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LIÇÃO Nº 6 – A SUFICIÊNCIA DA GRAÇA NA CIDADE DE CORINTO


INTRODUÇÃO

-Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, estudaremos o trabalho apostólico de Paulo em Corinto.

-O Evangelho deve ser pregado nos ambientes dominados pela imoralidade.

I – PAULO CHEGA A CORINTO

-Depois de ter pregado no Areópago em Atenas, Paulo, mesmo sem se reencontrar com Silas e Timóteo, partiu para Corinto, pois determinou a Timóteo que fosse para Tessalônica, já que não mais suportava não ter notícias de que como estava aquela igreja, impedido que era de para lá voltar (I Ts.3:1,2).

-O apóstolo tomou um navio para Corinto, a evidenciar seu desejo de retornar a Tessalônica, onde não havia concluído o seu trabalho evangelístico por causa da perseguição (I Ts.2:17), desejo tão ardente que o fez desistir de esperar a chegada de seus cooperadores, certamente tendo-os orientado para que com ele se encontrassem em Corinto após terem ido a Tessalônica.

-Sua partida para Corinto revela esta intenção, pois Corinto era uma cidade que possuía dois portos, um voltado para o chamado Golfo de Corinto, no Mar Jônico, o porto de Lecaion, e outro, para o chamado Golfo Sarônico ou Golfo de Egina, no Mar Egeu, chamado Cencreia.

-Aliás, esta localização geográfica fazia de Corinto uma passagem quase que obrigatória das pessoas que vinham da Ásia em direção a Europa, bem como faziam da cidade uma cidade de muita movimentação, e, como é sabido, com dois portos, locais que, habitualmente, possuíam antros de prostituição, o que ainda mais se intensificou na medida em que, em Corinto, se edificou um templo à deusa grega Afrodite, a deusa da fertilidade, a deusa do amor, cujo culto incluía a prostituição.

-A Corinto onde Paulo se estabeleceu, entre os anos 50 e 51, era uma colônia romana, construída sobre os escombros de uma antiga cidade grega, que tinha sido igualmente próspera, mas que havia sido destruída pelo cônsul Lúcio Múmio em 146 a.C. A ordem de reconstrução de Corinto foi de Júlio César (100-44 a.C.). Augusto, primeiro imperador romano, tornou Corinto a capital da província romana da Acaia.

-Mesmo antes da destruição pelos romanos e da sua reconstrução, Corinto, pela sua situação privilegiada, localizada no extremo ocidental do istmo entre a Grécia central e o Peloponeso (península do sul da Grécia), que a fazia controlar todas as rotas comerciais entre o norte da Grécia e o Peloponeso, foi uma cidade próspera e cosmopolita, ou seja, que atraía gente de todas as partes do mundo.

-Como se não bastasse, enquanto cidade grega, Corinto foi centro de adoração à deusa Afrodite, a “deusa do amor”, de tal sorte que logo ali se estabeleceram, também, diversos cultos a deuses de fertilidade, de tal modo que a cidade era conhecida pelo número de “prostitutas cultuais”.

O historiador e geógrafo grego Estrabão (64/63 a.C. – 24d.C.) afirmou que, em Corinto, havia cerca de mil prostitutas cultuais na sua época. (Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/Greciaantiga.png Acesso em 24 fev. 2009.

-Diante do seu caráter cosmopolita, não era de admirar que Corinto tivesse uma colônia judaica considerável, o que permitiria ao apóstolo, enquanto aguardasse seus cooperadores, aproveitasse a ocasião para também ali pregar o Evangelho.

-Chegando a Corinto, como era de se esperar, o apóstolo vai a sinagoga, como sempre fazia, a fim de pregar o Evangelho aos judeus. Ali conhece o casal Áquila e Priscila, que haviam recém-chegados de Roma, pois o imperador Cláudio expulsara os judeus da capital do Império.

-Este casal de judeus havia se estabelecido em Corinto e, diante da expulsão de Roma, tinham de arrumar um modo de sobrevivência nessa cidade e passaram a fazer tendas.

Paulo tinha o mesmo ofício que eles e, desta maneira, como certamente seus recursos estavam se esvaindo, uma vez que, com suas consequentes fugas e itinerário imprevisto, não havia como seja a igreja de Antioquia, seja a igreja de Filipos lhe ajudarem financeiramente, viu o apóstolo a oportunidade de ter algum ganho enquanto não chegassem seus cooperadores Silas e Timóteo (At.18:3).

-Embora tivesse consciência de seu papel de pregador, doutor e apóstolo dos gentios, de que estava comissionado pelo Senhor para efetuar esta missão, Paulo não ficava a depender das igrejas para realizar a sua tarefa, algo bem diferente do que vemos ocorrer hoje em dia.

-É evidente que é dever das igrejas que enviam missionários sustentá-los financeiramente e a suas famílias, para que possam, em tempo integral, fazer a obra para a qual foram chamados por Deus, mas, em situações especiais, que fogem ao controle das pessoas, o missionário deve tomar as devidas providências para ter o seu sustento e de sua família, e estas providências são a de arrumar trabalho, pois este é o meio pelo qual o Senhor determina que devamos sobreviver enquanto estivermos nesta Terra (Gn.3:17-19; I Ts.3:10).

-Assim também procederam os missionários pioneiros das Assembleias de Deus, Daniel Berg (1884-1963) e Gunnar Vingren (1879-1933).

Ao chegarem a Belém/PA, Berg foi trabalhar numa fundição, enquanto Vingren foi aprender português, pagando as aulas com o salário de Berg, e ensinando Berg o idioma depois que seu companheiro voltava do trabalho.

-Aos sábados, Paulo ia a sinagoga e ali pregava o Evangelho tanto aos judeus quanto aos gentios (At.18:4). O apóstolo mostrava, assim, que o fato de ter passado a trabalhar não o desviara do seu foco missionário, mas o adaptou às necessidades do momento.

-Este estado de coisas perdurou até a chegada de Silas e Timóteo a Corinto. Com a chegada de seus cooperadores, o apóstolo não deixou de trabalhar, mas, como tinha por objetivo retornar a Tessalônica, resolveu intensificar a sua pregação aos judeus, mostrando-lhes que Jesus era o Cristo (At.18:5).

-O que se verifica aqui é que, ante este auditório, Paulo não se utilizou da “sublimidade de palavras” de que se utilizara em Atenas para os filósofos e os areopagitas, sendo objetivo em sua mensagem, mostrando a Cristo e Este, crucificado (I Co.2:1,2).

-A reação dos judeus não se fez por demorar. Os judeus passaram a blasfemar e a resistir à pregação de Paulo, a ponto de o apóstolo ter sacudido suas vestes e dito que estava limpo do sangue deles, dizendo que agora partiria para pregar o Evangelho aos gentios.

-Como não mais podia usar a sinagoga, passou a pregar na casa de Tito Justo, que havia se convertido, servindo a Deus, e cuja casa estava junto da sinagoga. Apesar desta reação dos judeus contra o apóstolo, Crispo, o principal da sinagoga, converteu-se com sua família, assim como muitos gentios, tendo, então, todos sido batizados e se formado uma igreja local (At.18:7,8).

-Antes que Paulo pensasse em deixar Corinto para partir para Tessalônica, como era a sua intenção, o Senhor, em visão, manda que o apóstolo permanecesse naquela cidade e continuasse a pregar o Evangelho, porque tinha muito povo para salvar ali (At.18:9,10).

-Mais uma vez, o apóstolo compreendia que o nascido do Espírito não sabe donde vem nem para onde vai, porque o vento assopra onde quer (Jo.3:8). Pensando que deveria retornar a Tessalônica, a fim de complementar seu trabalho evangelístico que havia sido interrompido, era surpreendido com a ordem do Senhor para que pastoreasse uma igreja, a igreja de Corinto.

-Paulo, que, aos coríntios, mesmo, escreveria que fora chamado para evangelizar e não para batizar (I Co.1:17), assumia agora o pastorado daquela igreja e ali ficaria por um ano e seis meses, ensinando-lhes a Palavra de Deus (At.18:11).

-Paulo recebia, assim, mais um dom ministerial: era mestre ou doutor, tanto que ensinara os primeiros crentes de Antioquia (At.11:25,26); era apóstolo, chamado pelo Espírito Santo para tanto em Antioquia (At.13:2,3); era evangelista, pois pregara o Evangelho em Atenas, sem ali ter formado igreja (At.17:18) e agora, tornava-se pastor da igreja que ele mesmo havia acabado de formar em Corinto.

II – PAULO, PASTOR DE CORINTO

-Diante da ordem do Senhor, Paulo nada teve que fazer senão abandonar os planos de voltar a Tessalônica e iniciar o pastoreio daquela igreja local.

-A ordem do Senhor era clara: Paulo deveria falar e não se calar, porque Ele seria com o apóstolo e ninguém lançaria mão dele nem lhe faria mal, porque o Senhor tinha muito povo naquela cidade (At.18:9,10).

-Paulo havia passado por duas experiências traumáticas por causa da perseguição. Tanto em Tessalônica quanto em Bereia não tinha podido fazer, como fizera com Barnabé na primeira viagem missionária e em Filipos, no início da segunda viagem missionária, que era pregar o Evangelho e estruturar uma igreja local entre os convertidos, o que exigia, além da pregação, confirmada ou precedida de sinais, prodígios e maravilhas, o discipulado e a organização da igreja, com a separação de diáconos e presbíteros.

-Conquanto em Filipos não se tenha notícia de que isto se tenha feito, como Lucas narra tenha ocorrido em todas as igrejas abertas na primeira viagem missionária (At.14:23), embora tenha tido de sair antes do que pudesse prever, Paulo, em Filipos, não saiu totalmente às pressas, o que dá a entender que pôde, ainda que precariamente, deixar a igreja organizada e discipulada, até porque, mesmo tendo as autoridades pedido que se retirasse da cidade, estava ele a ostentar a condição de cidadão romano, podendo, pois, demorar um pouco para atendê-las (At.16:39,40).

-Agora, o Senhor, que conhece o que há no coração do homem (I Sm.16:7; Jo.2:24,25), na mesma hora em que manda o apóstolo permanecer em Corinto, tranquiliza seu coração, ao garantir que, ao contrário que ocorrera em Tessalônica e em Bereia, ninguém lançaria mão do apóstolo nem lhe faria mal.

Cessava ali a permissão divina para o êxito da resistência dos inimigos do Evangelho à permanência do apóstolo nas cidades da Macedônia, porque o Senhor tinha muita gente para salvar em Corinto, que era a capital da província romana da Acaia.

-Como podemos perceber, o objetivo do Senhor era levar Paulo a Corinto e, para tanto, permitira que os opositores prevalecessem em Tessalônica e em Bereia, o que obrigou o apóstolo a ir para Atenas, onde também Jesus tinha o propósito de converter pessoas.

-Agora, Paulo, que fora a Corinto pensando apenas como um lugar de passagem para poder retornar à Macedônia, ficava a saber que o propósito do Senhor era salvar muita gente ali.

-Corinto era um lugar improvável para que o Senhor tivesse muita gente para salvar. Como já se disse, era um antro de imoralidade sexual, tanto que, naquela época, havia a palavra “corintianizar” (do grego korinthiazesthai)

“…um termo histórico que significava viver de maneira imoral, devassa ou licenciosa, praticando luxúria desenfreada.

A expressão surgiu na Grécia Antiga como referência à reputação da cidade de Corinto, conhecida pela adoração a Afrodite, prostituição cultual e riqueza…” (Corintianizar. IA do Google. Pesquisa feita em 04 maio 2026).

-Se até os gentios consideravam a cidade de Corinto devassa e imoral, como imaginar que ali o Senhor teria muito povo naquele lugar? Entretanto, Paulo nada questionou, tendo simplesmente obedecido ao Senhor e ficado ali.

-Entretanto, sabendo como era o povo da cidade, Paulo tomou, de pronto, uma decisão, a de continuar trabalhando fazendo tendas, para que não fosse pesado aos irmãos e para que também, conhecendo como era a vida naquela cidade, não desse motivos para murmurações ou desconfianças (II Co.11:7-9).

-A ordem do Senhor, também, era para que Paulo falasse e não se calasse. O apóstolo deveria dar ênfase à evangelização, era este o seu papel como primeiro pastor daquela igreja. Bem por isso, iria ele, na primeira carta àquela igreja, anos depois, dizer que seu chamado era evangelizar e não batizar (I Co.1:17).

-Temos aqui uma preciosa lição: o pastor deve saber exatamente qual o propósito do Senhor quando lhe dá uma igreja para dirigir, qual o papel que ele deve desempenhar enquanto estiver à frente daquele povo, quais são as prioridades divinas para a sua gestão.

-É imprescindível que a pessoa que está a frente de uma igreja local tenha sido chamada para ali estar, não só ter o dom ministerial de pastor, mas ter sido designada por Cristo, a cabeça da Igreja, para ocupar aquela posição.

-Ainda que, em nossos dias, este ponto tenha deixado de ter a devida ênfase, pois muitos líderes eclesiásticos estão a achar que a igreja lhes pertence e não a Jesus, o fato é que há ainda alguma atenção a este ponto.

-No entanto, não basta que a pessoa tenha sido designada pelo Senhor para presidir um determinado povo. Torna-se necessário que aquela pessoa faça aquilo que é do desejo do Senhor, pois não tem, como muitos pensam, “autonomia administrativa”, “autonomia de gestão”.

-Vemos, muito claramente, que o Senhor Jesus disse a Paulo que ele deveria falar e não se calar e que o objetivo de sua gestão em Corinto era ganhar almas: “tenho muito povo nesta cidade” (At.18:10).

-Paulo, com afinco, cumpriu esta ordem do Senhor, tanto que nada propôs saber entre eles, senão a Cristo e Este, crucificado (I Co.2:2).

-Para tanto, preparou-se devidamente, porque pregar não é apenas falar, mas anunciar o Evangelho exige fraqueza, temor e grande tremor. O apóstolo buscava a presença de Deus, sabia que ele mesmo não tinha

como pregar a Palavra, que nada podemos fazer sem Jesus (Jo.15:5 “in fine”) e, por isso, reconhecia a sua fragilidade, a sua dependência do Espírito Santo.

-Por isso mesmo, não se fiava na sua eloquência, no seu conhecimento, tanto das Escrituras quanto da retórica, o que chamou de “palavras persuasivas de sabedoria humana”, mas procurava, sobretudo, “demonstração do Espírito e de poder” (I Co.2:4), tudo para que a fé dos coríntios “não se apoiasse em sabedoria dos homens, mas no poder de Deus” (I Co.2:5).

-É triste vermos que a nossa denominação, que se iniciou desta mesma forma, como nos atestam a história, com missionários e pastores que, com fraqueza, temor e grande tremor, atuaram com demonstração do Espírito e de poder e tornaram as Assembleias de Deus a maior denominação evangélica do Brasil, hoje esteja a ter outro rumo.

-Não são poucos aqueles que se sentem fortes, que respaldam suas pregações no conhecimento humano, na experiência de vida, que não mais buscam a presença de Deus para elaborar seus sermões, mas que estão a acessar a inteligência artificial, os sermonários, o material à disposição em livros e na internet, mas que não mais oram nem tampouco jejuam para receberem mensagem diretamente dos céus.

-O resultado disto é que temos pregações espiritualmente vazias, que, não por acaso, são acompanhadas de uma espetacularização ou teatralização que procuram compensar esta vaidade e que são incapazes de ganhar almas para o Senhor Jesus e, não raras vezes, causam escândalos e demais prejuízos espirituais.

-Ao assim agir, Paulo mostra que se comportou como um homem espiritual, um homem que é dirigido pelo Espírito Santo, um homem que tem a mente de Cristo, que tudo discerne e de quem ninguém é discernido (I Co.2:12-16), posição que é fundamental para quem preside uma igreja local, presidência que deve ser feita com cuidado (Rm.12:8).

-Como Paulo estava à frente da igreja, sendo seu presidente (e “presidente” significa exatamente “aquele que está à frente), era uma referência para toda a membresia, um exemplo a ser seguido, tanto que, anos depois, ao escrever aos coríntios, pôde dizer para que eles o imitassem, já que ele imitava a Cristo (I Co.11:1).

-Como costumava dizer o saudoso pastor de Belo Horizonte/MG, Anselmo Silvestre (1916-2012): “tudo tem de começar pelo altar”. Como Paulo era um homem que buscava a presença de Deus, que somente pregava com demonstração do Espírito e do poder, a igreja de Corinto valorizou a busca do poder de Deus, tanto que era uma igreja nitidamente pentecostal, onde nenhum dom espiritual faltava (I Co.1:4-7).

-O que temos visto é que, ante a leniência espiritual de muitos pastores, a igreja também passa a ter um torpor, fazendo com que muitos passem a dormir espiritualmente, fazendo das igrejas locais um berço esplêndido e não mais uma cidadela na luta contra o mal. Que Deus tenha piedade de nós!

-Como ter uma igreja orante, se o pastor não ora? Como fazer reuniões de consagração, vigílias de oração, se o pastor não participa nem incentiva ou estimula tais ajuntamentos?

-Ganhar almas não é apenas pregar o Evangelho e as pessoas se converterem a Jesus, por terem ouvido a pregação, crido na Palavra pregada e invocado o nome do Senhor (Rm.10:13-15; Ef.1:13), mas também promover o discipulado após a pregação, fazendo com que as pessoas conheçam os rudimentos da doutrina de Cristo (At.11:26; Hb.6:1-3), a fim de que possam tais pessoas ser batizadas nas águas (Mt.28:19).

-Foi a falta da completude deste trabalho em Tessalônica, interrompido com a perseguição, que fez com que Paulo quisesse retornar àquela cidade (I Ts.2:17).

-Paulo, sabedor disto, não só falou e não se calou, como, durante todo o tempo em que esteve pastoreando a igreja em Corinto, ensinou entre os irmãos a Palavra de Deus (At.18:11).

-Tendo tido aquela experiência traumática em Tessalônica e em Bereia, procurou se esmerar em discipular os coríntios, tanto que fez questão de afirmar, ao escrever sua primeira carta àquela igreja, que os havia criado com “leite” (I Co.3:2),

expressão que nos mostra que seu ensino foi o discipulado, o ensino dos primeiros rudimentos das palavras de Deus (Hb.5:12) ou rudimentos da doutrina de Cristo (Hb.6:1), como chama o escritor aos hebreus (e aqui temos mais um motivo para achar que o autor daquela carta é mesmo Paulo), que também denominou tal ensino de “leite”, expressão utilizada por Pedro, que porém denomina tal ensino de “leite racional” (I Pe.2:2).

-O pastor é, necessariamente, um mestre ou doutor. Tanto assim é que, na relação dos dons ministeriais em Ef.4:11, ao se falar nos dons de “pastores e mestres”, não há entre eles a expressão “uns” ou “e outros” que aparece na apresentação dos demais dons, mostrando que todo pastor é mestre, embora todo mestre não seja necessariamente pastor.

-Em perfeita harmonia com este texto, temos I Tm.3:2, quando Paulo diz a Timóteo que um dos requisitos para alguém ser separado para o episcopado (e, em o Novo Testamento, pastor, bispo, ancião e presbítero são expressões para a mesma atividade eclesiástica) é ser apto para ensinar, ou seja, não pode ser guindado ao pastorado, ao ministério pastoral quem não seja ensinador.

-A Tito, Paulo diz que deveria escolher presbíteros entre pessoas que retivessem firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes (Tt.1:9), ou seja, alguém que não só conheça a doutrina, como saiba expô-la e defendê-la.

-Paulo manda, por algumas vezes, que Timóteo, no pastoreio da igreja em Éfeso, ensine a membresia (I Tm.4:13,16), como que Tito, que deveria cuidar das igrejas em Creta, deveria na doutrina mostrar incorrupção, gravidade, sinceridade, ou seja, deveria ser alguém que não só soubesse ensinar mas vivesse de acordo com o ensino que desse (Tt.2:7).

-Lamentavelmente, nos dias hodiernos, não faltam pastores que não têm qualquer condição alguma de o ser, porque não são aptos a ensinar, não conhecem a sã doutrina, não raras vezes sendo analfabetos bíblicos, o que têm contribuído muito para a disseminação de heresias e para o desvio doutrinário de muitos.

-Lembremos, ainda, que somente pode ensinar quem está disposto a aprender. Paulo era um grande ensinador, porque sempre foi um discípulo, alguém que estava disposto a estudar e aprender.

-Ele, com todo seu conhecimento, dizia-se imitador de Jesus Cristo (I Co.11:1), Seu aprendiz (I Co.11:23), sendo um leitor ininterrupto das Escrituras, a ponto de pedir a Timóteo, mesmo sabendo que seria morto por César, para trazer-lhe para a prisão de onde jamais sairia, livros, principalmente os pergaminhos, ou seja, as Escrituras Sagradas (II Tm.4:13).

-Este gesto de Paulo mostra que ele não apenas persistia em ler para exortar e ensinar, como recomendou a Timóteo (I Tm.4:13), mas que também sabia que o aprendizado era absolutamente necessário para sua própria saúde e vida espirituais, como, aliás, havia dito o Senhor Jesus, quando afirmou que quem aprende d’Ele encontra descanso para a sua alma (Mt.11:29,30).

-Assim, um pastor que não ensina é um pastor que não aprende e, se não aprende, não pode imitar a Cristo, não pode sequer ter descanso na sua alma e, como tal, não tem a mínima condição para apascentar o rebanho do Senhor.

-A propósito, a figura do pastor para aquele que cuida da igreja local obriga-nos a observar que a principal tarefa do pastor é a alimentação do rebanho, tanto que Davi, ele mesmo um pastor de ovelhas (I Sm.16:11), disse que o Senhor era o seu pastor e, como tal, fazia-o deitar em verdes pastos e o guia mansamente a águas tranquilas (Sl.23:2).

-É função do pastor, pois, alimentar os rebanhos e o que é o alimento senão a Palavra que sai da boca de Deus (Mt.4:4; Lc.4:4). Que é a água, senão a Palavra que santifica a Igreja (Ef.5:25,26)? Pensemos nisto!

-Paulo teve grande dificuldade para ensinar aquela igreja, mas não deixou de fazê-lo. Anos depois, ele lembrará aqueles crentes que eles eram “meninos em Cristo”, até porque eram novos convertidos (I Co.3:1,2), ainda que, quando escreve sua carta, já passados cinco anos, a situação não tivesse melhorado (I Co.3:3).

-Embora tivessem se tornado pessoas que buscavam a Deus e recebiam, assim, tanto o batismo com o Espírito Santo quanto os dons espirituais, eram pessoas que ainda não haviam crescido espiritualmente, que não demonstravam experiência na palavra da justiça (Hb.5:13),

porque ainda se acham demasiadamente envolvidos com as coisas desta vida, que não haviam ainda negado totalmente o seu ego (I Co.3:3), o velho homem (Rm.6:6; Ef.4:22; Cl.3:9) davam ainda muita vazão à carne, daí porque serem chamados por Paulo de “carnais” (I Co.3:3).

-Outro ponto importante no pastoreio de Paulo diz respeito ao ensino sobre a graça de Deus. Quando os judeus foram acusá-lo perante o procônsul da Acaia, Gálio, disseram que o apóstolo persuadia os homens as servir a Deus contra a lei (At.18:13).

-Esta acusação dois judeus mostra-nos que, a exemplo que falará aos anciãos de Éfeso, anos depois, Paulo dava testemunho do evangelho da graça de Deus (At.20:24), ou seja, o apóstolo revelava o mistério de Cristo, ou seja, que o sangue de Cristo trouxe tanto judeus quanto gentios para perto de Deus, reconciliou o Senhor com a humanidade em um só corpo, a Igreja, e que tanto judeus quanto gentios participam da promessa em Cristo pelo Evangelho e que, portanto, não se faz mais necessário tornar-se judeu e cumprir a lei para se ter a salvação (Ef.2:13-18; 3:6).

-Não é por outro motivo que o título da nossa lição é a “suficiência da graça na cidade de Corinto”, porquanto, em Corinto, Paulo pregou que a salvação se dá pela fé em Jesus e que não se tinha qualquer necessidade de se submeter à lei de Moisés ou de se pertencer ao povo judeu, mediante a circuncisão, para que se alcançasse a vida eterna.

-Paulo pastoreou uma igreja que era formada tanto por judeus quanto por gentios desde o seu início, como já vimos, e, enquanto Paulo ali esteve, não se teve espaço para que os judaizantes, que, mesmo após o concílio de Jerusalém, vinham perturbar os crentes gentios, exigindo-lhes a circuncisão.

-Verdade é que, após a sua partida, criou-se, entre os coríntios, o chamado “partido de Cefas (Pedro)” (I Co.1:12; 3:22), que não parece ter tido muita força, que teria sido fomentado por judaizantes.

-Entretanto, a igreja de Corinto não foi grandemente influenciada pelos judaizantes, tanto que, na sua primeira carta aos coríntios, Paulo trata de várias questões surgidas mas nenhuma delas disse respeito à observância da lei, prova de que se tratou de uma igreja que bem entendeu o significado da graça de Deus e que seguia o q
ue havia sido decidido no Concílio de Jerusalém a respeito.

-Paulo, ao escrever a sua primeira carta aos coríntios, faz questão de ressaltar que se tratava de uma igreja formada por “santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso” (I Co.1:2), a mostrar que, em sua ampla maioria, os crentes de Corinto tinham a Cristo como o único, exclusivo e suficiente meio de salvação.

-Durante o pastoreio da igreja em Corinto, o apóstolo, ainda preocupado com os crentes de Tessalônica, vendo que não havia como se deslocar para lá para terminar o discipulado interrompido, acabou por escrever uma epístola àquela igreja, a fim de dissipar algumas dúvidas e fortalecê-los na fé, diante do que lhe contara Timóteo, que fora mandado para lá por ele, quando Paulo ainda estava em Atenas (I Ts.3:1,2).

-O Senhor, então, mostra a Paulo que não era mesmo Seu desejo que ele voltasse a Tessalônica e, estando no pastoreio da igreja em Corinto, podia muito bem complementar o seu trabalho de discipulado interrompido, não presencialmente, mas através de uma epístola.

-Na verdade, Cristo estava transformando o apóstolo Paulo não apenas no ensinador das igrejas locais que estava a abrir, mas no ensinador da Igreja em todos os tempos, por meio de suas epístolas que, inspiradas pelo Espírito Santo, seriam também Escrituras Sagradas (II Pe.3:15,16).

-O Senhor faz muito mais além daquilo que pedimos ou pensamos (Ef.3:20) e, enquanto Paulo pedia ao Senhor para voltar para Tessalônica para poder completar o discipulado interrompido, Jesus queria que Paulo não só ensinasse os tessalonicenses, mas os crentes de toda a dispensação da graça e que desse início à complementação da Bíblia Sagrada, com a chamada “quinta onda de inspiração”, que é o Novo Testamento.

-Paulo não somente escreveria uma, mas, sim, duas epístolas aos tessalonicenses, enquanto estava pastoreando a igreja em Corinto, os dois primeiros livros do Novo Testamento segundo entendem boa parte dos estudiosos.

III – A PARTIDA DE PAULO

-O Senhor havia sido claro para Paulo: Jesus seria com o apóstolo e ninguém lançaria mal dele e ninguém lhe faria mal, porque havia muito povo em Corinto para Cristo.

-Entretanto, quando Gálio assumiu o cargo de procônsul da província da Acaia, ou seja, passou a governar a província romana da Acaia, cuja capital era Corinto, os judeus levantaram-se concordemente contra Paulo e o levaram ao tribunal (At.18:12).

-Vemos, com clarividência, que o período de um ano e seis meses em que Paulo esteve em Corinto, o Senhor não permitiu que os judeus pudessem sequer apresentar uma acusação contra o apóstolo perante as autoridades romanas.

-Durante todo o tempo, os judeus, que haviam expulsado Paulo da sinagoga e que tiveram o desprazer de ver a conversão de Crispo, o principal da sinagoga, certamente não descansavam em tentar acabar com a igreja coríntia.

-Este levante dos judeus inconversos contra a Igreja não era uma característica apenas dos dias apostólicos. Ao longo de toda a história da Igreja, os judeus serão grandes inimigos do Evangelho, porque rejeitaram Jesus e assim se manterão até que o remanescente seja salvo ao término da Grande Tribulação (Rm.11:7-11,25,26; II Co.3:13-16).

-Entretanto, agora, um ano e seis meses depois que Paulo estava em Corinto, os judeus conseguiram, enfim, levar Paulo ao tribunal. Antes, porém, que Paulo pudesse se defender, o procônsul disse que a questão trazida a seu conhecimento não era da alçada do governo romano, pois se tratava de uma questão religiosa (At.18:15,16).

-Roma não se imiscuía neste tipo de assunto, porque fazia parte da política imperial deixar o assunto religioso a critério de cada povo dominado, contanto que se concordasse em cultuar a César, o chamado “culto do imperador”.

-Gálio expulsou a todos do tribunal e, então, agarraram a Sóstenes, principal da sinagoga e o feriram diante do tribunal, mas nem isto fez Gálio mudar de atitude (At.18:17).

-Tudo indica que os próprios judeus causaram este tumulto e feriram o principal da sinagoga, que deve ter sido o mentor de todo aquele movimento, para poderem incriminar os cristãos e dizerem que eles eram

rebeldes ou perturbadores da ordem pública, para ver se, com isto, eles fizessem com que Gálio alterasse seu entendimento e considerasse Paulo uma ameaça ao governo romano e não um dissidente religioso, mas isto não aconteceu.

-Paulo viu nesta circunstância um sinal divino de que terminara o seu tempo naquela cidade. Ninguém havia feito mal a Paulo, mas, ao contrário do que acontecera até então, haviam lançado mão dele, e, com isso, o Senhor mostrava ao apóstolo que já haviam se convertido as pessoas mencionadas por Cristo ao apóstolo naquela visão.

-Precisamos ser atentos aos sinais que Deus nos dá, e isto sempre ocorrerá se, a exemplo de Paulo, tivermos uma vida firmada na fraqueza, temor e grande temor ao Senhor.

-O apóstolo mostrava, assim, ser realmente um homem espiritual, que tudo discerne e de ninguém é discernido (II Co.2:12-16), algo indispensável para quem serve a Jesus Cristo. Precisamos ter uma vida de comunhão com o Senhor de modo a termos sabedoria, a termos intuição espiritual para sermos sempre dirigidos pelo Espírito Santo.

-Paulo, então, sabendo que seu tempo em Corinto havia findado, demorou ainda um tempo, tomando as devidas providências para manter a igreja estruturada e operante, despedindo-se dos irmãos, navegando para a Síria, acompanhado de Áquila e Priscila (At.18:18), a nos comprovar que, durante todo o tempo em que esteve em Corinto, teve a companhia desse casal, vivendo, pois, do seu trabalho de fazer tendas, não recebendo salário da igreja de Corinto (II Co.11:8,9).

-É interessante que, em Cencreia, o porto de Corinto no Mar Egeu, Paulo rapou a cabeça, pois tinha voto prova de que, ao contrário do que diziam seus acusadores, não havia abandonado os costumes judaicos, ainda que, corretamente, dissesse e ensinasse que tais práticas nada significavam no serviço a Deus, não passando de ações culturais (At.18:18).

-Que voto fizera o apóstolo Paulo? Por ter rapado a cabeça, o voto do nazireado (Nm.6:18). Percebemos, pois, que, num determinado instante do seu pastorado em Corinto, resolveu o apóstolo separar-se mais para Deus, fazer uma consagração, intensificar sua comunhão com o Senhor e, para tanto, conforme o costume judaico e para dar esta indicação ao povo, fez o voto do nazireado.

-Conforme a tradição judaica vigente, o nazireu podia rapar a cabeça antes de ir para o templo em Jerusalém, devendo, porém, levar os cabelos rapados para lá serem queimados e vemos que foi exatamente o que fez o apóstolo, que, ao partir de Corinto, foi para Jerusalém (At.18:22).

OBS: “…Se ele já tivesse cortado o cabelo antes de chegar a Jerusalém, ainda assim teria que levá-lo consigo e jogá-lo no fogo debaixo do caldeirão; portanto, quer entendamos ou não a passagem em Atos 18:18 como significando que o próprio Paulo fez um voto, ele poderia ter cortado o cabelo em Cencreia (Atos 18:18) e levado-o para Jerusalém.…” (EDERSHEIM, Alfred. O Templo: seu ministério e serviços no tempo de Jesus Cristo. Trad. de Mercedes De La Rosa. Grand Rapids/MI-EUA: Editorial Portavoz – Kregel Publications, 1997, p.430) (tradução de texto em espanhol pelo Tradutor Google).

-“…Em Cencreia, ligada a Corinto e onde se localizava o porto tilizado pelos corintios para viajar por mar, Paulo ou Áquila (o original grego não determina quem) raspou a cabeça para se desobrigar do voto de nazireu: Tendo rapado a cabeça em Cencreia, porque tinha voto (v. 18). Em tais casos, os que moravam na Judeia eram obrigados a fazer isso no templo.

Mas os que moravam em outros países poderiam fazê-lo em outros lugares. A cabeça do nazireu era raspada quando sua consagração era acidentalmente contaminada; e, nesse caso, ele tinha de começar de novo, ou no dia em que se cumprirem os dias do seu nazireado (Nm 6.9,13,18).

Provavelmente, essa foi a situação aqui relatada. Certos estudiosos são mais propensos a considerar que se tratava de Áquila, um judeu (v. 2) que talvez retivesse mais dos ritos judaicos do que convinha. Mas não vejo problema em dizer o mesmo em relação a Paulo, pois a respeito dele temos de admitir a mesma coisa (cap. 21.24,26), não só em aquiescência temporária aos judeus, a quem se fez como judeu para os judeus, para ganhar os judeus (1 Co 9.20), mas devido ao voto de nazireu.

Esse voto fazia parte da lei cerimonial que logo desapareceria, mas ainda possuía significação moral e religiosa. Era, então, adequado que fosse a última de todas as cerimonias judaicas a acabar. Os nazireus estavam no mesmo nível que os profetas (Am 2.11) e faziam parte importante da glória de Israel (Lm 4.7).

Por conseguinte, não era estranho que Paulo se prendesse por certo tempo ao voto de nazireu, abstendo-se de vinho e bebida forte e não cortando o cabelo, para se recomendar aos judeus. E desse voto que ele agora se desobriga.…” (HENRY, Matthew. Comentário bíblico: Atos a Apocalipse. Edição completa. Trad. de Luiz Aron, Valdemar Kroker e Haroldo Janzen. Rio de Janeiro; CPAD, 2006, p.202).

-Paulo partiu para Éfeso, onde deixou o casal Áquila e Priscila e, como estava na cidade, então a segunda maior cidade do Império Romano, não perdeu a oportunidade de ir à sinagoga e disputar com os judeus (At.18:19). Ele tinha a obrigação de pregar o Evangelho e ai dele se não o fizesse (I Co.9:16).

-Apesar dos pedidos para que permanecesse em Éfeso, Paulo não o fez, pois, como dissemos, havia feito voto e precisava ir a Jerusalém e, diante do seu discernimento espiritual, havia compreendido que havia terminado a sua segunda viagem missionária, devendo, pois, retornar à igreja que o enviara, Antioquia, pois todo missionário deve prestar contas periodicamente de suas atividades à igreja que o enviou e da qual continuava sendo membro.

-Mesmo assim, Paulo não descartou voltar a Éfeso, se fosse essa a vontade de Deus, como acabou sendo (At.18:21). Ao assim afirmar àqueles judeus de Éfeso, o apóstolo mostrara que aprendera a ser como o nascido do Espírito, não mais elaborando planos próprios, aprendendo, assim, a lição dada pelo Senhor quando de seu propósito para voltar a Tessalônica, obsessão que lhe havia tomado boa parte do tempo dessa segunda viagem missionária.

-De Éfeso foi a Cesareia e, dali, foi a Jerusalém, cumprir o seu voto e, então, retornou a Antioquia (At.18:22).

-Terminava assim a gestão de Paulo frente à igreja de Corinto, como também a sua segunda viagem missionária, retornando ele para a Síria, cuja capital era Antioquia, a igreja que o havia enviado.

Colaboração para o Portal Escola Dominical – Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://portalebd.org.br/classes/adultos/12567-licao-6-a-suficiencia-da-graca-na-cidade-de-corinto-i

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