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LIÇÃO Nº 12 – A RECONCILIAÇÃO DE JACÓ COM ESAÚ

INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo do legado dos patriarcas, estudaremos o estabelecimento de Jacó na terra de Canaã.

-A reconciliação com Esaú mas a diferente destinação de cada qual consolida a condição de Jacó como o herdeiro da promessa feita a Abraão.

I – A RECONCILIAÇÃO DE JACÓ COM ESAÚ

-Jacó havia sido transformado. Prova disso é que Deus lhe mudou o nome de Jacó, que significava “suplantador” para “Israel”, “aquele que luta com Deus e prevalece”.

-Agora manquejando ao longo do caminho, já que fora tocado na coxa, Jacó atravessa o vau e Jaboque e vai ao encontro do irmão Esaú.

-Havia passado a noite em claro em luta com o anjo mas Esaú não havia ainda chegado. A luta com Deus não havia sido, em absoluto, desperdício de tempo. Jacó teve o tempo necessário para render-se ao Senhor, para admitir quem era e para aceitar ser mudado.

-Sempre é tempo para nos arrependermos de nossos pecados e desfrutarmos da salvação na pessoa de Cristo Jesus. O tempo da salvação é “hoje”, ou seja, “este dia”.

-“Hoje” é o “tempo aceitável, o dia da salvação” (II Co.6:2). Nunca nos esqueçamos disto, máxime nós que estamos a viver a dispensação da graça, “o ano aceitável do Senhor” (Is.61:2; Lc.4:19), que caminha celeremente para o seu encerramento.

-O “ano aceitável do Senhor” inicia-se com a celebração da páscoa, no primeiro mês, e termina com a celebração da “festa dos tabernáculos”, no sétimo mês, as festas originariamente estabelecidas na lei de Moisés.

-Cada uma das festividades estatuídas tem uma correlação com o ministério de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que é quem anuncia este “ano aceitável”:

a Páscoa, que fala de Sua morte;

a Festa das Primícias, que fala de Sua ressurreição;

a Festa de Pentecostes, que fala do derramamento do Espírito Santo;

a Festa das Trombetas, que fala do arrebatamento da Igreja;

o Dia da Expiação, que fala da conversão de Israel e a

Festa dos Tabernáculo, que fala do reino milenial de Cristo.

-Enquanto Jacó cuidava de consolidar sua transformação diante de Deus, o Senhor protegia a sua família, impedindo que Esaú chegasse antes que o próprio patriarca estivesse com eles.

-Jacó levantou seus olhos e pôde ver Esaú juntamente com quatrocentos homens. Demonstrando não ser mais aquele homem que havia ido a Harã e que se notabilizara pela sua precipitação, Jacó cuidadosamente, ao contemplar seu irmão e seus homens, manteve a repartição que já elaborara antes de ter tido a experiência do vau de Jaboque, em dois bandos, repartindo os filhos e mulheres.

-Por primeiro, pôs as servas Bila e Zilpa, com seus respectivos filhos; em seguida, pôs Leia e seus respectivos filhos e, por último, deixou Raquel e seu filho José (Gn.33:2).

-Como verdadeiro pai de família, foi à frente de todos eles, na qualidade de protetor, bem sabendo que o problema com Esaú tinha sido criado única e exclusivamente por ele mesmo, sendo o principal responsável.

-Ao se pôr na frente de todos, pondo sua vida em risco, pronto a morrer pelos seus, Jacó assume não só a postura de verdadeiro pai de família, mas também tipifica a sua posteridade, o Senhor Jesus, que daria a Sua vida em resgate de muitos (Mc.10:45).

-Estando à frente dos seus, Jacó foi se aproximando de Esaú, mas se inclinou à terra sete vezes até que chegou a seu irmão (Gn.33:3).

-Que cena impressionante viu Esaú! Jacó, manquejando, andando com dificuldade, não demonstra qualquer temor, vindo sempre em direção a Esaú, mas fazendo questão de se humilhar e reconhecer a qualidade de primogênito que seu irmão ostentava, inclinando-se por sete vezes até se encontrarem.

-Jacó entendera, agora que estava transformado, que não se aplacaria a ira de Esaú apenas com presentes, ainda que mandados estrategicamente de forma sequencial. Era necessário que o próprio Jacó se humilhasse, demonstrasse todo o seu arrependimento diante do erro cometido.

-A cena mostra-nos que mesmo Esaú, considerado pelos rabinos judeus como sendo o protótipo do “perverso”, aquele que é profano, fornicador e assassino, não resiste a um coração contrito, a um espírito quebrantado, que dirá o nosso Deus, que é bom (Mt.19:7; Mc.10:18; Lc.18:19), misericordioso (Ex.22:27; 34:6; Dt.4:31; II Cr.30:9; Ne.9:17,31; Sl.78:38; 103:8; 111:4; 112:4; Jl.2:13; Jn.4:2; Lc.6:36; Hb.8:12;
Tg.5:11), clemente (Ne.9:17,31); benigno (Sl.145:8; Jr.3:12; Lc.6:35; I Pe.2:3) e longânimo (Nm.14:18; Sl.103:8; Jn.4:2; II Pe.3:9)?

-Como diz o salmista, Deus não resiste a um coração contrito, a um espírito quebrantado (Sl.51:17).

-Esaú não resistiu a este gesto de seu irmão Jacó. Ele próprio tomou a iniciativa de ir ao encontro do irmão, abraçando-o e se lançando ao seu pescoço, beijando-o, tendo ambos chorado juntos (Gn.33:4).

-A humilhação de Jacó dissipara todo o ódio que Esaú tivera desde o dia em que tomara a sua bênção. Naquela oportunidade, é dito que Esaú aborreceu a Jacó, um aborrecimento que vinha do fundo de seu coração e que o levara a decidir que, findo o luto de seu pai, mataria seu irmão.

-Tratava-se de um ódio profundo, que, certamente, era mantido diante do fato de que se perdera, por completo, a chance de Esaú ter a primogenitura, algo irreversível.

-No entanto, o gesto de Jacó, demonstrando sincero arrependimento, retirou todo ressentimento e mágoa existentes, tendo Esaú, então, decidido perdoar o seu irmão.

-O choro e o afeto demonstrados pelos irmãos revelam a profundidade da reconciliação ali ocorrida. Havia profundo e sincero arrependimento de ambos. Jacó se arrependia de ter enganado seu pai e prejudicado

seu irmão; Esaú, de ter querido matar o seu irmão, desejado a sua morte, que, espiritualmente, significava o próprio assassinato (Cf. Mt.5:22; I Jo.3:15).

-A luta de Jacó com Deus não terminara com a retirada do anjo do vau de Jaboque. Jacó deveria renunciar a si mesmo, negar a si mesmo a partir de então, humilhando-se quando necessário, arrependendo-se dos erros cometidos e pedindo perdão a quem tinha ofendido.

-Este não é apenas o itinerário para o patriarca Jacó, mas para tantos quantos que, como ele, estão em busca da pátria celestial. Somente chegaremos aos céus se pedirmos perdão aos que temos ofendido, bem como perdoando aos que nos ofendem.

-O Senhor Jesus foi bem claro a respeito: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas” (Mt.6:14,15).

-Da mesma maneira, o texto sagrado assim nos diz: “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor, vosso Deus; porque Ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-Se, e grande em beneficência e se arrepende do mal” (Jl.2:13).

-Esaú e Jacó se arrependeram de seus pecados e pediram perdão e se perdoaram mutuamente, tendo ambos alcançado a misericórdia divina. Sem o arrependimento nem o perdão mútuo não poderiam dar continuidade a suas vidas de forma pacífica e sem qualquer risco de uma eventual retaliação a qualquer instante da parte de cada um deles.

-Isto é o que falta, por exemplo, nos dias hodiernos, para que haja a paz entre árabes e israelenses, entre judeus e muçulmanos. Não há disposição para arrependimento e perdão mútuo e o resultado é a existência de um conflito que perdurará indefinidamente, até que termine a “plenitude dos gentios” (Ez.30:3; Rm.11:25).

-Aliás, consoante as Escrituras, por falta de arrependimento e de perdão, a solução não se dará por reconciliação, mas, sim, por vitória militar, seja na guerra de Gogue e Magogue (Ez. 38 e 39), seja na guerra do Armagedom (Ap.16:16; 19:11-21).

-Depois daquele momento vivido por ambos os irmãos, Esaú, então, dá conta de que Jacó estava vindo acompanhado de um grupo de pessoas e perguntou quem eram eles, tendo, então, Jacó respondido que eram os filhos que Deus graciosamente tinha dado a ele (Gn.33:5).

-O texto bíblico tem algumas nuanças que precisam ser aqui analisadas pela sua riqueza, até porque tudo que foi escrito para nosso ensino foi escrito (Rm.15:4).

-Por primeiro, o texto trata o grupo que acompanhava Jacó como “mulheres e meninos”. Verdade é que o grupo era realmente composto, como vimos, das mulheres e servas e dos filhos de Jacó, sendo que o mais velho não tinha mais de vinte anos de idade, que é, digamos, a idade da maioridade para Israel, como se pode observar no juízo divino que fez perecer a geração do êxodo no deserto (Nm.14:29).

-No entanto, temos aqui reforçado o papel exercido por Jacó, qual seja, o de “patriarca”, de “pai de família”, o único varão que estava encarregado de cuidar e criar toda aquela gente. A grande nação prometida a Abraão ainda não tinha ultrapassado a qualidade de família.

-Isto nos mostra, também, que toda nação começa por uma família e que a família é a base de toda a sociedade, como, aliás, reconhece expressamente a Constituição brasileira.
OBS: Eis o que diz a Carta Magna: “Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.”

-Nesta família, havia um chefe, que era Jacó, sob o qual estavam submissos as mulheres e os meninos. Como todo grupo social, a família precisa ter um chefe, um líder, alguém que o governe e este é o marido, o pai.

-Querer instituir famílias sem que haja um governo, sem que se tenha alguém que a comande é criar a anarquia, a instabilidade naquele grupo que é, exatamente, a base da sociedade e é isto, lamentavelmente, que se estabeleceu em nosso país a partir do Código Civil de 2002.

-Além disso, temos aqui a demonstração que a chamada “dispensação patriarcal” ou “dispensação da promessa” é o período em que Israel é formado como nação, passando de família a clã e, então, de clã a nação, com doze tribos, como a encontrará Moisés, aquele que foi escolhido para ser o libertador.

-Os patriarcas nada mais são que “pais de família”, pois a palavra “patriarca” vem do grego “patriárkhes” (πατριάρχης), cujo significado é “chefe de uma família”.

-Jacó é apresentado, assim, no texto, como um legítimo patriarca, o mais prolífero deles, já que, enquanto Abraão tinha apenas uma mulher e um filho; Isaque tenha tido uma mulher e dois filhos, Jacó chega a Canaã com duas mulheres, duas servas e doze filhos.

-Jacó comporta-se como patriarca, pois chama a todos de “filhos” e, mais, tem plena noção de que isto se deve à presença de Deus em sua vida, porquanto diz que são “os filhos que Deus graciosamente tem dado a teu servo” (Gn.33:5).
-Jacó trata os filhos como “dádivas graciosas de Deus”. O verbo hebraico aqui é “chanan” (ָחַנן), “…Verbo que significa ser misericordioso, favorecido, ter misericórdia.

Na literatura de sabedoria, este verso é usado principalmente nas relações humanas, para indicar atos de benevolência para com alguém necessitado (J´[o 19:21; Pv.19:17). (…).

Fora da literatura de sabedoria, com maior frequência, o agente da benevolência é Deus, inclusive o clamor muitas vezes repetido, ‘tem piedade de mim’ (Ex.33:19; Nm.6:25; Sl.26:11; 27:7; 119:58).…” (BÍBLIA DE ESTUDO PALAVRAS-CHAVE. Dicionário do Antigo Testamento. Verbete 2603, p.1646).

-Os filhos são uma “dádiva graciosa de Deus”, “herança do Senhor” (Sl.127:3), mas, ultimamente, até entre os cristãos se dizem ser, são vistos como “estorvo”, “fonte de despesa”, “embaraços”, uma mentalidade totalmente contrária à Palavra de Deus.

-Formar família e decidir, de antemão, não ter filhos é pecado e quem assim agir certamente não estará nas mansões celestiais. Jacó, que buscava a pátria celestial, considerava que filhos eram “dádivas graciosas de Deus”, em mais uma demonstração de que havia realmente sido transformado no vau de Jaboque.

-Como se isto fosse pouco, Jacó chama a Esaú de senhor, considerando-se servo de seu irmão, e isto depois de terem se reconciliado, numa prova de que suas sete inclinações diante de seu irmão não havia sido “jogo de cena”, mas um sincero e autêntico reconhecimento de que Esaú era o primogênito biológico, embora não tivesse herdado a promessa de Abraão.

-Como é bom quando os servos do Senhor sabem distinguir entre a hierarquia espiritual e a hierarquia social. Devemos ter plena consciência de nossa dupla cidadania, reconhecendo que toda autoridade é constituída por Deus, seja civil, social ou espiritual (Rm.13:1,2).

-Tanto assim é que as mulheres e meninos, ao chegarem à presença de Esaú, inclinaram-se diante dele, reverenciando-o e reconhecendo a sua posição familiar (Gn.33:6).

-Só, então, Esaú fez menção dos bens que, de forma estratégica, Jacó tinha mandado à frente, para aplacar a ira do irmão com presentes. Esaú disse que tinha prosperado materialmente e que não precisava dos presentes que lhe haviam sido enviados.

-Jacó, porém, insistiu para que Esaú os recebesse, porquanto disse que era uma parte daquilo que Deus lhe havia dado graciosamente durante a sua estada em Harã e uma demonstração de que como tinha se alegrado em poder rever a Esaú e de ter havido a reconciliação entre eles e, ante a insistência, Esaú acabou aceitando os presentes (Gn.33:8-11).

-Esta passagem mostra, a uma, que a prosperidade material havia alcançado tanto a Esaú quanto Jacó, embora somente Jacó fosse o herdeiro da promessa de Abraão. Destarte, temos mais uma evidência bíblica de que prosperidade material não é critério para se aferir a espiritualidade de alguém.

-A duas, é inegável que a prosperidade material obtida por ambos os irmãos era resultado da ação divina e não só por causa da soberania do Senhor, mas em virtude dos compromissos assumidos perante Abraão e Isaque.

-Esaú e Jacó haviam sido abençoados por Isaque e, nestas bênçãos, estava o da prosperidade material e o Senhor havia dito tanto a Abraão quanto a Isaque que os que eles abençoassem seriam abençoados (Gn.12:3; 26:3).

-Deste modo, tanto Esaú e Jacó teriam de ser materialmente prósperos, pois isto era o que havia sido determinado pelo Senhor, independentemente de eles estarem, ou não, em comunhão com Deus.

-Esaú sempre fora arredio às coisas espirituais, é o protótipo do perverso, mas, mesmo assim, amealhou um grande patrimônio; Jacó vacilou muitas vezes em Harã, usou de expedientes questionáveis para angariar patrimônio, mas isto não o impediu de também de amealhar um bom patrimônio, inclusive porque o Senhor quis retirar o que era de Labão e entregar a Jacó ante a manifesta intenção de Labão de tirar proveito do seu genro e sobrinho (Cf. Gn.31:6-9).

-A três, tanto Esaú quanto Jacó sempre foram trabalhadores, ou seja, ainda que Deus tivesse de abençoá-los, isto não os dispensou de serem pessoas trabalhadoras, porquanto o enriquecimento somente se dá mediante o trabalho, é esta a forma legítima e correta de aquisição de bens sobre a face da Terra (Gn.2:15; 3:19; Jo.5:17).

II – JACÓ NA TERRA DE CANAÃ

-Deus, então, começou a abençoar Jacó espiritualmente. No seu encontro com Esaú, houve a reconciliação entre os irmãos (Gn.33:1-16).

-Esaú, então, convida Jacó para que caminhassem e andassem, ou seja, passando a conviver, a terem o mesmo destino (Gn.33:12).

-A reconciliação entre os irmãos não alterava, porém, a condição espiritual de ambos. Haviam se arrependido de seus erros e mutuamente se perdoado, mas Jacó era o herdeiro da promessa; Esaú, não; Esaú era fornicário e profano, Jacó, não.

-Como bem indaga o profeta Amós: Andarão dois juntos se não estiverem de acordo? (Am.3:3).

-Ante tal proposta de Esaú, Jacó, uma vez mais demonstrando ter sido transformado, não agiu com precipitação. Embora tivesse dado a entender que aceitaria a convivência com Esaú, não o fez, preferindo ir para Sucote (Gn.33:12-17), onde edificou tendas para o seu povo.

-Jacó alegou que tinha um ritmo de caminhada diferente do de Esaú. Não dava para ele caminhar e andar juntamente com seu irmão, pois seus filhos eram pequenos, tinha gado de leite e não podia acompanhar Esaú e seus quatrocentos homens de guerra.

-Ademais, Esaú estava morando em Seir, fora da terra de Canaã, que não era o local determinado por Deus para que ele peregrinasse e isto fazia todo o sentido, porque Esaú escolhera aquela terra, já que não era o herdeiro da promessa, que não era o caso de Jacó.

-Temos aqui uma importante lição espiritual. Nosso andar não é como o andar daqueles que não servem a Deus. Temos de andar “no passo do gado”, reconhecendo a nossa pequenez diante do Senhor e a necessidade de sempre sermos guiados por Ele. Nosso destino, ademais, é a Terra Prometida, a pátria celestial, que é exatamente para onde não estão indo os que não servem a Deus.

-Como nos ensinou o Senhor no sermão do monte, há dois caminhos e o nosso não é aquele seguido pelos que não servem a Jesus. Façamos como Jacó, sem criar contenda, sem causar alvoroço, distanciemo-nos dos profanos e fornicários, deixemos que eles sigam pelo caminho espaçoso, enquanto nós nos voltamos para o caminho apertado que conduz à vida.

-Em Sucote, Jacó edificou cabanas e se estabeleceu com sua família e seu gado e, por isso, o lugar passou a ser chamado “Sucote”, cujo significado é “cabanas”.

-Como admitir que, mesmo depois de tamanha experiência espiritual, Israel tenha mentido mais uma vez para seu irmão Esaú?

-Isto revela a própria falibilidade humana. Jacó havia sido transformado por Deus, mas não deixou de ser um homem e, como tal, sujeito ao pecado, a mostrar que não há qualquer “impecabilidade” no homem salvo. Não há homem que não peque e, portanto, quando pecamos, devemos, imediatamente, pedir perdão a Deus, pois o pecado na vida dos salvos é um acidente, não um modo de viver.

-Jacó sabia que não podia conviver com Esaú, porquanto era o herdeiro da promessa de Abraão. Deveria, isto sim, a exemplo de Abraão e de Isaque, peregrinar em Canaã, tendo como alvo a cidade celestial, tanto assim que, agora, totalmente desprendido das coisas deste mundo, passa a edificar cabanas.

-Não o quis dizer a seu irmão Esaú, e não fez bem ao não dizê-lo, mas o fato é que o próprio Esaú não fez conta desta mentira, nunca tendo cobrado a promessa feita por seu irmão. No fundo, no fundo, Esaú sabia que havia perdido a bênção de Abraão e, afinal de contas, dela não fazia a menor conta.

-Jacó partiu de Sucote e foi até Siquém, fazendo assento naquela cidade e ali edificando um altar (Gn.33:18).

-Apesar da transformação que havia tido com Deus, ainda não obedecera por completo à ordem divina. O Senhor havia Se identificado, ainda em Padã-Arã, para o patriarca como sendo o “Deus de Betel” e, consequentemente, era a Betel que deveria ir (Cf. Gn.31:13).

-No entanto, contentou-se em ficar em Siquém e, ali, por se estar fora da direção de Deus e por não haver uma estrutura doutrinária em seu lar, Jacó passou por alguns dissabores.

-Por primeiro, contrariando a ordem divina de peregrinação, comprou uma parte do campo de Hamor, pai de Siquém, por cem peças de dinheiro (Gn.33:19), dando a impressão de que iria permanecer ali, que ali seria a sua nova residência.

-Por segundo, sua única filha, Diná, ante esta impressão gerada pelo pai, perdeu-se, enamorando-se e fornicando com Siquém, o filhor de Hamor, que era o governante de Siquém (Gn.34:1-24).

-Querendo casar com Diná, Siquém foi procurar Jacó, mas seus filhos Simeão e Levi, usando de astúcia, disseram a Siquém que não poderia haver qualquer união entre as famílias se, antes, os homens siquemitas não se circuncidassem.

-Os siquemitas atenderam a este pedido, mas foram traídos, pois Simeão e Levi, aproveitando-se da recuperação dos homens que haviam se circuncidado, mataram a todos os siquemitas, pondo a família de Jacó em risco naquele lugar (Gn.34:25-31).

-Jacó, então, ficou aflito. Sabia que aquela matança iria fazer com que os moradores de Canaã se voltassem contra a sua família e Jacó não tinha condição alguma de guerrear. Em meio a esta aflição, o Senhor novamente vai ao encontro de Jacó e o manda ir para Betel, onde deveria edificar um altar ao Senhor.

-Jacó, então, tem mais um gesto de santificação. Entendeu que too aquele ocorrido era consequência de não ter dado a devida formação doutrinária a seus filhos, que, durante todos aqueles vinte anos, com exceção do ensino sobre a circuncisão, não haviam sido criados senão segundo os valores de Padã-Arã.

-Tanto assim era que havia ídolos em sua casa e a ama de seus filhos tinha sido Débora, que havia sido ama de sua mãe Rebeca (Cf. Gn.35:8), ou seja, alguém que educara seus filhos conforme a idolatria reinante em Padã-Arã.

-Por isso mesmo, Jacó, antes de partir para Betel, sabendo que deveria ter a proteção do Senhor, chamou sua família e mandou que se tirassem os deuses estranhos que havia no meio deles e se purificassem, mudando seus vestidos, sendo, então, atendidos (Gn.35:1-4).

-Jacó havia se transformado, ainda que mantendo as suas fragilidades, mas sua família ainda estava espiritualmente em Padã-Arã e isto estava completamente fora dos parâmetros divinos, que tinha de fazer da família de Jacó a estrutura fundamental da nação que estava a formar.

-Depois que a família de Jacó se livrou dos deuses estranhos, não havia mais qualquer impedimento para que o Senhor Se manifestasse ao patriarca em Betel.

-Devidamente dentro da vontade de Deus, a família de Jacó foi protegida pelo Senhor no seu caminho a Betel, pois o terror de Deus se espalhou pelas cidades de Canaã, de forma que ninguém se atreveu a atacar Jacó e os seus.

-Chegando a Betel, Jacó edificou ali um altar e, ali mesmo, morreu Débora, a ama de Rebeca, morte que representou, sem dúvida, o fim de qualquer influência gentílica na formação da família de Jacó (Gn.35:6-8).

-O Senhor, então, novamente apareceu a Jacó, abençoando-o e renovando a Sua promessa para Jacó. Mais uma vez vemos que, quando nos desvencilhamos de tudo o que não agrada a Deus, o Senhor aumenta a nossa intimidade com Ele, renova as promessas e fortalece a nossa fé (Gn.35:9-15).

-Raquel, então, teve outro filho, a quem deu o nome de Benoni (cujo significado é “filho de minha dor”), mas Jacó lhe deu o nome de Benjamim (cujo significado é “filho da destra”), tendo, então, Raquel morrido do parto deste seu segundo filho (Gn.35:16-20).

-A diferença de nomes dados à criança por Raquel e por Israel mostram a diferença de atitudes vivida por ambos.

-Raquel, sofrendo terrivelmente neste parto, tanto que veio a falecer por causa dele, viu o seu sofrimento como a característica desta criança.

-Jacó, entretanto, viu, no nascimento do segundo filho da sua amada e que era estéril, a confirmação da promessa divina de Abraão na sua vida.

-Era a consumação da promessa, a completude da família que daria origem à nação que faria benditas todas as famílias da terra. Mesmo quando da morte da sua amada, Jacó mostra, assim, a prioridade que passara a dar às coisas de Deus. Temos esta mesma atitude?

-Além do mais, quando tivera José, Raquel havia pedido ao Senhor um outro filho e, ainda que 17 anos depois, segundo os cronologistas bíblicos Edward Reese e Frank Klassen, Deus atendia ao pedido de Raquel, confirmando que lhe havia aberto a madre, que a nação de Israel era formada diretamente pelo Senhor.

-É bom também observar que a morte de Raquel também fazia parte necessária para o pleno crescimento espiritual de Israel, pois, desde o início, Raquel sempre representou um obstáculo para o progresso espiritual de Jacó.

-Rúben, então, que era o primogênito de Jacó, deitou-se com Bila, concubina de seu pai e Israel o soube, nada fazendo.

-No entanto, este silêncio de Israel diante de tamanha desonra era uma demonstração da mudança de caráter daquele homem. Com este gesto, Rúben lançou fora a primogenitura e, como resultado disto, o príncipe passou a ser Judá, já que os outros dois irmãos mais velhos que este, Simeão e Levi, pela sua conduta de matança dos siquemitas, haviam também se descredenciado para tal bênção.

-É por isso, aliás, que, na bênção final de sua vida, Jacó dirá que o principado e o cetro estariam com Judá (Gn.49:10) e o motivo pelo qual a “semente da mulher”, a “posteridade de Abraão” nasceria nesta tribo.

-A primogenitura, porém, foi transferida para José, o primogênito de Raquel, conforme nos dá conta I Cr.5:1,2, razão pela qual o livro de Gênesis passará a tratar como personagem principal a José.

-Termina aqui, então, o chamado “ciclo de Jacó”, pois o protagonismo da narrativa passa a ser, então, de José, que, apesar de ser o décimo segundo filho de Jacó (o décimo primeiro homem), era o primogênito de Raquel e, por isso mesmo, passou a ser tratado com predileção por Jacó, que, assim, repetia o mesmo erro de seus pais, a nos mostrar os que “os defeitos de nossos filhos são os filhos de nossos próprios defeitos”, como afirmava o ensinador francês André Berge (1902-1995).

-Jacó ainda sofreria engano por parte de seus filhos, no episódio que envolveu a venda de José aos ismaelitas, pois foi levado a crer que seu filho havia morrido e, durante 26 anos haveria de achar que José havia morrido.

-Depois, vai ao encontro de José no Egito, não antes de ser orientado a Deus a fazê-lo (Gn.46:1-4), numa clara demonstração que Israel era um outro homem, sempre guiado e dirigido pelo Senhor.

-Foi para o Egito, onde viveu por dezessete anos, morrendo com a idade de cento e quarenta e sete anos (Gn.47:28).

-Conforme seu pedido, Jacó foi sepultado na sepultura que Abraão havia comprado para sepultar Sara, onde também foram sepultados Abraão, Isaque, Rebeca e Leia. Somente Raquel ali não foi sepultada (Gn.49:31; 35:19).

-Na sua bênção final, Jacó confirmou o principado a Judá, bem como a primogenitura a José na nação israelita. Terminava seus dias como um verdadeiro profeta, um porta-voz de Deus.

-Superara, suplantara todas as imperfeições suas e que foram adquiridas ao longo de sua vida, mantivera-se uma pessoa que buscava primeiramente a Deus e a Sua justiça, por isso foi o pai dos israelitas, daquela nação que seria a “propriedade peculiar” de Deus dentre todos os povos da Terra.

-Jacó é a personagem na Bíblia que nos mostra que o esforço humano é vão, nada significa em termos de salvação, mas que Deus sempre está pronto a atender a todos quantos têm interesse em servi-l’O e reconhece o supremo valor do amor de Deus para conosco.

– Deus, de forma alguma, lança fora aqueles que O buscam e a vida do “suplantador” que se tornou o “príncipe de Deus que prevalece” é uma eloquente prova disso.

Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12470-licao-12-a-reconciliacao-de-jaco-com-esau-i

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