LIÇÃO Nº 8 – DESPEDIDA EM ÉFESO: ENTRE LÁGRIMAS E ALERTAS
INTRODUÇÃO
-Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, estudaremos hoje o encontro de Paulo com os obreiros de Éfeso na cidade de Mileto.
-Em Mileto, Paulo mostra ter recebido seu quinto dom ministerial.
I – AS ATIVIDADES DE PAULO APÓS TER DEIXADO ÉFESO
-Na sequência do estudo da segunda parte do livro de Atos dos Apóstolos, estudaremos hoje o encontro de Paulo com obreiros de Éfeso na cidade de Mileto.
-Após o tumulto provocado pelo ourives de prata Demétrio, que fabricava nichos de prata da deusa Diana em Éfeso, com que esses comerciantes procuraram criar uma situação que levasse à perseguição da igreja naquela cidade, o apóstolo Paulo entendeu que chegara mesmo o momento para deixar o pastorado dali e dar início à execução de seus planos.
-Paulo, antes de tal episódio, já se dispusera a deixar Éfeso e a confirmar os discípulos nas igrejas da Macedônia e da Acaia, aproveitando para angariar recursos daquelas igrejas para levar aos crentes pobres de Jerusalém e da Judeia e, então, de Jerusalém, partir para Roma, a fim de que a igreja da capital do Império pudesse enviá-lo para a Espanha (At.19:21; Rm.15:25-28; I Co.16:5-8).
-O apóstolo, mais uma vez, mostrava ser um bom administrador, fazendo o devido planejamento de seu ministério, ainda que soubesse que, como nascido do Espírito, está sempre nas mãos do Senhor e “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo.3:8).
-Não devemos deixar de planejar, mas nunca devemos nos esquecer de que “do homem são as preparações do coração, mas do Senhor, a resposta da boca” (Pv.16:1).
-Paulo, então, após este tumulto, como já havia antes mandado Timóteo e Erasto para a Macedônia para que organizassem a coleta para os crentes pobres de Jerusalém e da Judeia (At.19:22), saiu para a Macedônia (At.20:1).
-Na Macedônia, passou pelas igrejas que abriu (Filipos, Tessalônica, Anfípolis, Bereia), exortando os irmãos com muitas palavras (At.20:2). Pelo que se verifica, pois, finalmente pudera, desde a interrupção abrupta do discipulado em Tessalônica e, depois, em Bereia, rever aqueles irmãos.
-Enquanto esteve na Macedônia, escreveu mais uma carta aos coríntios, uma carta em que defende a sua autoridade apostólica, que estava sendo questionada por alguns, carta em que inclusive diz ali haveria de passar, esperando que, quando chegasse, todos os problemas estivessem resolvidos (II Co.13:1-10).
-Da Macedônia, foi até a Grécia, onde ficou três meses (At.20:3). Entretanto, a oposição ao apóstolo já se fazia sentir, pois foram postas ciladas pelos judeus contra ele e, como ele tencionasse se dirigir da Grécia para a Síria, resolveu voltar pela Macedônia, por ser mais seguro.
-Nesta ida a Grécia, Paulo passou por Corinto, como havia prometido anteriormente nas cartas mandadas àquela igreja, tendo, em Corinto, escrito as cartas aos gálatas e aos romanos, tendo, a um só tempo, demonstrado seu cuidado com as igrejas que havia aberto e dado prosseguimento ao seu planejamento ministerial.
-O apóstolo demonstrava grande crescimento espiritual, porquanto escrevia duas epístolas de grande profundidade, em especial a carta aos romanos, considerado o maior tratado doutrinário bíblico a respeito da doutrina da salvação.
-Paulo, então, fez-se acompanhar até à Ásia por Sópatro, de Bereia; Aristarco e Segundo, de Tessalônica; Gaio, de Derbe, além de Timóteo, além de Tíquico e Trófimo, que eram da Ásia, tendo uma outra comitiva, da qual fazia parte Lucas, ido depois, para se encontrarem com o apóstolo em Trôade (At.20:4).
-Esta medida tinha nítido objetivo de despistamento dos inimigos, a mostrar que se deve, sim, tomar precauções de segurança quando houver risco de vida: “Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mt.10:16).
OBS: Há alguns anos atrás, ao ouvir o depoimento de dois missionários que estavam ganhando almas para o Senhor no Afeganistão percebi que alguns irmãos se escandalizaram quando os referidos missionários diziam que andavam armados com fuzis e que faziam questão de mostrar que a munição que levavam era untada com banha de porco, pois os muçulmanos acreditam que se forem alvejados por balas com banha de porco estariam impuros e, como tal, não poderiam entrar no Paraíso no instante da morte.
Vemos aqui, nesta passagem, que não há escândalo algum no comportamento daqueles servos de Deus, que estavam tomando as devidas precauções para que pudessem realizar a obra a que foram chamados.
-Depois da festa dos pães asmos (lembremos que o objetivo de Paulo era chegar a Jerusalém até o dia de Pentecostes), esta comitiva de que fazia parte Lucas partiu de Filipos e, em cinco dias, chegaram a Trôade, onde já se encontrava o apóstolo, tendo ali ambas as comitivas reunidas ficado sete dias (At.20:5,6).
-Por ironia, observemos que Trôade, que foi a cidade em que Paulo se refugiou para fugir às ciladas dos judeus, foi, também, a cidade em que foi preso e mandado para Roma, anos mais tarde, prisão da qual nunca saiu (II Tm.4:13).
-Em Trôade, no primeiro dia da semana, quando os discípulos se reuniram para partir o pão, Paulo expôs a Palavra aos irmãos, alargando a prática até à meia-noite.
Apesar de haver muitas luzes no cenáculo onde estavam juntos, um jovem chamado Êutico, assentado numa janela, caiu do terceiro andar, tomando de um sono profundo, tendo morrido da queda.
Ante o alvoroço causado, Paulo desceu, inclinou-se sobre ele e o abraçou, dizendo para todos que a alma dele nele estava e, efetivamente, o moço ressuscitou (At.20:7-12).
-Neste episódio, temos importantes lições e informações.
A primeira é a de que, como já dissemos em lições anteriores, os discípulos tinham locais de culto, sendo, pois, mentirosa a afirmação de que os crentes primitivos não tinham “templos” e que a existência de “templos” contraria a doutrina cristã.
-Os irmãos de Trôade se reuniam num cenáculo e lá, inclusive, celebravam a ceia do Senhor, prova de que havia, sim, um local de culto, assim como em Corinto (At.18:7) e em Éfeso (At.19:9), sendo, pois, absolutamente falso que, na dispensação da graça, não se possam edificar templos.
-A segunda lição é a de que os discípulos costumavam se reunir aos domingos, por ser o dia em que Jesus ressuscitou, o primeiro dia da semana, e que, normalmente, neste dia, celebravam a ceia do Senhor.
-Tem-se, pois, completamente desmentida a versão dos sabatistas de que o domingo foi estabelecido por Constantino como o dia de culto e que isto é uma demonstração de apostasia e que os cristãos devem guardar o dia de sábado, como fazem os judeus.
-A terceira lição é de que o local de culto deve ser um lugar iluminado. O culto, sendo noturno, fez com que, no cenáculo, houvesse muitas luzes, porque ninguém queria ficar no escuro e, olha que, naquele tempo, não havia energia elétrica.
-As luzes não estavam apenas no preletor, que era Paulo, mas em todo ambiente, e Êutico só caiu porque dormiu, estando assentado numa janela, até porque as luzes tinham, também, a função de manter o povo atento ao que era pregado.
-Quando vemos hoje as “igrejas pintadas de preto”, “igrejas de preto”, “igrejas de paredes pretas”, onde tudo é escuro e onde a luz se apresenta apenas ao pregador, na hora da ministração da palavra, vemos, claramente, que há uma total inversão do que se encontra na Bíblia, até porque a Igreja é a “luz do mundo”, “Deus é luz”, somos “filhos do dia” e, portanto, a escuridão não é propriamente algo que seja próprio de quem serve ou diz servir a Deus.
-A quarta lição é a de que o progresso espiritual na vida de Paulo prosseguia. Embora em Éfeso Deus tivesse feito maravilhas extraordinárias pelas mãos do apóstolo, em todo o seu ministério ele ainda não tinha ressuscitado pessoa alguma e, agora em Trôade, realizava este milagre, ressuscitando Êutico.
-A vida espiritual é um contínuo crescimento, uma caminhada para a perfeição, que somente será alcançada na glorificação (Rm.8:30; Fp.3:12-14).
-A quinta lição é de que a igreja primitiva tinha sede da Palavra de Deus e gostava de adorar ao Senhor, pois, reunindo-se na noite, ficou até a alvorada ouvindo a pregação de Paulo (At.20:11).
-A igreja dava prioridade total à Palavra de Deus, a ponto de Paulo varar a noite ensinando-a àqueles crentes, mesmo em dia de celebração da ceia do Senhor.
Se é verdade que a presença de Paulo era uma efeméride naquela cidade, não é menos certo que passar a noite toda ouvindo uma prática é demonstração de sede de Palavra, é reconhecimento da importância que as Escrituras têm para a vida espiritual.
-Em nossos dias, porém, a Palavra tem sido menosprezada. O tempo a ela dedicado nas reuniões é cada vez menor, não sendo raro que não se tenha tempo algum para a sua exposição. Como costuma dizer um querido irmão, nossas reuniões têm sido locais onde há “louvorzão” e “palavrinha”.
-Há um total desestímulo e desincentivo das reuniões de ensino da Palavra, sejam os cultos de ensino ou de doutrina, como as Escolas Bíblicas Dominicais, reuniões que já desapareceram de muitas agendas de igrejas locais.
-A sexta lição é a de que a igreja primitiva dava um caráter de solenidade ao culto da ceia do Senhor. Eles haviam se reunido no primeiro dia da semana para partir o pão.
-As Assembleias de Deus sempre se caracterizaram pela importância que dão aos cultos de celebração da ceia do Senhor.
-Como ensina o pastor Maxwell Fajardo, em sua tese de doutorado: “… Nas ADs, o culto de Santa Ceia diferencia-se do culto público por ser realizado a portas fechadas, indicando-se que se trata de uma reunião voltada apenas para os membros da igreja. Desta forma, não está presente o elemento proselitista, tão comum nos cultos de domingo.
Na celebração, os membros batizados devem participar do pão e do vinho que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo. Se o batismo é o rito de filiação, a Ceia é o rito da permanência, já
que todo membro batizado deve participar do ato mensalmente. Desta forma, a Ceia é a reunião mais frequentada da Igreja, já que, em tese, todos os membros deverão estar presentes.
Não participar de Ceias consecutivas sem justificativa torna-se um problema. Aos membros ‘em disciplina’ não se permite a participação no ato, embora possam assistir ao culto…” (FAJARDO, Maxwell. Onde a luta se travar: uma história das Assembleias de Deus no Brasil. Curitiba: Prismas, 2017, p.300).
-Todavia, vemos que isto não mais vem ocorrendo. Em muitos lugares, a ceia do Senhor tem sido apenas um momento de um culto, não tendo mais a centralidade da agenda litúrgica.
Como se isto fosse pouco, tem sido mais comum que, mesmo quando há um culto específico para a celebração da ceia, a membresia a torne apenas um momento de outro culto, já que se tem permitido que membros que não tenham podido participar da ceia, façam-no em outro culto.
-Após ter terminado o culto em Trôade, Paulo embarcou e foi até Assôs. Novamente a comitiva do apóstolo se dividiu, tendo Lucas e seus companheiros ido por terra, em mais uma medida de despiste de eventuais ciladas (At.20:13).
-De Assôs, o apóstolo foi até Mitilene, Quios, Samos e Trogílio, tendo, então, chegado a Mileto e, como Paulo queria, dentro de seu planejamento, chegar a Jerusalém até o dia do Pentecostes, resolveu não ir a Éfeso, mas pediu que os obreiros daquela igreja com ele se encontrassem em Mileto (At.20:16,17).
II – O ENCONTRO DE PAULO COM OS OBREIROS DE ÉFESO
-Paulo mandou chamar os anciãos da igreja de Éfeso para que se encontrassem com ele em Mileto (At.20:17), cidade que ficava cerca de 78,8 km de distância. Mileto é cidade conhecida por ter sido a terra natal do primeiro filósofo grego, Tales (624-546 a.C.).
-Já vemos, de pronto, que os anciãos da igreja de Éfeso também são chamados no texto de bispos (At.20:218), a indicar, pois, que “ancião” e “bispo” são expressões diferentes para a mesma função eclesiástica.
-Por primeiro, observemos que todos aqueles obreiros haviam sido separados pelo apóstolo Paulo que começou com aquela igreja do zero. Quando o apóstolo chegou a Éfeso, havia apenas doze discípulos, que nem sequer sabiam o que era o Espírito Santo.
-Daí o interesse do apóstolo em encontrar-se com aquele corpo ministerial que havia formado, para um último diálogo, e seria mesmo o último, pois o apóstolo recebera a informação divina de que nunca mais iria a Éfeso.
-O apóstolo demonstra, assim, responsabilidade, querendo dar as últimas instruções àqueles que ele mesmo havia constituído para governar a igreja de Éfeso. Como havia confirmado os irmãos das igrejas que abrira nas duas primeiras viagens missionárias, tinha de fazê-lo também com a igreja de Éfeso, a igreja de sua terceira viagem.
-Quando se reuniram, Paulo começou falando de seu histórico em Éfeso (At.20:18-21), lembrando a sua conduta desde o dia em que chegara à cidade.
-Este foi o mesmo comportamento do juiz, profeta e sacerdote Samuel quando se despediu do povo de Israel ao término de sua judicatura (I Sm.12).
-O obreiro não tem do que se envergonhar porque se apresenta a Deus aprovado, manejando bem a Palavra da verdade (II Tm.2:15), ou seja, não só demonstra ter conhecimento da Palavra como a cumpre e, portanto, tem um bom testemunho diante do povo, tendo autoridade e respeito por parte da membresia.
-A trajetória de Paulo não fora fácil em Éfeso. Serviu a Deus com toda a humildade e teve de enfrentar com muitas lágrimas e tentações as ciladas dos judeus que lhe sobrevieram.
-A vida cristã é assim: se, por um lado, Deus fazia maravilhas extraordinárias pelas mãos de Paulo (At.19:11); de outro, o apóstolo sofria com as investidas do inimigo do Evangelho (At.20:19).
-Muitas vezes, vemos apenas as curas provenientes do contato dos lenços e aventais de Paulo nos enfermos, mas não contemplamos as suas lágrimas e suas dificuldades para identificar as ciladas dos judeus.
-Em nossos dias, em que o contato interpessoal é cada vez menor e as pessoas se baseiam em aparências, notadamente em tempos de redes sociais, e muito fácil fazermos julgamentos precipitados e não verificarmos a complexidade de uma vida espiritual.
-Há alguns anos atrás, uma querida irmã disse que teve interesse em conhecer um destes obreiros midiáticos, pois, ao acompanhar seu programa de televisão, verificava que, ao contrário de outros, não fazia pedido algum de contribuição financeira.
-Ao chegar ao templo, para sua decepção, num determinado momento do culto, o referido pastor mandou que se suspendesse a gravação e, em seguida, ao ser certificado que a gravação havia sido suspensa, gastou um bom tempo pedindo ofertas e dízimos para o auditório. Eis o resultado de um julgamento segundo a aparência, julgamento que o próprio Jesus manda que não façamos (Jo.7:24).
-Em que pese a perseguição sofrida, o apóstolo lembra os anciãos de Éfeso que isto não o impediu de exercer o seu ministério pastoral, anunciando e ensinando publicamente e pelas casas o que fosse útil, testificando, tanto a judeus quanto a gregos, a conversão a Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo (At.20:21).
-Este é o trabalho do pastor: pregar o Evangelho aos incrédulos e ensinar a Palavra aos crentes. Acompanhar a vida da membresia, tanto no local de culto, quanto nas casas, sempre buscando falar e ensinar o que for útil.
-Neste anúncio e ensino útil, o pastor deve testificar a conversão a Deus e a fé em Jesus, ou seja, ele próprio deve ser um exemplo de pessoa que tem um comportamento de santidade, que não vive pecando, como também demonstrar ter confiança no Senhor.
-Esta santidade apresentava-se na própria conduta de Paulo. A exemplo de Samuel, o apóstolo mostra nunca ter agido com ganância nem com desejo de enriquecimento enquanto esteve à frente da igreja em Éfeso: “de ninguém cobicei a prata, nem o ouro, nem a veste. Vós mesmo sabeis que, para o que me era necessário, a mim e aos que estão comigo, estas mãos me serviram” (At.20:33,34).
-O pastor tem, sim, direito a receber um salário pelo seu trabalho (Lc.10:7; I Tm.5:18), mas Paulo não quis usar deste direito enquanto esteve à frente de igrejas, seja em Corinto (II Co.11:8,9), seja em Éfeso (At.20.34), vivendo das ofertas que lhes foram dadas pelas igrejas da Macedônia, em especial Filipos (Fp.4:15), como também pelo seu trabalho de fazer tendas, feito juntamente com Áquila e Priscila (At.18:2,3,19).
-Ainda que não seja vedado ao obreiro receber salário da igreja local da qual está à frente, é imperioso que o pastor jamais aja com torpe ganância (I Tm.3:3; Tt.1:7; I Pe.5:2).
Por isso, deve sempre ter um comportamento que demonstre, com absoluta clarividência, que não se trata de pessoa apegada aos bens materiais, nem tampouco que esteja a enriquecer ao longo do exercício do ministério.
-Bem por isso, o apóstolo disse aos obreiros efésios que deve haver um comportamento altruísta, que os ministros se voltem ao bem-estar do outro, trabalhem no sentido de promover o bem do próximo, evitando, deste modo, qualquer conotação de ação interesseira e para benefício próprio.
-Bem por isso, Paulo diz que é preciso auxiliar os enfermos e um ensino de Jesus que não se encontra registrado nos evangelhos, segundo o qual mais bem-aventurada coisa é dar do que receber (At.20:35).
-Agindo desta maneira, o pastor sempre evitará qualquer desconfiança sobre estar, ou não, agindo com torpe ganância.
-Lamentavelmente, porém, o que se tem verificado, hodiernamente, é precisamente o contrário, uma vida nababesca por parte de certas lideranças, a comprometer a imagem do ministério perante a Igreja e perante a sociedade. Que Deus nos guarde!
-O pastor é uma referência, tem de ser um exemplo, não sendo por acaso que, aos coríntios, tenha o apóstolo dito que poderia ser imitado, por ser ele um imitador de Cristo (I Co.11:1), epístola escrita, aliás, quando estava a pastorear a igreja em Éfeso.
-Isso que o apóstolo viveu em Éfeso, pôde, com autoridade, ensinar a Timóteo, anos mais tarde, quando mandou que seu filho na fé, perante essa mesma igreja local, fosse exemplo dos fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza (I Tm.4:12) e a Tito, a quem mandou cuidar das igrejas em Creta, que, em tudo, fosse exemplo de boas obras e, na doutrina, demonstrasse incorrupção, gravidade, sinceridade, linguagem sã e irrepreensível, para que o inimigo se envergonhasse, não tendo nenhum mal que dizer dele (Tt.2:7,8).
-O escritor aos hebreus (que entendemos seja o mesmo Paulo) afirma que os pastores devem ser lembrados, que falaram aos membros a Palavra do Senhor, cuja fé deve ser imitada, devendo-se atentar para a sua maneira de viver (Hb.13:7).
-Lamentavelmente, não são muitos os que hoje podem dizer que se encontram na mesma condição de Paulo diante de seu corpo ministerial e da membresia de sua igreja local, ou que estejam a seguir estes conselhos do apóstolo que, por serem palavras inspiradas pelo Espírito Santo, são verdadeiros mandamentos divinos.
-Já há muitos que, sob a justificativa da imperfeição humana, mandam a membresia olhar para Jesus e não para eles, citando inadvertidamente Hb.12:2, esquecidos que o versículo anterior falava de uma tão grande nuvem de testemunhas, que são os heróis da fé enumerados no capítulo 11 da epístola aos hebreus.
O olhar para Jesus se faz mediante a presença de todos estes testemunhos, aos quais se deve acrescentar o daquele que está presidindo na igreja local sobre o crente. Pensemos nisto!
-Em seguida, após relembrar o histórico de sua estada em Éfeso, o apóstolo, demonstrando a confiança que nutria com os obreiros, o ambiente de transparência e de verdade existente entre eles, revela-lhes que estava a caminho de Jerusalém, não sabendo o que lá lhe iria acontecer, senão que o Espírito Santo, de cidade em cidade, revelava-lhe dizendo que lhe esperavam prisões e tribulações (At.20:22,23).
-O apóstolo não se considerava um “supercrente” nem alguém “essencialmente superior” aos demais obreiros. Todos sabiam que ia para Jerusalém, quando deixou o pastorado em Éfeso, revelou-lhes seu propósito de levar ajuda aos crentes pobres de Jerusalém e da Judeia e, em seguida, ir a Roma, mas agora compartilhava com eles o que o Senhor estava a dizer, ou seja, que ele sofreria prisões e tribulações.
-O que, desde logo, notamos é que, em todas as igrejas abertas por Paulo, havia a plena manifestação dos dons espirituais. De cidade em cidade, o Espírito Santo revelava a Paulo que ele sofreria prisões e tribulações.
-Onde estão os dons espirituais na atualidade? Onde estão as úteis manifestações do Espírito Santo em meio a membresia? Pensemos nisto!
-Paulo tinha este ardente desejo de ir para Jerusalém e, depois, para Roma. O Senhor o alertava de que sofreria prisões e tribulações, mas, em momento algum, disse para que o apóstolo não fosse. O apóstolo disse que estava ligado pelo espírito, ou seja, algo no seu espírito dizia que ele deveria ir e, como sabemos, sendo, como
era, um homem espiritual, o que o espírito de Paulo queria era também da vontade do Espírito Santo que, porém, para que o apóstolo não desanimasse de seu intento, desde já lhe revelava o que iria ocorrer.
-Paulo revela aos seus companheiros de ministério que não tinha a sua vida por preciosa e que seu propósito, seu objetivo era cumprir com alegria a carreira e o ministério que recebera do Senhor Jesus para dar testemunho do evangelho da graça de Deus (At.20:24).
-O apóstolo ensinava àqueles obreiros que a carreira e o ministério são dados pelo Senhor Jesus. Só pode ser obreiro quem for chamado por Cristo, que é a cabeça da Igreja (Ef.1:22; 5:23). Paulo, por diversas vezes, fez questão de afirmar que seu apostolado era pela vontade do Senhor (I Co.1:1; II Co.1:1; Ef.1:1; Cl.1:1; II Tm.1:1).
-Lamentavelmente, um número considerável dos obreiros na atualidade não o são pela vontade de Deus, mas, sim, pela vontade dos homens. Que Deus nos guarde!
-Não só o ministério, mas também a carreira é dada pelo Senhor Jesus, ou seja, não cabe a alguém escolher que função e em que igreja deverá servir, mas, sim, estar sempre a fazer a vontade do Senhor, servindo onde e como Ele quer.
-Paulo nunca pensara em pastorear a igreja seja de Corinto, seja de Éfeso, mas o fez, por expressa determinação do Senhor Jesus, a cabeça da Igreja, o Sumo Pastor (I Pe.5:4). Assim, devem agir todos os que são chamados pelo Senhor para o exercício do ministério.
-Aliás, isto não se dá apenas em relação aos ministros, mas a todos os membros da Igreja, pois, afinal de contas, todos nós somos membros em particular do corpo de Cristo (I Co.12:27) e, como tal, cabe a cada um de nós, estarmos a realizar a tarefa no local determinado pela cabeça deste corpo.
-A carreira nos é proposta pelo Senhor (Hb.12:1) e, portanto, não nos cabe dizer como ela se dará, mas tão somente corrê-la com paciência, deixando o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia, até o seu final, guardando a fé, combatendo o bom combate (Hb.12:1; II Tm.4:7).
-O ministério e a carreira são dados para que se dê o testemunho do evangelho da graça de Deus, para que se pregue o Reino de Deus (At.20:24,25).
-Já em Jerusalém, os apóstolos haviam compreendido que lhes cabia o ministério da palavra (At.6:4). Cabem aos anciãos, também chamados de bispos, presbíteros e pastores a pregação do Evangelho aos incrédulos e o ensino da Palavra aos crentes.
-Apascentar o rebanho do Senhor (I Pe.5:2) é alimentar a membresia, alimento este que outro não é senão a Palavra de Deus (Mt.4:4; Lc.4:4).
-Paulo diz que havia dado conta desta incumbência, deste dever e, por isso, estava limpo do sangue de todos, porque havia anunciado a eles todo o conselho de Deus.
-No direito romano, dizia-se que quem negava alimentos aos seus dependentes econômicos, era um assassino, porque privar de sustento quem depende do sustentador para sobreviver é o mesmo que matar uma pessoa.
-É bem isso que diz o apóstolo. Se um obreiro, incumbido de apascentar o rebanho do Senhor, não o faz, deixa de ministrar a Palavra à membresia da igreja local, temos um verdadeiro homicida, alguém que não se apresenta como filho de Deus, mas, sim, como filho do diabo, pois o diabo é homicida desde o princípio (Jo.8:44) e o homicida não tem permanente nele a vida eterna (I Jo.3:15).
-Não é por outro motivo que Paulo diz que está limpo do sangue não só dos obreiros mas de toda a membresia da igreja de Éfeso, porque havia se desincumbido do ministério da palavra.
-Quando um obreiro não o faz, é homicida, e compromete sua própria salvação. Pensemos nisto!
-Bem por isso, o apóstolo chama os obreiros de Éfeso à responsabilidade, dizendo que, a exemplo dele, eles deveriam apascentar o rebanho de Deus sobre o qual o Espírito Santo os havia constituído bispos, até porque o rebanho foi resgatado pelo próprio sangue de Cristo (At.20:28).
-Não bastasse a gravidade de a falta de ministração da palavra levar à morte espiritual da membresia, deve-se também acrescer que estas ovelhas foram resgatadas pelo sangue de Cristo.
-É, pois, uma falta gravíssima, que considera profano o sangue de Jesus, e, como diz o escritor aos hebreus, pisar e ter por profano o sangue de Cristo é se fazer merecedor de grande castigo (Hb.10:28-31).
-O apóstolo, então, mostra ter sido aquinhoado com seu quinto dom ministerial, o dom de profeta, porquanto afirma que, apesar do seu bom exemplo e da advertência seríssima que estava a dar, que, depois da sua partida, entrariam no corpo ministerial lobos cruéis que não perdoariam o rebanho, homens que falariam coisas perversas para atraírem discípulos após si (At.20:29,30).
-Esta profecia do apóstolo se cumpriria não muito tempo depois, pois, após ter saído de sua primeira prisão, teve Paulo de mandar para a igreja de Éfeso seu filho na fé Timóteo, precisamente para que retirasse daquela igreja falsos mestres (I Tm.1:3-7,19,20).
-A igreja de Éfeso sempre teve de enfrentar esses lobos cruéis, tendo sempre mantido a vigilância recomendada pelo apóstolo (At.20:31), circunstância que foi, inclusive, lembrada pelo próprio Jesus décadas depois ao mandar uma carta à igreja de Éfeso (Ap.2:2).
-Após ter falado aos obreiros, Paulo os encomendou a Deus e à palavra da Sua graça, pedindo ao Senhor que os edificasse e lhes desse herança entre todos os santificados (At.20:32).
-Paulo, nesta encomenda, mostra aos obreiros efésios que a edificação espiritual exige uma comunhão com o Senhor. O Senhor, como disse o apóstolo na primeira carta aos coríntios, é quem dá o crescimento (I Co.3:7), a começar do próprio obreiro.
-Como é bom quando o obreiro, para se utilizar de uma expressão que ficou famosa na boca de um político brasileiro, “reduz-se à sua própria insignificância”. Embora chamado por Deus, o ministro é um servo de Deus, a quem incumbe plantar e regar.
-Como bom lavrador, o obreiro deve depender única e exclusivamente do Senhor. Fazer a sua parte, que é plantar e regar, esperando de Deus o crescimento.
-Lamentavelmente, nos dias hodiernos, não são poucos os “métodos de crescimento de igrejas” inventados por muitos e muitos, que, assim, se esquecem desta lição de Paulo.
-É também o Senhor quem nos dá herança entre todos os santificados. Somos filhos de Deus e coerdeiros de Cristo porque cremos n’Ele, que morreu por nós e pagou o preço dos nossos pecados. Devemos, por isso, reconhecer que somos alvo da graça de Deus, que mérito algum temos, e que devemos seguir a santificação (Hb.12:14), pois só os santificados receberão a herança que não se pode murchar, guardada nos céus para nós (I Pe.1:4).
-Ao término de sua fala, o apóstolo se pôs de joelhos e orou com todos os obreiros e houve grande pranto, já que sabiam todos que nunca mais veriam o apóstolo, aquele que lhes havia aberto a sua igreja local, o seu pai na fé (At.,20:37,38).
-Esta cena mostra claramente que a obra é de Deus, que os homens passam, mas a Igreja permanece e que, portanto, não podem os obreiros, em momento algum, acharem que são permanentes e que o chamado divino compromete a igreja local com o obreiro. Nada mais ilusório.
-Como disse Jesus a Nicodemos: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo.3:8).
Pr. Caramuru Afonso Francisco
Fonte: https://portalebd.org.br/classes/adultos/12605-licao-8-despedida-em-efeso-entre-lagrimas-e-alertas-i
