verifica em a narrativa bíblica é que a recepção da bênção da primogenitura não se deu no episódio em que Isaque foi enganado por Rebeca e Jacó.
-A bênção dada a Jacó e que despertou a fúria de Esaú foi inválida, porquanto houve fraude, engano e Deus jamais opera onde há mentira, pois é a verdade (Jr.10:10) e a mentira é característica própria do diabo, que nada tem com o Senhor (Jo.8:44; 14:30).
-Ao saber que Esaú queria matar Jacó assim que Isaque morresse, Rebeca pediu a Isaque que mandasse Jacó para Padã-Arã, para a sua terra natal, a fim de que, inclusive, pudesse formar família dentro dos parâmetros exigidos por Deus para os herdeiros da promessa de Abraão.
-Isaque, então, chamou Jacó e, aí então, o abençoou, mandando que não tomasse mulheres dentre as filhas de Canaã e que fosse para Padã-Arã.
-Nesta oportunidade, Isaque tem a revelação do Senhor como “Deus Todo-Poderoso”, concedendo-lhe a bênção de Abraão (Gn.28:1-4).
-Esta bênção, sim, teve validade, porquanto Isaque se rende à vontade divina, reconhecendo em Jacó o herdeiro da promessa, tendo, ademais, tido a revelação de Deus como Todo-Poderoso, que foi a forma como o Senhor quis Se revelar a cada patriarca (Ex.6:3).
-Foi neste instante que Jacó é constituído como patriarca, o que seria confirmado pelo próprio Deus, como haveremos de ver na próxima lição.
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12414-licao-9-jaco-e-esau-irmaos-em-conflito-i
