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LIÇÃO Nº 9 – CORAGEM PARA TESTEMUNHAR: PAULO DIANTE DA MULTIDÃO

INTRODUÇÃO

– Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, estudaremos a prisão de Paulo em Jerusalém.

– Paulo não temeu pregar o Evangelho em Jerusalém.

I – A VIAGEM DE PAULO DE MILETO A JERUSALÉM

– Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, estudaremos a prisão de Paulo em Jerusalém.

– A narrativa da prisão de Paulo em Jerusalém bem como dos fatos que se sucederam até sua ida a Roma ganham um contorno todo diferenciado no livro de Atos, pois Lucas, o autor do livro, participou de todos estes episódios.

– Com efeito, a partir de At.20:6, o médico amado se inclui em a narrativa, passando a ser narrador-participante ou narrador-personagem, de modo que passa a contar a história não apenas depois de ter recebido as informações dos que presenciaram os fatos (Lc.1:2), mas como tendo deles participado.

– A narrativa do capítulo 21 de Atos, a exemplo do capítulo 27, a ser estudado em lição posterior, apresenta, assim, contornos de dramaticidade, pois são circunstâncias de elevado conteúdo emocional, quais sejam, a tentativa de homicídio e a consequente prisão libertadora de Paulo no templo e a terrível viagem até Roma, com naufrágio e igualmente com risco de vida, e tendo Lucas de tudo isto participado, impossível que não se tenha escrito algo dramático, de forte teor emocional.

– Lucas inicia este capítulo (lembrando que a divisão em capítulos somente se deu por Stephen Langton em 1205), dizendo que, depois de ter se despedido dos obreiros de Éfeso em Mileto, Paulo e sua comitiva embarcaram e foram até Cós e, no dia seguinte, a Rodes, de onde passaram a Pátara, onde encontraram um navio que ia até a Fenícia.

– Lucas, então, dentro da sua narrativa minudente, que foi até objeto de estudo de muitos, que afirmam ser a sua obra a mais minuciosa da Antiguidade e cuja veracidade pode ser cabalmente comprovada, diz que o navio, já à vista de Chipre, deixando-a à esquerda, navegou até a Síria, tendo chegado a Tiro, já que o navio tinha de ser descarregado ali.

– Em Tiro, a comitiva do apóstolo encontrou com alguns discípulos, tendo com eles ficado sete dias. Na ocasião, os discípulos diziam, pelo Espírito, que Paulo não subisse a Jerusalém (At.21:3).

– Notamos aqui a espiritualidade dos crentes da igreja primitiva. Tiro, uma cidade da Fenícia (região do atual Líbano), naturalmente devia ter uma pequena igreja. Foram encontrados apenas sete discípulos, mas a ação do Espírito Santo na vida deles era intensa.

Mais uma vez, vemos a atuação dos dons espirituais e a predição de tudo quanto o apóstolo haveria de passar em Jerusalém, o que tinha já acontecido em todas as cidades pelas quais Paulo tinha passado depois que deixara a Grécia com disposição de ir para Jerusalém (At.20:23).

– Ademais, também notamos que, quando havia encontro de crentes, dedicavam-se eles prioritariamente a adorar em Deus em conjunto, seja nos locais de culto, seja nas casas. Evidentemente que havia momentos de confraternização, mas não era essa a prioridade.

– Se perguntarmos aos irmãos mais antigos de nossas igrejas locais, também chegaremos à conclusão de que esta era a conduta observada pela nossa denominação há décadas atrás. Nas visitas e encontros entre irmãos, sempre havia um momento para oração conjunta e para reflexão de um texto bíblico.

– Hoje em dia, porém, para tristeza nossa, o que se tem é apenas lazer, confraternização, momento algum de oração ou leitura bíblica.

Realização de cultos então, nem pensar! Há muita diversão e nada mais. Até os “retiros espirituais” são mais “momentos de lazer” do que qualquer outra coisa, a demonstrar o baixíssimo nível espiritual de quase todos os que cristãos se dizem ser, aqueles quase todos que sofrem do esfriamento do amor (Mt.24:12 NAA). Mudemos este quadro enquanto é tempo!

– Depois de uma semana juntos, a comitiva e os irmãos de Tiro oraram juntos, fora da cidade, na praia, antes que Paulo e os seus embarcassem, a confirmar a prioridade de adoração há pouco mencionada (At.21:5).

– Chegando a Ptolemaida, Paulo e sua comitiva encontraram-se com outros irmãos, tendo com eles ficado um dia, tendo, então, no dia seguinte, ido a Cesareia, onde foram até a casa de Filipe, o evangelista, um dos sete diáconos da igreja de Jerusalém (At.6:5), que levara o Evangelho até Samaria (At.8:5) e que se estabelecera em Cesareia após ter sido usado pelo Senhor para pregar o Evangelho ao mordomo-mor da rainha Candace (At.8:40).

– Filipe tinha sete filhas donzelas, que profetizavam. Paulo ali ficou muitos dias e chegou ali o profeta Ágabo que, tomando a cinta de Paulo, e ligando-se os seus próprios pés e mãos, disse que o dono da cinta seria entregue nas mãos dos gentios em Jerusalém (At.21:8-10).

– Diante desta profecia, toda a comitiva pediu a Paulo que não fosse para Jerusalém, assim como os irmãos de Cesareia, mas o apóstolo se manteve inabalado em seu propósito, dizendo que não estava pronto para ser preso, como mesmo para morrer pelo nome do Senhor Jesus (At.20:12,13).

– Alguns entendem que Paulo sofreu o que sofreu porque foi teimoso, porque não observou as advertências divinas, “pagando o preço por sua teimosia”. Não nos parece, porém, ser esta a melhor interpretação.

– O texto sagrado mostra que Paulo, em seu discurso com os obreiros de Éfeso em Mileto, disse que estava indo a Jerusalém por uma disposição do seu espírito (At.20:22). Sendo um homem espiritual, estando em plena comunhão com o Senhor, se o seu espírito o impulsionava para ir a Jerusalém, isto se dava porque era do agrado de Deus, pois, em um homem espiritual, o espírito está em comunhão com o Espírito Santo.

– Todas as revelações e profecias que se deram de cidade em cidade, durante a viagem de Paulo da Grécia até Jerusalém não diziam para que ele não fosse, mas apenas falavam de que ele sofria prisões e tribulações.

Deste modo, não se pode dizer que Paulo tenha sido desobediente ou mesmo teimoso. O Espírito Santo o estava preparando para as provações que enfrentaria, mas não alterou a disposição do apóstolo, que, como já dissemos, não contrariava a vontade do Senhor.

– Tanto assim é que, já preso em Jerusalém, depois de ter sido levado ao Sinédrio e de lá rapidamente retirado ante o tumulto criado, o próprio Senhor apareceu a Paulo dizendo que era da Sua vontade que testificasse em Roma (At.23:11), ou seja, há a confirmação que o plano estabelecido por Paulo desde quando estava em Éfeso (At.19:21) era precisamente o que Deus queria que ele fizesse.

– Os próprios irmãos que haviam testemunhado a mensagem de Ágabo foram desta conclusão pois, ante a reticência do apóstolo, aquietaram-se e disseram: “Faça-se a vontade do Senhor” (At.21:14).

– Temos aqui uma importante reflexão. O que deve dirigir as nossas atitudes é a vontade do Senhor. Se estamos indo para o céu, se desejamos a pátria celestial e a vida eterna, isto somente ocorrerá se fizermos a vontade de Deus, pois somente quem a faz permanece para sempre (I Jo.2:17).

– Esta realidade foi bem apreendida pelo poeta sacro Francisco Nogueira de Queiroz (1891-1983), no refrão do hino 229 da Harpa Cristã, de sua autoria: “Pra fazer a Tua vontade, quero de Ti mais poder; dá-me a Tua santidade, quero só pra Ti viver”.

Aqui, tem-se a nítida consciência de que estamos neste mundo para fazer a vontade do Senhor, que deve ser este o nosso norte, a nossa disposição e que, para tanto, precisamos do poder de Deus e de uma vida de santificação.

– Era este o desígnio do apóstolo. Pouco importava que, para fazer a vontade do Senhor, fosse ele morto, como tinha sido Estêvão, martírio que deixou em Paulo marcas indeléveis que o acompanharam durante todo o resto de sua vida. O importante era cumprir com alegria a carreira e o ministério que havia recebido do Senhor Jesus (At.20:24).

– De Cesareia, Paulo foi finalmente para Jerusalém, sendo acompanhado por Mnasom, natural de Chipre, discípulo antigo, com quem Paulo e sua comitiva iriam se hospedar (At.21:16).

– Paulo foi bem recebido pelos irmãos de Jerusalém, tendo, então, ido até a casa de Tiago, o irmão do Senhor, que era o pastor da igreja-mãe, ocasião em que todos os anciãos foram recepcioná-lo (At.21:18).

– Paulo, então, fez um relato do seu ministério (At.21:19), pois fazia cerca de três anos que não ia a Jerusalém, quando, depois de ter deixado Corinto, fora a Jerusalém para cumprir voto antes de ir para Antioquia (At.18:18,22).

– Tiago e os obreiros de Jerusalém, então, glorificaram a Deus por tudo o que ouviram, mas revelaram ao apóstolo os comentários que se faziam a seu respeito, de que ele estava a ensinar que os judeus que estavam entre os gentios se apartassem da lei de Moisés, não devendo se circuncidar nem seguir os mandamentos, sendo certo que havia milhares de crentes judeus que eram zelosos da lei (At.21:20,21).

– O corpo ministerial mostrava-se, assim, preocupado com a repercussão da chegada de Paulo entre os irmãos, querendo evitar contendas, diante dos maldosos e mentirosos comentários surgidos.

– Sabiam que tais comentários não correspondiam à verdade, até porque, na última vez que Paulo estivera em Jerusalém fora precisamente para cumprir voto, mostrando que mantinha zelo pela lei (At.18:18,22),.

– Entretanto, era preciso tomar alguma atitude que evitasse a contenda, porque quem preside deve fazê-lo com cuidado (Rm.12:8), evitar o escândalo (Rm.14), até porque os pastores têm de fortalecer os fracos, curar os doentes, ligar os quebrados, tornar a trazer os desgarrados, buscar os perdidos, não agindo com rigor ou dureza (Ez.34:4).

– Diante destas circunstâncias, a liderança toda se reuniu e, com franqueza, contou a situação a Paulo e lhe propôs uma solução, que ele acompanhasse quatro varões que haviam feito voto no templo, custeasse os gastos relativos ao voto e, quando os crentes soubessem que isto tinha acontecido, saberiam que não era verdade que Paulo estava a pregar contra a observância dos costumes judaicos, porque ele mesmo teria realizado um,

afastando, pois, a maledicência e fazendo com que, quando os crentes se reunissem, não houvesse qualquer contenda ou animosidade contra o apóstolo (At.21:24).

– Notemos que não se estava aqui a desfazer o que havia sido decidido no Concílio de Jerusalém, como bem fizeram questão de confirmar os obreiros da igreja-mãe (At.21:25). A discussão não era de que se devia observar a lei para ser salvo, mas que Paulo estaria a ensinar os judeus para abandonarem os seus costumes, tanto os da lei quanto da tradição, a renunciar a sua própria identidade cultural como povo.

– “…O Talmude registra que, nos dias do rei [macabeu, observação nossa] Alexandre Janeu [(130-76 a.C., rei de 103-76 a.C.), observação nossa], nada menos que 300 nazireus se apresentaram a Simeão, filho de Setaque.

Além disso, praticava-se uma espécie de comércio de boas obras, semelhante ao da Igreja de Roma antes da Reforma. Considerava-se meritório “cobrir” as despesas dos nazireus pobres, pagando o custo de seus sacrifícios.

O rei Agripa, ao chegar a Jerusalém, parece ter feito o mesmo para obter o favor popular. Uma motivação muito mais sagrada do que essa foi a que influenciou São Paulo (Atos 21:23ss) quando, para eliminar o preconceito contra os judeus cristãos, ele “cobriu as despesas” de quatro nazireus cristãos pobres e se uniu a eles, por assim dizer, em seu voto, assumindo algumas de suas obrigações, como certamente era permitido pela lei tradicional.…” (EDERSHEIM, Alfred. El templo: su ministerio y servicios en tiempos de Jesucristo. Trad. de Mercedes De La Rosa. Grand Rapids/MI-EUA: Editorial Portavoz, filial de Kregel Publications, 1997, p.425) (tradução do texto em espanhol pelo Tradutor Google).

– Paulo concordou com a sugestão, porque era imbuído deste mesmo sentimento pastoral. Poderia, se pensasse só em si e não nos outros, dizer que tudo aquilo era mentira, que fazia três anos havia ele próprio cumprido um voto no templo em Jerusalém, mas, como ele próprio acabara de escrever, quando estava em Corinto, antes de iniciar a viagem, o propósito de todo cristão deve ser não pôr tropeço ou escândalo ao irmão (Rm.14:13).

II – PAULO É PRESO NO TEMPLO

– No dia seguinte, Paulo, tomando consigo aqueles varões, entrou no templo, já santificado com eles, anunciando serem já cumpridos os dias da purificação e ficou ali até se oferecer em favor de cada um deles a oferta (At.21:26).

– O cerimonial observado era o previsto em Nm.6:13-21, e aí já se verifica os gastos feitos pelo apóstolo, tudo em prol do bem das almas. Assim, Paulo não só custeou os sacrifícios daqueles varões, como também os acompanhou em sete dias de comparecimento ao templo com jejum e oração.

– Quando estavam a se completar os sete dias, ele foi reconhecido por alguns judeus da Ásia no templo, ou seja, judeus que tinham vindo de Éfeso e região, onde Paulo se tornara muito conhecido, e, como já o haviam visto, fora do templo, acompanhado de Trófimo, que tinha sido seu cooperador na Ásia e que fazia parte da sua comitiva (At.20:4), achando que havia feito entrar no templo um gentio, iniciaram um alvoroço, acusando-o de ter profanado o templo (At.21:27-29).

– Os gentios somente podiam frequentar o chamado “pátio dos gentios” no templo, a parte mais externa do átrio, que terminava numa parede, de 1,4 m de altura, onde havia uma inscrição dizendo que os gentios não podiam avançar adiante, a famosa “parede de separação” a que Paulo alude em Ef.2:14. Uma placa com esta inscrição foi achada pelos arqueólogos, eis o seu teor: “Nenhum estrangeiro tem permissão de entrar na balaustrada em torno do santuário e do pátio. Quem for pego, será responsável por sua decorrente morte”.

– Paulo, evidentemente, como estava a fazer companhia aos varões que haviam cumprido voto, estava no chamado átrio dos homens ou pátio de Israel, local bem próximo ao altar de sacrifícios, onde somente os sacerdotes podiam estar.

Deste modo, se Trófimo estivesse com Paulo, o apóstolo e seu cooperador deveriam ser mortos, exatamente o que os judeus da Ásia queriam que acontecesse.

– Ao reconhecerem Paulo, aqueles judeus imediatamente chamaram a atenção de todos e disseram que o apóstolo ensinava por todas as partes contra o povo, contra a lei e contra o templo, bem como havia introduzido no templo gregos e profanara o templo (At.21:28).

– Notemos aqui a astúcia daqueles homens. Primeiro, buscaram levantar o povo contra a pessoa de Paulo, por causa de seus supostos ensinos contra o povo, a lei e o templo, mentiras que eram amplamente divulgadas contra o apóstolo e que, como vimos, estava, inclusive, a convencer até mesmo os crentes de Jerusalém.

– Já naquele tempo, como vemos, havia as famosas “fake news” de que tanto se fala hoje. As mentiras eram repetidas “ad nauseam” e todos passavam a acreditar. Como disse o ministro da Propaganda da Alemanha Nazista: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”.

– Por isso, não podemos acreditar em tudo quanto nos é dito, ainda mais neste tempo de comunicação em tempo real, pelas redes sociais e pela internet, sem que antes verifiquemos a informação, pois a falta de investigação é algo próprio para o ímpio, não para o justo (Sl.10:4).

– Os judeus da Ásia conseguiram o que queriam, que era causar o furor do povo, uma vez que se estava a falar de profanação e, assim, sem que nem se mostrasse quem eram os gentios que tinham entrado indevidamente no templo, conseguiram inflamar uma multidão que, de imediato, pegaram Paulo e o arrastaram para fora do templo e, diante do tumulto, resolveram fechar as portas do templo (At.21:30).

– Junto ao templo, funcionava uma fortaleza onde ficavam soldados romanos, a chamada Fortaleza Antônia. Diante do grande tumulto, os soldados romanos foram acionados pelo tribuno e, antes que a multidão pudesse matar o apóstolo, chegou o tribuno e a soldadesca, razão por que os judeus, temerosos, cessaram de ferir a Paulo.

– O tribuno era o comandante de mil soldados, no caso, aquele que comandava toda a tropa romana que se encontrava na Fortaleza Antônia.

– Paulo, então, foi preso pelos romanos, atado com cadeias, tendo o tribuno perguntado a ele quem era e o que tinha feito, enquanto a multidão, desorganizada que era, clamava uns de uma maneira e outros, de outra (At.21:33,34).

– Note-se, bem, como a Divina Providência estava a agir. Antes que se pudesse matar o apóstolo, e isto não demoraria muito ante a ação da multidão, os soldados romanos conseguiram chegar ao local e impedir a execução.

– Em seguida, não houve quem minimamente disse ao tribuno de que Paulo tinha sido acusado, havendo um desencontro de informações, mais uma circunstância providencial, já que, para insuflar a multidão, os judeus da Ásia haviam não só apontado Paulo como dito quais teriam sido seus crimes.

– Agora, neste instante, ninguém se apresentara, bem ao contrário do que aconteceu com o Senhor Jesus, quando os principais dos sacerdotes, além de terem trazido as acusações a Pilatos, souberam bem insuflar a multidão, levando-a a ter um mesmo parecer (Mt.27:20-25; Mc.15:8-15; Lc.23:18-25; Jo.19:6-16).

– Vemos, pois, que, se era da vontade de Deus que Jesus fosse condenado e morto, aqui a vontade era que Paulo vivesse e testificasse de Jesus em Roma.

– A multidão não se organizara para dizer o que Paulo fizera, mas não tinha desistido de matar o apóstolo, tanto que os soldados tiveram de lhe pegar, quando estavam nas escadas, para evitar que voltasse para as mãos da multidão.

– Em meio a esta situação tão difícil, quando a soldadesca mal conseguia manter o apóstolo livre da multidão, o tribuno perguntou, em grego, a Paulo se ele era o egípcio que, após fazer uma sedição, levara para o deserto quatro mil salteadores consigo, tendo, então, o apóstolo se identificado como judeu, cidadão romano de Tarso e, em seguida, de forma surpreendente, em vez de pedir que fosse levado o quanto antes para a fortaleza, pediu que se lhe permitisse falar à multidão (At.21:35-40).

– Que coragem a do apóstolo! Tudo indica que, pelas circunstâncias, tivesse ele entendido que não haveria de morrer. Certamente, o Espírito Santo que nos faz lembrar daquilo que é dito (Jo.14:26), rememorou ao apóstolo todas as mensagens proféticas que ouvira de cidade em cidade, as quais não falavam de morte, mas, sim, de prisões e tribulações.

– Ademais, tendo sido acusado perante aquela multidão, de ter falado contra o povo judeu, a lei e o templo, necessário se fazia restabelecer a verdade, sendo, aliás, esta uma ótima oportunidade para, uma vez mais, pregar o Evangelho.

– Não nos esqueçamos de que o templo fora fechado e aquela multidão ali reunida envolvia não só os que queriam matá-lo como pessoas que haviam saído do templo ante o abrupto encerramento das atividades.

III – PAULO FALA À MULTIDÃO

– O tribuno permitiu que o apóstolo falasse ao povo, o que também é surpreendente e revela como Deus está sempre no controle de todas as coisas. Mesmo ferido, mesmo ante o risco de a multidão poder tomá-lo em suas mãos novamente, o apóstolo não quer perder esta oportunidade ímpar de pregar o Evangelho a uma multidão que tinha vindo ao templo.

– Paulo, então, começa a lhes falar em hebraico, o que, de pronto, conteve os ânimos de todos os que ali estavam.

O hebraico já era uma língua morta naquele tempo. Embora fosse a língua utilizada nas Escrituras (com exceção de alguns trechos dos livros de Esdras, Neemias, Ester e Daniel), desde o cativeiro da Babilônia não era falada pelo povo, que se comunicava em aramaico.

– Deste modo, somente conheciam o hebraico os escribas e os doutores da lei e, eventualmente, algum estudioso das Escrituras. Ao utilizar esta língua se, por outro lado, não seria entendido pela maior parte do povo, por outro, revelava não se tratar o apóstolo de qualquer pessoa, mas, sim, um doutor da lei, digno, assim, de respeito da parte de todos.

– Além do mais, os que entendessem o que seria dito poderiam interpretar para o povo, o que aumentava, ainda mais, a necessidade do silêncio e da atenção ao que seria falado, como, aliás, ocorria rotineiramente na sinagoga, em que as Escrituras eram lidas em hebraico e, depois, explicadas em aramaico para o povo (Ne.8:8).

– Num ato de extrema sabedoria, só no abrir de sua boca, Paulo já fazia cessar o tumulto e o alvoroço que haviam sido armados pelos judeus da Ásia.

– Paulo identifica-se como um varão judeu, nascido em Tarso da Cilícia, criado em Jerusalém aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei, zeloso para com Deus, assim como todos os seus ouvintes.

– Paulo não tinha receio algum de dizer quem era. Era um judeu, zeloso da lei e que havia estudado com a maior autoridade rabínica daquele tempo, Gamaliel e, como tal, sido um dos seus principais discípulos, tanto que ao dizer que estava “aos pés de Gamaliel”, estava a dizer que tinha tido a honra de ser considerado dos melhores alunos, pois só estes tinham a permissão de se sentar aos pés do mestre, enquanto os demais deviam ouvir em pé as lições proferidas.

– Em seguida, o apóstolo disse ter sido um perseguidor do Caminho até à morte, prendendo e metendo em prisões tanto homens como mulheres, invocando o testemunho tanto do sumo sacerdote quanto do Sinédrio, tendo então obtido ordem para prender e trazer para Jerusalém os adeptos do Caminho que estivessem em Damasco.

– Entretanto, quando estava indo para Damasco, quase ao meio-dia, de repente foi rodeado por uma grande luz do céu. Caindo por terra, o apóstolo disse que ouviu uma voz que lhe dizia; Saulo, Saulo, por que me persegues? E o apóstolo, então, perguntou de quem se tratava e recebeu a resposta de que estava a falar com Jesus, o Nazareno, a quem o apóstolo perseguia.

– O apóstolo diz, então, que as pessoas que o acompanhavam haviam visto a luz mas não tinham ouvido a voz. Indagando a Jesus o que deveria fazer, o Senhor lhe dissera para ir a Damasco e lá lhe seria dito o que deveria fazer.

– Paulo disse então que ficara cego e foi conduzido pela sua comitiva para Damasco, tendo se encontrado com Ananias, varão piedoso conforme a lei, que tinha bom testemunho de todos os judeus que ali moravam, que, ao se apresentar, fez com que recobrasse a vista, tendo recebido a mensagem uma testemunha de Cristo para com todos os homens, tendo, então se batizado nas águas (At.22:11-16).

– O apóstolo procura, pois, mostrar aos seus ouvintes que, embora tivesse perseguido o Caminho e a ele tivesse aderido, os cristãos não eram contrários à lei, como se estava a dizer, tanto que Ananias, embora fosse cristão, era homem zeloso da lei e que tinham bom testemunho na comunidade judaica de Damasco.

– Assim como ele estava errado a respeito dos cristãos no passado, também aquela multidão não poderia nutrir tais sentimentos em relação ao Caminho.

– Em seguida, Paulo fala àquele auditório que, retornando para Jerusalém, foi arrebatado parta fora de si e recebeu o aviso para sair apressadamente da cidade porque não receberiam o seu testemunho, mas que ele deveria testemunhar para os gentios de longe (At.22:17-21).

– Neste momento, a multidão voltou a se inflamar, muito provavelmente porque não podiam aceitar que um judeu fosse dar testemunho a gentios, algo que nem mesmo os crentes judeus haviam assimilado por completo, imagine judeus praticantes que rejeitavam o Evangelho.

– A multidão começou a lançar pó para o ar e a clamar que Paulo deveria ser morto. O tribuno, então, mandou que Paulo fosse levado até a fortaleza e fosse açoitado, momento em que Paulo se dirigiu ao centurião invocando a sua cidadania romana.

O centurião, então, foi até o tribuno, que ao indagá-lo a respeito descobriu que Paulo era cidadão romano de nascimento enquanto o próprio tribuno havia comprado a cidadania, o que fez com que o tribuno, temoroso, pois havia prendido Paulo sem acusação, o que não era permitido pela lei romana, resolvendo levar o caso ao Sinédrio (At.22:22-29).

– Este discurso de Paulo à multidão traz-nos importantes lições. A primeira é a de que devemos chamar a atenção do auditório para que compreendam a mensagem que iremos pregar.

– O pregador precisa conhecer o seu auditório e criar um ambiente em que se dê atenção ao que for falado. Pregar o Evangelho é anunciar todo o conselho de Deus (At.20:27). Como entregar um conselho se as pessoas aconselhadas não prestarem atenção? Impossível.

– No meio daquele grande tumulto e algazarra, o apóstolo começou a falar em hebraico e isto fez com que todos ficassem em silêncio, permitindo que ele pudesse anunciar todo o conselho de Deus.

– A segunda lição é a de que o apóstolo sempre deu ênfase à sua experiência de conversão ao falar do seu relacionamento com o Senhor. Paulo considerava-se o maior de todos os pecadores (I Tm.1:15,16) e, ao

contar como se deu a sua conversão, queria, com isso, mostrar que todos podiam ser salvos, já que ele o havia sido.

– Assim, não contava o seu testemunho como autoexaltação, como, infelizmente, muitos hoje costumam fazer, mas como uma admoestação, como um estímulo e incentivo para que os ouvintes também entregassem sua vida a Cristo, como ele havia feito.

– A conversão não só é tema deste discurso à multidão, como também será o assunto da sua fala ao rei Herodes Agripa II, anos depois (At.26:1-23), que será tema de outra lição, a nos mostrar a centralidade que este assunto tinha na pregação do apóstolo.

– Devemos, em nossos testemunhos de Cristo, dar ênfase às nossas próprias experiências, da qual a conversão é a principal, já que a nossa nova vida em Cristo Jesus é pública e notória aos que nos cercam, àqueles com quem convivemos.

– As pessoas que nos conheciam antes de nossa conversão e que agora convivem conosco são testemunhas desta nossa transformação e, quando a relembramos disto, verdadeiramente as fazemos meditar sobre a realidade da salvação.

– As pessoas que nos conheceram só depois da conversão, ao terem conhecimento de nossa vida pregressa, ao verem a diferença, também não poderão deixar de reconhecer que “…quem está em Cristo nova criatura é, as coisas velhas passaram, eis que tudo se fez novo” (II Co.5:17).

– Evidentemente, só podemos falar da experiência da conversão se verdadeiramente somos convertidos, se efetivamente somos novas criaturas, se somos

“…irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus, inculpáveis no meio duma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandecemos como astros no mundo, retendo a palavra da vida…” (Fp.2:15,16).

– A terceira lição é a de que, embora tenhamos de testificar da mudança operada em nós pela salvação, não devemos enfatizar a nossa vida pecaminosa, mas, dizendo como éramos, darmos ênfase ao nosso encontro com Cristo e ao que agora somos.

– Não são poucos os que se esmeram em contar, com minúcias, o que antes faziam, quais os pecados que praticavam.

Ficamos a saber de um ex-assassino que, nos seus “tristemunhos”, contava como matava e esfolava as suas vítimas, gastando parte considerável do tempo de sua prédica com isto, para, depois, de forma sucinta, dizer: “e Jesus me salvou”.

– Não podemos fazer propaganda do pecado, mas, antes, dizer que, apesar de termos vivido pecaminosamente, tivemos um maravilhoso encontro com o Senhor, que nos resgatou e nos deu a vida eterna. Aleluia!

– Paulo não deixou de falar que perseguia, matava, prendia e metia em prisões os crentes e que queria fazer isto também em Damasco, mas, aí, sim, com riqueza de pormenores, mostrou como se deu seu encontro com Jesus e como foi, depois, visitado por Ananias, que lhe disse mais mensagens do Senhor, e, como, tendo recobrado a vista, batizou-se.

– A quarta lição é a de que a conversão implica no reconhecimento de que Jesus é o Senhor, é o Justo, Aquele que deve ser ouvido, que recobrou a sua vista e cujo nome deveria ser invocado.

– Toda pregação deve ser cristocêntrica e reconhecer que Jesus é o Senhor, que Ele é Deus. Notemos que o auditório era contrário a este pensamento, formado por judeus que tinham na qualificação de Jesus como Deus o principal ponto de discórdia para com os cristãos (Jo.5:18; 10:33), os ditos “nazarenos” (At.24:5), mas isto não intimidou o apóstolo, que lhes tinha de pregar a verdade, quem era Jesus.

– Em nossos dias, infelizmente, muitos procuram pregar um Evangelho diferente, que esconda a divindade de Jesus, por ser um ponto controverso e não aceito pelas demais crenças religiosas, o dito “evangelho ecumênico”.

– “… O evangelho ecumênico tem como objetivo fazer com que os crentes em Jesus deixem de pregar o evangelho completo às pessoas do mundo, para que elas os vejam de maneira simpática, sem preconceitos ou perseguições.

Para isso, o crente em Jesus deve abrir mão da pregação contra o pecado, priorizando a imparcialidade em detrimento da verdade.

Em determinados países, não se pode mais dizer que Jesus é a única porta para a salvação. Apesar de Ele mesmo ter dito: ‘Eu sou a porta’ (Jo.10:9), e os apóstolos terem corroborado a sua declaração (I Tm.2:5; At. 4:12), os adeptos do ecumenismo argumentam que cada pessoa tem o seu ponto de vista, e o importante é acreditar em Deus e amar o próximo.

Se alguém faz isso, já é uma pessoa do bem e não precisa se submeter aos mandamentos contidos nas Escrituras.…” (ZIBORDI, Ciro Sanches. Evangelhos que Paulo jamais pregaria. 3. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p.84).

– Paulo fez questão de dizer que quem lhe apareceu no caminho de Damasco foi “Jesus, o Nazareno” e que Ele é Senhor e deve ser invocado.

– Interessante notar que o que fez a multidão se enfurecer foi o fato de Paulo dizer que fora enviado por Jesus aos gentios de longe, ou seja, assim como os cristãos judaizantes, o auditório não podia admitir que Deus quisesse salvar os gentios independentemente de eles se tornarem judeus.

– Até hoje o judaísmo não admite que Jesus seja o Cristo e um dos principais motivos é o fato de que o Cristianismo permite a salvação sem prévia submissão à lei de Moisés, a completa equiparação entre judeus e gentios.

– Tanto é que o judaísmo é um dos principais fomentadores do chamado “noachismo”, um movimento religioso que defende a adoção, por parte de todos os gentios, das chamadas “Sete Leis de Noé”, constantes do pacto que Deus estabeleceu com Noé após o dilúvio, a que se une o próprio pacto firmado entre Deus e Adão, com o que se teria, sem necessidade de conversão ao judaísmo, a possibilidade de chegarem ao “mundo vindouro”, a recompensa final dos justos.

– Esta ideia defendida pelo judaísmo vai perfeitamente de acordo com os ideais da “religião universal”, de uma “religião mínima”, que todas as religiões compartilhariam, e que traria a “fraternidade universal”. Como bem sabemos, é perfeitamente isto que implementará o Falso Profeta durante o governo mundial do Anticristo na Grande Tribulação.

– O Senhor poupou a vida de Paulo e este, mesmo em circunstância tão difícil, não deixou de pregar o Evangelho àquela multidão. Preso, começavam as tribulações do apóstolo como lhe havia sido avisado.

 Pr. Caramuru Afonso Francisco

Fonte: https://www.portalebd.org.br/classes/adultos/12621-licao-9-coragem-para-testemunhar-paulo-diante-da-multidao-i

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